Comprar pela epígrafe
Luís Mourão
12.6.11 |
"Depois, os dias passaram, um após o outro, sem que as questões fundamentais da vida tivessem tido solução."
Friederike Mayröcker, convocado por Ingo Schulze para epígrafe de Telemóvel. 13 histórias à moda antiga.
Arigato
Luís Mourão
14.5.11 |
Regressa um homem à pátria e dá com isto: o Camões a conversar com o Pina ali para os lados da Foz, com muitos gatos e ainda mais livros à mistura. Claro que a felicidade existe, a dúvida irrestrita também, e o mundo fica um pouco mais em forma de assim. Ou algo da mesma substância.
Mal de oficina 4
Luís Mourão
9.5.11 |
ESTRAGON: Não acontece nada, ninguém vem, ninguém vai, é horrível!
VLADIMIR (para Pozzo): Diga-lhe para ele pensar.
Encontro kunderiano
Luís Mourão
8.5.11 |
Kundera tem a arte da fórmula justa para delimitar cada uma das suas incursões críticas. O reverso disso é que dificilmente a leitura pode ser delimitada por uma fórmula, por mais justa que seja. O que faz de Kundera um grande romancista é o combate das fórmulas justas dentro de um mesmo romance, isso que não deixa a um leitor um ponto de vista mas um problema. Como crítico, Kundera não tem outra ambição que a de se explicar como leitor particular, sendo que aqui a particularidade é a de alguém que lê na perspectiva do romancista: a questão da técnica, a questão dos temas, até a questão de autores e técnicas e temas como possibilidade de se tornarem personagens romanescos.
Duas notas ressaltam nestas incursões: a recusa do kitsch, a reivindicação da prosa do mundo. São questões centrais do Kundera romancista e são complementares: denunciar o efeito que apenas remete para si mesmo, desconstruir a mentira romântica, lidar com o mundo e a sua insustentável leveza.
Assim, de repente,
Luís Mourão
30.4.11 |
passou uma semana. e mais um dia. passou? passou. como quem diz, mal de oficina 2. acumula-se o não feito. acumula-se o lido mas ainda não falado. acumula-se o ouvido e também ainda não falado. acumula-se. pensando bem, mal de oficina 2 já foi, welcome to mal de oficina 3.
Mal de oficina
Luís Mourão
22.4.11 |
Tanto quanto não conseguir avançar, irrita-me que a mente não me tenha avisado antes da inutilidade do dia. Precisava muuuuiiiito de não fazer nada ou fazer outra coisa qualquer.
Alela
Luís Mourão
21.4.11 |
Viagem rápida. Chuva intensa, sol aquecendo. Gosto desta rapariga. A voz, o balanço. Fica bem com esta paisagem variada, embora o seu country seja outro. Um pouco mais de risco na escrita melódica e seria um caso sério. Mas penso isto apenas num intervalo qualquer de gajo que vem aqui escrever de ouvido. Gosto desta rapariga. Se ela quiser mudar, que mude. Não sou eu que lho vou dizer. A voz, o balanço.
Um medo salutar
Luís Mourão
19.4.11 |
Um conseguimento, esta curta mas densa novela. A infância como lugar cruel que revela processos atávicos da nossa sempre lenta humanização é um tema difícil. E no cânone estão, por exemplo, O deus das moscas, de Golding, ou O Jardim de cimento, de McEwan. Aliás, é só por causa destes dois que As mãos pequenas não me derrubou por knockout. Um medo salutar desliza destas páginas, e esse medo somos apenas nós antes de termos aprendido a defender-nos da nossa inocência perversa.
Propósitos de vida
Luís Mourão
18.4.11 |
Os propósitos de vida não se dividem em úteis ou inúteis, justos ou injustos, para isso há decálogos que cheguem. Não matarás não é um propósito de vida, é uma regra. Escrever pode ser um propósito de vida. Amar aquela pessoa pode ser um propósito de vida. Porque não se sabe onde vai dar nem o que nos trará pelo caminho. Mas sabe-se que uma vez começado jamais poderemos continuar como se nunca tivesse começado.
Alto para dentro
Luís Mourão
17.4.11 |
Vamos dizer assim: Marianne Faithfull há muito que não se parece com ninguém a não ser consigo própria. Mas aqui mais. Absolutamente inatual, mas sem rasto de revivalismo. Quem sabe é que é alto para dentro. E ouve-se distintamente no mundo, se também nós soubermos um pouco.
Momento, razão três
Luís Mourão
17.4.11 |
O momento é o mesmo que a zona: a vida como ela sempre foi, mas impercetivelmente diferente e melhor. O gesto que procura coincide com o livre fluir da coisa procurada. A bondade do objeto em não desiludir a lei que o sujeito pensa ter encontrado é uma boutade científica, sem dúvida, mas é também uma verdade artística e existencial. Com esta diferença: na zona não há sujeito nem objeto, apenas movimento e fim do movimento. Tal como na vida vista a partir da experiência.
Na zona
Luís Mourão
16.4.11 |
Depois da doença, a depuração. Quando há vida a mais, a música fica em menos. Quando o acessório e o fútil desaparecem, a vida só interessa enquanto música. Mas mesmo isso é um caminho longo. Das seis noites no Village, Hersch escolheu apenas o set da última noite — só nessa se sentiu na zona.
Momento, razão dois
Luís Mourão
16.4.11 |
O paraíso, a verdadeira vida, é tudo ser exatamente igual ao que é agora mas impercetivelmente diferente e melhor [Agamben de cor, por certo distorcido, foi o que me ficou]. O paraíso pode vir com a experiência: viver agora contente com pequenas coisas com que vivi outrora inquieto. O paraíso que está no princípio só pode ser perdido. O paraíso que acontece com o vir da nossa história só pode ser impercetível. Valor da atenção. Da atenção conduzida por nenhum desejo de grandeza (a queda é também uma forma de grandeza).
Entranhar sem estranhar
Luís Mourão
13.4.11 |
E sem pedir licença. Um tom perfeito para estes tempos. Que não são caóticos, mas de uma ordem terrível e que diz sem subterfúgios ao que vem.
Momento, razão um
Luís Mourão
13.4.11 |
Gosto de uma poesia que afirma a partir de uma experiência pessoal e que não procura mais do que essa parcialidade com que a vida em nós se cumpre. Isso que nos faz reconhecer onde não nos sabíamos, ou tão só ponderar brevemente — será assim como ele diz que é com ele? como é que é ao certo comigo? —, ou afastar sem remorso uma experiência que pouco ou nada nos tem a dizer por tão inconciliável com a nossa. Cada um desses gestos de resposta é também uma afirmação a partir de uma experiência pessoal. Sim, eu sei, depois, as coisas complicam-se e começa a leitura. Não anula a experiência pessoal, apenas não tem a licença poética de puramente afirmar.
Umberto Saba: Momento
Luís Mourão
11.4.11 |
MOMENTO
As aves à janela, as persianas
entreabertas: um ar de infância e de Verão
que me consola. Tenho mesmo os anos
que sei ter? Ou apenas dez? Para que
me serviu afinal a experiência? Para viver
contente com pequenas coisas com que vivi
outrora inquieto.
As aves à janela, as persianas
entreabertas: um ar de infância e de Verão
que me consola. Tenho mesmo os anos
que sei ter? Ou apenas dez? Para que
me serviu afinal a experiência? Para viver
contente com pequenas coisas com que vivi
outrora inquieto.
Estar no tempo
Luís Mourão
10.4.11 |
Bolaño escreveu uma vez que nas Américas toda a moderna ficção provém de duas origens: As aventuras de Huckleberry Finn e Moby Dick. Os detectives selvagens, com as suas personagens boémias, é o romance de amizade e aventura de Bolaño. 2666 persegue a baleia branca. Para Bolaño, o romance de Melville detém a chave da escrita acerca “da terra do mal”; e tal como a saga de Melville, 2666 pode ser estonteante ou soporífero, dependendo do gosto da pessoa pelo “lume brando”.
[da introdução de Marcela Valdes a Roberto Bolaño: últimas entrevistas, Quetzal, p. 18]
Mais do que a genealogia da moderna ficção das Américas, o que aqui é dito com clareza e conhecimento de causa é a própria genealogia mítica de Bolaño. Mítica porque pouco importa que Bolaño tenha de facto aprendido em Huckleberry Finn e em Moby Dick, ou nos seus descendentes das Américas, as duas vertentes do seu estilo compósito. Provavelmente não aprendeu, calhou-lhe por feitio e escolha sobre esse feitio, com uma particular aceitação dele. Mas as escolhas em literatura só se tornam realmente definitivas quando encontram/constroem a genealogia que as legitima. Bolaño escolhe uma genealogia próxima, sem qualquer ansiedade clássica, sem querer escapar ao transitório e ao circunstancial do presente. Essa tarefa vã não lhe interessa, apenas lhe interessa o desprendimento da deriva boémia e o cálculo rigoroso da obsessão — modos de estar no tempo, neste ou em qualquer outro.
Ir e vir
Luís Mourão
9.4.11 |
Ela: sair de manhã, abrindo sempre. Ele: voltar à noite, progressivamente fechando.
Do fogo à sombra rumorosa.
Com antepassados que se percebem, com um presente que é já deles.
Breleur/Kundera, adenda 2
Luís Mourão
9.4.11 |
Um parágrafo é quanto basta para traçar o arco entre um trauma originário e a sua transformação em maravilhoso. O tempo como arco conseguido não é o tempo em que suportamos a existência. A dor ou o apaziguamento têm isso em comum: terem de ser suportados na existência. Durarem. Sempre para além do razoável, mas sempre a caminho de serem outra coisa que os degrada e no-los rouba como experiência fundamental. Um parágrafo é a nossa vida enquanto escultura acabada, limpa do lixo que gerou e da oficina em que se fez. Uma mentira breve, a única verdade do tempo que podemos compreender.
Breleur/Kundera, adenda 1
Luís Mourão
9.4.11 |
O arco entre um trauma originário e a sua transformação em maravilhoso. É um arco realista? É. Mas podia não ser, exemplos não faltam. Sem que se consiga perceber exatamente o que faltou a uns e não a outros. O mesmo trauma, a mesma capacidade de inteligência e criatividade, resultados diferentes. Talvez histórias de base diferentes — mas todas as histórias são diferentes, sendo contudo mais iguais do que parecem. Seguimos as histórias e a naturalidade que elas compõem a posteriori, mesmo que diferentes. As melhores histórias fazem a exata sobreposição entre mistério, destino e acaso.
Breleur segundo Kundera
Luís Mourão
5.4.11 |
Corpos sem cabeça, suspensos no espaço, são assim os últimos quadros de Breleur. Em seguida, olho para as datas: à medida que o trabalho sobre este ciclo avança, o tema do corpo abandonado no vazio perde o seu efeito traumático original; o corpo mutilado, lançado no vazio, sofre cada vez menos, assemelha-se, de quadro em quadro, a um anjo perdido no meio das estrelas, a um convite mágico vindo de longe, a uma tentação carnal, a uma acobracia lúdica. O tema original passa, por intermédio de inúmeras variantes, do domínio da crueldade ao domínio (para voltar a utilizar esta palavra-passe) do maravilhoso.
Milan Kundera, Um encontro, D. Quixote, p. 106-107
Conhecem este gajo?
Luís Mourão
22.3.11 |
Disseram-me: é bom, as usual. Errado. É muito bom. Quando retransmiti, corrigiram-me em upgrade: é excelente. Ouvimos outra vez: mas quem é este gajo, afinal? Concluímos que era ele, sim, mas em versão definitiva de caso sério. Um caso sério, pois então.
A poesia em dia
Luís Mourão
21.3.11 |
Não me lembro a primeira vez que ouvi a palavra poesia. Lembro-me do primeiro poema que me fez pensar que aquilo era poesia. Eu era novo, tinha de ser novo, e Cântico negro era o poema. Houve depois mais sobressaltos e descobertas, mas já não frequento ninguém desses tempos. Hoje, sobressalto-me ainda, descubro ainda. Mas sei que não terei tempo para o esquecimento deste presente, como sei que aquilo que espero da poesia encontrou o seu lugar em mim e não serei capaz de lhe inventar um outro nem consentir que ela o faça nas minhas costas. A cada um o trabalho árduo do seu paraíso e do seu inferno: o meu chama-se romance.
Escalas
Luís Mourão
18.3.11 |
Podes mais sobre a crise portuguesa do que sobre a tragédia japonesa ou líbia? Não podes. É essa a tua irrelevância e a tua liberdade. Mas sabes onde está o teu coração, sabes quando e porquê viras as costas e deixas de ouvir, sabes o que fazer e como o fazer.
Nels Cline, dirty baby
Luís Mourão
8.3.11 |
75
Luís Mourão
1.3.11 |
Morada
Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.
[Margarida Ferra
Curso intensivo de jardinagem, p. 51]
Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.
[Margarida Ferra
Curso intensivo de jardinagem, p. 51]
74
Luís Mourão
28.2.11 |
O Senhor Eliot quer explicar alguns versos. Ou avaliar da sua racionalidade, corrigindo-os ou acrescentando-os para que fiquem conformes à semântica. Ou ensaiar aquele contexto mais alargado em que os versos fariam não só sentido, como dariam sentido a esse sentido. O sentido é sempre duas vezes, poderia dizer o Senhor Eliot, a primeira como coisa inteligível, a segunda como coisa que dá que pensar. Dar que pensar é mais sentido do que ser apenas inteligível. As conferências do Senhor Eliot dão que pensar, de formas tão diferentes como diferentes são os versos de que parte e os caminhos que suscitam. A vida no bairro recomenda-se. E já que se recomenda, voltaremos ao assunto em breve.
73
Luís Mourão
27.2.11 |
A noite estava serena, a luz macia e suave, a terra parada, e eu, cá muito em baixo, era a única criatura em movimento. [Lydia Davis, Demolição, p. 90]
71
Luís Mourão
26.2.11 |
O micro-conto chama-se “O homem que criou Deus num laboratório”. Uma alegoria de página e meia. Mas não é isso que agora importa, a alegoria, ainda que também importe. O que importa começa aqui: “Finalmente, a recompensa por anos e anos de trabalho árduo: dentro de um tubo de ensaio achava-se Deus. Assim, sem tirar nem pôr. Uma criaturinha triste, apática e indiferente como uma bolota. Nunca a ciência conhecera homem mais feliz.” Se retirarmos a frase “Uma criaturinha triste, apática e indiferente como uma bolota.”, o micro-conto não sofre nada com isso. O excedentário é sempre indício do sentido que transborda. Sintoma. Doutor Avalanche vai para a oficina a partir desta frase.
66
Luís Mourão
22.2.11 |
Pelo seu grau de abstração (menos riso, menos absurdo, o valor facial de cada reflexão é quase sempre para levar a sério), porque não fazem sistema e porque tocam em muitos assuntos que só remotamente são geométricos, as investigações do Senhor Swedenborg estão aí disponíveis para serem lidas como indícios de auto-reflexividade autoral. Em alguns casos, a evidência parece por demais evidente. Verdade ou coincidência, pouco importa. As ligações da leitura é que comandam. Oficina com ele.
65
Luís Mourão
21.2.11 |
Alguns aspectos do seu comportamento parecem-lhe agora estranhos. Então acontece uma coisa que devia assustá-la, mas ela não se assusta.
Acontece assim: ao fim do dia, liga o noticiário e é imediatamente confrontada, olhos nos olhos, com uma intensidade quase insuportável, pelo jornalista que lê as notícias. Ele é a primeira pessoa que falou com ela no dia inteiro. Abalada por estes poucos minutos de conversa directa, vai à cozinha preparar uma omeleta. Mistura os ovos e deita-os na frigideira, onde a manteiga começou a derreter. Enquanto ganha forma, a omeleta borbulha e murmura, fazendo uma espécie de som violento, e ela de súbito pensa que a omeleta lhe vai falar. De um amarelo vivo, reluzente, com manchas de gordura, a omeleta palpita delicadamente na frigideira.
Ou antes, ela não espera que a omeleta fale, mas quando não articula nada ela fica surpreendida. Quando mais tarde pensa no que aconteceu, compreende que ela sofreu na verdade qualquer coisa equivalente a um ataque físico. A mudez da omeleta emanou da própria omeleta num grande balão que pressionou os seus tímpanos.
Lydia Davis, "Cinco sinais de perturbação" in Demolição, p. 199-200
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