bloco-notas # 7
Luís Mourão
19.11.09 |
Eis a coisa intratável: se cada um, pelo seu mérito, merece o chicote, como pode alguém estar acima desse mérito e possuir honra e dignidade?
Talvez o maior mistério não seja de facto o mal, mas a bondade.
bloco-notas # 6
Luís Mourão
19.11.09 |
POLÓNIO: Meu senhor, vou tratá-los de acordo com o seu mérito.
HAMLET: Valha-te Deus, homem! Muito melhor. Se tratares cada pessoa segundo o seu mérito, quem escapará ao chicote? Trata-os de acordo com a tua própria honra e dignidade — quanto menos eles merecerem, maior mérito haverá na tua bondade.
Companhia nocturna # 79
Luís Mourão
17.11.09 |
Ainda o voltar para trás. Não se trata de regressar, desde um ponto extremo, a um corpo estável de “canções” ou de originais. Que é “Blues”? É um standard, mas um standard de género, sendo para todos os efeitos um original. Ou seja, é a invenção da matriz do blues segundo o modo e a sensibilidade de Jarrett. Como se toda a música tivesse de ter sido inventada por ele para lhe existir enquanto músico (que não enquanto ouvinte). Bach fez isso com as transcrições: a transcrição era tornar seu um material que lhe era particularmente adequado; depois, criava a partir da transcrição, não do original. Talvez se possa chamar a isso fazer de si mesmo um mundo de música (um pouco diferente de se situar num cruzamento de referências ou citações, coisa mais intelectual e “fria”).
Voltar para trás: partir dos confins de si mesmo enquanto mundo de música e encontrar os caminhos de regresso ao largo oceano onde tudo começou e, por isso mesmo, onde tudo se pode aquietar e a vida prosseguir quando não somos tomados pela vertigem e pela necessidade da viagem. É assim que os concertos de Jarrett terminam: com esse júbilo de quem regressa à vida entre os mortais que somos, depois de ter voltado a saber que há mais coisas no mundo do que a nossa pobre filosofia pode imaginar. Não só não é coisa pouca, como será das poucas que vale a pena.
Companhia nocturna # 78
Luís Mourão
16.11.09 |
Eu diria que os grandes momentos desses concertos acontecem quando a música começa num lugar que não sabe ainda que é caminho que conduz a um anterior altíssimo.
Por razões que não vêm agora ao caso, tenho horas de escuta atenta de “Blues”, uma composição que pertence a Paris Concert (1990). Só já bem lançada a faixa III de “London” (segundo cd deste Testament) alguma coisa me soou familiar, para do meio até ao final, na fixação de uma linha rítmica, desembocar e sair claramente onde começaria “Blues”. Ouvindo e tornando a ouvir III (London), é claro desde o início o mecanismo da variação, mas também o das grandes correntes oceânicas. Prolongando “Blues” até ele ser já completamente outra coisa, da mesma forma que uma corrente oceânica se mistura com outra e a deixa depois entregue a si mesma, chegamos ao início de III. Depois é só voltar para trás. Os concertos solo de Keith Jarrett são este voltar para trás, partindo de muito longe e fundo no vasto oceano.
Companhia nocturna # 77
Luís Mourão
16.11.09 |
Só em alguns casos leio as notas que acompanham os cd’s, e sempre depois de os ouvir. O texto de Keith Jarrett é visceralmente pessoal (e comovente), e diz duas coisas simples (que vou resumir mal): 1) um músico tem vida pessoal, sofre, e o sofrimento pode impedir a música; 2) a música ainda pode salvar um músico. Por vezes esquecemo-nos que também é deste combate pessoal que é feita a grande música. Mas não admira: quando a música é realmente grande, o combate que lá ouvimos confunde-se sempre com o devir do mundo.
bloco-notas # 5
Luís Mourão
14.11.09 |
Nunca escrevemos tão bem sobre nós próprios, como quando escrevemos sobre outros. Certo. Mas como se sabe quando é sobre nós próprios? Quando é que começa a ser sobre nós próprios? E finalmente: isso importa, saber isso importa? Ou basta escrever nessa linha de fronteira indecidível?
"A «coisa seguinte», sendo sempre para Eduardo Prado Coelho a coisa intelectual e estética, é o lado mais solar e pulsionalmente afirmativo do pensamento e das múltiplas sensibilidades, «uma cultura da ironia e do jogo, por contraposição a uma cultura da angústia e da dúvida» (Diário I: 56). Mas uma cultura da ironia e do jogo que reverte o intelectual e o estético às raízes mais indomesticáveis do sujeito, e aí consegue, por exemplo, atravessar uma imagem corporal com uma decisão de uma outra narrativa:
«Compro uma gravata Hermes com elefantes aos saltos lançando esguichos de água pela tromba. Arranjo-lhe um título para apresentação em convívio social: a insustentável leveza dos elefantes (o peso que salta, rebola, ri, brinca com o seu próprio corpo)» (Diário I: 98).
Nada mais saudável do que nos tomarmos também a nós próprios como cena capaz de convocar a «coisa seguinte». E, de alguma maneira, nada mais saudável que aquilo mesmo que transporta esta espécie de nietzscheanismo da grande saúde do corpo, transporte de igual modo o ténue sinal de tragédia que autentifica a indesmentível realidade do que o tempo vai cristalizando em nós. A insustentável leveza dos elefantes não pode deixar de ser também a memória que em surdina obceca, o vivido que persiste em nos habitar e constranger, talvez mesmo o peso específico de todo o lance intelectual e estético quando declina o seu júbilo e sobre ele desce a sombra crepuscular da única interrogação que se repete neste diário: quando chega a infância?
Porque esta interrogação repetida significa, naturalmente, que a infância nunca chegará."
Fora de tempo # 56
Luís Mourão
13.11.09 |
Retenho profundamente estes versos de um poema sobre conduzir à chuva: “[...] e fixo à minha frente / A parte inteligente do medo / Que me toca.” (p. 19)
Não se conduz bem (com ou sem chuva) se não se usar a parte inteligente do medo. Aquela que sabe da máquina e dos processos maquínicos que em nós a prolongam — essa é a parte inteligente do medo.
Fora de tempo # 55
Luís Mourão
12.11.09 |
Há livros cujas qualidades reconhecemos, com as quais nos identificamos — e contudo há qualquer coisa que se interpõe invencivelmente entre o livro e o nosso desejo de gostar dele.
Reconheço a secura, a ironia e o alusivo como um mérito. Reconheço o insólito e o risco de tomar como objecto e personagem um carro (é ele o amante japonês). Reconheço a mestria de uma longa metáfora filée e os lugares de amor e morte que atravessa. Um crítico de nada mais precisa.
O leitor que sou identifica-se com os andaimes desta linguagem, a ligação ao carro (também japonês, por acaso), e os lugares de amor e morte a que ele dá acesso. E contudo, senti-me quase sempre de fora deste livro. O leitor que sou precisa de mais qualquer coisa, mas não sabe o quê. Se soubesse, já teria conseguido parar de ler.
[Não, não é verdade, não quero parar de ler. Quando a identificação acontece, há apenas um intervalo maior para o livro seguinte. E faz-se a vaga promessa de re-ler.]
bloco-notas # 4
Luís Mourão
10.11.09 |
Colóquio Letras 172
Luís Mourão
10.11.09 |
A abrir, três textos re-lêem Barthes — e o reencontro mostra até que ponto foi (é) precipitado o seu desaparecimento do horizonte de referências teóricas em que se movem os estudos literários. Mas cada autor tem de atravessar o seu limbo, porque a teoria nunca é sem mancha, há que dar tempo a que as imperfeições do presente resgatem as imperfeições do passado.
Em seguida, nove textos sobre escrita do eu e diários analisam Pessoa, Sena, Torga, Vergílio Ferreira, Marcello Duarte Matthias, Luísa Dacosta, Saramago, Llansol e Eduardo Prado Coelho [que é o meu contributo: A coisa seguinte, o chegar da infância e o fim definitivo de todos os tribunais: Eduardo Prado Coelho em diário].
Há ainda a habitual secção de inéditos e de recensões críticas de literatura portuguesa e literatura brasileira.
Pormenores
Luís Mourão
9.11.09 |
Companhia nocturna # 76
Luís Mourão
7.11.09 |
(Testament? Vai com calma, não lhe dês pretextos. E olha que tudo é testamento, legado. Contigo, por maioria de razões.)
Driving Miss Laura # 27
Luís Mourão
5.11.09 |
6 de Novembro, sexta-feira, 18.30h
Livraria Centésima Página, Braga
Apresentação por José Eduardo Lima, SJ
Marcadores: Laura Ferreira dos Santos |
Fora de tempo # 54
Luís Mourão
4.11.09 |
Não é nada que não se saiba desde tempos imemoriais: temos que nos perder para nos encontrar. Há uma pergunta que decorre disto e que coloco sempre que embarco numa leitura “académica”: quando é que ele (ou ela) perde o pé e se permite ir por momentos na corrente que só pretende analisar de fora? Esse momento é uma imperfeição, a todos os títulos uma imperfeição, mas é a imperfeição semelhante à marca de contraste que assinala o ouro de lei: percebe-se tão analiticamente o objecto de estudo que estamos em condições de reproduzi-lo como autoria nossa.
A etapa clássica desta ambiguidade deu-se em termos de fascínio e contra-fascínio. Coetzee imagina Barthes fascinado com a leitura de Zola, e construindo o contra-fascínio em O prazer do texto, onde Zola é um dos exemplos da literatura sem atrito. Umberto Eco foi mais claro, declarando desde logo que na sua análise dos comics e similares havia um olho de confessado fascínio e um outro de distância sociológica.
A etapa moderna desta ambiguidade veio com a desconstrução derridiana e acontece naquele momento em que o texto desconstrutor segue com ironia, mas com consciência de ser o melhor caminho possível na situação, a estratégia do texto desconstruído. Ou dito de outra forma, acontece quando a dobra que faz avançar a interpretação tem que ser a mesma dobra que fez avançar aquilo que está a ser interpretado. No livro de Quintais, isso acontece sensivelmente a meio do empreendimento, que é o melhor lugar para tais coisas acontecerem:
“Franz começa a revelar, desde 1918, uma intranquilidade permanente. Desconfia das tripulações dos navios em que embarca. Lê-lhes na fisionomia «a dúvida em que estavam acerca da sua nacionalidade, desconfiando que ele fosse alemão e não suíço». Parafraseando o médico português, um estado de desconfiança começa a orientar-lhe infatigavelmente a atenção.” (p. 64).
Tudo se joga no fio da navalha. Porque a simples paráfrase é a impotência da interpretação, mas parafraseando é como uma mudança de velocidade para entrar num outro troço. Chegados aqui, se dúvidas houvesse (mas já não havia), sabemos que o livro está ganho.
Levi-Strauss
Luís Mourão
4.11.09 |
Uma certa perplexidade ao saber da morte de Levi-Strauss, como se fosse uma notícia atrasada. Nenhuma crítica nisto. Levi-Strauss tinha desaparecido da vida intelectual activa por razões muito suas. Ou com mais rigor, a sua pessoa tinha-se separado há algum tempo do seu nome de autor. Era como nome de autor que Levi-Strauss existia — um clássico incontornável, na fase em que é ainda lido e discutido. E um desses clássicos que ultrapassa largamente as fronteiras da sua “ciência” — para mim, Tristes Trópicos é também um grande romance (já agora, um grande romance “proustiano”, mas sem tempo reencontrado).
Fora de tempo # 53
Luís Mourão
3.11.09 |
Em 7 de Junho de 1930, em Lisboa, Franz Piechowski mata o ministro alemão em Portugal, o Barão de Baligand. Rapidamente se percebe que o homicida não está em seu perfeito juízo. O psiquiatra Sobral Cid, em 14 sessões, procede ao seu pormenorizado exame clínico, de que resulta um longo relatório: “O caso Franz Piechowski, perseguido, perseguidor e magnicida”. Sobral Cid é o grande herdeiro de Miguel Bombarda e Júlio de Matos, e o caso aparece-lhe como uma oportunidade ímpar de criar jurisprudência na psiquiatria portuguesa e na medicina forense.
Luís Quintais faz a análise detalhada do relatório de Sobral Cid, mostrando como se constrói a evidência da loucura e o paradoxo inevitável que sustenta toda a evidência deste tipo: se os indícios são relativamente objectivos, e consolidados na sua posição de indícios por casos similares, a interpretação deles num diagnóstico de loucura depende da autoridade e subjectividade do médico, isto é, da sua capacidade particular de não se deixar enganar por uma loucura fingida.
O relatório de Cid conta uma história, a de Franz Piechowski, reconstruindo-a enquanto história de um magnicida inconsciente. A análise de Quintais conta a história dessa história, reconstruindo-a enquanto esforço de evidência dos mecanismos de um magnicida. A sedução deste livro reside na escolha deste mecanismo narrativo em segunda instância. Uma festa da inteligência, sim, e da inteligência desdobrada sobre si mesma, mas uma festa da inteligência que magnificamente se subordina à resistência do real, ao naco de vida, quer dizer, à insensatez do sentido.
Companhia nocturna # 74
Luís Mourão
31.10.09 |
A liberdade de ir pelo conhecido fazendo-o novo. Tomara aprender. Mas desconfio que mesmo quando se aprende, ou quando os outros nos asseguram que alguma coisa disso aprendemos, só o vemos perfeito fora de nós. Como aqui.
Um tostão ou um milhão
Luís Mourão
31.10.09 |
Havia uma tira do Quino que era assim: na hora do almoço, um pobre pedia dinheiro para comprar um pão; um transeunte mais apiedado dá-lhe uma nota; o pobre mal crê na sua sorte, entra todo risonho no restaurante e pede todos os pães que a nota pode comprar.
Com a corrupção acontece qualquer coisa de análogo. Os que vêm de muito baixo, os que tendo subido nunca perderam os tiques de terem vindo de baixo, medirão sempre o seu preço a pães. Os outros, nas mesmas condições, exigirão diária completa e por um período substancial.
Com a corrupção acontece qualquer coisa de análogo. Os que vêm de muito baixo, os que tendo subido nunca perderam os tiques de terem vindo de baixo, medirão sempre o seu preço a pães. Os outros, nas mesmas condições, exigirão diária completa e por um período substancial.
bloco-notas # 3
Luís Mourão
30.10.09 |
Fora de tempo # 52
Luís Mourão
29.10.09 |
Embaraçoso é aqui uma palavra... embaraçada. O termo correcto seria violento, de uma violência facilmente assassina. A possibilidade do reconhecimento em nua humanidade é um mito. A nudez imprevista de dois seres atirados para a presença um do outro só tem dois resultados possíveis: sexo (uma forma de violência accionada pelos mecanismos da reprodução) ou luta ( a violência gerada pela defesa do espaço vital). Todo o reconhecimento é social e laboriosamente construído como um patamar de civilização. O erotismo também. São artefactos, e assim os sentimos. Daí o misto de desencanto e segurança com que os vivemos: não são a coisa natural (que está para sempre perdida), mas precisamente por não serem a coisa natural podemos experimentá-los e sobreviver-lhes.
Fora de tempo # 51
Luís Mourão
28.10.09 |
A elucubração vem a propósito de um desses crimes de classe (simplificando, empregado que mata e rouba patrão) e abre caminho àquilo que será uma gestão irónica da culpabilidade. Reconhecemos o ar dos tempos: não há hoje culpabilidade que não seja mediada pela ironia e até pela irrisão mais completa. O que não é inteiramente negativo, mas o meu ponto é outro. O meu ponto é que a gestão irónica da culpabilidade não anula a fórmula original em que ela se coloca: se tomarmos o facto estranho à letra, na sua seriedade, estamos naturalmente no princípio de uma qualquer religião. O facto estranho continua lá, é em parte por isso que as religiões regressam ciclicamente.
Fora de tempo # 50
Luís Mourão
27.10.09 |
Escorreito, irónico e romanesco q.b.. O meu interesse de partida era mais sociológico do que propriamente literário, e nisso não me desiludiu. Não substitui os documentários e os ensaios sobre o “milagre indiano”, mas só a ficção nos dá vidas e pessoas concretas (sim, sim, concretas). Radicalmente, um país não existe. Embora ajude saber coisas sobre isso a que se chama um país. Mas no fim, é sempre sobre pessoas e as suas circunstâncias. E sim, morre-se sempre sozinho, perdendo as pessoas e as circunstâncias.
bloco-notas # 2
Luís Mourão
26.10.09 |
bloco-notas # 1
Luís Mourão
26.10.09 |
Companhia nocturna # 72
Luís Mourão
23.10.09 |
A música não sabe do sacrifício, é um deus que não precisa de tais ofertas. Nem lhe servem para o que quer que seja. Antes ou depois, sabemos nós dos castrati. Mas durante, sabemos apenas da música. Não é a crueldade do esquecimento ou da indiferença, antes a inocência da arte onde o mundo menos pesa.
Fora de tempo # 49
Luís Mourão
20.10.09 |
A suspensão do juízo é uma forma precisa de ajuizar um determinado objecto particular. Não isenta de ambiguidade. A suspensão do juízo pode ajuizar em definitivo — sobre isso nunca saberei o que dizer, sobre isso nada há a dizer, sobre isso melhor será que nada se diga —, ou pode adiar o juízo até novos elementos esclarecedores.
Na crítica literária, a suspensão do juízo devia ser prática mais comum, nunca como modo de ajuizar em definitivo mas como modo de esperar pela continuação da obra.
Por exemplo: a qualidade de um verso como “o resto é abaixo de gato” não se decide nele próprio nem na obra a que pertence. Será a próxima obra a esclarecer (possivelmente) o lado para que penderá: exemplo de variação fácil de um lugar-comum, ou exemplo de um largo trabalho de desconstrução dos lugares-comuns?
Fora de tempo # 48
Luís Mourão
19.10.09 |
“e uma data de poemas na cabeça / ligados por tubos de respirar” (p. 7)
a glória dos poemas na cabeça: não é o lugar nobre e apropriado para haver poemas, é apenas o lugar mais próximo da saída; a eternidade dos tubos de respirar: os cuidados intensivos são a última paragem antes da saída
“os poetas devem morrer de tuberculose, na miséria / isso ou artista doméstico / fato de treino e perversões de periferia / o resto é abaixo de gato” (p. 15)
a glória da parte maldita, a eternidade da recomposição do mundo normal
“nasce o dia / ao sair da cozinha tudo na mesa parece obra do diabo / copos por levantar, o cinzeiro usado, talheres sujos / e livros de poesia” (p. 23)
a glória da enumeração do trivial, a eternidade da parte maldita tornada quotidiano
Companhia nocturna # 71
Luís Mourão
18.10.09 |
Reitero: nunca por nunca chegamos demasiado tarde à música. Ou a um livro que desconhecíamos, um quadro nunca visto, uma paisagem subitamente aberta a nosso lado. Mas à vida sim. E a algumas pessoas nela, mais ainda.
Companhia nocturna # 70
Luís Mourão
18.10.09 |
Nunca se chega atrasado à música. Anos, décadas, séculos, a sua paciência não tem limites. A vida sim.
Fora de tempo # 47
Luís Mourão
15.10.09 |
Ottinger detém-se aqui. O quadro de relações é demasiado complexo, e de alguma maneira demasiado doméstico e privado, para caber numas “hipóteses elementares”. De Lacan a Duchamp, com segredo, velatura e sexo, sendo que o segredo e a velatura não são, de forma nenhuma, apenas causa ou consequência do sexo. Tudo por junto, é demasiado matricial para não transbordar o elementar.
Porém, uma coisa me interessa, que propriamente talvez até não pertença a esse quadro de relações, embora lhe subjaza como enquadramento ou situação incontornável. Chamemos-lhe o obtuso sociológico (sendo que o óbvio é a remissão para L’Origine du monde): pulsionalmente, a figura de Le gaz d’éclairage é uma figura morta, ou pelo menos fria, e a natureza que a rodeia está mais próxima de uma natureza-lixo ou natureza-baldio, do que da voluptuosidade carnal de Courbet (mesmo quando é apenas a natureza que pinta). De Courbet a Duchamp, aproximamo-nos da morte: mas Imre Kertézs já tinha avisado o quanto o século XX nos mostrou o rosto verdadeiro da nossa existência.
Resta a ironia involuntária, afinal também ela apropriada a esse mostrar: Le gaz d’éclairage apareceu ao grande público primeiro que L’origine du monde.
Fora de tempo # 46
Luís Mourão
14.10.09 |
A segunda hipótese de Ottinger, sintetizando e fazendo avançar outros: há uma ligação entre L’Origine du Monde, cujo original Duchamp viu na casa de Lacan, e Étant donnés: 1. La chute d’eau 2. Le gaz d’éclairage.
Na casa de Lacan, L’Origine du monde estava velada por uma pintura de Masson, seu cunhado, para obstar ao excesso da tela de Courbet. Étant donnés é uma instalação. Há uma enorme porta de madeira, aparentemente maciça, incrustada na parede (La chute d'eau). Quando nos aproximamos, há um pequeno rombo de contornos irregulares numa das faces da porta. Alguns julgam tratar-se apenas de deterioração material e não se acercam mais. Outros aproximam-se para espreitar, habituam a vista ao escuro e acabam por vislumbrar a cena: Le gaz d’éclairage. A figura central lembra de facto L’Origine du monde.
Fora de tempo # 45
Luís Mourão
13.10.09 |
O elo entre natureza e sexualidade nunca foi natural. Mas houve uma época em que funcionou com vantagens mútuas, desembaraçando a natureza das suas metafísicas românticas e a sexualidade das suas reprodutibilidades sociais. Por assim dizer, variações da carne tornada extensa: ficavam os humanos com um vasto campo de experiência maior do que eles próprios, repousava a natureza na sua condição terrena, frágil e desejante. Foi esse elo que Courbet pintou, ou de que falaram D. H. Lawrence ou Kerouac. Foi visto pela última vez em Woodstock.
A quase ninguém interessa hoje esse elo. A natureza é preocupação, empecilho ou cenário de jogging. A sexualidade é também preocupação, empecilho ou cenário de fantasmas.
Bem entendido, sou um fóssil. O que vale é que mesmo numa espécie em extinção, ainda se pode morrer aos pares.
ao cimo, La source de la loue e L’origine du monde.
Fora de tempo # 44
Luís Mourão
12.10.09 |
A primeira hipótese de Ottinger, sintetizando e fazendo avançar outros: se tomarmos os nus de Courbet, mantivermos os seus agenciamentos essenciais e estruturais, mas transformarmos os segmentos humanos em rochas, bosques e por aí adiante, obtemos as paisagens que lhe interessavam profundamente. Se colocarmos La source de la loue de pé sobre o seu lado direito, vemos que a composição é exactamente a mesma que foi usada para L’Origine du monde.
Não me queixando sequer do Roth, que a gente já sabe como é
Luís Mourão
11.10.09 |
Má jogada, a do Nobel da Paz. Não se deve premiar o presidente da nação mais poderosa do mundo democrático por estar fazer aquilo que deve ser feito — e honra a Obama por isso. Mas a Paz necessita de trabalho extra-curricular, e é esse que é urgente conhecer e reconhecer.
Ainda assim, dentro das más jogadas, Obama é a melhor possível.
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