Ver mais de perto: isto não é um epílogo
As we sat together, he told me that all the men in his family, including him, had been mean to women. He said that he wanted to pose in a way that showed him not being mean. How would that be, I asked. He said he wanted to pose as if Brigit were his mother. How? He gently reached around behind him to Bridgit who was leaning against the Church door. Laying Bridgit in his lap, face(less) up, he looked straight at me and said: "Like this." My lens eye saw that this man had created a reverse Pieta.
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Ver mais de perto 3: Mesmo bar, mesma hora?
In June, 1999, Mendelsohn and her daughter, Rebekah, found a female mannequin at a yard sale. The seller asked $20, and when Mendelsohn replied that the mannequin was headless, the seller came down in price by $5.
Thus began an extraordinary series of adventures that Mendelsohn has been recording with lens and pen. "Bridgit (the mannequin) is a blank page," Mendelsohn explained recently. "She has none of the obvious trappings we associate with personality except that what there is of her arms is in a very triumphant pose. What is endlessly fascinating is the way in which people relate to her and how it is that she fits into situations. Having a master's degree in psychology and a background in counseling have been definite assets."
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Ver mais de perto 1: Encontramo-nos então no bar, depois da hora de fecho?
O real em band-aid barato, outra história conhecida
Na mais célebre cena de teatro português — a única que adquiriu um estatuto mítico — D. João de Portugal não é propriamente um espectro. Pode mesmo dizer-se que é a sua negação pois surge e manifesta-se aos vivos, para se desfazer de si mesmo como o espectro em que, simbolicamente, os que o julgavam ou precisavam de o saber morto, o tinham convertido. Mas quando sai de cena, depois de se ter revelado melancólica, irónica e cruelmente, como ninguém, D. João é já um autêntico espectro.
Mesmo bar, mesma hora?
Já se esperava. Os fantasmas são os nossos fantasmas. Nossos, quer dizer, do que somos como seres de paixão, sentimento e sonho, mas também como memória, tempo perdido e conservado, onde a nossa vida real a si mesma naturalmente se espectraliza, quer dizer, em permanência se teatraliza.
O real em band-aid barato, uma história conhecida
Alexandrínicos Dilemas
E fico neste estado catatónico,
telegráfico, estúpido, lacónico,
quando te vejo ou ouço a tua voz.
Bem queria que passasse este registo,
que, se é para ser isto sem ter isto,
melhor que te tomar é tomar pós
de frutos, contra enjoos, suculentos,
bons para a pele, na alma como unguentos
on band-aids em chuva autocolante.
Mas em qualquer dos casos, o que resta
é: não te veja, ou veja (em curta festa):
a saudade: submersa e naufragante.
Não te posso ouvir mais, digo três vezes,
e com muito fervor e muitas preces,
como se esconjurasse Satanás.
Depois, uma palavra, um leve traço,
um minúsculo gesto abrindo o espaço
e, mesmo que não estejas, aqui estás.
E sentas-te a meu lado na cadeira.
Ninguém te vê: só eu. A curva inteira
do pescoço, dos ombros, ou da mão.
Toco-te levemente e o vizinho
na mesa ao lado, espreita-me, de mansinho,
pensando que perdi toda a razão.
E devo ter perdido, se o real
me parece uma coisa desigual,
um band-aid barato, a descolar.
E a única coisa mais parecida
com o ser realmente é uma vida
que não posso, nem devo acarinhar.
E até essa palavra lembra ti,
e a fractura começa por aí,
numa sintaxe que não sei rimar:
Não te posso ver mais. Não, não e não!
(E sai-me o verso assim, como vulcão
limitado a explodir dentro do mar.)
E agora, o quê? Pergunto-me, interrogo-me,
faço das linhas coração. E chovo-me:
miríade em band-aids, tão veloz:
é que fico na mesma catatónica,
meio estúpida, letárgica, lacónica,
se torno em verso, e minha, a tua voz.
Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, pp. 26-27.
Encontramo-nos então no bar, depois da hora de fecho?
A indecisa matéria (auto?)biográfica
Não, não vou dizer que os tempos não estão fáceis para a poesia. Porque nunca estiveram. Ou numa variante ainda mais dura, foi quando a poesia pareceu mais aceitável que a tarefa de ser poeta era verdadeiramente secreta, difícil, ininteligível. Mas deixemos isso.
O que é certo é que a poesia vive hoje a sua condição estritamente terrena. Há as excepções, bem entendido, como há também um sem número de poetas anacrónicos e altamente literatos. Mas deixemos isso também.
O problema é que alguma coisa resiste. E este problema é logo seguido de um outro, que é o problema de que alguma coisa acontece que resiste a desaparecer. O primeiro problema é da ordem do real: há coisas aí, anteriores a nós, independentes de nós, estão aí. O segundo problema é da ordem da existência: há coisas que nos acontecem, e depois de nos terem acontecido não nos desacontecem. Que fazer com estes dois problemas?
Tratá-los com um certo tom menor parece ser de regra. Entre a auto-ironia, que tem as suas vantagens, e a denegação, que tem os seus custos humanos. Ana Luísa Amaral está desde sempre à vontade na auto-ironia, é até estratégia central da desconstrução que opera de certos lugares da poesia e do feminino poético, mas não cede à denegação, antes sublinha certas impossibilidades de um menos viver muito contemporâneo: “O tempo agora é este: / o de fazer tão rentes as canções” (p. 50). E sem denegação, há certas coisas — os tais dois problemas, por exemplo — que reaparecem na sua gravidade, mesmo que os contextos acentuem a distância que sempre se deve ter face aos modos retóricos de dizer tais coisas graves.
Uma forma de distância consiste em singularizar radicalmente a experiência da vida e do mundo, evitando a generalização ou a sabedoria do sistema, mas sem deixar de sub-entender a gravidade de “um pequeno holocausto / que é só meu” (p. 86). Outra, mais decisiva, até porque constitui algo parecido com uma poética, é conduzir toda a dicção para uma espécie de entre-dois: “É num tom desses que eu me sei mover: / no intermédio cruzamento / dos portões do real, / nas despensas do mundo” (p. 101). Com uma ressalva sintáctica que não é de somenos: a quantidade imensa de poemas que aqui terminam com travessão — forma suspensiva que infinitiza o fim, por um lado, mas que por outro o entrega a agenciamentos ainda por formular.
Relidos a esta luz alguns dos principais poemas deste livro — poemas como “Alexandrínicos dilemas”, “Claves e distâncias (quatro poemas)”, “Copérnico, Chopin, Boeing 747”, “Entre dois rios e muitas noites”, “Ovelhas e bibliotecas: sofrimentos”, “Que escada de Jacob?” —, a indecisa matéria (auto?)biográfica que os ergue ganha contornos de dicção exemplar sem exemplum a transmitir: apenas o que aí está e o que já não nos pode mais desacontecer. Dito de outro modo: “Horror é conhecer: / tudo o resto se cura / com a vida” (p. 84). Para gravidade basta. E para uma vida, também.
Acordo ortográfico
Um leitor devidamente identificado acha que eu devia ter opinião sobre o acordo ortográfico. Acontece que não tenho. Nem me preocupo minimamente em ter. Há coisas que tanto se me dá, e essa é uma delas. O leitor devidamente identificado acho que eu devia ter uma opinião sobre o acordo ortográfico porque isso vai afectar a literatura, o modo de escrever, etc. Sobre isso, sim, tenho uma opinião, melhor, uma certeza: não vai afectar coisa nenhuma. Afecta a norma, mas a literatura está muito depois da norma, tão depois da norma que pouco se lhe dá que a norma seja esta ou outra qualquer. Mas eu sou o tipo de crítico que acha que um conceito como literatura portuguesa (ou literatura de qualquer outra nacionalidade), embora tenha a sua utilidade, não chega realmente para aceder ao essencial. Que quando toca a falar de um autor que merece esse nome, o melhor a fazer é considerá-lo como toda uma literatura que nasce e morre com ele. E dentro dessa literatura, uma língua (menor, apátrida, marginal: a língua de Vergílio Ferreira é uma, a de Llansol outra, a de Lobo Antunes outra ainda, etc). Sim, eu sei que há aqui algumas ressalvas a fazer. E faço-as. Mas são apenas isso: ressalvas.
Das definições inúteis # 3
A maioria das pessoas não conhece a maioria das pessoas. Ficam nos seus carros, ao domingo, a apanhar sol e a queixar-se: ninguém nos conhece, que triste é a vida. Antes de o sol se pôr regressam a casa.
Chove. Intensamente. É noite.
Apontamento IV
Uma pequena luz
à Bergman:
tão difusa que quase o branco
das paredes em tanta luz há pouco
O reconhecimento na ausência
um pequeno retoque no silêncio
Ana Luísa Amaral, Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, p. 38.
Driving Miss Laura # 10
Leitora retardatária do blog do motorista, Miss Laura, ainda que agradecendo, faz notar que Frei Bento Domingues não só falou em teologia experimental como também em espiritualidade experimental, o que para si, Miss Laura, é mais importante. Porque mais quotidiano, mais por dentro da vida. Mas Miss Laura perdoa a desatenção do motorista e sublinha a sua disponibilidade (dele, motorista) para com membros de um clube ao qual nunca pertenceu. Assim sendo, por agora é tudo.
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Isso é
Isso tudo aí
Ela perguntou à amiga, eu apenas estava na mesa ao lado. É o amor que faz girar o mundo? Gostaria de ter respondido: sim. O amor, a falta dele, o contrário dele, a ambiguidade dele, os inúmeros adjuvantes dele, enfim, isso tudo aí. Entretido na resposta que daria, não ouvi a resposta que ela deu. Acontece muito no amor, também.
O que será?
Onde andará?
Rememorar. Lê-se Lavagante relendo Cardoso Pires. Não há nada de estranho nisso, nem este tipo de textos, mais ou menos inéditos, pretendem verdadeiramente outra coisa que isso. Rememorar é também da dimensão da melancolia. É muito difícil não ler aqui o esboço de um modo narrativo que se tornaria emblemático logo de seguida, em O Delfim: distância, deambulação, conhecimento por interposta pessoa, suspensão do fim. Ou não pensar que se assiste aqui ao nascimento desse motivo descritivo tão peculiar em Cardoso Pires (e tão auto-referencial) que são as mãos, essas mesmas que em Alexandra Alpha terão um papel decisivo. É por isso que rememorar é também da dimensão da melancolia: surpreende-se a origem quando ela já nada pode explicar, quando tudo está consumado e nada mais há senão reler.
E contudo — contudo Lavagante deixa-me a viva sensação de um romance que Cardoso Pires não escreveu. Reformulo. Lavagante mostra (lateralmente? no cerne?) um motivo romanesco que um autor como Cardoso Pires não deixaria escapar (suposição temerária, já se vê). Aquela Cecília que passa dos braços de um resistente ao regime para os braços de um pide (passa? ou toma nos seus braços? a política não lhe interessa, diz ela); aquela Cecília que sorri enigmaticamente durante o confronto entre os dois homens, como que equidistante do amante e do perseguidor do amante; aquela Cecília que conhece e reivindica conhecer pela sua experiência erótica (on devient femme, on devient femme..., diz ela) — é uma personagem que transporta consigo todo o enigma que um romance poderia ir escavando. E a força desse enigma!.. É também isto a melancolia, um tipo ir virando as páginas e cogitar com o seu cigarro & whisky (que eu não fumo nem bebo, mas isso são outros vícios): onde andará o romance que aqui falta?








