Alexandrínicos Dilemas
E fico neste estado catatónico,
telegráfico, estúpido, lacónico,
quando te vejo ou ouço a tua voz.
Bem queria que passasse este registo,
que, se é para ser isto sem ter isto,
melhor que te tomar é tomar pós
de frutos, contra enjoos, suculentos,
bons para a pele, na alma como unguentos
on band-aids em chuva autocolante.
Mas em qualquer dos casos, o que resta
é: não te veja, ou veja (em curta festa):
a saudade: submersa e naufragante.
Não te posso ouvir mais, digo três vezes,
e com muito fervor e muitas preces,
como se esconjurasse Satanás.
Depois, uma palavra, um leve traço,
um minúsculo gesto abrindo o espaço
e, mesmo que não estejas, aqui estás.
E sentas-te a meu lado na cadeira.
Ninguém te vê: só eu. A curva inteira
do pescoço, dos ombros, ou da mão.
Toco-te levemente e o vizinho
na mesa ao lado, espreita-me, de mansinho,
pensando que perdi toda a razão.
E devo ter perdido, se o real
me parece uma coisa desigual,
um band-aid barato, a descolar.
E a única coisa mais parecida
com o ser realmente é uma vida
que não posso, nem devo acarinhar.
E até essa palavra lembra ti,
e a fractura começa por aí,
numa sintaxe que não sei rimar:
Não te posso ver mais. Não, não e não!
(E sai-me o verso assim, como vulcão
limitado a explodir dentro do mar.)
E agora, o quê? Pergunto-me, interrogo-me,
faço das linhas coração. E chovo-me:
miríade em band-aids, tão veloz:
é que fico na mesma catatónica,
meio estúpida, letárgica, lacónica,
se torno em verso, e minha, a tua voz.
Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, pp. 26-27.
O real em band-aid barato, uma história conhecida
Encontramo-nos então no bar, depois da hora de fecho?
A indecisa matéria (auto?)biográfica
Não, não vou dizer que os tempos não estão fáceis para a poesia. Porque nunca estiveram. Ou numa variante ainda mais dura, foi quando a poesia pareceu mais aceitável que a tarefa de ser poeta era verdadeiramente secreta, difícil, ininteligível. Mas deixemos isso.
O que é certo é que a poesia vive hoje a sua condição estritamente terrena. Há as excepções, bem entendido, como há também um sem número de poetas anacrónicos e altamente literatos. Mas deixemos isso também.
O problema é que alguma coisa resiste. E este problema é logo seguido de um outro, que é o problema de que alguma coisa acontece que resiste a desaparecer. O primeiro problema é da ordem do real: há coisas aí, anteriores a nós, independentes de nós, estão aí. O segundo problema é da ordem da existência: há coisas que nos acontecem, e depois de nos terem acontecido não nos desacontecem. Que fazer com estes dois problemas?
Tratá-los com um certo tom menor parece ser de regra. Entre a auto-ironia, que tem as suas vantagens, e a denegação, que tem os seus custos humanos. Ana Luísa Amaral está desde sempre à vontade na auto-ironia, é até estratégia central da desconstrução que opera de certos lugares da poesia e do feminino poético, mas não cede à denegação, antes sublinha certas impossibilidades de um menos viver muito contemporâneo: “O tempo agora é este: / o de fazer tão rentes as canções” (p. 50). E sem denegação, há certas coisas — os tais dois problemas, por exemplo — que reaparecem na sua gravidade, mesmo que os contextos acentuem a distância que sempre se deve ter face aos modos retóricos de dizer tais coisas graves.
Uma forma de distância consiste em singularizar radicalmente a experiência da vida e do mundo, evitando a generalização ou a sabedoria do sistema, mas sem deixar de sub-entender a gravidade de “um pequeno holocausto / que é só meu” (p. 86). Outra, mais decisiva, até porque constitui algo parecido com uma poética, é conduzir toda a dicção para uma espécie de entre-dois: “É num tom desses que eu me sei mover: / no intermédio cruzamento / dos portões do real, / nas despensas do mundo” (p. 101). Com uma ressalva sintáctica que não é de somenos: a quantidade imensa de poemas que aqui terminam com travessão — forma suspensiva que infinitiza o fim, por um lado, mas que por outro o entrega a agenciamentos ainda por formular.
Relidos a esta luz alguns dos principais poemas deste livro — poemas como “Alexandrínicos dilemas”, “Claves e distâncias (quatro poemas)”, “Copérnico, Chopin, Boeing 747”, “Entre dois rios e muitas noites”, “Ovelhas e bibliotecas: sofrimentos”, “Que escada de Jacob?” —, a indecisa matéria (auto?)biográfica que os ergue ganha contornos de dicção exemplar sem exemplum a transmitir: apenas o que aí está e o que já não nos pode mais desacontecer. Dito de outro modo: “Horror é conhecer: / tudo o resto se cura / com a vida” (p. 84). Para gravidade basta. E para uma vida, também.
Acordo ortográfico
Um leitor devidamente identificado acha que eu devia ter opinião sobre o acordo ortográfico. Acontece que não tenho. Nem me preocupo minimamente em ter. Há coisas que tanto se me dá, e essa é uma delas. O leitor devidamente identificado acho que eu devia ter uma opinião sobre o acordo ortográfico porque isso vai afectar a literatura, o modo de escrever, etc. Sobre isso, sim, tenho uma opinião, melhor, uma certeza: não vai afectar coisa nenhuma. Afecta a norma, mas a literatura está muito depois da norma, tão depois da norma que pouco se lhe dá que a norma seja esta ou outra qualquer. Mas eu sou o tipo de crítico que acha que um conceito como literatura portuguesa (ou literatura de qualquer outra nacionalidade), embora tenha a sua utilidade, não chega realmente para aceder ao essencial. Que quando toca a falar de um autor que merece esse nome, o melhor a fazer é considerá-lo como toda uma literatura que nasce e morre com ele. E dentro dessa literatura, uma língua (menor, apátrida, marginal: a língua de Vergílio Ferreira é uma, a de Llansol outra, a de Lobo Antunes outra ainda, etc). Sim, eu sei que há aqui algumas ressalvas a fazer. E faço-as. Mas são apenas isso: ressalvas.
Das definições inúteis # 3
A maioria das pessoas não conhece a maioria das pessoas. Ficam nos seus carros, ao domingo, a apanhar sol e a queixar-se: ninguém nos conhece, que triste é a vida. Antes de o sol se pôr regressam a casa.
Chove. Intensamente. É noite.
Apontamento IV
Uma pequena luz
à Bergman:
tão difusa que quase o branco
das paredes em tanta luz há pouco
O reconhecimento na ausência
um pequeno retoque no silêncio
Ana Luísa Amaral, Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, p. 38.
Driving Miss Laura # 10
Leitora retardatária do blog do motorista, Miss Laura, ainda que agradecendo, faz notar que Frei Bento Domingues não só falou em teologia experimental como também em espiritualidade experimental, o que para si, Miss Laura, é mais importante. Porque mais quotidiano, mais por dentro da vida. Mas Miss Laura perdoa a desatenção do motorista e sublinha a sua disponibilidade (dele, motorista) para com membros de um clube ao qual nunca pertenceu. Assim sendo, por agora é tudo.
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Isso é
Isso tudo aí
Ela perguntou à amiga, eu apenas estava na mesa ao lado. É o amor que faz girar o mundo? Gostaria de ter respondido: sim. O amor, a falta dele, o contrário dele, a ambiguidade dele, os inúmeros adjuvantes dele, enfim, isso tudo aí. Entretido na resposta que daria, não ouvi a resposta que ela deu. Acontece muito no amor, também.
O que será?
Onde andará?
Rememorar. Lê-se Lavagante relendo Cardoso Pires. Não há nada de estranho nisso, nem este tipo de textos, mais ou menos inéditos, pretendem verdadeiramente outra coisa que isso. Rememorar é também da dimensão da melancolia. É muito difícil não ler aqui o esboço de um modo narrativo que se tornaria emblemático logo de seguida, em O Delfim: distância, deambulação, conhecimento por interposta pessoa, suspensão do fim. Ou não pensar que se assiste aqui ao nascimento desse motivo descritivo tão peculiar em Cardoso Pires (e tão auto-referencial) que são as mãos, essas mesmas que em Alexandra Alpha terão um papel decisivo. É por isso que rememorar é também da dimensão da melancolia: surpreende-se a origem quando ela já nada pode explicar, quando tudo está consumado e nada mais há senão reler.
E contudo — contudo Lavagante deixa-me a viva sensação de um romance que Cardoso Pires não escreveu. Reformulo. Lavagante mostra (lateralmente? no cerne?) um motivo romanesco que um autor como Cardoso Pires não deixaria escapar (suposição temerária, já se vê). Aquela Cecília que passa dos braços de um resistente ao regime para os braços de um pide (passa? ou toma nos seus braços? a política não lhe interessa, diz ela); aquela Cecília que sorri enigmaticamente durante o confronto entre os dois homens, como que equidistante do amante e do perseguidor do amante; aquela Cecília que conhece e reivindica conhecer pela sua experiência erótica (on devient femme, on devient femme..., diz ela) — é uma personagem que transporta consigo todo o enigma que um romance poderia ir escavando. E a força desse enigma!.. É também isto a melancolia, um tipo ir virando as páginas e cogitar com o seu cigarro & whisky (que eu não fumo nem bebo, mas isso são outros vícios): onde andará o romance que aqui falta?
Apetece ter lá estado
Com Esbjorn Svensson nunca se sabe muito bem o que nos vai calhar: aquele jazz-fusão que não frequento e depressa esqueço, as derivas lírico-jarrettianas com menos génio, ou aquele som que vai construindo e identificando o seu trio. Com Live in Hamburg calhou-nos a sorte grande. Quando o trio embala para a fusão, fá-lo sob modo experimental, o que é estranho mas entusiasmante: nada daquele reconhecimento que bordeja o easy listening, mas uma verdadeira pesquisa acerca do choque de estéticas e de formas de trabalho composicional. Nos temas mais classicamente jazzísticos, em regra de tempos lentos ou médios, a empatia do trio e a exploração lírica do piano têm já um som inconfundível. Tudo isto com o calor do live.
Driving Miss Laura # 9
Demasiadas tarefas suspensas no ponto de partida. Regresso através da noite. Longa noite do mundo.
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Driving Miss Laura # 8
Demasiadas tarefas suspensas no ponto de partida. Agenda carregada no ponto de chegada. António Marujo entrevista Miss Laura, para o Público. Já de tarde, longa sessão de fotografias. Miss Laura equilibra-se entre o corpo de modelo e a ironia da situação. No espaço do Graal, um sexto andar aberto sobre Lisboa, Frei Bento Domingues apresenta o livro. Pequena tertúlia quase íntima, que um sábado de sol convida a ir para fora. Frei Bento deambula bem ao seu jeito pela história das mulheres dentro do cristianismo. Tudo isto é dissertação teórica, afirma, pode-se concordar ou não. Mas este livro é teologia experimental, e isso muda tudo. Não se trata de concordar ou não, trata-se de arriscar sentidos de existir. A conversa desata-se. Sem perguntas nem respostas, flui no cair da tarde.
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Das definições inúteis # 2
A maioria das pessoas só compreende o que consegue compreender. Têm toda a razão quando dizem que são umas incompreendidas.
Companhia nocturna # 9
Regresso
Tudo se cura com a vida. Mas quase nada disso importa.
Regressando de “a partir de” Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, p. 84
Travessia
Horror é conhecer. Também existe o que não se sabe — e todavia importa e decide e vive.
a partir de “a partir de” Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, p. 84
Em atraso
Horror é conhecer. Tudo o que é possível vem depois.
a partir de “a partir de” Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, p. 84
No man’s land
Horror é conhecer. Horror e solidão é conheceres-te a ti próprio. Tudo o resto se resigna à vida.
a partir de Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, p. 84
Desvio
Horror é conhecer:
tudo o resto se decompõe
com a vida
a partir de Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, p. 84
Outro dia na terra
Aula quase-livre

Faz sentido. Quando chegam os limpa-chaminés, alguma coisa acabou. Por exemplo, um livro de micro-contos: “este pequeno texto dedicado aos limpa-chaminés foi pelo autor reservado para ser o último deste livro”. Mas não é. Há ainda mais um, de seu nome “Red delicious”. Que começa de uma maneira que imediatamente convoca alguma rememoração: “Adão trincou a maça com prazer”. Mas não é só a cena de origem que assim se apresenta. É também a cena deste livro particular que se re-apresenta para se encerrar. Rememoremos: “Literatura. Uma macieira que dá laranjas.” Bem podemos pressupor: fruto red delicious. Mas de pouco vale pressupor, porque logo entra o desvio: aquela maçã (ou laranja, ou pêssego, ou limão, ou lá o que é), tem bicho, e Adão exige de imediato o livro de reclamações. Sintetizando muito (o mais próximo que me é possível da micro-crítica, digamos) diria que todo este livro é parte do que Adão e seus descendentes escreveram nesse livro de reclamações que Deus se esqueceu de fazer conjuntamente com a criação. E que a Caravana é o meio de transporte de quem se desvia do Diabo, que foi quem Deus chamou para se ver livre de Adão e da sua testemunha, Eva. Como teologia, não é lá muito canónico. Como literatura e sua implícita teoria — you got a point.
Agora eu vou ler outra vez para depois fazer a apresentação, sim? Depois a gente volta a falar.
Cartão, tecidos, luz verde
Agora tenho a certeza. A luz verde da tarde é a prova. Devia ter ido ver o Rauschenberg no inverno. Aquela ironia de cartão e demais utensílios imprestáveis era boa para meditar no sofá em frente da lareira. O carrinho de mão com mangas descomunais é uma bela metáfora conceptual para a gente aconchegar no colo junto com o gato que não temos. E a leveza dos tecidos, nos seus padrões de decoração proletária ou de gente remediada, arrimados a veleiro e outros sonhos de escape — ficariam tão bem naquele sol de inverno sobre o casario húmido, alcançando a barra e as rotas que prometem o verão...
Agora tenho a certeza. Entender, acho que entendi. Mas lembrar-me, só da enorme giesta no jardim, na tarde lá fora. À ida, com chuva forte (mas clara); à vinda, com todo o sol aberto em verde e flor branca.
Das definições inúteis # 1
A maioria das pessoas são como são. Algumas, melhores do que são. E muito poucas, piores do que são. Está bem de ver que o problema reside em a maioria das pessoas serem como são.
Companhia nocturna # 8
Driving Miss Laura # 7
Autógrafos. Sorrisos. A manager da editora, um pouco incrédula: mas acha mesmo que não estava nenhum padre na assistência? Mandei mails para tudo quanto era ecclesia, é braga... Miss Laura: não reconheci nenhum. Mas recebi agora esta mensagem de um padre amigo: pus-me a ler o seu diário e nem dei conta que passou a hora do lançamento, desculpe-me. Sorriram ambas.
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Driving Miss Laura # 6
Perguntas e respostas. Um livro que não queria ler, embora o tivesse escrito. Mas quem escolhe, quem pode escolher? Há dor que ensina, há dor que humilha e não faz sentido. Tomara podermos escolher. Há um medo que nos chama até onde não sabemos, há um medo que nos avisa com sabedoria. Tomara podermos distinguir. Perguntas e respostas. E aquela pergunta: vai haver mais volumes do Diário, não vai? Miss Laura sorriu.
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Driving Miss Laura # 5
Livraria Centésima Página, Braga. Cinquenta pessoas. Aparentemente, nenhum padre na assistência. Frederico Lourenço fala e leva uns papeis de que pede desculpa: “a autora diz no livro que prefere as comunicações faladas às lidas, estão a ver, é um problema...” Começa a chamar à autora Laura Ferreira dos Santos, acaba em Laura — é assim o movimento da interpretação, cogita no seu canto o motorista. Religião, doença, dor. Andamento autobiográfico sem auto-comiseração. A velha lição do mundo: a realidade é muitas vezes mais espantosa que a ficção. A melómana: ah, as cantatas de Bach, essa prova tão simples da existência de deus... Simpatia & provocação. Razões de queixa do catolicismo — sim, compreende-as, também as tem. Aliás... Aliás — talvez as tenha mais. Quem mais ostracizado? A Igreja comporta a feminista enquanto feminista, não o homossexual enquanto homossexual. Mas tudo está para além disso, sem que isso deixe de ser importante. No fundo, o combate com a descrença. A dor ensinou-a? É verdade que a dor nos pode aproximar do essencial? A palavra a si, Laura.
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Aula teórico-prática

Sim, estou a ler devagar, como se impõe. Tenho coisas a dizer, mas não tem de ser necessariamente aqui. Nem aliás em lado nenhum. Esse é o grau da minha liberdade, tenho-o compreendido nos últimos tempos. Mas não convém misturar as histórias, se bem que isso também não tenha importância por aí além. Entremos em matéria.
A páginas noventa e sete, um micro-conto intitulado “Maçã”. A gente lembra logo o conto inicial: “Literatura. Uma macieira que dá laranjas.” Re-começo, agora sem desvios? Pouco provável, ainda que já se tenha visto. Mas haverá sequer alguma ligação com o primeiro micro-conto? Virá esta maçã da primeira macieira, depois de ela ter dado laranjas? As perguntas poderiam continuar pachorrentemente especulativas, não fosse o livro estar ali aberto e haver conto (micro) por debaixo do micro-título. Nesta luta entre pensar/especular e ler, ler acaba sempre por levar vantagem — o que não é grave, apenas natural. Mais do que isso: necessário. Para depois se poder re-ler, que é uma forma já programática (ou será apenas consentida?) de pensar/especular. Portanto, “Maçã”.
A coisa é simples. “Um homem decide plantar-se no meio dos campos à espera de dar fruto”. Passados tempos, “uma prodigiosa laranja irrompe de um dos lados da cabeça.” Mas alguém explica que aquele fruto é afinal um pêssego. Não, um limão. Então o homem “Decide acabar com aquilo. Desfaz em pedaços a maça prodigiosa que tinha nascido da sua cabeça. E desta vez tudo se torna claro a seus olhos. E levantando a voz diz: «Então era isso!»”.
De alguma maneira, apetece re-começar: Literatura. Uma macieira que dá maças que parecem laranjas, não, pêssegos, não, limões, não, qualquer coisa cuja vantagem é poder ser desfeita em bocados, como qualquer fruto. E comida. Na evidência da digestão, pode acontecer que alguém diga: Então era isso. E era, de facto: uma forma de salada de frutas. Mais do que desvios — intercessões. E de como a coisa compõe sem compor uma teia de re-envios e de projecções: fatalidade incontornável de uns quantos micro-contos se encontrarem dentro de um livro. Perdão, de uma caravana.
Não é contagioso, mas pode ser viciante
Enquanto o informático não me vem ajudar na barra dos links, que isto está tudo pendurado por um fio, vou lendo com o café da manhã. E às vezes também com o da tarde.
Companhia nocturna # 8
Lentamente, vai-se desprendendo a música da poeira de lugares longínquos, do sol longo cheio de cores nítidas, até ser aqui esta noite de água — e a tua mão marinheiro [é um verso do Eugénio, não é? saltou tão nítido na frase que esqueci de todo o que ia escrever em seu lugar — sortilégios da música (e da tua mão)].
Bem me queria parecer
Estão definitivamente esclarecidas as diferenças programáticas que dividem Obama e Hilary. É tudo uma questão de antepassados remotos. Brad Pitt e Obama terão tido antepassados remotos comuns. Madonna, Angelina Jolie e Hilary terão tido também antepassados remotos comuns. O estudo não vai tão longe, mas é possível que os antepassados remotos de cada um destes antepassados remotos comuns tenham sido também comuns. E muito remotos. Para aí anteriores à descoberta da América. Cherchez l'europe... Ou por aí.
Cesário # 4 [arrumado]
Há uma falácia demasiado comum em estudos literários e que aparece em todo o seu esplendor neste livro de Filomena Mónica: é a que consiste em sublinhar o génio de um autor por cotejo com a paupérrima produção da sua época. Como se para a literatura fosse condição suficiente ter um olho em terra de cegos. Ou como se me valesse de alguma coisa ser o maior escritor da minha rua.
Qual a vantagem
de fazer críticas ou lá o que é que são maiores que os micro-contos, disse ela já sem hesitações.
Mas o problema
mesmo é por serem muito compridos, voltou ela a dizer.
Cesário # 3 [preparar para arrumar]
Este post esteve meio-escrito tempo demasiado. Foi sendo ultrapassado pelos acontecimentos críticos. Já tinha desistido. Mas não consigo arrumar o livro sem arrumar isto.
Comprei-o mal saiu. Um impulso. A beleza do livro enquanto objecto, a vontade de voltar a Cesário, o lado biografista. Nem o título desastrado me afastou, pu-lo na conta de marketing banal para hipermercado em tempo natalício e saltei por cima.
Pedro Mexia e António Guerreiro já há muito que puseram o livro no seu devido menor lugar.
A minha questão é outra. É Filomena Mónica reivindicar para Cesário um lugar icónico semelhante ao de Pessoa. Note-se que não se trata de dizer que Cesário mereceria um lugar canónico idêntico ao de Pessoa: essa questão judicativa estará sempre em aberto, como por definição o cânone o está, ainda que se apresente a mais das vezes como fechado — ou não fosse cânone, precisamente. A questão é reivindicar uma fortuna de público para Cesário como aquela de que Pessoa goza — o que já não é uma questão de literatura, mas de sociologia. Sociologia do gosto, seja — mas sociologia. Ora, enquanto questão sociológica parece-me óbvio que Cesário já não fala o “espírito deste tempo”, nem falará nunca o espírito de qualquer tempo que venha. Isto nada retira ao seu génio, apenas diz que esse génio viverá apenas naquele território em que a cultura permite traduzir para o tempo que nos calhou viver aquilo que o submete a crítica, que o põe em contra-luz.
Cesário descreveu um tempo que se fechou rapidamente, salvo duas ou três anotações fulminantes de pendor “metafísico”. Pessoa fez falar a matriz de um tempo que lentamente, muito lentamente, se vai fechando. Como é que uma socióloga não percebe isto?
Multiplex # 42 (dois)
Multiplex # 42 (um)
Nada de equívocos. Levantar-se de noite para regressar ao lugar do “crime”, levando água a um moribundo que não se socorreu em devida altura e que já deve estar morto, já foi episódio capaz de sustentar todo um filme sobre o edifício do rebate de consciência (ou desejo inconsciente de punição, tanto faz). Não é aqui o caso. Mesmo não regressando ao lugar do “crime”, ele seria sempre encontrado, é para isso que a mala do dinheiro tem um chip localizador. O capitalismo avançado não depende de rebates de consciência nem de dramas éticos, simplesmente dir-se-ia que avança mais depressa para os seus fins onde houver tais rebates ou dramas. Este mundo não é para velhas questões. Mais vale sair quanto antes e conforme se puder.
Aula teórica
Considere-se ainda o primeiro micro-conto de Rui Manuel Amaral in Caravana:
LITERATURA
Uma macieira que dá laranjas
O acerto da definição provém do grau de desvio: é suficiente, na medida em que se passa de um género a outro, mas mínimo, porque se mantém dentro da mesma família. Isto prova-se no supermercado, para não irmos mais longe: maçãs e laranjas estão no mesmo apartado, às vezes lado a lado.
A partir deste grau mínimo de desvio é possível gerar desvios cada vez maiores, dando conta da pluralidade das literaturas. Se considerarmos uma concepção do tipo “Literatura. Uma pereira que dá nozes.”, sendo evidente que estamos ainda em presença da literatura [o título não engana quanto a isso], o grau de desvio consideravelmente maior [basta atentar em que alguns supermercados têm frutas frescas mas simplesmente não têm frutos secos] indiciará, talvez, que entramos já em terrenos da para-literatura.
Por esta lógica, será possível também alcançar uma concepção razoável de não-literatura. Por exemplo: “Não-Literatura. Uma árvore qualquer que secou.” Ou ainda: “Não-Literatura. Uma árvore tão carcomida por dentro que nem se aproveita para lenha, mas que deu paulo coelho.” Esta última concepção, porém, tem a característica muito particular, deveras idiossincrática, de ser demasiado verdadeira, por isso singular, o que não será muito aproveitável quando se quer fazer sistema. São os limites da teoria, já se vê.
Aula prática
Considere o primeiro micro-conto de Rui Manuel Amaral in Caravana:
LITERATURA
Uma macieira que dá laranjas
- Discuta esta concepção de literatura perante outras concepções concorrentes, enquadrando-as na sistemática teorética do fenómeno literário.
- Examine a lógica contra-factual da inversão possível do micro-conto: “Literatura. Uma laranjeira que dá maçãs.”
Micro-ficção em andamento

Estamos tão habituados a sofrer ou a vergastar o absurdo do país, que nos esquecemos que há um absurdo maior, tão antigo quanto a humanidade e tão salutar quanto arreganhar os dentes à ordem do universo. Os micro-contos de Rui Amaral fazem-nos rir de uma forma metafísica e perfeitamente natural. Eis um autor que sabe que o absurdo é irmão gémeo da lógica do mundo, e não receia experimentar a sua companhia. Não há muitos em língua portuguesa. Devíamos tratá-lo como espécie protegida.
Isto foi o que escrevi para a contra-capa a partir da leitura das provas. Agora vou re-ler em livro — faz a sua diferença, como sabem todos os que gostam de livros. Depois eu conto.
De vez em quando # 2
De vez em quando a nostalgia. Natural como a luz ter a sua noite. [Eu sei, é um lugar comum. E de uma verdade duvidosa: quanta nostalgia em certas inclinações da luz, quanta paz em certos recantos de sombra.] Mas a nostalgia tem em nós o seu caminho próprio. E de Mayra Andrade passei num ápice a Bonny Prince Billy: and then I see a darkness, and then I see a darkness, and then I see a darkness, and did you know how much I love you, and then I see a darkness, and then I see a darkness, and then...
quatro movimentos
primeiro movimento: o carro entre montanhas e árvores
segundo movimento: a bicicleta entre montanhas árvores e água
terceiro movimento: os trilhos para o andar do corpo
quarto movimento: descansar no começo do mundo: água pedra vento
se isto tivesse tags: campo do gerês, mata da albergaria, dia mundial da poesia
Nunca veio
Vida e morte na Europa: Chantal, Claus, Kazemi
Também ontem, na vizinha Bélgica, o escritor, cineasta e pintor Hugo Claus, atingido por Alzheimer, pôde beneficiar daquilo que foi negado a Chantal: através de directiva antecipada, determinou o momento da sua morte, pedindo eutanásia, prática legalizada no país desde 2002.
Entretanto, Madhi Kazemi, jovem iraniano homossexual que corria o risco de ser deportado pelo governo inglês para o seu país de origem, aí enfrentando muito provavelmente a morte (como já acontecera ao seu companheiro), viu ser adiada a sua sentença. Para isso, muito terá contribuído a pressão de posições como as expressas entre nós por Eduardo Pitta (e vale a pena dizer que soube do caso pelo seu blogue antes de o saber pela Amnistia Internacional). Mas é preciso continuar a insistir.
A Europa em que me reconheço protege a vida dos perseguidos e ameaçados, dando-lhes condições para preserverar, e protege a ideia de vida dos que estão à beira da morte inevitável, concedendo-lhes o direito de morrer segundo os seus próprios termos e convicções.
E outra deriva, em todo o caso
Como uma ressalva. Porque o alentejo existe (é um exemplo empírico). Ou o mar (é outro exemplo empírico). A noite sobre o alentejo, a noite sobre o mar. Porque isso existe: a terra não se distinguir do mar no rumor da noite (é também um exemplo empírico). Existe ainda a noite por debaixo de mar e terra, curvando, erguendo o nosso sono até à manhã alta.
Em todo o caso, uma deriva nocturna
Como as unhas que crescem se retorcem sobre si mesmas, assim o mundo, tendo crescido até à sua completa globalização, se fragmenta para dentro de si próprio. Onde o navegador via o espaço aberto e sem sinais do infinito, ou o aventureiro no alto da montanha sentia a vertigem de picos infinitamente mais altos, há agora um labirinto acabrunhado que não é campo da imaginação ou do imprevisível mas apenas cansaço de uma viagem sem ponto de fuga.
Em todo o caso, dois poemas
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito.
**
No metro
cruzam-se as pessoas
como cartas de jogar
postas sobre a mesa
Uma capa que vale o livro...
He never asked to be raised up from the tomb
Ninguém te perguntou nada, Lázaro. Se realmente querias ressuscitar. Pediram por ti, mas ninguém te perguntou nada. Estavas morto. E quem pediu por ti nada sabia da experiência de estar morto. but what do we really know of the dead & who actually cares?! Pediram por ti, mas ninguém te perguntou nada. E nada mais sabemos de ti. Como viveste depois, como morreste outra vez, o que disseste e o que calaste. dig yourself, Lazarus (dig yourself back in that hole).
Cinemateca 1 - Piercing 0
Portanto, para os que dizem que o governo endoideceu, responda-se-lhes que não é verdade, as partes cinematográficas estão bem e recomendam-se.
Multiplex # 41
A diferença Tim Burton. Quando a garganta da mulher amada é cortada, o sangue não esguicha como em todos os outros casos, é apenas larga queda de água silenciosa e apaixonadamente vermelha. Quando a garganta dele é cortada, o mesmo. O amor que morreu antes da sua morte natural é implosivo, abundante no seu derrame, silencioso até alcançar o fim do fim.






















