Companhia nocturna # 13

Respirar.

Os infortúnios da virtude # 3

Mais devagar. Não te permitas presumir da inocência que deveras tinhas. Ou da confiança com que confiaste. Mesmo o termo “ingénuo” ainda guarda alguma da nobreza dos simples. Tenta antes “estúpido”. É capaz de ser mais realista. E depois de estabelecido o estúpido, então sim, junta-lhe em partes iguais a inocência e a confiança — aí terás a razão de que é feita a tua estupidez particular.

Cantar como quem olha [em silêncio?]

Cantar como quem parte [em silêncio?]


Companhia nocturna # 12

Uma voz que dá ao quase-verão da noite a leveza quente do outono.

Oscilações pós-metafísicas

Confesso que esta notícia me abalou. Não a compreendi na sua integralidade e nos próximos tempos (e nos outros a seguir) não vou poder aprofundá-la — mas abalou-me. O T-Rex era uma galinha avantajada? O T-Rex evoluiu para as actuais galinhas? Eu sei, que até aí ainda tive tempo, que a selecção natural não é aquele treta da sobrevivência do mais forte, mas puro jogo de sorte e azar. Eu sei que a selecção natural não é nem um vasto curso de aperfeiçoamento moral nem uma história de progresso. Eu sei. Mas não haverá aqui um excesso qualquer? O T-Rex era uma galinha avantajada? O T-Rex evoluiu para as actuais galinhas? Apeteceu-me logo rir que nem um doido e chorar como um perdido. Enfim, deve ser do cansaço.

Eis um exemplo de uma fuga de informação cujo objectivo só pode ser enterrar ainda mais o PSD, nomeadamente a putativa candidatura de Alberto João Rex

Cientistas têm provas de que as galinhas são as descendentes do Tyrannosaurus-Rex, que afinal era apenas uma galinhola gigante.

WC Lectures # 23

É um livro inteiro. A contracapa é livro, a badana é livro, tudo tem a marca inconfundível de José Carlos Fernandes. O risco é alto, muito alto. Desenho de página inteira, nas pares. Texto curto, nas ímpares. Superlativos os desenhos, quase-perfeitos os textos (podar uma ou outra rima interna, e algumas articulações “rangentes” por causa dos demonstrativos, é só). Um dia, não vamos ter adjectivos para a qualidade crescente de cada novo livro de José Carlos Fernandes.

PS: ah (e até vem a propósito) apenas uma coisinha no texto de introdução, essa referência ao comediante que fugazmente passou pelo cargo de primeiro-ministro de Portugal — é ofensivo para os comediantes, não havia necessidade.

Uma nova velocidade

As pessoas mal dão por isso. Um belo dia sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul, um azul fino, alegre, e dizem: “Já sei.” Depois descobrem as pombas do Rossio e as colinas pousadas diante do rio, cobertas de uma luz macia, feminina: descobrem uma nova expressão no andar das mulheres e um novo perfume — nelas e na cidade. E todos regressam mais tarde aos autocarros e a casa. É isso a Primavera: um novo sentido no olhar, uma nova velocidade. “Já sei”, dizem as pessoas.

José Cardoso Pires, Lavagante, encontro desabitado, p. 63.

A nossa função é estar abraçadas sem braços

Eu bem dizia que aquilo não era um epílogo. E isto não é uma continuação. É outra coisa: uma função. A nossa função é estar abraçadas sem braços.
Que está à distância certa desta outra coisa, para ser exacto à distância de onze anos (sim, estava quase a deixar de ser novo, finalmente), em contexto e condições a que voltarei, porque terá que ser (e por causa das gaivotas): “E diria também, num gesto que gostaria que fosse tão simples quanto o de uma gaivota que parte, que estes todos que fazem isto, e eu que também fiz isto, o fazemos com a consciência de que escrever não é assim tão importante — mas que outra coisa poderíamos nós fazer senão isto?”.

Exemplar número três

Se isto fosse uma história, haveria uma cidade que se visita por uma temporada relativamente longa. De cada vez que lá chegamos vamos alojar-nos num bairro diferente, tentando perceber e sentir mais um pouco da vida que ali se desenrola. Estudar um livro não é muito diferente de visitar mais ou menos longamente uma cidade que não é a nossa morada habitual [ah, mas qual será a cidade habitual de quem vive de estudar livros?..]. Muda-se de bairro para mudar o que se vê, donde se vê, os itinerários — enfim, isso com que se vão esboçando sentidos. Também pode acontecer voltarmos às mesmas casas e ambientes, para que algum tempo depois possamos confrontar a memória, o aprendido, com o que terá mudado ou se terá desocultado.
Partirei para Finisterra para uma terceira estadia. Seis anos depois do último encontro. Não sei ainda em que bairro me instalarei. Não sei exactamente o que espero encontrar. Única bagagem: um exemplar novinho em folha e um lápis. Eu sei que não há mais começos. Eu sei que não há concepção imaculada da leitura. Mas cada um faz o que pode para merecer continuar a ler.

Companhia nocturna # 11



O itinerário é sempre este: é a música quem vai ao lugar onde nós para sempre não coincidimos connosco mesmos.

Companhia nocturna # 10

O itinerário é sempre este: somos nós quem vai ao lugar onde a música habita.

Psicopatologia da vida quotidiana # 38 [raccord]

Por maior que seja, é sempre a small dick. Grande é o falo e a sua fantasia.

Psicopatologia da vida quotidiana # 37 [raccord]


Hipótese um: "Tinha substituído a esposa mais prestimosa que se podia imaginar por uma que entrava em pânico à mais ligeira pressão. Mas, no rescaldo imediato do que tinha sucedido [a mulher descobrir que ele tinha uma amante], casar com ela tinha-lhe parecido a maneira mais simples de ocultar o crime." [Philip Roth, Todo-o-Mundo, p. 125]

Hipótese dois: "Um excesso de indignação pode deixar subentender que há alguma coisa valiosa naquilo que provoca tal reacção. Um desprezo calculadamente indiferente é bem mais eficaz em deixar o outro abandonado na terra-de-ninguém a que as suas ilusões o conduziram." [Luís Mourão, A sabedoria em posts & outras nulidades, no prelo]

Raccord: Contudo, ler mais de perto, ver mais de perto, e os seus antecedentes, não fazem propriamente raccord com isto. Quando muito, assaz longinquamente, montagem paralela. Mas também, qual o interesse disto para além de evitar falar de menezesboavistabenfica?

Ler mais de perto: isto não é um epílogo


Em algum momento, o que guardas de ti é um manequim desbaratado. Nenhum cálculo te serve e já não há tempo para recomeçar as perguntas desde o princípio. Finalmente, estão reunidas as condições para tomares uma decisão. As consequências serão realmente irrelevantes, mas de certeza irreversíveis. E num capítulo mais à frente desapareces de cena, como é de regra numa soap opera atenta a novos personagens e peripécias. Talvez ainda possas experimentar um pouco da liberdade, quem sabe o que isso é?

Ler mais de perto 4: O real em band-aid barato, outra história conhecida


A dor está-se nas tintas para isso. Faças o que faças, é ela quem decide. Quanto tempo fica, onde fica, a fazer o quê. Um dia parte. A única coisa de que se pode ter a certeza é que num outro dia regressará.

Ler mais de perto 3: Mesmo bar, mesma hora?


Aproveitar a happy hour um pouco deserta, partir pedaços da história em cubos de gelo, girar o tempo no suporte do copo. Curioso, dizia, sabemos sempre quando não perguntamos nada.

Ler mais de perto 2: O real em band-aid barato, uma história conhecida


Barrou-lhe o número para chamadas e mensagens, ficou na casa de um amigo que partira em viagem. Quinze dias depois soube que a vida no outro lado tinha recomeçado.

Ler mais de perto 1: Encontramo-nos então no bar, depois da hora de fecho?


Teria sido trivial. Aproveitar a happy hour um pouco deserta, partir pedaços da história em cubos de gelo, girar o tempo no suporte do copo. Não compareceu.