Deixa-te de tretas.
Jogo a meio campo
A pergunta não é: onde é que eu falhei? A pergunta é: quando é que eu percebi sem querer perceber que nunca nada iria ser muito diferente disto?
Companhia nocturna # 18
Raccord: o indeterminável está sempre pregado com pregos
eu nunca aderi às comunidades práticas de pregar com pregos
Dispositivo Agamben # 3. Quod erat demonstrandum
A questão política, portanto. No âmbito foucaultiano, os dispositivos tinham uma estreita ligação com os mecanismos de controle e poder. Digamos, para abreviar, que a grande vantagem dessa estruturação era que ela concedia, em bom rigor simétrico, um lugar claro à possibilidade da resistência e da revolução. Em Agamben, o controle e o poder está em toda a parte e em parte nenhuma, o que torna indeterminável o lugar simétrico da resistência. Agamben não actualiza Marcuse e a sua ideia de uma sobre-repressão doce e consentida, mas o efeito final é muito parecido, se bem que, parece-me, muito mais poderoso enquanto leitura do que existe. Onde Marcuse lia alienação, Agamben lê tecnologia e consequências da sua auto-reprodução, isto é, um modo operativo que não é afectado pelo grau de consciência que sobre ele possamos ter.
Ora, se esta deslocação do problema me parece exacta, algumas das inferências que dela se retiram parece-me que falham o essencial. Não haver lugar reconhecível para a resistência não impede que se resista. Aliás, o lugar reconhecível da resistência era tanto mais afectado de vão utopismo quanto mais fortemente burguês e democrático era o lugar reconhecível do poder. A disseminação do poder, que em todo o caso não impede que algumas das suas estruturas anteriores se mantenham, obriga a disseminar a resistência em micro-causas de subjectivização mais fina. Pondo a questão em termos simples: que leva alguém a deixar o zapping para retomar uns posts sobre uma pequena obra de um tipo chamado Giorgio Agamben?
Raccord: coisas que lemos enquanto estamos a ler outras coisas
Eis o que a política já terá sido para Agamben (terá?) e já não é (não é?): "Uma certa quantidade de gente à procura / de gente à procura duma certa quantidade" [Cesariny, "Uma certa quantidade" in Uma grande razão, p. 64].
Dispositivo Agamben # 2. Dispositivo, subjectivização, tecnologia
Agamben alarga a noção de dispositivo de Foucault. Alarga imensamente. Mantém a ideia geral: dispositivo é tudo o que, de alguma forma, tem a capacidade de “capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres vivos” (p. 31). Mas alarga o âmbito do que pode ser considerado dispositivo: não apenas as prisões, as escolas, os asilos, o panoptikon, o sistema jurídico, tudo isso cujas relações com o poder são óbvias, mas também “a caneta, a escrita, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os telemóveis e, porque não, a própria linguagem”. (p. 31). O que perde nesta generalização que a dado momento ameaça submeter tudo o que existe à condição de dispositivo é para ganhar mais à frente, quando colocar a pergunta decisiva das relações do humano com os dispositivos. Porque a questão está longe de ser simples. Primordialmente, o dispositivo é um operador que nos permite um afastamento radical das limitações dos animais enquanto animais, portanto um engendrador de subjectivização. Mas a condição pós-industrial do dispositivo, a sua tecnologização incontornável e sem a qual é impossível o mundo em que ocidentalmente vivemos, faz com que essa subjectivização rode no vazio: no exemplo que é o de Agamben, a possibilidade do zapping, dispositivo central das formas de atenção contemporâneas, é afinal a experiência frustrante da des-subjectivização.
A força deste modo tecnológico que permeabiliza a vida de hoje é tal que Agamben acha que o preceito vagamente humanista acerca dos “bons usos da tecnologia” é pouco mais que inútil. Percebo o ponto. Não obstante, não há outra questão senão a do uso dos dispositivos, já que não os podemos erradicar. A questão torna-se, pois, política. O que Agamben concede, mas ao preço de algo parecido como uma evasão no indeterminável. Já lá iremos.
Terminar [sobreviver # 3]
Muitas vezes, não são as pessoas. Porque quando são só as pessoas, facilmente se reconhece o lugar irredutível de cada um, ou a possibilidade de dar passos de entendimento. No primeiro caso vota-se, e segue-se em frente; no segundo caso negoceia-se, e lá se chega a um lugar qualquer.
Muitas vezes, o problema são as ideias a apoderarem-se das pessoas. A seguirem através de um sujeito a sua lógica intrínseca, cerrada, auto-suficiente. E como é sabido, qualquer ideia levada ao extremo da sua lógica absoluta devém louca.
É por isso que, por vezes, as reuniões demoram tanto. No fim a gente pergunta-se porquê, que aconteceu ali, e fica com a sensação de que fomos joguetes de uma força difusa, de uma força que de facto não podemos dizer que pertencesse a algum de nós individualmente.
Companhia nocturna # 15
Companhia nocturna # 14
durando na pequena praia
que a vida não contém.
Manuel Gusmão, A terceira mão, Caminho, p. 52
Sobreviver
Ouvi ao ir, ouvi ao vir. No entre, sempre que necessário, fui o terceiro homem, o que algures no encalço de piano e trompete se distanciou da reunião sem perder a face [é legítimo sobreviver, é legítimo sobreviver...]. No mais, esse pequeno milagre de re-inventar um classicismo que soa minimal melódico, ou qualquer coisa assim [esta mania de descrever... como se fosse artigo após artigo... tss...]
Driving Miss Laura # 11
O motorista, preso em intenso tráfego estatutário e demais coisas de sísifico transporte, noticia retardatariamente que saiu ontem no Público (P2) a entrevista de Miss Laura por António Marujo. O texto pode ser lido aqui. A iconografia (notável, diz o lado estético e desinteressado do motorista, vastamente cultivado nas horas de espera), para já só na edição papel.
---
Marcadores: Laura Ferreira dos Santos |
Dispositivo Agamben # 1. Cesura, solidão, próprio
As indagações genealógicas de Agamben são, como diria Agustina, “a inteligência enquanto festa do espírito”. Não conheço outro caso em que a enciclopédia seja, ao mesmo tempo, tão ostensiva e tão leve. O que Agamben sabe como scholar é esmagador, mas o estilo com que opera as sínteses e os movimentos de passagem deve tudo a uma economia narrativa (sim, narrativa mais do que argumentativa) de short story filosófica.
Qu’est-ce qu’un dispositif? começa por contar uma história terminológica. O termo é nuclear em Foucault, onde tem um antecedente: o termo “positividade”. A pré-história do dispositivo é pois o movimento do termo positividade, tal como aparece na leitura hegeliana de Jean Hyppolite (Foucault chamava a Hyppolite o seu «mestre»), até à sua transformação em dispositivo. Mas o fundamental nesta história, como aliás em qualquer história genealógica, é o momento em que se abandona a interpretação para se assumir um discurso próprio que, mesmo propondo-se em continuidade da genealogia, opera já sem rede. Evidentemente, não é fácil delimitar essa cesura, e muitas vezes a estratégia passa até por fazer de conta que não há tal cesura: o medo de um pensamento próprio, com o desamparo inerente ao ser próprio, é mais comum do que se poderia pensar (mesmo em filosofia). Mas não com Agamben. Verdadeiramente in media res, quer dizer, a meio da história que conta, Agamben faz notar que chegou aquele momento em que o movimento interpretativo atingiu “um ponto de indecidibilidade em que se torna impossível distinguir o autor do intérprete. Mesmo se se trata de um momento particularmente feliz para o intérprete, ele deve compreender que é tempo de abandonar o texto que submete a análise e prosseguir a reflexão por sua conta.” (p. 29-30). O pensamento (em filosofia, mas não só) vale verdadeiramente a pena a partir deste caminho de solidão. Porque mais do que concordância ou discordância, o que o pensamento nos pede é esta solidão do próprio, o que cada um tem condições de dizer por si próprio.






