Caravana em braga # 2
Caravana em braga # 1
Movimentações sem inimigo à vista
Mesmo no jogging matinal, na cidade meia deserta, com o cão pela cintura, a geografia continua a ser uma arte da guerra.
Companhia nocturna # 19
Nestas coisas, a filiação tem tanto de garantia como de obstáculo. A filha de Jordi Savall e Montserrat Figueras, que toca harpa, canta e acompanha boa parte da aventura de Hésperion XXI, corre os riscos necessários para a sua afirmação própria. É um programa estranho, mas sedutor a cada audição. Parece música provinda desse imenso reportório da antiguidade que Hésperion XXI tão bem explora, mas há uma leveza, uma luz diáfana, que remete para uma certo impressionismo muito contemporâneo. Só quando fui ver o folheto é que percebi: poemas de agora (à excepção de um), música da própria Arianna Savall (excepto um caso, mas mesmo aí o arranjo é também da sua autoria). Um fio de melancolia doce sem quaisquer sentimentalismos, uma beleza mediterrânica, como pretende e se lhe pode conceder: luz, sol, mar, noite aberta.
Há aí alguém que possa levar isto à televisão ou à primeira página de um jornal de “referência”?
Os nossos birmaneses, por Rui Bebiano.
Transição defesa-ataque
Podes espreitar o abismo. Não há muito para ver, mas deve-se ir até lá. A estrada é boa. Há um drive-in que tem um óptimo café e umas torradas com manteiga divinais. Costuma-se parar na volta.
Jogo a meio campo
A pergunta não é: onde é que eu falhei? A pergunta é: quando é que eu percebi sem querer perceber que nunca nada iria ser muito diferente disto?
Companhia nocturna # 18
Raccord: o indeterminável está sempre pregado com pregos
eu nunca aderi às comunidades práticas de pregar com pregos
Dispositivo Agamben # 3. Quod erat demonstrandum
A questão política, portanto. No âmbito foucaultiano, os dispositivos tinham uma estreita ligação com os mecanismos de controle e poder. Digamos, para abreviar, que a grande vantagem dessa estruturação era que ela concedia, em bom rigor simétrico, um lugar claro à possibilidade da resistência e da revolução. Em Agamben, o controle e o poder está em toda a parte e em parte nenhuma, o que torna indeterminável o lugar simétrico da resistência. Agamben não actualiza Marcuse e a sua ideia de uma sobre-repressão doce e consentida, mas o efeito final é muito parecido, se bem que, parece-me, muito mais poderoso enquanto leitura do que existe. Onde Marcuse lia alienação, Agamben lê tecnologia e consequências da sua auto-reprodução, isto é, um modo operativo que não é afectado pelo grau de consciência que sobre ele possamos ter.
Ora, se esta deslocação do problema me parece exacta, algumas das inferências que dela se retiram parece-me que falham o essencial. Não haver lugar reconhecível para a resistência não impede que se resista. Aliás, o lugar reconhecível da resistência era tanto mais afectado de vão utopismo quanto mais fortemente burguês e democrático era o lugar reconhecível do poder. A disseminação do poder, que em todo o caso não impede que algumas das suas estruturas anteriores se mantenham, obriga a disseminar a resistência em micro-causas de subjectivização mais fina. Pondo a questão em termos simples: que leva alguém a deixar o zapping para retomar uns posts sobre uma pequena obra de um tipo chamado Giorgio Agamben?
Raccord: coisas que lemos enquanto estamos a ler outras coisas
Eis o que a política já terá sido para Agamben (terá?) e já não é (não é?): "Uma certa quantidade de gente à procura / de gente à procura duma certa quantidade" [Cesariny, "Uma certa quantidade" in Uma grande razão, p. 64].
Dispositivo Agamben # 2. Dispositivo, subjectivização, tecnologia
Agamben alarga a noção de dispositivo de Foucault. Alarga imensamente. Mantém a ideia geral: dispositivo é tudo o que, de alguma forma, tem a capacidade de “capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres vivos” (p. 31). Mas alarga o âmbito do que pode ser considerado dispositivo: não apenas as prisões, as escolas, os asilos, o panoptikon, o sistema jurídico, tudo isso cujas relações com o poder são óbvias, mas também “a caneta, a escrita, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os telemóveis e, porque não, a própria linguagem”. (p. 31). O que perde nesta generalização que a dado momento ameaça submeter tudo o que existe à condição de dispositivo é para ganhar mais à frente, quando colocar a pergunta decisiva das relações do humano com os dispositivos. Porque a questão está longe de ser simples. Primordialmente, o dispositivo é um operador que nos permite um afastamento radical das limitações dos animais enquanto animais, portanto um engendrador de subjectivização. Mas a condição pós-industrial do dispositivo, a sua tecnologização incontornável e sem a qual é impossível o mundo em que ocidentalmente vivemos, faz com que essa subjectivização rode no vazio: no exemplo que é o de Agamben, a possibilidade do zapping, dispositivo central das formas de atenção contemporâneas, é afinal a experiência frustrante da des-subjectivização.
A força deste modo tecnológico que permeabiliza a vida de hoje é tal que Agamben acha que o preceito vagamente humanista acerca dos “bons usos da tecnologia” é pouco mais que inútil. Percebo o ponto. Não obstante, não há outra questão senão a do uso dos dispositivos, já que não os podemos erradicar. A questão torna-se, pois, política. O que Agamben concede, mas ao preço de algo parecido como uma evasão no indeterminável. Já lá iremos.
Terminar [sobreviver # 3]
Muitas vezes, não são as pessoas. Porque quando são só as pessoas, facilmente se reconhece o lugar irredutível de cada um, ou a possibilidade de dar passos de entendimento. No primeiro caso vota-se, e segue-se em frente; no segundo caso negoceia-se, e lá se chega a um lugar qualquer.
Muitas vezes, o problema são as ideias a apoderarem-se das pessoas. A seguirem através de um sujeito a sua lógica intrínseca, cerrada, auto-suficiente. E como é sabido, qualquer ideia levada ao extremo da sua lógica absoluta devém louca.
É por isso que, por vezes, as reuniões demoram tanto. No fim a gente pergunta-se porquê, que aconteceu ali, e fica com a sensação de que fomos joguetes de uma força difusa, de uma força que de facto não podemos dizer que pertencesse a algum de nós individualmente.
Companhia nocturna # 15
Companhia nocturna # 14
durando na pequena praia
que a vida não contém.
Manuel Gusmão, A terceira mão, Caminho, p. 52
Sobreviver
Ouvi ao ir, ouvi ao vir. No entre, sempre que necessário, fui o terceiro homem, o que algures no encalço de piano e trompete se distanciou da reunião sem perder a face [é legítimo sobreviver, é legítimo sobreviver...]. No mais, esse pequeno milagre de re-inventar um classicismo que soa minimal melódico, ou qualquer coisa assim [esta mania de descrever... como se fosse artigo após artigo... tss...]
Driving Miss Laura # 11
O motorista, preso em intenso tráfego estatutário e demais coisas de sísifico transporte, noticia retardatariamente que saiu ontem no Público (P2) a entrevista de Miss Laura por António Marujo. O texto pode ser lido aqui. A iconografia (notável, diz o lado estético e desinteressado do motorista, vastamente cultivado nas horas de espera), para já só na edição papel.
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Dispositivo Agamben # 1. Cesura, solidão, próprio
As indagações genealógicas de Agamben são, como diria Agustina, “a inteligência enquanto festa do espírito”. Não conheço outro caso em que a enciclopédia seja, ao mesmo tempo, tão ostensiva e tão leve. O que Agamben sabe como scholar é esmagador, mas o estilo com que opera as sínteses e os movimentos de passagem deve tudo a uma economia narrativa (sim, narrativa mais do que argumentativa) de short story filosófica.
Qu’est-ce qu’un dispositif? começa por contar uma história terminológica. O termo é nuclear em Foucault, onde tem um antecedente: o termo “positividade”. A pré-história do dispositivo é pois o movimento do termo positividade, tal como aparece na leitura hegeliana de Jean Hyppolite (Foucault chamava a Hyppolite o seu «mestre»), até à sua transformação em dispositivo. Mas o fundamental nesta história, como aliás em qualquer história genealógica, é o momento em que se abandona a interpretação para se assumir um discurso próprio que, mesmo propondo-se em continuidade da genealogia, opera já sem rede. Evidentemente, não é fácil delimitar essa cesura, e muitas vezes a estratégia passa até por fazer de conta que não há tal cesura: o medo de um pensamento próprio, com o desamparo inerente ao ser próprio, é mais comum do que se poderia pensar (mesmo em filosofia). Mas não com Agamben. Verdadeiramente in media res, quer dizer, a meio da história que conta, Agamben faz notar que chegou aquele momento em que o movimento interpretativo atingiu “um ponto de indecidibilidade em que se torna impossível distinguir o autor do intérprete. Mesmo se se trata de um momento particularmente feliz para o intérprete, ele deve compreender que é tempo de abandonar o texto que submete a análise e prosseguir a reflexão por sua conta.” (p. 29-30). O pensamento (em filosofia, mas não só) vale verdadeiramente a pena a partir deste caminho de solidão. Porque mais do que concordância ou discordância, o que o pensamento nos pede é esta solidão do próprio, o que cada um tem condições de dizer por si próprio.
Os infortúnios da virtude # 3
Mais devagar. Não te permitas presumir da inocência que deveras tinhas. Ou da confiança com que confiaste. Mesmo o termo “ingénuo” ainda guarda alguma da nobreza dos simples. Tenta antes “estúpido”. É capaz de ser mais realista. E depois de estabelecido o estúpido, então sim, junta-lhe em partes iguais a inocência e a confiança — aí terás a razão de que é feita a tua estupidez particular.
Oscilações pós-metafísicas
Confesso que esta notícia me abalou. Não a compreendi na sua integralidade e nos próximos tempos (e nos outros a seguir) não vou poder aprofundá-la — mas abalou-me. O T-Rex era uma galinha avantajada? O T-Rex evoluiu para as actuais galinhas? Eu sei, que até aí ainda tive tempo, que a selecção natural não é aquele treta da sobrevivência do mais forte, mas puro jogo de sorte e azar. Eu sei que a selecção natural não é nem um vasto curso de aperfeiçoamento moral nem uma história de progresso. Eu sei. Mas não haverá aqui um excesso qualquer? O T-Rex era uma galinha avantajada? O T-Rex evoluiu para as actuais galinhas? Apeteceu-me logo rir que nem um doido e chorar como um perdido. Enfim, deve ser do cansaço.
Eis um exemplo de uma fuga de informação cujo objectivo só pode ser enterrar ainda mais o PSD, nomeadamente a putativa candidatura de Alberto João Rex
WC Lectures # 23
É um livro inteiro. A contracapa é livro, a badana é livro, tudo tem a marca inconfundível de José Carlos Fernandes. O risco é alto, muito alto. Desenho de página inteira, nas pares. Texto curto, nas ímpares. Superlativos os desenhos, quase-perfeitos os textos (podar uma ou outra rima interna, e algumas articulações “rangentes” por causa dos demonstrativos, é só). Um dia, não vamos ter adjectivos para a qualidade crescente de cada novo livro de José Carlos Fernandes.
PS: ah (e até vem a propósito) apenas uma coisinha no texto de introdução, essa referência ao comediante que fugazmente passou pelo cargo de primeiro-ministro de Portugal — é ofensivo para os comediantes, não havia necessidade.
Uma nova velocidade
As pessoas mal dão por isso. Um belo dia sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul, um azul fino, alegre, e dizem: “Já sei.” Depois descobrem as pombas do Rossio e as colinas pousadas diante do rio, cobertas de uma luz macia, feminina: descobrem uma nova expressão no andar das mulheres e um novo perfume — nelas e na cidade. E todos regressam mais tarde aos autocarros e a casa. É isso a Primavera: um novo sentido no olhar, uma nova velocidade. “Já sei”, dizem as pessoas.
A nossa função é estar abraçadas sem braços
Eu bem dizia que aquilo não era um epílogo. E isto não é uma continuação. É outra coisa: uma função. A nossa função é estar abraçadas sem braços.
Que está à distância certa desta outra coisa, para ser exacto à distância de onze anos (sim, estava quase a deixar de ser novo, finalmente), em contexto e condições a que voltarei, porque terá que ser (e por causa das gaivotas): “E diria também, num gesto que gostaria que fosse tão simples quanto o de uma gaivota que parte, que estes todos que fazem isto, e eu que também fiz isto, o fazemos com a consciência de que escrever não é assim tão importante — mas que outra coisa poderíamos nós fazer senão isto?”.
Exemplar número três
Se isto fosse uma história, haveria uma cidade que se visita por uma temporada relativamente longa. De cada vez que lá chegamos vamos alojar-nos num bairro diferente, tentando perceber e sentir mais um pouco da vida que ali se desenrola. Estudar um livro não é muito diferente de visitar mais ou menos longamente uma cidade que não é a nossa morada habitual [ah, mas qual será a cidade habitual de quem vive de estudar livros?..]. Muda-se de bairro para mudar o que se vê, donde se vê, os itinerários — enfim, isso com que se vão esboçando sentidos. Também pode acontecer voltarmos às mesmas casas e ambientes, para que algum tempo depois possamos confrontar a memória, o aprendido, com o que terá mudado ou se terá desocultado.
Partirei para Finisterra para uma terceira estadia. Seis anos depois do último encontro. Não sei ainda em que bairro me instalarei. Não sei exactamente o que espero encontrar. Única bagagem: um exemplar novinho em folha e um lápis. Eu sei que não há mais começos. Eu sei que não há concepção imaculada da leitura. Mas cada um faz o que pode para merecer continuar a ler.
Companhia nocturna # 11
O itinerário é sempre este: é a música quem vai ao lugar onde nós para sempre não coincidimos connosco mesmos.
Psicopatologia da vida quotidiana # 37 [raccord]

Hipótese um: "Tinha substituído a esposa mais prestimosa que se podia imaginar por uma que entrava em pânico à mais ligeira pressão. Mas, no rescaldo imediato do que tinha sucedido [a mulher descobrir que ele tinha uma amante], casar com ela tinha-lhe parecido a maneira mais simples de ocultar o crime." [Philip Roth, Todo-o-Mundo, p. 125]
Hipótese dois: "Um excesso de indignação pode deixar subentender que há alguma coisa valiosa naquilo que provoca tal reacção. Um desprezo calculadamente indiferente é bem mais eficaz em deixar o outro abandonado na terra-de-ninguém a que as suas ilusões o conduziram." [Luís Mourão, A sabedoria em posts & outras nulidades, no prelo]
Raccord: Contudo, ler mais de perto, ver mais de perto, e os seus antecedentes, não fazem propriamente raccord com isto. Quando muito, assaz longinquamente, montagem paralela. Mas também, qual o interesse disto para além de evitar falar de menezesboavistabenfica?
Ler mais de perto: isto não é um epílogo
Ler mais de perto 4: O real em band-aid barato, outra história conhecida
Ler mais de perto 3: Mesmo bar, mesma hora?
Ler mais de perto 2: O real em band-aid barato, uma história conhecida
Ler mais de perto 1: Encontramo-nos então no bar, depois da hora de fecho?
Ver mais de perto: isto não é um epílogo
As we sat together, he told me that all the men in his family, including him, had been mean to women. He said that he wanted to pose in a way that showed him not being mean. How would that be, I asked. He said he wanted to pose as if Brigit were his mother. How? He gently reached around behind him to Bridgit who was leaning against the Church door. Laying Bridgit in his lap, face(less) up, he looked straight at me and said: "Like this." My lens eye saw that this man had created a reverse Pieta.
Ver mais de perto 4: O real em band-aid barato, outra história conhecida
Ver mais de perto 3: Mesmo bar, mesma hora?
In June, 1999, Mendelsohn and her daughter, Rebekah, found a female mannequin at a yard sale. The seller asked $20, and when Mendelsohn replied that the mannequin was headless, the seller came down in price by $5.
Thus began an extraordinary series of adventures that Mendelsohn has been recording with lens and pen. "Bridgit (the mannequin) is a blank page," Mendelsohn explained recently. "She has none of the obvious trappings we associate with personality except that what there is of her arms is in a very triumphant pose. What is endlessly fascinating is the way in which people relate to her and how it is that she fits into situations. Having a master's degree in psychology and a background in counseling have been definite assets."
Ver mais de perto 2: O real em band-aid barato, uma história conhecida
Ver mais de perto 1: Encontramo-nos então no bar, depois da hora de fecho?
O real em band-aid barato, outra história conhecida
Na mais célebre cena de teatro português — a única que adquiriu um estatuto mítico — D. João de Portugal não é propriamente um espectro. Pode mesmo dizer-se que é a sua negação pois surge e manifesta-se aos vivos, para se desfazer de si mesmo como o espectro em que, simbolicamente, os que o julgavam ou precisavam de o saber morto, o tinham convertido. Mas quando sai de cena, depois de se ter revelado melancólica, irónica e cruelmente, como ninguém, D. João é já um autêntico espectro.
Mesmo bar, mesma hora?
Já se esperava. Os fantasmas são os nossos fantasmas. Nossos, quer dizer, do que somos como seres de paixão, sentimento e sonho, mas também como memória, tempo perdido e conservado, onde a nossa vida real a si mesma naturalmente se espectraliza, quer dizer, em permanência se teatraliza.
O real em band-aid barato, uma história conhecida
Alexandrínicos Dilemas
E fico neste estado catatónico,
telegráfico, estúpido, lacónico,
quando te vejo ou ouço a tua voz.
Bem queria que passasse este registo,
que, se é para ser isto sem ter isto,
melhor que te tomar é tomar pós
de frutos, contra enjoos, suculentos,
bons para a pele, na alma como unguentos
on band-aids em chuva autocolante.
Mas em qualquer dos casos, o que resta
é: não te veja, ou veja (em curta festa):
a saudade: submersa e naufragante.
Não te posso ouvir mais, digo três vezes,
e com muito fervor e muitas preces,
como se esconjurasse Satanás.
Depois, uma palavra, um leve traço,
um minúsculo gesto abrindo o espaço
e, mesmo que não estejas, aqui estás.
E sentas-te a meu lado na cadeira.
Ninguém te vê: só eu. A curva inteira
do pescoço, dos ombros, ou da mão.
Toco-te levemente e o vizinho
na mesa ao lado, espreita-me, de mansinho,
pensando que perdi toda a razão.
E devo ter perdido, se o real
me parece uma coisa desigual,
um band-aid barato, a descolar.
E a única coisa mais parecida
com o ser realmente é uma vida
que não posso, nem devo acarinhar.
E até essa palavra lembra ti,
e a fractura começa por aí,
numa sintaxe que não sei rimar:
Não te posso ver mais. Não, não e não!
(E sai-me o verso assim, como vulcão
limitado a explodir dentro do mar.)
E agora, o quê? Pergunto-me, interrogo-me,
faço das linhas coração. E chovo-me:
miríade em band-aids, tão veloz:
é que fico na mesma catatónica,
meio estúpida, letárgica, lacónica,
se torno em verso, e minha, a tua voz.
Ana Luísa Amaral,
Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007, pp. 26-27.
Encontramo-nos então no bar, depois da hora de fecho?
A indecisa matéria (auto?)biográfica
Não, não vou dizer que os tempos não estão fáceis para a poesia. Porque nunca estiveram. Ou numa variante ainda mais dura, foi quando a poesia pareceu mais aceitável que a tarefa de ser poeta era verdadeiramente secreta, difícil, ininteligível. Mas deixemos isso.
O que é certo é que a poesia vive hoje a sua condição estritamente terrena. Há as excepções, bem entendido, como há também um sem número de poetas anacrónicos e altamente literatos. Mas deixemos isso também.
O problema é que alguma coisa resiste. E este problema é logo seguido de um outro, que é o problema de que alguma coisa acontece que resiste a desaparecer. O primeiro problema é da ordem do real: há coisas aí, anteriores a nós, independentes de nós, estão aí. O segundo problema é da ordem da existência: há coisas que nos acontecem, e depois de nos terem acontecido não nos desacontecem. Que fazer com estes dois problemas?
Tratá-los com um certo tom menor parece ser de regra. Entre a auto-ironia, que tem as suas vantagens, e a denegação, que tem os seus custos humanos. Ana Luísa Amaral está desde sempre à vontade na auto-ironia, é até estratégia central da desconstrução que opera de certos lugares da poesia e do feminino poético, mas não cede à denegação, antes sublinha certas impossibilidades de um menos viver muito contemporâneo: “O tempo agora é este: / o de fazer tão rentes as canções” (p. 50). E sem denegação, há certas coisas — os tais dois problemas, por exemplo — que reaparecem na sua gravidade, mesmo que os contextos acentuem a distância que sempre se deve ter face aos modos retóricos de dizer tais coisas graves.
Uma forma de distância consiste em singularizar radicalmente a experiência da vida e do mundo, evitando a generalização ou a sabedoria do sistema, mas sem deixar de sub-entender a gravidade de “um pequeno holocausto / que é só meu” (p. 86). Outra, mais decisiva, até porque constitui algo parecido com uma poética, é conduzir toda a dicção para uma espécie de entre-dois: “É num tom desses que eu me sei mover: / no intermédio cruzamento / dos portões do real, / nas despensas do mundo” (p. 101). Com uma ressalva sintáctica que não é de somenos: a quantidade imensa de poemas que aqui terminam com travessão — forma suspensiva que infinitiza o fim, por um lado, mas que por outro o entrega a agenciamentos ainda por formular.
Relidos a esta luz alguns dos principais poemas deste livro — poemas como “Alexandrínicos dilemas”, “Claves e distâncias (quatro poemas)”, “Copérnico, Chopin, Boeing 747”, “Entre dois rios e muitas noites”, “Ovelhas e bibliotecas: sofrimentos”, “Que escada de Jacob?” —, a indecisa matéria (auto?)biográfica que os ergue ganha contornos de dicção exemplar sem exemplum a transmitir: apenas o que aí está e o que já não nos pode mais desacontecer. Dito de outro modo: “Horror é conhecer: / tudo o resto se cura / com a vida” (p. 84). Para gravidade basta. E para uma vida, também.


























