Muita dessa alguma coisa

A solidão da escrita é um mito. Na melhor das hipóteses — um caso raro; no fundo, uma bênção. Mas de facto não acredito nisso. Há sempre muita gente sentada dentro do nosso estarmos sentados a escrever, vigiando, criticando em silêncio, olhando com altivo desprezo, um ou outro condescendendo e sorrindo com melancolia. A única coisa solitária no acto de escrita é ser um só que escreve contra muitos que de várias maneiras vão dizendo que não. O único mistério no acto de escrita é esse um só acabar por escrever alguma coisa. Mas o pior de tudo no acto de escrita é muita dessa alguma coisa não ter sido evitada.

Escrever

Não sei se há muito a compreender nisto, mas nem sequer vou teorizar. Sei só que muitas vezes é assim: começo de mil maneiras diferentes, e pelas diferentes partes por onde se pode começar. Nada resulta. Depois há uma frase, sempre lá esteve mas custou a aparecer, e o caminho vai-se construindo. E no fim, quantas vezes essa frase acaba por nem sequer ficar.

Companhia nocturna # 22

Gosto desta capa. E projecto-a em Bach, o pouco que sei da sua vida, muito caseira, cheia de filhos, mulheres amadas, as dores que a vida sempre traz, as alegrias que também há. Gosto do olhar erguido dela e do seu decote aberto, como depois do amor quotidiano, de amamentar, ou de simplesmente estar em intimidade desprendida e doméstica. Gosto do olhar dele, interior, tímido, que vê a vida pela força dela. E todo um mundo subtil que parece envolvê-los e é maior que eles sem os esmagar. Como a música de Bach, precisamente.

Círculo

O desperdício da normalidade existente salva-nos da demência e da angústia dos investimentos megalómanos. Salva-nos com melancolia e tristeza, mas salva-nos. Até a gente perguntar para quê, e tudo recomeçar outra vez.

Uma questão de percentagem

Uma vida desperdiçada decide-se nuns escassos pontos percentuais acima do desperdício que acomete toda a normalidade existente.

A vida com árvores

O jardineiro ligou ontem: “o enxerto pegou, tá lindo, tem três laranjas, agora é a altura para plantar”. O lugar foi decidido desde o início. Veio hoje, já está no sítio. Tem três laranjas. Grandes. Vivas. Dá-me pelo peito. Há-de crescer. Hei-de vê-la da janela sem ter de me levantar daqui. Como acontecia na outra casa. Um pouco daquele jardim neste jardim. A vida com árvores, sim.

PS: por falar em árvores, e cor viva das laranjas — já há novidades felinas? [claro que a blogosfera não é muito mais que isto, mas a vida, por vezes, nem isto chega a ser]

Cidade Sitiada

Tanques nos jardins, helicópteros no ar, fragatas na costa, palanque para o desfile militar, em cada esquina um polícia — é assim em Viana do Castelo, hoje, e sê-lo-á em crescendo, até ao final do próximo dia 10. Esse é o dia em que o país subjacente ao território todo, real e imaginário, vai ao armário buscar fatiotas tão demodèe quanto a letra do hino e se instala numa cidade para afirmar que existe. Podia dar-lhe para pior, percebe-se a simbologia da coisa e tudo isso, mas por mim — passo.

Preencher. Ouvir

Quando __________, __________, ___________.
Quando ____________. Quando ___________. E sobretudo, quando ___________. Então, quando assim é, sabes que é tempo de regressar a Bach.

Grande Prémio de Poesia APE

Merecido, o Grande Prémio APE de Poesia para Ana Luísa Amaral por Entre dois rios e outras noites. Um livro que dividiu. António Guerreiro, no Expresso, e Pedro Mexia, no Público, foram muito reticentes ou até mais do que isso. Rosa Maria Martelo fez uma leitura notável e entusiasta, Osvaldo Silvestre sei que o apresentou com elogio, eu disse aqui o quanto gostei (e próximo desse post há outros com citações e re-escritas). O júri, constituído por Ana Paula Arnaut, Nuno Júdice e José Cândido Martins, decidiu por unanimidade. É momento para estar feliz pelo reconhecimento de um livro. E embora isso já não interesse nada à literatura nem à leitura dela, é também momento para estar feliz pela Ana Luísa.

Vergílio

Para já, apenas a comoção de ter recebido o livro através da cumplicidade da Fernanda Irene, que longamente o trabalhou a partir do espólio. Como se de repente o Vergílio se voltasse a sentar connosco em juventude e nos perguntássemos uns aos outros como era costume fazermos: então, em que anda agora a trabalhar? E como era bondosa e optimista essa pergunta, oh sim, como era um pouco diferente o mundo visto pela bondade e optimismo de uma tal pergunta...

Noite límpida # 2

Percebo agora que à mesma hora de Bill Callahan (bom, mais coisa menos coisa), uns kilómetros mais para sul, havia outro grande senhor em actuação. O que eu não dava para ver como é que um autor se desenrasca de uma coisa assim...

Noite límpida

Ontem houve Bill Callahan no Theatro Circo, e num milagre de agenda consegui desenfiar-me até lá. Hipnótico, sempre. Demolidor quando acelerava, o que aconteceu mais vezes do que se estaria à espera. Despretensioso, porque o importante passa sempre pelo que acontece dentro da música. E foi claro para os happy few que encheram meia-sala que dentro daquela música, apesar dos longos anos Smog, há ainda muito Bill Callahan para acontecer.

Uma segunda-feira qualquer vista a partir de uma qualquer terça-feira

Tanto e tão pouco.

Uma segunda-feira qualquer # 1

Feroz é a batalha
— uma borboleta passa
entre os soldados

Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 48

Companhia nocturna # 21

Por um momento, a música escreve o teu texto.

Chegar # 3

Há nome de autor, não há nome de recenseador. Devias lembrar-te disso e despachar-te.

Chegar # 2

O mundo fácil dura nem sequer uma hora, depois entedia.

Chegar # 1

Por que não te rendes a um mundo assim tão fácil?

Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 30

Vir

Primeiras montanhas
últimas ondas
— as dunas

a partir de Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 53

Ir

Primeiras ondas
últimas montanhas
— as dunas

Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 53