A impossível impassibilidade

Corrigir: exames, trabalhos, um texto meu. A linha da vontade e da razão. Daqui a pouco, frente ao televisor, o mistério renovado do espectador de futebol que também sou: a impossível impassibilidade quando joga Portugal (e o Futebol Clube do Porto).

Os infortúnios da virtude # 5

Ainda (e sempre) aquele verso de Ruy Belo: mas ó poeta administra sabiamente a tristeza. Que tu leste com o implícito que julgavas pertencer-lhe: a tristeza enquanto toda a existência que há. Não importa agora se estavas equivocado ou não, até porque nunca se está e sempre se está. Começaste a administrar uma existência, agora dizem-te que isso é uma carreira.

Música, idades

Tal como na existência normal das pessoas normais — assim os músicos no tempo de existirem dentro da sua música. Alguns eu vejo envelhecer e morrer, vêm de um mundo a que cheguei tarde. Outros irão comigo até ao fim, companheiros de uma geração sempre improvável. Outros estão apenas a começar, anunciando a breve eternidade que me falta.

Esbjorn Svensson

O rapaz tinha 44 anos. Se tivéssemos andado juntos no liceu, seria da turma dos mais novos e podia ser que uma vez ou outra o deixasse jogar futebol connosco. Morreu a fazer mergulho de grande profundidade. Não foi uma má morte, mas é tão estupidamente cedo. Em Setembro sairá o álbum que o trio acabou de gravar por estes dias. Vai doer. Tão estupidamente cedo, meu amigo.

A vida com árvores # 3

Choveu todo o dia. Na árvore despida houve já a memória dos invernos que ainda não pôde ter.

A vida com árvores # 2

Muito calor. A laranjeira perdeu as três laranjas e quase todas as folhas. Não lhe faltando a água, recuperará — diz o jardineiro. Tem quase setenta anos, deve saber. Pelo sim pelo não, juntamente com a água acrescento-lhe pensamento mágico: imagino-a “com uma cor de folha muito junta” [Cesariny].

Carpe diem

Vemos agora que o abismo da história é suficientemente grande para todos. [Paul Valéry]
A mesma gente simpática a mesma falta de valor. [George B. Shaw]

Epígrafes de dois capítulos de Peter Sloterdijk, Se a Europa acordar. Reflexões sobre o programa duma potência mundial no termo da sua ausência política, Relógio D’Água, 2008

Miss Laura, as mulheres, o lixo e o cancro da mama

A propósito de um anúncio institucional. Hoje, no Público; para ler na íntegra e ver o anúncio, aqui.

Pois, a maturidade, a excelência, what else?

Os infortúnios da virtude # 4

És humano e ponderado, e dizem eles que te respeitam por isso. Profundo e sensato, e acrescentam que também por isso te respeitam. Pareces até demasiado sábio para querer o poder, e assim podem mesmo admirar-te. Mas não têm a certeza do teu desapego e temem-te — e isso é o que verdadeiramente te protege deles.

Post para iniciados: assim uma espécie de deleuzianismo assaz estéril

Escreve-se por desvios. Por devires imperceptíveis. Tudo bem, quando a coisa é performativa naquele (pobre) plano de consistência em que se resolve o texto que havia para resolver. Muito pior quando o desvio nos desvia para outros textos, sem darmos conta já estamos a trabalhar noutra janela, noutro document, aquele que não precisa de ser resolvido já, aquele que até não precisará de ser resolvido nunca. Na era rizomática, o que entrava não é ler ainda aquela derradeira coisa antes de começar a trabalhar, o que entrava é esta espécie de janela pop-up com que uma coisa abre para outra coisa que abre para outra coisa que... [tudo desculpas, claro, mas...]

Muita dessa alguma coisa

A solidão da escrita é um mito. Na melhor das hipóteses — um caso raro; no fundo, uma bênção. Mas de facto não acredito nisso. Há sempre muita gente sentada dentro do nosso estarmos sentados a escrever, vigiando, criticando em silêncio, olhando com altivo desprezo, um ou outro condescendendo e sorrindo com melancolia. A única coisa solitária no acto de escrita é ser um só que escreve contra muitos que de várias maneiras vão dizendo que não. O único mistério no acto de escrita é esse um só acabar por escrever alguma coisa. Mas o pior de tudo no acto de escrita é muita dessa alguma coisa não ter sido evitada.

Escrever

Não sei se há muito a compreender nisto, mas nem sequer vou teorizar. Sei só que muitas vezes é assim: começo de mil maneiras diferentes, e pelas diferentes partes por onde se pode começar. Nada resulta. Depois há uma frase, sempre lá esteve mas custou a aparecer, e o caminho vai-se construindo. E no fim, quantas vezes essa frase acaba por nem sequer ficar.

Companhia nocturna # 22

Gosto desta capa. E projecto-a em Bach, o pouco que sei da sua vida, muito caseira, cheia de filhos, mulheres amadas, as dores que a vida sempre traz, as alegrias que também há. Gosto do olhar erguido dela e do seu decote aberto, como depois do amor quotidiano, de amamentar, ou de simplesmente estar em intimidade desprendida e doméstica. Gosto do olhar dele, interior, tímido, que vê a vida pela força dela. E todo um mundo subtil que parece envolvê-los e é maior que eles sem os esmagar. Como a música de Bach, precisamente.

Círculo

O desperdício da normalidade existente salva-nos da demência e da angústia dos investimentos megalómanos. Salva-nos com melancolia e tristeza, mas salva-nos. Até a gente perguntar para quê, e tudo recomeçar outra vez.

Uma questão de percentagem

Uma vida desperdiçada decide-se nuns escassos pontos percentuais acima do desperdício que acomete toda a normalidade existente.

A vida com árvores

O jardineiro ligou ontem: “o enxerto pegou, tá lindo, tem três laranjas, agora é a altura para plantar”. O lugar foi decidido desde o início. Veio hoje, já está no sítio. Tem três laranjas. Grandes. Vivas. Dá-me pelo peito. Há-de crescer. Hei-de vê-la da janela sem ter de me levantar daqui. Como acontecia na outra casa. Um pouco daquele jardim neste jardim. A vida com árvores, sim.

PS: por falar em árvores, e cor viva das laranjas — já há novidades felinas? [claro que a blogosfera não é muito mais que isto, mas a vida, por vezes, nem isto chega a ser]

Cidade Sitiada

Tanques nos jardins, helicópteros no ar, fragatas na costa, palanque para o desfile militar, em cada esquina um polícia — é assim em Viana do Castelo, hoje, e sê-lo-á em crescendo, até ao final do próximo dia 10. Esse é o dia em que o país subjacente ao território todo, real e imaginário, vai ao armário buscar fatiotas tão demodèe quanto a letra do hino e se instala numa cidade para afirmar que existe. Podia dar-lhe para pior, percebe-se a simbologia da coisa e tudo isso, mas por mim — passo.

Preencher. Ouvir

Quando __________, __________, ___________.
Quando ____________. Quando ___________. E sobretudo, quando ___________. Então, quando assim é, sabes que é tempo de regressar a Bach.

Grande Prémio de Poesia APE

Merecido, o Grande Prémio APE de Poesia para Ana Luísa Amaral por Entre dois rios e outras noites. Um livro que dividiu. António Guerreiro, no Expresso, e Pedro Mexia, no Público, foram muito reticentes ou até mais do que isso. Rosa Maria Martelo fez uma leitura notável e entusiasta, Osvaldo Silvestre sei que o apresentou com elogio, eu disse aqui o quanto gostei (e próximo desse post há outros com citações e re-escritas). O júri, constituído por Ana Paula Arnaut, Nuno Júdice e José Cândido Martins, decidiu por unanimidade. É momento para estar feliz pelo reconhecimento de um livro. E embora isso já não interesse nada à literatura nem à leitura dela, é também momento para estar feliz pela Ana Luísa.