Podia ser uma coisa abstrusa. Música composta por reputados pianistas da “clássica” (Friedrich Guilda, Alexis Weissenberg), ou por outros de menor nomeada, tendo por leitmotif a sua aproximação ao jazz (o parente longínquo disto, senão o seu responsável, é naturalmente o Gershwin de Rhapsody in blue). Podia ser abstruso, mas não é. Em muitos momentos, é arrebatador. Para dias fortes, claro.
Para dias fortes
A mais longa corrida
Mal ele se mexeu no bloco de partida eu avisei logo: não vás! Mas ele foi. A mais longa corrida para o desastre que alguma vez vi um guarda-redes fazer. Uma tragédia que entra directamente para o panteão do futebol.
(Então e o Ricardo?, perguntam vocês. Bom, a ver se nos entendemos. O Ricardo correu um terço da distância de Rustu, o que proporcionalmente triplica a asneira. E quanto a asneira, já deve ser para aí a tricentésima da sua carreira. Ora, como qualquer pessoa instruída sabe, a história, quando se repete, é sob a forma de farsa. Pelo que só pude rir. Amareladamente. Sim, porque eu sou uma pessoa instruída, já estava prevenido com o meu Cesário etc e tal. Ah, só mais uma coisa: ninguém me tira da cabeça que a Alemanha teve a ajuda do fantasma da Itália eliminada. Qual cinismo alemão, qual máquina alemã, qual eficácia alemã, qual nada: aquilo foi Itália pura e dura. Não foi bonito de ver, não convenceu ninguém, quase sempre numa irritante retranca — mas o resultado é que conta. Venha-se o Espanha-Rússia para ver por quem vou torcer na final.)
Das paisagens # 8
Das paisagens # 7
Na esquina do free com a melodia
Depois do sucesso de Raining on the moon, o projecto mais “acessível” do muito avançado William Parker, ei-lo que reincide com o seu quarteto e a cantora Leena Conquest agora em todas as faixas. Mainstream de alto nível, sem dúvida, mas a ancoragem é tão forte que de vez em quando, com toda a naturalidade, o quarteto navega outras águas. Mais uma vez fica dada a lição (se preciso fosse): os do free, quando querem, são tão bons quanto os melhores clássicos.
Segundo o desejo
Das paisagens # 6
Das paisagens # 5
Das paisagens # 4
O mundo quando não estamos a olhar: ela dormia, ele morreu. No sonho dela o mundo rodava na direcção da sombra, mantendo o excesso de calor distante. Na morte dele houve apenas um vago tremor, uma fina aragem que o envolveu.
O mundo na manhã seguinte: ela acordou, ele era já matéria de poema.
O mundo depois da manhã seguinte, quando de novo não estamos a olhar: o conhecimento fazendo-se sem sujeito que conheça.
Das paisagens # 3
Intermezzo
Das paisagens # 2
Das paisagens # 1
(dois) Erros meus e sem queixas da fortuna
Foi sempre visível que Portugal podia ter derrotado esta Alemanha, mesmo com Scolari à frente, a complicar um pouco as posições no ataque. Mas no jogo dos pormenores, dois erros de palmatória é coisa demasiada. E por favor, aquele empurrãozinho do Ballack foi só para evitar que o Paulo Ferreira o viesse atropelar de marcha à ré...
Agora torço por bons jogos, que até os tem havido, e pela Croácia, Holanda e Espanha — um pouco mais ou menos por esta ordem, mas em modo mais desprendido.
Pronto, ficamos assim.
A impossível impassibilidade
Corrigir: exames, trabalhos, um texto meu. A linha da vontade e da razão. Daqui a pouco, frente ao televisor, o mistério renovado do espectador de futebol que também sou: a impossível impassibilidade quando joga Portugal (e o Futebol Clube do Porto).
Os infortúnios da virtude # 5
Ainda (e sempre) aquele verso de Ruy Belo: mas ó poeta administra sabiamente a tristeza. Que tu leste com o implícito que julgavas pertencer-lhe: a tristeza enquanto toda a existência que há. Não importa agora se estavas equivocado ou não, até porque nunca se está e sempre se está. Começaste a administrar uma existência, agora dizem-te que isso é uma carreira.
Música, idades
Tal como na existência normal das pessoas normais — assim os músicos no tempo de existirem dentro da sua música. Alguns eu vejo envelhecer e morrer, vêm de um mundo a que cheguei tarde. Outros irão comigo até ao fim, companheiros de uma geração sempre improvável. Outros estão apenas a começar, anunciando a breve eternidade que me falta.
Esbjorn Svensson
O rapaz tinha 44 anos. Se tivéssemos andado juntos no liceu, seria da turma dos mais novos e podia ser que uma vez ou outra o deixasse jogar futebol connosco. Morreu a fazer mergulho de grande profundidade. Não foi uma má morte, mas é tão estupidamente cedo. Em Setembro sairá o álbum que o trio acabou de gravar por estes dias. Vai doer. Tão estupidamente cedo, meu amigo.
A vida com árvores # 3
Choveu todo o dia. Na árvore despida houve já a memória dos invernos que ainda não pôde ter.
A vida com árvores # 2
Muito calor. A laranjeira perdeu as três laranjas e quase todas as folhas. Não lhe faltando a água, recuperará — diz o jardineiro. Tem quase setenta anos, deve saber. Pelo sim pelo não, juntamente com a água acrescento-lhe pensamento mágico: imagino-a “com uma cor de folha muito junta” [Cesariny].
Carpe diem
Vemos agora que o abismo da história é suficientemente grande para todos. [Paul Valéry]
A mesma gente simpática a mesma falta de valor. [George B. Shaw]
Epígrafes de dois capítulos de Peter Sloterdijk, Se a Europa acordar. Reflexões sobre o programa duma potência mundial no termo da sua ausência política, Relógio D’Água, 2008
Miss Laura, as mulheres, o lixo e o cancro da mama
A propósito de um anúncio institucional. Hoje, no Público; para ler na íntegra e ver o anúncio, aqui.
Os infortúnios da virtude # 4
És humano e ponderado, e dizem eles que te respeitam por isso. Profundo e sensato, e acrescentam que também por isso te respeitam. Pareces até demasiado sábio para querer o poder, e assim podem mesmo admirar-te. Mas não têm a certeza do teu desapego e temem-te — e isso é o que verdadeiramente te protege deles.
Post para iniciados: assim uma espécie de deleuzianismo assaz estéril
Escreve-se por desvios. Por devires imperceptíveis. Tudo bem, quando a coisa é performativa naquele (pobre) plano de consistência em que se resolve o texto que havia para resolver. Muito pior quando o desvio nos desvia para outros textos, sem darmos conta já estamos a trabalhar noutra janela, noutro document, aquele que não precisa de ser resolvido já, aquele que até não precisará de ser resolvido nunca. Na era rizomática, o que entrava não é ler ainda aquela derradeira coisa antes de começar a trabalhar, o que entrava é esta espécie de janela pop-up com que uma coisa abre para outra coisa que abre para outra coisa que... [tudo desculpas, claro, mas...]
Muita dessa alguma coisa
A solidão da escrita é um mito. Na melhor das hipóteses — um caso raro; no fundo, uma bênção. Mas de facto não acredito nisso. Há sempre muita gente sentada dentro do nosso estarmos sentados a escrever, vigiando, criticando em silêncio, olhando com altivo desprezo, um ou outro condescendendo e sorrindo com melancolia. A única coisa solitária no acto de escrita é ser um só que escreve contra muitos que de várias maneiras vão dizendo que não. O único mistério no acto de escrita é esse um só acabar por escrever alguma coisa. Mas o pior de tudo no acto de escrita é muita dessa alguma coisa não ter sido evitada.
Escrever
Não sei se há muito a compreender nisto, mas nem sequer vou teorizar. Sei só que muitas vezes é assim: começo de mil maneiras diferentes, e pelas diferentes partes por onde se pode começar. Nada resulta. Depois há uma frase, sempre lá esteve mas custou a aparecer, e o caminho vai-se construindo. E no fim, quantas vezes essa frase acaba por nem sequer ficar.
Companhia nocturna # 22
Gosto desta capa. E projecto-a em Bach, o pouco que sei da sua vida, muito caseira, cheia de filhos, mulheres amadas, as dores que a vida sempre traz, as alegrias que também há. Gosto do olhar erguido dela e do seu decote aberto, como depois do amor quotidiano, de amamentar, ou de simplesmente estar em intimidade desprendida e doméstica. Gosto do olhar dele, interior, tímido, que vê a vida pela força dela. E todo um mundo subtil que parece envolvê-los e é maior que eles sem os esmagar. Como a música de Bach, precisamente.
Círculo
O desperdício da normalidade existente salva-nos da demência e da angústia dos investimentos megalómanos. Salva-nos com melancolia e tristeza, mas salva-nos. Até a gente perguntar para quê, e tudo recomeçar outra vez.
Uma questão de percentagem
Uma vida desperdiçada decide-se nuns escassos pontos percentuais acima do desperdício que acomete toda a normalidade existente.
A vida com árvores
O jardineiro ligou ontem: “o enxerto pegou, tá lindo, tem três laranjas, agora é a altura para plantar”. O lugar foi decidido desde o início. Veio hoje, já está no sítio. Tem três laranjas. Grandes. Vivas. Dá-me pelo peito. Há-de crescer. Hei-de vê-la da janela sem ter de me levantar daqui. Como acontecia na outra casa. Um pouco daquele jardim neste jardim. A vida com árvores, sim.
PS: por falar em árvores, e cor viva das laranjas — já há novidades felinas? [claro que a blogosfera não é muito mais que isto, mas a vida, por vezes, nem isto chega a ser]
Cidade Sitiada
Tanques nos jardins, helicópteros no ar, fragatas na costa, palanque para o desfile militar, em cada esquina um polícia — é assim em Viana do Castelo, hoje, e sê-lo-á em crescendo, até ao final do próximo dia 10. Esse é o dia em que o país subjacente ao território todo, real e imaginário, vai ao armário buscar fatiotas tão demodèe quanto a letra do hino e se instala numa cidade para afirmar que existe. Podia dar-lhe para pior, percebe-se a simbologia da coisa e tudo isso, mas por mim — passo.
Preencher. Ouvir
Grande Prémio de Poesia APE
Merecido, o Grande Prémio APE de Poesia para Ana Luísa Amaral por Entre dois rios e outras noites. Um livro que dividiu. António Guerreiro, no Expresso, e Pedro Mexia, no Público, foram muito reticentes ou até mais do que isso. Rosa Maria Martelo fez uma leitura notável e entusiasta, Osvaldo Silvestre sei que o apresentou com elogio, eu disse aqui o quanto gostei (e próximo desse post há outros com citações e re-escritas). O júri, constituído por Ana Paula Arnaut, Nuno Júdice e José Cândido Martins, decidiu por unanimidade. É momento para estar feliz pelo reconhecimento de um livro. E embora isso já não interesse nada à literatura nem à leitura dela, é também momento para estar feliz pela Ana Luísa.
Vergílio
Para já, apenas a comoção de ter recebido o livro através da cumplicidade da Fernanda Irene, que longamente o trabalhou a partir do espólio. Como se de repente o Vergílio se voltasse a sentar connosco em juventude e nos perguntássemos uns aos outros como era costume fazermos: então, em que anda agora a trabalhar? E como era bondosa e optimista essa pergunta, oh sim, como era um pouco diferente o mundo visto pela bondade e optimismo de uma tal pergunta...
Noite límpida # 2
Percebo agora que à mesma hora de Bill Callahan (bom, mais coisa menos coisa), uns kilómetros mais para sul, havia outro grande senhor em actuação. O que eu não dava para ver como é que um autor se desenrasca de uma coisa assim...
Noite límpida
Ontem houve Bill Callahan no Theatro Circo, e num milagre de agenda consegui desenfiar-me até lá. Hipnótico, sempre. Demolidor quando acelerava, o que aconteceu mais vezes do que se estaria à espera. Despretensioso, porque o importante passa sempre pelo que acontece dentro da música. E foi claro para os happy few que encheram meia-sala que dentro daquela música, apesar dos longos anos Smog, há ainda muito Bill Callahan para acontecer.
Uma segunda-feira qualquer vista a partir de uma qualquer terça-feira
Tanto e tão pouco.
Uma segunda-feira qualquer # 1
Chegar # 3
Há nome de autor, não há nome de recenseador. Devias lembrar-te disso e despachar-te.
Chegar # 1
Por que não te rendes a um mundo assim tão fácil?
Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 30
Vir
Primeiras montanhas
últimas ondas
— as dunas
a partir de Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 53
Ir
Primeiras ondas
últimas montanhas
— as dunas
Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 53
A sensibilidade austera do social
Não eram recados para Sócrates, mas algo me diz que os olheiros do PM devem ter escutado com atenção Constança Cunha e Sá, no telejornal da TVI: “Manuela Ferreira Leite provou que é possível ganhar eleições sem prometer nada e sem ter ideias sobre o que fazer”.
E depois, mais à frente: “A sensibilidade social que mostrou não foi só para atenuar a sua imagem de dama de ferro, é uma corrente que existe no seio da social-democracia”.
Assim, de repente, o vazio político do centrão parece estar condenado a entrar numa nova fase, a da sensibilidade austera do social: lágrimas graves sobre dossiers que dizem a impotência das soluções e o gigantismo dos problemas. O que por acaso (é mesmo por acaso, mas já agora aproveito a licença poética), me faz lembrar uns versos de Cesariny: “São criaturas, é verdade, calcule-se, / gente sensível e às vezes boa / mas tão recomplicada, tão bielo-cosida, tão ininteligível / que já conseguem chorar, com certa sinceridade, / lágrimas cem por cento hipócritas.” [louvor e simplificação de álvaro de campos]
Outrora agora
bem, já assentamos que eu não percebo nada disto, que estas coisas valem apenas o que valem e que isso é muito pouco, bla bla bla bla... portanto: com os atrasos devidos à periferia, mais ao deixar andar até um tipo vencer a preguiça e fazer a encomenda, mais a não sei quantas coisas que já são sabidas, bla bla bla bla... declaro: depois dos National, este foi o melhor disco do ano passado... e o outrora agora não se deve ao facto de ser do ano passado e só o ouvir agora, nada disso, mesmo nada disso... refere-se à política, sim, isso mesmo, à política, essa coisa que algumas canções de outrora tinham como preocupação e tema e pensamento...
que não haja equívocos, apesar de hoje serem as eleições no psd # 2
que não haja equívocos, apesar de hoje serem as eleições no psd # 1
Informação gratuita
Não percebo as queixas contra o sequestro do espaço televisivo pela selecção nacional. Ele é o quarto dos jogadores, a comida dos jogadores, as distracções dos jogadores, enfim, um chorrilho de inanidades, dizem os queixosos. Mas eu não os percebo. Nos tempos que há muito tempo correm, queriam o quê? E quando não apanham com estas inanidades, servem-lhes em seu lugar altas iguarias de reflexão, cultura e informação? Mas sobretudo eu não percebo é isto: que faz essa gente em frente aos televisores? Procura motivos de queixa? Se for isso, sempre posso informar, e gratuitamente, que há mais para queixar entre céu e terra do que pode conceber a televisão.
Os conservadores, em música, quando são bons, chamam-se clássicos. Pode ser?
Um desses críticos
Cara Bénédicte Houart
Obrigado por ter deixado falar mais alto a sua faceta maternal e profissional. Tomei boa nota do finistil-gel, suas regras de aplicação e cuidados correlatos. Entrando o verão, creio bem que me será útil.
Mas, por enquanto, o problema não é de comichão. Se problema houvesse, talvez se resumisse a isto: os críticos deviam vir com pequenos manuais de instrução. Pelos menos alguns, que escrevem rapidamente em blogs de manchas impressionísticas. Esses, por exemplo, não têm pele. Quando falam de livros que os arranham, é porque a coisa faz sulcos na alma da inteligibilidade. Mas são críticos esquisitos, quer dizer, têm os seus pressupostos muito perto das suas idiossincrasias todas particulares. Porque a coisa só arranha se antes percebida, ou tendo-se antes dado a perceber. E se arranha é porque levanta a pele do percebido para outros entendimentos. Coisa que, quando acontece, esses críticos consideram a grande vantagem de ler.
Agradecendo ter-me arranhado
Luís Mourão, um desses críticos
Urgente
Caro Luís Mourão,
Perdoe esta imprevisível e intempestiva irrupção na sua caixa do correio de uma sua algo desconhecida. A verdade é que, tendo acedido e passeado pelo seu blogue, ainda para mais chamado "manchas", fiquei extremamente preocupada consigo (se me permite - a preocupação e o tratamento). Segundo percebi, anda lendo livros que o arranham e lhe causam, consequentemente julgo eu, comichão. A minha faceta maternal e profissional falou mais alto, de modo que lhe recomendo, como tratamento urgente, o seguinte: aplique fenistil-gel, venda livre em qualquer farmácia perto de si, nas zonas da pele já afectadas, não mais de quatro vezes por dia. Se o prurido continuar após cerca de uma semana de aplicação, não hesite em consultar o seu médico. Atenção: evite coçar-se nas zonas afectadas, sobretudo após a aplicação do dito fenistil, já que este medicamento pode ter como efeito secundário um
passageiro aumento da sensação de prurido. E ainda: este medicamento destina-se a aplicações cutâneas, de modo algum deverá ingeri-lo!!! Acaso ainda assim o faça por inadvertência, diriga-se rapidamente para o centro de saúde mais próximo. Como recomendação suplementar, e para terminar, aconselho-o a escolher mais criteriosamente as suas
leituras, evite qualquer livro, por mais atraente que lhe pareça, que tenha em si esses efeitos tão indesejáveis. Siga o sábio adágio popular que desde há séculos nos ensina que as aparências enganam. No entanto, quando as aparências se manifestam cutaneamente, há que levá-las a sério e tomar as medidas apropriadas.
Com toda a consideração e desejo de rápidas melhoras
Bénédicte Houart, estagiária em dermatologia
Nenhum regresso # 2
não é bem ler poesia; não é ler o poema por ele próprio; é prolongá-lo pelas conexões aleatórias, necessariamente aleatórias, que os versos estabelecem com coisas da nossa vida; os particularismos em que vão embater; como se tudo tivesse de significar, possuir um sentido apenas para nós.
onde estiveram eles, os que me faltam e sempre me faltaram, os que desconheço, os que chegarão demasiado tarde, os que nunca precisaram de mim;
por que caminham como se de tão longe, quando todas as ruas dão a volta à mesma praça e estreitecem para nascente;
que nenhum passo pesado que baste, que aprisione até à morte ou liberte pela manhã;
como se um em frente para outro inverso, são assim todas as certezas quando sabemos da sua matéria volátil;
como se andar sequer fosse indiferente, disse ele deixando-os passar e estacionando frente ao mar;
que nenhuma palavra suficientemente dorida, mesmo as náufragas, as soterradas, as executadas;
que só o silêncio e que nem ele, coisa que a gente vai aprendendo à sua própria custa sem sequer se queixar;
que nada porventura ou só a vida, sim, que nada porventura ou só a vida, quer dizer, só a vida acabando-se segundo a sua lei.
a partir de Bénédicte Houart, Vida: variações, Cotovia, 2008, p. 50
Nenhum regresso
onde estiveram eles
por que caminham como se de tão longe
que nenhum passo pesado que baste
como se um em frente para outro inverso
como se andar sequer fosse indiferente
que nenhuma palavra suficientemente dorida
que só o silêncio e que nem ele
que nada porventura ou só a vida
Bénédicte Houart, Vida: variações, Cotovia, 2008, p. 50
Tarde (quase) de inverno
O que D. Juan não chega a entender
nem todos os homens que
saem de minha casa saem da minha cama
nem todos aqueles que
saem da minha cama saem de dentro de mim
nem todos os que
saem de dentro de mim chegaram sequer a lá entrar
não, nada é tão líquido assim
Bénédicte Houart, Vida: variações, Cotovia, 2008, p. 16
Tiros no escuro
A leitura desliza. A provocação não é codificada, mas uma forma de vida que se afirma apenas por si mesma. Com a quantidade suficiente de auto-ironia e auto-crueldade para ser tomada a sério no seu riso e na sua gravidade sem eloquência. Percebe-se tudo, mas tudo arranha. A vida, é preciso quere-la. Mesmo que as suas variações sejam estranhas, porque “quase todos os tiros que damos são no escuro” (p. 30). É bom que haja alguém a dizê-lo.
Antigo
Uma chuvada de granizo que suspende tudo em volta e escava na terra e na pedra um silêncio antigo.
Companhia nocturna # 20
Curioso como também o nosso ouvido se molda por esquemas de pré-compreensão e pode ser um pouco surdo relativamente ao que não esperava encontrar. Em Arianna Savall, estava pronto a ouvir Savall — e ouvi (e está lá). Só agora vou ouvindo Arianna: uma discretíssima pop, uma world que até podia remeter para uma África já toda ocidente, qualquer coisa assim por esses lados.
Auto-entrevista-fágica
Manchas entrevistou Luís Mourão a propósito da sua última instalação mm#1-16 impermanence.
Manchas [M]: Considera-se um impermanente?
Luís Mourão [LM]: Sim, sou um impermanente sedentário.
M: Quer explicar essa designação?
LM: Nem por isso.
M: Há impermanentes nómadas?
LM: Os que trabalham voluntariamente nas situações de calamidade, por exemplo.
M: É por isso, então?
LM: O quê?
M: Essa espécie de raiva, dor, resistência, forçar passagem que se sente na sua instalação?
LM: Sente isso?
M: Sim. Como se o seu gesto fosse análogo do gesto político do que vai para uma situação de calamidade.
LM: Gostaria que fosse assim, de facto. Todos os dias vemos o mundo a desmoronar-se. E todos os dias temos de recomeçá-lo. Às vezes não se sabe bem como nem por onde.
M: Nunca sentiu vontade de desistir?
LM: Sempre. Tenho um combate permanente contra o pessimismo. Mas é um combate em que também se aprende. Porque o pessimismo, como o medo, ensina. Ensina a distinguir, a escolher os combates. Ensina a não esperar tudo, a aceitar a parcialidade do que vem. E torna-nos radicais numa coisa. O pessimismo e o medo ensina-nos que a dor existe, realmente existe. E torna-nos radicais na recusa da dor desnecessária ou movida apenas por crueldade.
M: É esse o seu limiar do imperdoável?
LM: Politicamente, sim, é esse um dos meus limiares do imperdoável.
M: Impermanente diz respeito também à sua situação de finitude?
LM: Diga mortal. Não há que contornar as palavras. Mortal. E pode dizer também, aliás já foi dito de muitas outras maneiras, que impermanente é aquele que se move em direcção à morte, que se move apesar da morte, que se move adiando a morte, não tanto a sua, mas a do mundo.
M: Impermanente é o nome de uma teologia sem deus, é isso?
LM: Não era suposto ser isso, mas estamos sempre a lidar com esse espectro. Já não consigo olhar para as coisas de outro modo. Sou impermanente por mim e pelo mundo. Mas do mundo decidirão os que cá estiverem, cada um a seu modo. É a sua responsabilidade, quer queiram ou não.
M: Próximos trabalhos?
LM: Não há próximos trabalhos, há só trabalhar. Depois, num momento qualquer, duas ou três coisas ligam-se, e momentaneamente temos um “próximo trabalho”.
mm#16 [melody]
can i love you without words yes we can
is this political yes it isn’t
is there words no last melody
between melody and end
between maybe and melody
mm#15 [sweep 2]
(.......iiiii-hh.....)____(.....iiii-hh...............)
(...iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii......)____(....................iiii)
(..........)_____(...........)____(iiii.................)
mm#14 [rocking]
////---//--//---.....>>>---____
////____////____////____
//---//---//---//---_____
fffffffffffffffffffffffffffffffffffffffffff
mm#13 [sweep 1]
last dance first chance
last call first of all
last exit maybe first
maybe you go don’t go
turnaround turnaround turnaround
slow dissolve turnaround
mm#12 [totentanz]
ton-----TON----ten--------TANZ--------ten---ton---
ten--TANZ-----ton----TEN-------tanz--TON----------ten--tanz---
TTTTTTZZZZZZZttttttzzzzzzzzz---///---ffffffffffffffffffffffffffffffffffff
mm#11 [slow dissolve]
don’t go at last don’t exit maybe you don’t
go at last exit maybe you don’t
mm#9 [maybe 2]
AAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAA
aaaaa...////.....aa//aa//aaaa.........aaaaaaaaaaaa///aaaaaaaa
mm#7 [between]
between this and that
between last and last
between be-tween beeeeeeeeee
mm#6 [particular]
sssssssssssssss................
ttttttttttttttttttttttttt...............
maybemaybemaybemaybemaybe
mm#5 [disequilibrium]
breath-----breath----last----at last---breath
mm#4 [liminal]
ton-----TON----ton--------TON--------ton---ton---ton--
TON-----ton----TON-------ton--TON----------ton--ton
mm #3 [breath]
ffffffffffffffffffffff..................fffffffffffffff...............fffffffffffffffffffffffff.............
.......fffffffffffffff...............ffffffffffffff.................fffffffffffffffff....................
...........fffffffffffffffff..............ffffffffffffffffffffffffffffff.......ffffff......ffffff.......
Caravana em braga # 3
O autor lê compostamente à direita, começando pelo fim, numa desordem benévola mas irreparável; o crítico espreita, deixando a descoberto o imenso parque de estacionamento de que já se ausentou a caravana; atente-se no pormenor pós-moderno da camisa do crítico a sair debaixo da camisola; nota final, e muito alta, para a postura extremamente grave dos dois copos de água sobre a mesa.
Caravana em braga # 2
Caravana em braga # 1
Movimentações sem inimigo à vista
Mesmo no jogging matinal, na cidade meia deserta, com o cão pela cintura, a geografia continua a ser uma arte da guerra.
Companhia nocturna # 19
Nestas coisas, a filiação tem tanto de garantia como de obstáculo. A filha de Jordi Savall e Montserrat Figueras, que toca harpa, canta e acompanha boa parte da aventura de Hésperion XXI, corre os riscos necessários para a sua afirmação própria. É um programa estranho, mas sedutor a cada audição. Parece música provinda desse imenso reportório da antiguidade que Hésperion XXI tão bem explora, mas há uma leveza, uma luz diáfana, que remete para uma certo impressionismo muito contemporâneo. Só quando fui ver o folheto é que percebi: poemas de agora (à excepção de um), música da própria Arianna Savall (excepto um caso, mas mesmo aí o arranjo é também da sua autoria). Um fio de melancolia doce sem quaisquer sentimentalismos, uma beleza mediterrânica, como pretende e se lhe pode conceder: luz, sol, mar, noite aberta.
Há aí alguém que possa levar isto à televisão ou à primeira página de um jornal de “referência”?
Os nossos birmaneses, por Rui Bebiano.
Transição defesa-ataque
Podes espreitar o abismo. Não há muito para ver, mas deve-se ir até lá. A estrada é boa. Há um drive-in que tem um óptimo café e umas torradas com manteiga divinais. Costuma-se parar na volta.
































