Como dizia mais ou menos o outro: estou cansado, cansadíssimo, íssimo, íssimo... Vale que esta música começa já do outro lado disso.
Companhia nocturna # 23
A opinião do morto
Os livros que não escrevi ¬— eis um título que é o resumo mais interessante de qualquer vida. Mesmo a de George Steiner, com todos os seus livros efectivamente escritos. O dístico da capa avisava: “O novo livro de Georges Steiner (publicado este ano nos EUA)”. Rápida olhadela à contra-capa — prometia; mas estava na badana da capa, e logo em segundo lugar, a opinião que me decidiu sem mais: “Magnífico”, diz Edward Said no The Nation. Convenhamos que para vir da tumba afirmá-lo há que haver razões ponderosas.
Brynt Kobolt
Duas estadias em Copenhaga (Agosto de 2006 e Agosto de 2007), duas séries de poemas, mas nada mais alheio ao espírito do lugar ou ao olhar da diferença. A poesia de Manuel de Freitas declina o ocidental mundo que, de tanto ser nosso, indiferentemente nos morre. As pequenas coisas não-poéticas lá estão, a lucidez da morte também ¬— e a música, essa não tão pequena coisa assim (e o amor, ah, o amor, havemos de falar disso, o tão discreto amor mas tão à beira de outra poética, pois, o amor, e a idade, enfim, havemos de falar disso, haverá outro livro, havemos de falar nisso...).
Das paisagens # 9

Gostaria, às vezes, de sentir um pouco mais de comoção
por isto a que chamamos mundo. Mas as generalizações,
ainda que bem intencionadas, nunca foram o meu forte.
Limito-me a gravar na epiderme o som febril das ambulâncias,
o grito feliz ou exasperado que pela última vez se cruza
com estes versos e com as ruas onde fingi estar vivo.
Desta semana, no mundo, se poderia simplesmente dizer
que nasceram ou morreram alguns cadáveres novos.
Mas até isso, logo que amanhece, nos fazem esquecer os lagos.
Manuel de Freitas, Brynt Kobolt, Averno, 2008, p. 15
Para dias fortes
Podia ser uma coisa abstrusa. Música composta por reputados pianistas da “clássica” (Friedrich Guilda, Alexis Weissenberg), ou por outros de menor nomeada, tendo por leitmotif a sua aproximação ao jazz (o parente longínquo disto, senão o seu responsável, é naturalmente o Gershwin de Rhapsody in blue). Podia ser abstruso, mas não é. Em muitos momentos, é arrebatador. Para dias fortes, claro.
A mais longa corrida
Mal ele se mexeu no bloco de partida eu avisei logo: não vás! Mas ele foi. A mais longa corrida para o desastre que alguma vez vi um guarda-redes fazer. Uma tragédia que entra directamente para o panteão do futebol.
(Então e o Ricardo?, perguntam vocês. Bom, a ver se nos entendemos. O Ricardo correu um terço da distância de Rustu, o que proporcionalmente triplica a asneira. E quanto a asneira, já deve ser para aí a tricentésima da sua carreira. Ora, como qualquer pessoa instruída sabe, a história, quando se repete, é sob a forma de farsa. Pelo que só pude rir. Amareladamente. Sim, porque eu sou uma pessoa instruída, já estava prevenido com o meu Cesário etc e tal. Ah, só mais uma coisa: ninguém me tira da cabeça que a Alemanha teve a ajuda do fantasma da Itália eliminada. Qual cinismo alemão, qual máquina alemã, qual eficácia alemã, qual nada: aquilo foi Itália pura e dura. Não foi bonito de ver, não convenceu ninguém, quase sempre numa irritante retranca — mas o resultado é que conta. Venha-se o Espanha-Rússia para ver por quem vou torcer na final.)
Das paisagens # 8
Das paisagens # 7
Na esquina do free com a melodia
Depois do sucesso de Raining on the moon, o projecto mais “acessível” do muito avançado William Parker, ei-lo que reincide com o seu quarteto e a cantora Leena Conquest agora em todas as faixas. Mainstream de alto nível, sem dúvida, mas a ancoragem é tão forte que de vez em quando, com toda a naturalidade, o quarteto navega outras águas. Mais uma vez fica dada a lição (se preciso fosse): os do free, quando querem, são tão bons quanto os melhores clássicos.
Segundo o desejo
Das paisagens # 6
Das paisagens # 5
Das paisagens # 4
O mundo quando não estamos a olhar: ela dormia, ele morreu. No sonho dela o mundo rodava na direcção da sombra, mantendo o excesso de calor distante. Na morte dele houve apenas um vago tremor, uma fina aragem que o envolveu.
O mundo na manhã seguinte: ela acordou, ele era já matéria de poema.
O mundo depois da manhã seguinte, quando de novo não estamos a olhar: o conhecimento fazendo-se sem sujeito que conheça.
Das paisagens # 3
Intermezzo
Das paisagens # 2
Das paisagens # 1
(dois) Erros meus e sem queixas da fortuna
Foi sempre visível que Portugal podia ter derrotado esta Alemanha, mesmo com Scolari à frente, a complicar um pouco as posições no ataque. Mas no jogo dos pormenores, dois erros de palmatória é coisa demasiada. E por favor, aquele empurrãozinho do Ballack foi só para evitar que o Paulo Ferreira o viesse atropelar de marcha à ré...
Agora torço por bons jogos, que até os tem havido, e pela Croácia, Holanda e Espanha — um pouco mais ou menos por esta ordem, mas em modo mais desprendido.
Pronto, ficamos assim.










