Companhia nocturna # 29
Num mundo ideal, António Pinho Vargas teria oferecido essa melodia fabulosa que é «Tom Waits» a Keith Jarrett — digamos, como se fosse um standard —, e Keith Jarrett ter-lha-ia devolvido em triplicado, múltipla como o mundo que há em tudo, única como só as melodias assim podem ser.
Mas este é um mundo real, como me dizem as borboletas do poema de baixo que ouvem esta canção há muito, muito tempo.
E comove, bem para lá de não me comover

BORBOLETAS
Noites sem sexo são perfeitas, também: janelas entreabertas,
sombras que passam na rua através das horas, relâmpagos
que não chegam a iluminar as paredes do quarto. Românticos
que se encontram depois de viver vidas paralelas, cansados
- mas enlaçados antes que chegue a hora de partir, sem saberem
se amanhã há outro sono igual, ou uma escolha para fazer.
Os dois sabem que são doidos, estendem os dedos na escuridão
entre as luas. Os dois sabem que mais adiante podem arder
de repente no meio do Verão, consumidos pelos segredos
e pela indiferença. Noites sem sexo são perfeitas, também;
e raras, e condenadas e incompletas. Borboletas no estômago,
batendo asas contra todas as paredes do corpo - não deixando
que ele adormeça, inquieto e insatisfeito, voltado para dentro
e para o passado. Românticos que se encontrarn quando nenhum
deles esperava outra oportunidade, outro caminho. Nunca estamos
preparados, diz um. Nunca estamos, repete o outro, quando
a primeira borboleta sossega depois de um beijo em dívida.
Companhia nocturna # 28
Do jazzmen que já foi — que de algum modo não deixou de ser —, muito material transitou para aqui. Com mais arquitectura, com mais densidade. Uma longa suite com muitos recantos para descobrir. Nunca é a técnica nem o improviso repentista (o que não significa que, noutros, estas não sejam qualidades admiráveis). É sempre a composição, o rigor que solta a música com o peso apropriado a cada momento.
A vida com árvores # 4
Alguns tenros ramos vibrando verde.
Algumas doces folhas em aéreos esboços esverdeados.
(agora vê lá se cresces até poder ser eu menino à tua beira)
WC Lectures # 27
Era exactamente assim que a coisa aparecia no meu telemóvel
e por isso eu desisti (bem, realmente nunca usei a função, e pelo pouco que se via não me pareceu que valesse a pena rebobinar mentalmente o livrinho de instruções). Mas ainda bem que alguém foi de opinião diferente. No resto, parece-se bastante com o que eu disse, só que o coro está mais afinadinho e melódico...
Aqui estou eu sentado em frente dela
O fetichismo que se desconhece a si próprio faz baloiçar o corpo como uma criança, somos esse ser que tendo já separado o mundo de si, o trata ainda como um sujeito que fosse só exterioridade. Nessas condições, a alma que é um vício é-nos um território inimaginável. Pregas de vestidos e botinas, eis o que sabemos da alma que vagamente começamos a intuir. Numa palavra: ficamos tão infantis quanto deveras o somos. É por isso que aos dezasseis anos — é a idade que ele tem —, o amor só pode vir a ser uma derrota. Romeu e Julieta não tiveram tempo de o saber. A condenação política, empurrando-os para a morte, salvou-os do conhecimento. Mas Vladimir sobreviverá. Vai aprender por si mesmo que a única consequência de sobreviver é a aprendizagem. E que isso não é particularmente exaltante. Como aliás a existência não é nada de que qualquer coisa em particular se possa definir como exaltante.
"Estava a olhar para ela e a sentir quão próxima e querida se tornava para mim! Como se a conhecesse havia muito, como se não soubesse nada nem tivesse vivido antes de a conhecer... Trazia um vestido escuro, usado, pusera avental; eu teria acariciado de boa vontade cada prega daquele vestido e daquele avental. As biqueiras das botinas assomavam debaixo da bainha do vestido: apetecia-me inclinar-me com veneração sobre aquelas botinas... Aqui estou eu sentado em frente dela - pensei -, acabo de travar conhecimento com ela... que felicidade, meu Deus! Por pouco não saltei da cadeira, tão fascinado estava, mas limitei-me a baloiçar os pés como uma criança deliciada com uma guloseima."
Dividir para reinar
Tinha aprendido a estratégia como político, mas desde sempre era um reformado da política. Todavia, estava interessado em reinar sobre si próprio. Dividia todos os seus problemas em parcelas progressivamente mais pequenas até serem pequenos nadas. Regra geral, os resultados eram satisfatórios. A grande contrariedade eram as excepções à regra. Sempre imprevistas e imprevisíveis. Naturalmente — ou não fosse isto um post afundadamente moralista — a principal excepção à regra era a própria existência.
Literalmente
Ok, eu percebo as reticências de João Bonifácio ao concerto do Cohen. O que foi grande, foi mesmo grande — impossível não concordar. Mas o que não foi tão grande, não foi lupanar. Não, aqueles arranjos não são à Casino do Estoril, são arranjos de uma dor implosiva e bem-comportada à... bem, vamos dizer assim, à Tchékhov. Há o óbvio e o cortesmente dissimulado. Lembro-me de ter discussões semelhantes acerca de Coltrane (o génio óbvio do grito) e Bill Evans (o génio cortesmente dissimulado do grito). Cohen veio vindo de um pólo ao outro, e essa é a sua história — génio e grito envolvidos em roupagens diferentes, num corpo diferente, num olhar diferente.
E mesmo que... e mesmo que num deslize ou outro — mas também houve deslizes antes, há sempre deslizes onde há génio, o génio inacaba tudo e essa é a sua potência criadora —, sim, e mesmo que... bem, vamos dizer isto de outra maneira.
Eu ri-me como um perdido com a “recensão” que o Rogério Casanova fez de Português Suave. E quando chegou o “literalmente”, quase me ia engasgando de tanta risota. Até porque me lembrei das mil vezes que a comida “aterrava” na mesa, nos romances anteriores, segundo as contas do João Pedro George. Arranjos, que valha a verdade, nem lembram ao lupanar. Mas o Osvaldo já tinha chamado a atenção que certas coisas como trocar o nome das personagens durante algumas páginas acontecem também aos grandes. Ao que posso agora acrescentar que o “literalmente” também. Porque na viagem até Lisboa me decidi por umas horas de férias absolutas, e não é que logo à página 18 de O Primeiro Amor, de Turguénev: “Os seus olhinhos negros espetaram-se, literalmente, na minha cara”. Imaginam o calafrio, a súbita desconfiança de que algum génio maligno me tivesse trocado o conteúdo do livro? Mas quando na página 36 li esta confissão en passant: “toda aquela algazarra, (...) aquele convívio invulgar com pessoas quase desconhecidas subiram-me literalmente à cabeça”, não houve calafrio nenhum, já tinha tido provas sobejas do génio de Turguénev. E do Cohen também. Literalmente.
Hey, that’s a good way to say goodbye
[para o coro] Vá, minhas queridas, não parem. Podiam continuar assim a noite inteira: tum ba to tum. Gosto tanto. E vocês não têm nenhum sítio interessante onde ir, pois não? Vá, não parem. [para o público] No outro dia tive uma revelação acerca da verdade. Aquilo que todas as filosofias e todas as religiões procuram foi-me revelado. [olhando rapidamente para o coro] Continuem, não parem. [para o público] Mas eu vou-vos revelar a verdade, porque eu não sou o tipo de pessoa que guarda uma coisa destas só para si. Vocês querem saber a verdade? Bem me parecia que havia muita sede de verdade. Bom, então eu vou-vos revelar a verdade. [aponta para o coro] tum ba to tum.
Das paisagens # 14
Sem a força da juventude, mas com a recordação de já termos estado aqui — este longo caminho que lava o olhar. Dizia-se, vamos aos carris?, e eram muitos quilómetros até lá cima, toda a atracção do desafio, e um prémio final em mundo visto que não merecíamos nem bem compreendíamos. Agora sabemos: Se houvesse uma obrigação digna e perfeita / seria esta: /subir pela montanha, / esgotar as suas forças, contemplar o vale. [Francisco José Viegas, Se me comovesse o amor, p. 10]
Companhia nocturna # 27
Em todo o caso? Sim, talvez. Em todo o caso.
A vida normal usada contra si mesma
O diagnóstico de Enzensberger é acutilante. O seu conceito de “perdedor radical” como figura do terrorista é uma mistura, equilibrada no fio da navalha, entre uma caracteriologia psíquica e uma outra sociológica, ambas devedoras de uma modernidade que falhou tanto aos sujeitos como alguns sujeitos lhe falharam a ela. Eis uma síntese possível da figura do perdedor radical: “desespero pelas próprias insuficiências, busca de bodes expiatórios, perda de sentido da realidade, sede de vingança, delírio da masculinidade, sentimento compensatório de superioridade, fusão entre destruição e auto-destruição, desejo compulsivo de, por meio da escalada do terror, se tornar senhor da vida dos outros e da própria morte.” (p. 93). Isto no seio de um mundo globalizado em que, por um lado, os excluídos o são de um modo radical e sem precedentes, e, por outro, os movimentos islâmicos vivem em colectivo, e ao nível de complexo civilizacional, aquilo que os perdedores radicais vivem individualmente. Neste ponto, a caracterização do estado de desenvolvimento das sociedades árabes, apoiada em dados fidedignos, é verdadeiramente devastadora e explica algumas coisas.
Do meu ponto de vista, faltam apenas dois aspectos para o retrato ser mais completo. Uma reflexão sobre a perda do ideal de revolução e suas consequências no desenvolvimento da modernidade tardia — de alguma forma, os perdedores radicais de hoje foram, ontem, os escravos convocados para a grande revolução porque só tinham a perder as grilhetas que os amarravam. E uma reflexão sobre a condição tecnológica da globalização e seu potencial destrutivo — por mais radicais que sejam estes perdedores, o seu poder destrutivo não advém da sua fúria e do limite de auto-destruição até que estão dispostos a ir, mas dos instrumentos de que dispõem. Neste sentido, o que é perturbador e novo neste terrorismo é que ele usa a vida normal contra si mesma, o que nos instrui sobre duas coisas: a vida normal, hoje, usa de uma força que, desregulada, destrói a normalidade; usando os terroristas a força da vida normal, torna-se impossível estabelecer uma normalidade que lhes seja imune.
Companhia nocturna # 26
É nesse momento breve, alto para dentro, nesse oco que já não é música nem ainda o esquecimento dela — tu.
No lugar onde tudo aconteceu
A patologia do realismo enquanto cenário: estamos no lugar onde tudo aconteceu, diz o repórter. À volta não há nada nem ninguém, ou então muita gente que também não estava lá quando tudo aconteceu. O repórter narra então a história de como tudo aconteceu, e não há qualquer vantagem visível entre o directo e o estúdio. A não ser a possibilidade da reafirmação final da patologia do realismo enquanto cenário: fulano de tal, estação tal, em directo do lugar onde tudo aconteceu.
Companhia nocturna # 25
Injunção ao cinema
Reúne Escalas, de 1981, acrescentado agora de O Deserto.
Fotopoemas. Não é uma questão de harmonia ou de ilustração mútua, mas de combate, re-envio e multiplicação. É legítimo lermos apenas os poemas, sem olhar mais nada: eles bastam-se. É legítimo olharmos apenas as imagens, sem ler mais nada: elas bastam-se. A ideia de cinema-tógrafo seria a do movimento que circula entre ambos e que faz circular ambos. Mas um movimento que se retrai ao contínuo do cinema, antes fotogramas isolados, poemas isolados, e conexões topográficas entre tudo. Cinema, só em quem vê/lê. De alguma forma, como sempre acontece. Mas aqui com as matérias primas mais disponíveis: liberdade maior que se paga com uma injunção maior a fazer esse cinema. Como também quase sempre acontece — e não é mau.
Multiplex # 44
Como me tinham avisado, Forgetting Sarah Marshall não é tão estúpido quanto o inenarrável título português que lhe foi atribuído, “Um belo par de... patins “. Bom, a dor de cabeça passou, já não foi mau.
E fica uma sequência, essa em que Mila Kunis é toda ela a personagem que age empaticamente para com a dor de corno de um homem que desconhece. De súbito, o sorriso e a pose profissional da recepcionista de um hotel havaiano dobra-se desse olhar doce de que um humano é capaz perante a derrota de outro humano. Certo, esse olhar doce carrega boa parte da trama (boy encontra girl compreensiva, girl compreensiva já soube o que era a derrota, etc), e o filme não faz (nem podia fazer) qualquer esforço para se desviar disso. Never mind. Naqueles segundos, únicos em todo o filme, podemos amar uma personagem e sentirmo-nos vagamente confortados em todas as nossas derrotas.
Uma indiscrição
"Cheio de curiosidade, atrevi-me a ir verificar uma vez o que lá se encontrava estampado, e descobri a assinatura dele, do senhor Soares, às avessas, e ao invés, mas fui-me logo embora com a ideia de que tinha cometido uma indiscrição que não se desculpava."
Levar o nome próprio às avessas e ao invés — é nisso que consiste a literatura que merece esse nome. Não a experiência de um, mas a experiência do mundo às custas desse um — que é isso também, e sempre, a vida. A gente compõe a normalidade de um lado apenas para deixar a existência e a literatura trabalharem em paz e sossego do outro (em paz e sossego?..).
Das paisagens # 13 [ilhas no meio do nevoeiro]
"Surpreendíamo-lo noutras ocasiões, a examinar com minúcia o mata-borrão, e percebíamos que o senhor Soares se sentia fascinado pelos rabiscos que tinham sido mal absorvidos, todos negros porque só ele usava tinta dessa cor, e salpicados de borrões que se assemelhavam a ilhas no meio do nevoeiro. Cheio de curiosidade, atrevi-me a ir verificar uma vez o que lá se encontrava estampado, e descobri a assinatura dele, do senhor Soares, às avessas, e ao invés, mas fui-me logo embora com a ideia de que tinha cometido uma indiscrição que não se desculpava."
A confiança no leitor

Eis um exemplo poderoso de um dos alicerces da literatura: que ela se faz usando literariamente a própria literatura. Não só no sentido de que recicla o que já foi feito — o que até não é aqui propriamente o caso —, mas também no sentido de que a sua compreensão subentende a compreensão de literatura anterior. Não fosse Bernardo Soares ter sido quem (não)foi, e não fosse Pessoa ser ainda o mito da poesia enquanto essa qualquer coisa outra que fica sempre além do poema, e Boa Noite, Senhor Soares implodiria, aliás sem estrépito nenhum. Porque esta rápida reconstituição de alguns ambientes lisboetas em que o Sr. Soares teria trabalhado e habitado, vistos pelo prisma de um simples trabalhador de armazéns de tecidos, é apenas um cenário, estilisticamente irrepreensível, em que a bem dizer não se passa nada — muito menos alguma coisa que prove do Senhor Soares o Bernardo Soares que literariamente foi. O Senhor Soares é poeta — esse é um adquirido para o trabalhador-narrador, e tanto basta para a sua deferência e para a sua vaga curiosidade, que contudo não ousa saber mais, mesmo quando tem alguns indícios de que o Senhor Soares, pelo seu lado, não se importaria de o conhecer melhor. Toda a arte deste romance reside numa elipse que é, por sua vez, elipse de outra elipse, aquela que constituiu Bernardo Soares personagem desse “drama em gente” pessoano. Não se trata de dar corpo e vida a uma invenção pedida a outro, como acontecia no saramaguiano O ano da morte de Ricardo Reis, que por isso se bastava a si mesmo enquanto romance, ainda que exigisse a enciclopédia pessoana para um maior entendimento do seu alcance. Trata-se de algo mais arriscado, porque precisamente não se basta a si próprio: de através de um mínimo de corpo e vida, de tudo fazer indício para a existência desse corpo e dessa vida. A humildade da grande arte também se pode ver nisso: na forma como se coloca inteiramente nas mãos da inteligência e sensibilidade dos leitores e da enciclopédia que os constitui. Que é como quem diz: “A rua onde morava o senhor Soares apareceu-me como uma dessas onde nada acontece, mas onde de facto se pode imaginar muita coisa” (p. 71).
Essa parte obscura
Gosto da imprecisão da memória. Frases que de repente regressam (de livros, filmes, conversas), que sei que estão “erradas”, mas absolutamente certas na sua incorporação em mim. O que se transformou coincide com o que vou sendo. Mas para o saber, teria de as reconstituir na sua originalidade — e se o fizesse, separava-me dessa parte obscura que me transporta pela vida tanto quanto as minhas escolhas conscientes.
O mar, ainda
Não se vê o mar. Não se olha o mar. Quem está ao pé dele, está só ao pé dele. O Pessoa talvez não concordasse, que isto entre um rio e o mar há uma certa diferença de espaço, e sobretudo da proporção e importância de sermos o sujeito diante desse espaço. Ele perdia-se no infinito, a gente está só ao pé do infinito, como um cão deitado aos pés de um dono que não há.
Multiplex # 43
Não é preciso muito tempo de filme para nos surgirem aquelas perguntas todas: esta simplicidade, esta vida da periferia social, esta comunidade pré-moderna, esta dignidade sem pathos, é isto ainda cinema visível? E na medida em que vamos ficando, a resposta é inequivocamente sim. E o resto que haveria a dizer, realmente, pouco interessa para aqui. Para o multiplex, basta isto: Abdellatif Kechiche, um realizador de cinema.
Psicopatologia da vida quotidiana # 40
Então quis ficar morena. Eu que sempre detestei o sol. Deu-me. Pensei que fosse coisa de gaja. Mas afinal o que quero é ficar a mulher que ele nunca conheceu. E re-começar a partir daí. Como? Sim, é coisa de gaja, mas num nível muito diferente.
Companhia nocturna # 24
Encontros
Nelson Mandela, antes. Agora, talvez Ingrid Betancourt. Uma coisa é certa: Ingrid Betancourt foi ao encontro da história. Veremos se a história vem agora ao seu encontro. Não é preciso saber muito para dizer que Ingrid Betancourt está preparada. E que este mundo, de que muitas vezes justamente desesperamos, precisa de encontros assim.
Das paisagens # 11
Perfume
Embora seja no romance que encontremos o melhor da sua arte, convirá não esquecer que Marido e outros contos (1977) é uma obra absolutamente notável e que O belo adormecido (2004), metade por metade, é não menos notável. Praça de Londres não vai tão alto, e creio que antes de mais o problema está na brevidade destes contos — a escrita de Lídia Jorge precisa de espaço para a reiteração e para a construção do pequeno pormenor que devém decisivo. Em todo o caso, e só por isso já valeria a pena, o último conto, Perfume — o mais extenso, claro —, é de antologia.
Psicopatologia da vida quotidiana # 39
Ela, arrastando firmemente o cadáver afectivo dele e escolhendo yogurtes magros: “Eu sou uma pessoa que assumiu uma determinada forma, depois de determinados antecedentes e antes de transformações posteriores.”
Companhia nocturna # 23
A opinião do morto
Os livros que não escrevi ¬— eis um título que é o resumo mais interessante de qualquer vida. Mesmo a de George Steiner, com todos os seus livros efectivamente escritos. O dístico da capa avisava: “O novo livro de Georges Steiner (publicado este ano nos EUA)”. Rápida olhadela à contra-capa — prometia; mas estava na badana da capa, e logo em segundo lugar, a opinião que me decidiu sem mais: “Magnífico”, diz Edward Said no The Nation. Convenhamos que para vir da tumba afirmá-lo há que haver razões ponderosas.
Brynt Kobolt
Duas estadias em Copenhaga (Agosto de 2006 e Agosto de 2007), duas séries de poemas, mas nada mais alheio ao espírito do lugar ou ao olhar da diferença. A poesia de Manuel de Freitas declina o ocidental mundo que, de tanto ser nosso, indiferentemente nos morre. As pequenas coisas não-poéticas lá estão, a lucidez da morte também ¬— e a música, essa não tão pequena coisa assim (e o amor, ah, o amor, havemos de falar disso, o tão discreto amor mas tão à beira de outra poética, pois, o amor, e a idade, enfim, havemos de falar disso, haverá outro livro, havemos de falar nisso...).
Das paisagens # 9

Gostaria, às vezes, de sentir um pouco mais de comoção
por isto a que chamamos mundo. Mas as generalizações,
ainda que bem intencionadas, nunca foram o meu forte.
Limito-me a gravar na epiderme o som febril das ambulâncias,
o grito feliz ou exasperado que pela última vez se cruza
com estes versos e com as ruas onde fingi estar vivo.
Desta semana, no mundo, se poderia simplesmente dizer
que nasceram ou morreram alguns cadáveres novos.
Mas até isso, logo que amanhece, nos fazem esquecer os lagos.
Manuel de Freitas, Brynt Kobolt, Averno, 2008, p. 15
Para dias fortes
Podia ser uma coisa abstrusa. Música composta por reputados pianistas da “clássica” (Friedrich Guilda, Alexis Weissenberg), ou por outros de menor nomeada, tendo por leitmotif a sua aproximação ao jazz (o parente longínquo disto, senão o seu responsável, é naturalmente o Gershwin de Rhapsody in blue). Podia ser abstruso, mas não é. Em muitos momentos, é arrebatador. Para dias fortes, claro.
A mais longa corrida
Mal ele se mexeu no bloco de partida eu avisei logo: não vás! Mas ele foi. A mais longa corrida para o desastre que alguma vez vi um guarda-redes fazer. Uma tragédia que entra directamente para o panteão do futebol.
(Então e o Ricardo?, perguntam vocês. Bom, a ver se nos entendemos. O Ricardo correu um terço da distância de Rustu, o que proporcionalmente triplica a asneira. E quanto a asneira, já deve ser para aí a tricentésima da sua carreira. Ora, como qualquer pessoa instruída sabe, a história, quando se repete, é sob a forma de farsa. Pelo que só pude rir. Amareladamente. Sim, porque eu sou uma pessoa instruída, já estava prevenido com o meu Cesário etc e tal. Ah, só mais uma coisa: ninguém me tira da cabeça que a Alemanha teve a ajuda do fantasma da Itália eliminada. Qual cinismo alemão, qual máquina alemã, qual eficácia alemã, qual nada: aquilo foi Itália pura e dura. Não foi bonito de ver, não convenceu ninguém, quase sempre numa irritante retranca — mas o resultado é que conta. Venha-se o Espanha-Rússia para ver por quem vou torcer na final.)
Das paisagens # 8
Das paisagens # 7
Na esquina do free com a melodia
Depois do sucesso de Raining on the moon, o projecto mais “acessível” do muito avançado William Parker, ei-lo que reincide com o seu quarteto e a cantora Leena Conquest agora em todas as faixas. Mainstream de alto nível, sem dúvida, mas a ancoragem é tão forte que de vez em quando, com toda a naturalidade, o quarteto navega outras águas. Mais uma vez fica dada a lição (se preciso fosse): os do free, quando querem, são tão bons quanto os melhores clássicos.
Segundo o desejo
Das paisagens # 6
Das paisagens # 5
Das paisagens # 4
O mundo quando não estamos a olhar: ela dormia, ele morreu. No sonho dela o mundo rodava na direcção da sombra, mantendo o excesso de calor distante. Na morte dele houve apenas um vago tremor, uma fina aragem que o envolveu.
O mundo na manhã seguinte: ela acordou, ele era já matéria de poema.
O mundo depois da manhã seguinte, quando de novo não estamos a olhar: o conhecimento fazendo-se sem sujeito que conheça.
Das paisagens # 3
Intermezzo
Das paisagens # 2
Das paisagens # 1
(dois) Erros meus e sem queixas da fortuna
Foi sempre visível que Portugal podia ter derrotado esta Alemanha, mesmo com Scolari à frente, a complicar um pouco as posições no ataque. Mas no jogo dos pormenores, dois erros de palmatória é coisa demasiada. E por favor, aquele empurrãozinho do Ballack foi só para evitar que o Paulo Ferreira o viesse atropelar de marcha à ré...
Agora torço por bons jogos, que até os tem havido, e pela Croácia, Holanda e Espanha — um pouco mais ou menos por esta ordem, mas em modo mais desprendido.
Pronto, ficamos assim.
A impossível impassibilidade
Corrigir: exames, trabalhos, um texto meu. A linha da vontade e da razão. Daqui a pouco, frente ao televisor, o mistério renovado do espectador de futebol que também sou: a impossível impassibilidade quando joga Portugal (e o Futebol Clube do Porto).
Os infortúnios da virtude # 5
Ainda (e sempre) aquele verso de Ruy Belo: mas ó poeta administra sabiamente a tristeza. Que tu leste com o implícito que julgavas pertencer-lhe: a tristeza enquanto toda a existência que há. Não importa agora se estavas equivocado ou não, até porque nunca se está e sempre se está. Começaste a administrar uma existência, agora dizem-te que isso é uma carreira.
Música, idades
Tal como na existência normal das pessoas normais — assim os músicos no tempo de existirem dentro da sua música. Alguns eu vejo envelhecer e morrer, vêm de um mundo a que cheguei tarde. Outros irão comigo até ao fim, companheiros de uma geração sempre improvável. Outros estão apenas a começar, anunciando a breve eternidade que me falta.
Esbjorn Svensson
O rapaz tinha 44 anos. Se tivéssemos andado juntos no liceu, seria da turma dos mais novos e podia ser que uma vez ou outra o deixasse jogar futebol connosco. Morreu a fazer mergulho de grande profundidade. Não foi uma má morte, mas é tão estupidamente cedo. Em Setembro sairá o álbum que o trio acabou de gravar por estes dias. Vai doer. Tão estupidamente cedo, meu amigo.
A vida com árvores # 3
Choveu todo o dia. Na árvore despida houve já a memória dos invernos que ainda não pôde ter.
A vida com árvores # 2
Muito calor. A laranjeira perdeu as três laranjas e quase todas as folhas. Não lhe faltando a água, recuperará — diz o jardineiro. Tem quase setenta anos, deve saber. Pelo sim pelo não, juntamente com a água acrescento-lhe pensamento mágico: imagino-a “com uma cor de folha muito junta” [Cesariny].
Carpe diem
Vemos agora que o abismo da história é suficientemente grande para todos. [Paul Valéry]
A mesma gente simpática a mesma falta de valor. [George B. Shaw]
Epígrafes de dois capítulos de Peter Sloterdijk, Se a Europa acordar. Reflexões sobre o programa duma potência mundial no termo da sua ausência política, Relógio D’Água, 2008
Miss Laura, as mulheres, o lixo e o cancro da mama
A propósito de um anúncio institucional. Hoje, no Público; para ler na íntegra e ver o anúncio, aqui.
Os infortúnios da virtude # 4
És humano e ponderado, e dizem eles que te respeitam por isso. Profundo e sensato, e acrescentam que também por isso te respeitam. Pareces até demasiado sábio para querer o poder, e assim podem mesmo admirar-te. Mas não têm a certeza do teu desapego e temem-te — e isso é o que verdadeiramente te protege deles.
Post para iniciados: assim uma espécie de deleuzianismo assaz estéril
Escreve-se por desvios. Por devires imperceptíveis. Tudo bem, quando a coisa é performativa naquele (pobre) plano de consistência em que se resolve o texto que havia para resolver. Muito pior quando o desvio nos desvia para outros textos, sem darmos conta já estamos a trabalhar noutra janela, noutro document, aquele que não precisa de ser resolvido já, aquele que até não precisará de ser resolvido nunca. Na era rizomática, o que entrava não é ler ainda aquela derradeira coisa antes de começar a trabalhar, o que entrava é esta espécie de janela pop-up com que uma coisa abre para outra coisa que abre para outra coisa que... [tudo desculpas, claro, mas...]
Muita dessa alguma coisa
A solidão da escrita é um mito. Na melhor das hipóteses — um caso raro; no fundo, uma bênção. Mas de facto não acredito nisso. Há sempre muita gente sentada dentro do nosso estarmos sentados a escrever, vigiando, criticando em silêncio, olhando com altivo desprezo, um ou outro condescendendo e sorrindo com melancolia. A única coisa solitária no acto de escrita é ser um só que escreve contra muitos que de várias maneiras vão dizendo que não. O único mistério no acto de escrita é esse um só acabar por escrever alguma coisa. Mas o pior de tudo no acto de escrita é muita dessa alguma coisa não ter sido evitada.
Escrever
Não sei se há muito a compreender nisto, mas nem sequer vou teorizar. Sei só que muitas vezes é assim: começo de mil maneiras diferentes, e pelas diferentes partes por onde se pode começar. Nada resulta. Depois há uma frase, sempre lá esteve mas custou a aparecer, e o caminho vai-se construindo. E no fim, quantas vezes essa frase acaba por nem sequer ficar.
Companhia nocturna # 22
Gosto desta capa. E projecto-a em Bach, o pouco que sei da sua vida, muito caseira, cheia de filhos, mulheres amadas, as dores que a vida sempre traz, as alegrias que também há. Gosto do olhar erguido dela e do seu decote aberto, como depois do amor quotidiano, de amamentar, ou de simplesmente estar em intimidade desprendida e doméstica. Gosto do olhar dele, interior, tímido, que vê a vida pela força dela. E todo um mundo subtil que parece envolvê-los e é maior que eles sem os esmagar. Como a música de Bach, precisamente.
Círculo
O desperdício da normalidade existente salva-nos da demência e da angústia dos investimentos megalómanos. Salva-nos com melancolia e tristeza, mas salva-nos. Até a gente perguntar para quê, e tudo recomeçar outra vez.
Uma questão de percentagem
Uma vida desperdiçada decide-se nuns escassos pontos percentuais acima do desperdício que acomete toda a normalidade existente.
A vida com árvores
O jardineiro ligou ontem: “o enxerto pegou, tá lindo, tem três laranjas, agora é a altura para plantar”. O lugar foi decidido desde o início. Veio hoje, já está no sítio. Tem três laranjas. Grandes. Vivas. Dá-me pelo peito. Há-de crescer. Hei-de vê-la da janela sem ter de me levantar daqui. Como acontecia na outra casa. Um pouco daquele jardim neste jardim. A vida com árvores, sim.
PS: por falar em árvores, e cor viva das laranjas — já há novidades felinas? [claro que a blogosfera não é muito mais que isto, mas a vida, por vezes, nem isto chega a ser]
Cidade Sitiada
Tanques nos jardins, helicópteros no ar, fragatas na costa, palanque para o desfile militar, em cada esquina um polícia — é assim em Viana do Castelo, hoje, e sê-lo-á em crescendo, até ao final do próximo dia 10. Esse é o dia em que o país subjacente ao território todo, real e imaginário, vai ao armário buscar fatiotas tão demodèe quanto a letra do hino e se instala numa cidade para afirmar que existe. Podia dar-lhe para pior, percebe-se a simbologia da coisa e tudo isso, mas por mim — passo.
Preencher. Ouvir
Grande Prémio de Poesia APE
Merecido, o Grande Prémio APE de Poesia para Ana Luísa Amaral por Entre dois rios e outras noites. Um livro que dividiu. António Guerreiro, no Expresso, e Pedro Mexia, no Público, foram muito reticentes ou até mais do que isso. Rosa Maria Martelo fez uma leitura notável e entusiasta, Osvaldo Silvestre sei que o apresentou com elogio, eu disse aqui o quanto gostei (e próximo desse post há outros com citações e re-escritas). O júri, constituído por Ana Paula Arnaut, Nuno Júdice e José Cândido Martins, decidiu por unanimidade. É momento para estar feliz pelo reconhecimento de um livro. E embora isso já não interesse nada à literatura nem à leitura dela, é também momento para estar feliz pela Ana Luísa.
Vergílio
Para já, apenas a comoção de ter recebido o livro através da cumplicidade da Fernanda Irene, que longamente o trabalhou a partir do espólio. Como se de repente o Vergílio se voltasse a sentar connosco em juventude e nos perguntássemos uns aos outros como era costume fazermos: então, em que anda agora a trabalhar? E como era bondosa e optimista essa pergunta, oh sim, como era um pouco diferente o mundo visto pela bondade e optimismo de uma tal pergunta...
Noite límpida # 2
Percebo agora que à mesma hora de Bill Callahan (bom, mais coisa menos coisa), uns kilómetros mais para sul, havia outro grande senhor em actuação. O que eu não dava para ver como é que um autor se desenrasca de uma coisa assim...
Noite límpida
Ontem houve Bill Callahan no Theatro Circo, e num milagre de agenda consegui desenfiar-me até lá. Hipnótico, sempre. Demolidor quando acelerava, o que aconteceu mais vezes do que se estaria à espera. Despretensioso, porque o importante passa sempre pelo que acontece dentro da música. E foi claro para os happy few que encheram meia-sala que dentro daquela música, apesar dos longos anos Smog, há ainda muito Bill Callahan para acontecer.
Uma segunda-feira qualquer vista a partir de uma qualquer terça-feira
Tanto e tão pouco.
Uma segunda-feira qualquer # 1
Chegar # 3
Há nome de autor, não há nome de recenseador. Devias lembrar-te disso e despachar-te.
Chegar # 1
Por que não te rendes a um mundo assim tão fácil?
Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 30
Vir
Primeiras montanhas
últimas ondas
— as dunas
a partir de Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 53
Ir
Primeiras ondas
últimas montanhas
— as dunas
Carlos Poças Falcão, Coração alcantilado, Guimarães: Opera Omnia, p. 53




















