Isto é mais um duo com outros à volta

Cassandra Wilson regressou aos standards, e assim de repente não me ocorre outra voz que neste momento se lhe possa equivaler nesses terrenos. Tudo é inventivo e fresco. Mas é mais que justo dizer que uma parte decisiva dessa inventividade e frescura passa pelo piano de Jason Moran. Ouça-se Caravan, como exemplo supremo de ambas as coisas —Ellington deve estar deliciado, that’s for sure.

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 9

Eu sei, eu sei... mas trabalho, trabalho, trabalho. Quase estilo braçal, como às vezes os escritores têm de fazer nos quartos de hotel de luxo (mais nos outros, para sermos verdadeiros). Passa-lhes alguma coisa pela cabeça e vai daí descascam a parede. Por baixo da casca há outra casca, e debaixo dessa outra ainda, tudo o que divide não é senão casca. Isto nada tem que ver com cebolas e Agostinho de Hipona. Eu sei, eu sei — para dizer isto era melhor estar calado.

Um mix, why not?

Cole Porter é como o Algarve: o território é de excelência, mas o que têm feito por lá é por vezes de bradar aos céus. Vale que Patricia Barber é incapaz de um álbum mau. Mesmo assim, a uma primeira passagem, destaque apenas para os solos de Chris Poter, o único a parecer possuído do espírito barberiano de outros álbuns, e para o penúltimo tema, “Miss Otis Regrets”, por acaso dos que menos gosto do cancioneiro de referência de Porter mas que aqui é o exemplo conseguido da re-leitura que se esperaria de Patricia Barber: um som sujo, enegrecido, e uma voz que sublinha com secura o que em cada esquina da existência há para perder de uma vez por todas. O resto pareceu-me um desses hotéis que promete um je ne sais quoi, mas que se revela afinal mainstream sóbrio e de impecável bom gosto. E mesmo quando a uma audição mais atenta se percebe que o bom gosto é até uma re-leitura subtil e que Patricia Barber se permite à-vontade em terrenos que não costuma frequentar, fica sempre a sensação de que era bem outro o álbum que nos era devido. Dito isto, diga-se também, em abono da verdade, que este mix não desiste tão facilmente como isso de se insinuar por entre as cores ainda quentes deste Outono.

É naquele Siza Vieira junto ao rio, haverá luar

Hoje, pelas 21.30h, na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, apresentarei o romance Melodia Clandestina, de Maria Goreti Figueiredo.

Os infortúnios da virtude # 7

Tens as tuas qualidades. E tens o reverso das tuas qualidades. É no reverso que está inscrito o teu prazo de validade – que em alguns casos já foi ultrapassado.

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 8

Num hotel de luxo entra-se discretamente, deixa-se o embrulho (uma caixa?) à porta do quarto, desaparece-se. É um embrulho banal, sem remetente, sem destinatário, trazido por alguém que se esfumou. Existe à tua frente enquanto escreves. Um quarto de hotel de luxo é um desses lugares que te permite a liberdade de não precisares de tomar posse de nada. O embrulho existe à tua frente enquanto escreves sobre o que sabes como se escrevesses sobre o embrulho de que desconheces praticamente tudo. No fim, entregarás o embrulho nos perdidos e achados, mas anonimamente. A disciplina não consiste em escrever sempre, todos os dias algumas horas, mas em nunca abrir o embrulho.

WC Lectures # 28

É da era pré-Peanuts e tem aquela juventude das igrejas protestantes, classe média branca bem comportada. Não há piadas cáusticas — Schulz nunca foi cáustico, aliás —, e não há ainda o alcance simbólico que virá com Peanuts, lê-se mais como um trabalho involuntário de reportagem que nos faz sorrir de vez em quando. Uma coisa é incontornável: a juventude mudou mesmo.

Companhia nocturna # 35


Arrefeceu. A noite parece subitamente mais longa.
O trabalho avança de lado, sempre em derrapagem — pouco saberei dele no fim, pressupondo que lá chegarei. Mas escrever o que já se sabe importa muito pouco.
Um dia vou deixar a música a correr, baixinho, enquanto durmo na outra ponta da casa em silêncio. Como quem abre uma fresta da janela para arejar a casa.

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 7

Em todo o caso, se em Portugal não há uma realidade movente que possa ser “observada” desde um hotel de luxo, é indiscutível que há alguns hotéis de luxo. Pode-se fazer literatura num hotel de luxo português? Pode. Desde que não se seja português, não se escreva em português, nem se escreva “sobre” Portugal. Exemplo? Thomas Bernhard, em tempos ali para os lados de Sintra.

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 6

Miss Allen, interrompendo a sua panaceia helvética — o que muito honra o Manchas —, aposta em Daniel Abrunheiro. Percebo o ponto: segue a lógica de género da Menina Limão e tenta um nome pertinente. O que vale por dizer — era possível. Mas não é ainda este nome, e isto sem conceder no género...

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 5

Imagino que todo o escritor americano habita um quarto de hotel barato, ou mesmo um quarto de motel barato, desses que se pagam dia a dia e cuja manutenção depende de lances fortuitos entre amigos ou conhecidos de ocasião. Toda a América se move, como sempre acontece com todos os Impérios, e o quarto de hotel é não só o posto de vigia mais avançado como também a disponibilidade permanente para partir.
Um hotel de luxo é outra coisa. E outra coisa ainda em Portugal. Porque na verdade, parece que em Portugal não há condições sociológicas para esse mundo americano que é a quinta-essência da vida contemporânea. Um simples quarto de hotel não tem vista para nenhuma realidade movente, talvez apenas para uma praça deserta que em tempos medievos terá sido campo de feiras. E um quarto de hotel de luxo bem poderá ser, entre nós, a morada snob de quem decidiu definitivamente instalar-se na vida doméstica segundo o regime de aquisição de serviços.
Não será por acaso que Viagens na Minha Terra viaja tanto à volta do próprio quarto do autor, como não será por acaso que Kerouac foi americano.

Em cima, continua e continuará Barton Fink, dos Coen

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 4

Eu sei que os tempos vão maus, interessantes e maus, já nem sequer é Agosto com os seus inquéritos literários de verão (mas isso era também mais dantes), enfim — isto tudo para dizer que a adivinha que o Manchas lançou só hoje teve uma primeira e única resposta. Mas tal como Sodoma e Gomorra se salvariam caso houvesse um único justo, esta adivinha está já ontologicamente justificada pela única resposta que até agora suscitou. Via mail, e citando na íntegra o texto citado no post (o que só pessoas desatentas não percebem tratar-se de uma modalidade de pormenorizada análise de conteúdo), a Menina Limão conclui, com sublinhado a negrito, que a autoria é de um escritor. Não avança um nome, delimita apenas, mas com força, um género. Com uma tão alta probabilidade de acerto, o Manchas não pode dar quaisquer indicações de quente ou frio...

A imagem continua a ser de Barton Fink, dos Coen

Partido plural e sensível

O Partido Socialista, tendo reunido em plenário de militantes, decidiu impor disciplina estratégica e não participar nas operações que amanhã conduzirão à Revolução do 25 de Abril. Embora a maioria dos militantes não estivesse presente — o que se compreende porque os tempos são de crise e é preciso cuidar dos dinheiros tóxicos —, a maioria dos presentes decidiu acatar a ordem da direcção e vai-se pôr à margem dos acontecimentos revolucionários. Como sublinhou um destacado membro da direcção, o partido até concorda que se deve acabar com o fascismo e instaurar a democracia e a igualdade, mas agora não dá muito jeito, dada a urgência da crise financeira. Outro militante desdramatizou a situação: «Se o povo aguentou quarenta e oito anos, não é por mais um ano ou dois que as coisas vão ficar muito piores. E daqui por um ano ou dois acho que já conseguiremos ter definido todas as operações necessárias para fazer um 25 de Abril liderado por nós. Não nos esqueçamos que o assunto é muito complexo e fracturante. Além de exigir uma grande logística, coisa agora difícil atendendo à crise no imobiliário”. Apesar de ter decidido impor a disciplina estratégica, o Partido abriu excepção para os militantes com mais de oitenta anos: “Os militantes mais antigos vão poder juntar-se à revolução. Achamos que era demasiado cruel privá-los deste acontecimento com que sonham há tanto tempo. Atendendo à idade, pode ser a sua última oportunidade de verem a luz da liberdade. Fica assim mais uma vez demonstrado que o Partido Socialista é um partido plural e sensível.”

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 3

Coisas que se percebem melhor quando se lê num quarto de hotel.
O que lês nunca é sobre o teu ego (coisa estreita) ou mesmo sobre a tua pessoa (coisa um pouco mais larga). Mesmo quando o texto te tem como destinatário, não pode senão falhar nisso. O que lês é sempre sobre o fundo impessoal no qual nos recortamos como egos (coisa estreita) e como pessoas (coisa um pouco mais larga). Os rasgões, as pontas soltas, mesmo a alta costura com que te fizeste — , isso é apenas o deserto inalterável e soberano a perder de vista. O resto são equívocos, mesmo que os oásis sejam reais.

Imagem de Barton Fink, dos Coen

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 2


“Le souvenir d’une grâce passée peut être une nouvelle grâce”
Julien Green

No quarto do hotel, apenas o indispensável (isto também é uma definição do luxo, ainda que o ponto agora não seja esse). E para escrever, apenas o indispensável do indispensável: os artefactos materiais (computador ou papel e caneta ou qualquer coisa que tome os seus lugares), memória e imaginação. Talvez um objecto que induza partes da memória ou da imaginação, talvez mais do que um objecto, talvez nenhum. Um quarto de hotel não é a vida comum, mas precisamente por isso, pela sua distância protegida e pelo seu anonimato libertador, pode ser o lugar em que a memória e a imaginação da vida comum se faz literatura.

Em cima, a graça e a recordação da graça em Barton Fink, dos Coen

Companhia nocturna # 34

Por outro lado, até apetece colocar os dois pontos de exclamação no Satie, ou então usá-los para destacar a faixa 9, exemplo superior de como a teoria pode ser bela: citações explícitas de Satie e Bill Evans envolvidas num diálogo que tem o seu próprio caminho. É por isso, por ter o seu próprio caminho, que quando se volta a ouvir já se assimilou a teoria e simplesmente se vai andando pela beleza, a faixa 9 por dentro das restantes faixas.

Um dragão de sofá no «Momento da Verdade»

- Aos quatro a zero, não desejou que aquilo fosse aos oito a zero, ultrapassando aquele memorável recorde de que eles não se quieren acordar?..
- Hum... bem... hum...

Este blog também saúda Machado de Assis, o falecido Brás Cubas, e lembra que vida & ficção bla bla bla...

clique para ampliar

Companhia nocturna # 33

Ao procurar a imagem do disco, dei com o site de Rui Eduardo Paes (urra!!) e esta review luminosa a que eu só tiraria os dois pontos de exclamação em Satie, porque é justamente o tipo de autor incontornável num processo destes, quando se escavam os subterrâneos que vão de Tatum a Evans (já os meus dois pontos de exclamação se justificam plenamente, porque não é REP quem quer, apenas quem sabe…).

Uri Caine: “Moloch” (Tzadik)
. A composição é de John Zorn e integra-se na série “Book of Angels”, de que “Moloch”, aliás, é o sexto volume, mas os arranjos e a interpretação são de Uri Caine e, de facto, ninguém melhor do que este pianista-camaleão para dar vida a partituras que reflectem a história do piano jazz (Art Tatum e Bill Evans pressentem-se muito claramente), acrescentando-lhe elementos clássicos (Satie!!) e do riquíssimo universo musical judaico, que de resto parece marcar cada vez mais o Zorn autor. E se este vem manifestando um crescente fascínio pelo lado obscuro do Velho Testamento (Moloch é um dos demónios dos idólatras israelistas, mas também de fenícios e cartagineses), o certo é que as leituras de Caine são luminosas e inspiradas, comunicando-nos “sentires” que não são propriamente os inspirados pelos sacrifícios de crianças que no passado remoto do Médio Oriente eram realizados em louvor do deus que dá nome a este disco. É um outro Uri Caine que se revela aqui, já não o que adaptou Mahler, Bach, Beethoven, Mozart, Wagner e Schumann com a inclusão de um DJ, não o que toca um Fender Rhodes com Dave Douglas e não aquele que se fez acompanhar por músicos brasileiros em “Rio”. Nem sequer já o do seu primeiro disco a sós com um piano, “Solitaire”, mas um grande executante que maturou mais uma forma de estar na música, segundo muitos até a mais difícil de todas: o solo. Depois do compositor, do arranjador, do líder, do “sideman” ilustre, finalmente o “performer” de corpo inteiro.

Pequena teoria da literatura para uso doméstico # 1

Vamos começar por uma adivinha, pode ser? Descubram lá a autoria do texto aí em baixo. Quem gostaria de escrever os seus livros em hotéis de luxo?
O Manchas adianta umas dicas, para restringir “pedagogicamente” o derrame das respostas possíveis: estamos a falar de uma ou um escritor português do século XX/XXI. Leitores e/ou blogueiros do costume, têm uma semana para perorar sobre o assunto.

Eu gostaria de escrever os meus livros em quartos de hotéis de luxo. Este mesmo comecei-o a escrever num desses hotéis, num sétimo andar alcatifado, algo tenebroso como os casinos clandestinos, com luzes abafadas em cores densas, com passos abafados, um súbito deslize dum trinco, um cartaz pendurado no fecho da porta pedindo café e torradas. O doméstico é eliminado, fuzilado às seis da tarde nos corredores quentes e silenciosos. Não pronunciam o nosso nome, a impersonalidade reina no quarto onde gela a água num frigorífico que parece um cofre, tem uma chave, como um cofre. Sobe das avenidas um ruído apagado, quase doce, e que pode ser um comício que passa, ameaçador e delirante. Mas ali, ele parece um murmúrio de velhas num templo. Não há livros à vista, só uma Bíblia bilingue e a lista dos telefones.


Imagem: o corredor do hotel de Barton Fink, dos irmãos Coen

Coda

Há muitas histórias sobre ganhar o amor, ou sobre morrer não o tendo ganho, mas quase nenhumas sobre esse lento “trabalho” que é perdê-lo depois de o termos perdido. São histórias amarrotadas, clandestinas, um pouco sórdidas — mas nenhumas ensinam tanto se de facto quiséssemos aprender sobre a contingência. Acontece que, regra geral, não queremos. E até é provável que haja algumas boas razões para isso.

Lost

in translation

A lentidão dos homens

Duas raparigas em conversa na mesa de trás, vinte e poucos anos. Reconstituindo a história, dá qualquer coisa como isto. Ela foi almoçar com ele depois de alguma ausência. No reencontro percebeu que, finalmente, já não estava apaixonada por ele. Sentiu alívio. E alguma tristeza por esse sentimento ter desaparecido. Disse-lho. Ele sentia a mesma coisa. Agora, passados uns dias, e porque ela ia voltar a partir, ele tinha mandado uma mensagem de despedida: tinha saudades deles juntos, e tinha alivio por já não haver eles juntos. Ela respondeu-lhe que não tinha saudades nem alívio, passado é passado, mais nada. A outra sentenciou: os homens são tão lentos.

Companhia nocturna # 32

Derek Bailey, Standards

Noite sem conciliação. Viva até à dor. Lúcida para lá de todo o cálculo. Viva.

Ainda Ramalho Eanes

Perguntam-me porquê tanto reparo a Ramalho Eanes, se a figura é tão inquestionavelmente impoluta. E eu respondo: por causa da ideia de política. Não perco tempo com Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras. Ou mesmo, numa outra vertente, com líderes, candidatos a líderes e comentadores de líderes. De algum modo, tudo me parece evidente. Mas acho perigoso que o lado nobre da política possa ficar colado a gestos que subentendem o lado mais subtilmente populista e demagógico da política. Pessoas impolutas não produzem necessariamente gestos políticos impolutos. Mas ao falharem nesses seus gestos políticos, o dano que fazem à politica é bem maior, porque o impoluto civil mascara o erro político.

Larry

Raramente acerto com o nome Larry David à primeira, digo quase sempre Larry Bird — o que é uma intromissão benigna da primeira parte da minha vida na segunda parte da minha vida. Basket e humor — podia ser pior. A verdade é que não penso nisso, e o ponto é que isso não interessa nada: aconteceu, vai acontecendo.

Psicopatologia da vida quotidiana # 39

Ele sempre tinha dito que nascer pobre era acidente, mas casar pobre seria estupidez. Cumpriu. Por acaso, enviuvou cedo. E agora, quando lhe perguntou se o amava, ela respondeu: Sim, amo-te, mas isso seria irrelevante se fosses pobre. Pesadas as coisas, achou que não poderia desejar melhor resposta. Aliás, era o cúmulo da sorte. Se fosse num romance do Eça, teria tido imediatamente uma apoplexia. Como é uma história dos nossos dias, mudaram-se para um condomínio privado.

Sou tão frágil e as pessoas dão cabo de mim


Outro blog diferente.

O silêncio dos livros

Um blog diferente.

Uma questão de consciência

Ele assegurou-me que tinha agido de acordo com a sua consciência. Mas precisamente por isso é que eu não queria sentar-me a almoçar com a sua consciência.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 9

Um que diz que lhe parece importante que a instituição figure num evento internacional, através da sua presença. Outro que, a propósito já não sei de quê, se declara disposto a responder até a meros assistentes. Outro ainda que começa qualquer frase por “é assim”, interrompe qualquer frase que começou com outro “é assim”, e remata toda a frase que começou e é incapaz de terminar com um autoritário “é assim”.

Companhia nocturna # 31

Quando, finalmente, vencidas (des)razões que não quero agora recordar, me dispunha a voltar ao trabalho — choveu e trovejou. Intensamente. Parei. Depois parou de chover e trovejar. Continuei parado. Continuo.

Driving Miss Laura # 12

Miss Laura sobre eutanásia e suicídio assistido no Socialismo 2008, uma iniciativa do Bloco de Esquerda.


---

Células brancas


Há trabalhos para recolher os louros — e são justos.
Há trabalhos para avançar — e desafiam.
Eles estavam a avançar. E com muita vontade.

O cálculo exacto

João Gonçalves e o seu comentário a uma notícia de O Sol:
No meio do esterco, um Homem. «Ramalho Eanes prescindiu dos retroactivos a que tinha direito relativos à reforma como general, que nunca recebeu. O Governo diz ter sondado o ex-Presidente, que não aceitou auferir essa quantia (a qual ascenderia a mais de um milhão de euros). A reforma só começou a ser paga em Julho, mas sem qualquer indemnização relativa ao passado.»

O que me incomoda nisto? O panegírico a uma atitude que, do ponto de vista político — e repito, político — tem tanto de inconsequente quanto de demagógico e covarde.

1. Se Ramalho Eanes fosse, por princípio político, contra a acumulação de pensões, devia dizê-lo de forma clara, devia ter recebido os retroactivos a que legalmente tinha direito e doá-los publicamente às instituições que bem entendesse, e deveria fazer o mesmo com a pensão que vai auferir em cada mês — isso seria uma atitude política e a defesa de princípios em que acredita.

2. Ora, Ramalho Eanes parece que não é contra a acumulação de pensões, ou se é não o disse, ou se o disse a notícia não dá conta disso. Obviamente, Ramalho Eanes tem todo o direito de não ser contra a acumulação de pensões.

3. Temos então que Ramalho Eanes começou a receber a pensão desde Julho mas não aceitou receber os retroactivos a que tinha direito — mais de um milhão de euros.

4. Eu percebo pouco de leis, mas pensava que os salários e as pensões eram um direito irrenunciável. Pelos vistos não. Pelos vistos é possível o Governo sondar um cidadão: ó se faz favor, V. Exc. sempre quer receber o salário ou a pensão que a lei obriga que se lhe pague?

5. Mas claro, eu percebo pouco de leis. Politicamente, porém, penso que não há que enganar: a atitude supostamente digna e honrada de Ramalho Eanes significa, na prática, que um cidadão que ocupa o exigente cargo simbólico de ex-Presidente da República (e que recebe uma pensão politicamente justa por isso) deixa entender que não devemos exigir ao Estado que ele cumpra a Lei, que lhe podemos perdoar uma dívida a bem da Nação ou qualquer coisa parecida.

6. Politicamente, isto é confundir desapego pessoal com relações institucionais e jurídicas. Se Ramalho Eanes entende que o momento de crise manda que os cidadãos, na medida das suas possibilidades, financiem supletivamente o Estado, deve tornar essa posição clara. Ou seja, devia receber o milhão de euros, tornando claro que o Estado de Direito é para levar a sério, e depois doar o milhão de euros ao Estado, tomando a sua posição política.

7. O problema deve estar mesmo no milhão de euros. Porque com as manchetes obscenamente populistas que denunciam as “reformas escandalosas” de funcionários públicos como professores catedráticos, juízes do supremo e demais quadros superiores, o milhão de euros ia de certeza parar à primeira página.

8. Eanes não quis enfrentar o populismo. Preferiu que se noticiasse a sua fuga política, mas vendeu-a sob a forma do lance demagógico da honra e da dignidade. Há sempre quem compre estas virtudes e relembre velhas austeridades salazaristas — mas não é preciso muito para perceber aqui a outra face da moeda populista.

9. Um milhão de euros de retroactivos devidos é sem dúvida dinheiro. Mas quando daqui por alguns anos — e humanamente só posso desejar longevidade ao Senhor General —, a soma mensal da sua pensão perfizer uma quantia semelhante, não haverá ninguém a lembrar-se de fazer as contas. Eanes sabe isto. A sua suposta inocência política tem a dimensão deste cálculo exacto, que é complexo salazarista de os outros saberem que temos dinheiro misturado com a perfídia pequena de o querer realmente, mas em segredo.

Provavelmente

Essa outra física ensina igualmente isto: quanto mais novo, mais fácil regressar à casa de partida, o passado não chega a estar nas traseiras da casa, é aquela sala que dá para o hall da porta da frente.
E também isto: quanto mais novo, mais fácil achar que se aprendeu, podendo-se ter aprendido mesmo.
E finalmente isto: quanto mais novo, mais a casa de partida não chegou a acontecer ainda, o que não impede que outras coisas possam ter acontecido.
Provavelmente, aconteceram.

Volte à casa de partida

A minha física não chega sequer a ser elementar, é mesmo iliteracia —apesar de ter lido as minhas coisas e ter tentado algumas outras.
Mas dessa outra física, isto eu sei: a aceleração em direcção ao futuro é instantânea, o reenvio ao ponto de partida é uma queda interminável. Há duas razões para isso: 1) acelera-se sempre à velocidade da luz, desacelera-se em passinhos de ferido em combate com prognóstico muito mas muito reservado; 2) o ponto de partida, quando se trata de regressar, fica sempre lá muito mais para trás do que nos lembrávamos, mas tão lá mais para trás que quase nem dá para acreditar que alguma vez a nossa vida tenha passado por um tal ponto. Ainda por cima de partida.

Sim, qual foi?

Setembro, o mês de todos os recomeços, dizem eles. Mas qual foi o mês de encerrar tudo, que me escapou por completo?

K. # adenda três

Mas o K. de João Camilo parece tão “histórico” quanto o de Kafka: “Ó raparigas que vos sentais ao fim da tarde / nas esplanadas dos cafés a ler um livro.” (p. 45). Isto é histórico, não existe mais. E é uma notícia complicada para quem escreve.
Entretanto chegou Setembro e os dias estão mais pequenos — mas acho que já disse isto.

K. # adenda dois

Acho que foi Deleuze quem disse que Kafka tinha subtraído a letra K ao alfabeto, naquele sentido de que jamais qualquer K poderá significar para além de K., o “personagem”. Mas o além de K. ou de qualquer outro personagem desloca-se fruto do seu próprio movimento — o horizonte não é um lugar, mas aquilo que está à distância.
Há uma diferença substancial entre o K. de Kafka e o K. de João Camilo: o K. de Kafka nunca tem por horizonte as grandes avenidas que desembocam no mar. As teologias e as ontologias resolvem-se muitas vezes nestes pequenos pormenores empíricos silenciados.
Entretanto chegou Setembro e os dias já estão mais pequenos.

K. # adenda um

K. nunca imaginou tal coisa. O conceito de saber o necessário acerca da nossa condição era-lhe rigorosamente impensável. Mais do que isso, inútil (apesar de tudo, K. era um homem prático). Nunca ninguém morre em paz, há apenas alguns que estão distraídos e outros indiferentes. Mas não em paz.

K.

K. imaginava que sabia o necessário já acerca
da nossa condição. Mas quem saberá alguma
vez o bastante para morrer enfim em paz,
longe das paixões e do rosto das mulheres
que amou, esquecido da pobreza e do fulgor
dos dias, agradecido pela sabedoria que nasce
do sofrimento?

João Camilo, O som atinge o cimo das montanhas, Ovni, p. 37

9 caixas

Foi o mais longo tratamento anti-depressivo a que me sujeitei. Começou ainda antes deste blog nascer. Agora acabou. What a dam!

Agora vou ver se ouço estes dois até Setembro

Depois dos esboços, convenhamos que é a única coisa sensata a fazer.

esboço # 14 [construções na areia]

A criança tem a intuição livre e perversa do jogo do mundo, desde que o imediato da sua sobrevivência não esteja em causa. É vê-la como constrói na areia da praia, como conjuga o cálculo firme do arquitecto, as mãos práticas do fazedor e o espírito gozoso e cruel de um deus antiquíssimo— ela sabe e deseja a onda destruidora que tudo varrerá, sem esse lance derradeiro a sua brincadeira não se dará por terminada e a birra é certa. É o adulto, vergado ao dever de protecção e que esqueceu já as delícias e a impertinência de não ter futuro próprio, quem recomenda mais uns muros em volta do castelo e um túnel que desvie o ataque das ondas. Não há nada de idílico nas brincadeiras entre crianças e adultos a não ser que os adultos se esqueçam de si mesmos — coisa que, bem o sabemos, tem perigos demasiados para ser recomendável.

esboço # 13 [coisas práticas]

Nós sabemos que não nascemos para sermos compreendidos, mas para compreendermos; ninguém nos conhece, e vamos triunfando no conhecimento do mundo. Como todas as verdades ingratas, isto é inaceitável e até um pouco ininteligível; mas como todas as verdades da nossa condição, é assim que as coisas acontecem, e a nossa vontade rápido ladeia os obstáculos intransponíveis para se fixar em coisas práticas.

esboço # 12 [Fausto, uma ressalva]

Também pode acontecer que Fausto, já investido dos novos poderes que o pacto diabólico lhe outorgou, tenha escolhido Margarida porque a amava deveras. Se um jovem não confia nos estritos poderes da ciência e por isso pactua, bem menos razões terá para confiar que os desejos do seu coração sejam correspondidos por uma coisa tão lábil quanto um ser humano (e sublinhem que eu não digo humano e ademais mulher). A um jovem assim, quanto mais ama mais lhe parece impossível a concretização desse amor, e Fausto era seguramente um jovem desses. Goethe é que não o compreendeu, e por isso Margarida em nada interfere no confronto posterior entre Fausto e Mefistófeles. Goethe já tinha arrumado o amor com o jovem Werther, pensava-se livre para o confronto desassombrado com o conhecimento. Fausto poderia ter ensinado Goethe sobre os limites do amor, com o que talvez tivesse antecipado alguns lances que Cronenberg inscreve em A mosca, essa sim uma verdadeira história de amor a expensas do conhecimento. Mas creio que Goethe era demasiado orgulhoso para se deixar ensinar por uma personagem masculina, o que é dizer que se detestava em demasia para aprender com as suas humilhações reais, preferia o desvio da autobiografia interposta e idealizante. Isto em nada diminui o seu génio, e esse é o maior mistério.

esboço # 11 [uma suspeita]

O lapsus é uma afirmação mais franca do que a mais transparente e literal confissão, mas não se deve assentar sobre ele qualquer juízo de carácter. O inconsciente humano é um fardo, todos o sabem, melhor é tratá-lo como o trânsito intestinal, remetendo-o para wc’s limpos, desinfectados e com algum design avançado. Em todo o caso, o lapsus pede interpretação, e não é preciso ser freudiano para saber que qualquer análise toma as suas demoras na exacta proporção da delicadeza das matérias. Pode-se, assim, sair incólume de um lapsus, mas não sem um vago odor de suspeita. Bem administrada, uma suspeita é rentável na troca social, porque nos distingue com capacidades vagamente temerárias — isso basta para que alguns se predisponham a dar-nos aquilo que talvez nem pensássemos pedir-lhes.

esboço # 10 [o respeito por um adversário]

A comunidade política aborrece a franqueza. Como lhe falta imaginação para o pensamento verdadeiro, põe toda a sua esperança na intriga e no puzzle palaciano, essa espécie de telenovela do espaço público. Ora a franqueza cerceia toda a efabulação, porque coloca a comunidade perante o facto consumado e escandaloso de alguém pensar exactamente o que diz. A franqueza não se presta a interpretações, apenas a leitura, embora esta distinção seja em regra impossível de estabelecer e não seja prudente defendê-la nos fóruns da especialidade. Sem a efabulação, uma comunidade não pode treinar o sentido do seu futuro. A franqueza quer-se apenas na vida privada, ainda que dentro de limites práticos que não ponham em causa a reserva que cada um deve a si mesmo. Para estes efeitos, o amor está para os sujeitos como a política para a comunidade, ambos foram inventados para dar forma e contenção ao desejo e à violência. O respeito que se tem por um adversário, que é a consideração exacta da sua inteligência e da sua capacidade de fazer o mal, convém que seja ainda maior dentro do círculo do amor, porque o estado de indefesa é aí de regra. Não é por acaso que quando o amor se faz notar na cena política todas as histórias terminam em escândalo e sangue. Na verdade a política liberta o inconsciente violento e ancestral do amor, quando ele era a forma política de administrar uma comunidade reduzida ao mínimo, como no caso de Adão e Eva, que geraram filhos na discórdia e no confronto: onde poderiam Abel e Caim ter aprendido a inveja e a rivalidade, se não tinham outros modelos a não ser os pais?

Quem disse que este era o mês mais cruel?

A caravana estacionou na Colóquio Letras.

A vida com árvores # 5

O jardineiro, imitando o meu ar sério de completa ignorância destas coisas: Esteja descansado, sr. doutor, tecnicamente, a laranjeira pegou.

esboço # 9 [desproporção]

Grave seria, na Primavera, os pássaros não voltarem ao primeiro plano das árvores e as noites encurtarem. Os ciclos da natureza são-nos tão breves e tão certos na sua repetição, que nos esquecemos que também o universo muda irreversivelmente quando considerado na escala de grande duração. Decerto intuímos que tudo se encaminha para um fim generalizado e derradeiro, mas não há meio de sabê-lo com certeza, tal a desproporção entre a paciência vagarosa da vida e a ironia com que o nosso corpo se apressa a levantar graves suspeitas sobre qualquer desejo de perdurar.

esboço # 8 [mesmo ao cair do pano]

Cair em desuso não é tão grave assim, ainda que algumas pessoas se sintam despeitadas ou ameacem deprimir quando saem das primeiras páginas da vida. Mas porque haveria o mundo de não procurar novos motivos de distracção, se foi essa a lei que nos permitiu nascer? A bênção do anonimato e, sobretudo, a desobrigação de corresponder às expectativas próprias e alheias, bem pode ser o pequeno quinhão de liberdade que nos é oferecido mesmo ao cair do pano.

esboço # 7 [essa pequena varanda de superioridade moral]

Aquele ar triste e de profundo desprezo durou até perto dos cinquenta, quando por fim percebeu que o mundo rolava em silêncio segundo um destino que estava bem para lá das acções e das expectativas humanas. Achou-se um idiota por não o ter compreendido há mais tempo, mas logo se acautelou contra esses despropósitos da auto-recriminação. Devia antes dar graças pela astúcia bondosa do mundo, pelo engenho posto em enganá-lo sem lhe exigir crenças que poderiam ter sido terríveis. A verdade é que uma tal lucidez antes do tempo tê-lo-ia simplesmente destruído, a ele e aos que estavam à sua volta. Essa pequena varanda de superioridade moral em que se sentava todos os fins-de-tarde, observando clinicamente as misérias humanas e a indiferença quase generalizada aos ditames da consciência recta, eram afinal a aliança possível com essa verdade negra que agora se sentava à sua frente e que finalmente podia olhar face a face. Nada na sua vida fora mais perturbador do que este reconhecimento, que afinal não era tardio porque o trajecto da verdade é necessariamente longo e constituído de insuspeitas partes de logro. Cabia-lhe agora ser cúmplice no enredo. O seu lado estava escolhido há muito, e compreendeu rapidamente as consequências. Na lucidez de que era capaz, a tristeza tornava-se afirmação céptica e o profundo desprezo compunha uma bondade não sentimental que reclamava justiça reparadora, não para o mundo mas para as acções dos humanos em trânsito pelo mundo. Sabia sobejamente que pequenos nadas o teriam de reparar a ele, mas tinha muito por onde escolher desde que se dispusera a encarar a inteligência humana como acaso fortuito e não como exigência da vida. Como alguém mais afoito diria, cortando cerce os devaneios da literatura, ele tinha escolhido olhar o seu copo como meio-cheio, guardando exclusivamente para a sua solidão protegida as conversas com o vazio restante.

esboço # 6 [Fausto]

Já não sei quem disse que Fausto é uma personagem pouco crível, porque depois do pacto com o Diabo, podendo ter a mulher que quisesse, escolhe uma Margarida, criada de estalagem, que já estava ao alcance dos seus poderes simplesmente humanos. É bem observado, mas parece que Goethe tinha medo das mulheres da sua estatura social, e procurava em criadas ou cortesãs aquilo que não poria em causa a sua virilidade. Há sempre algo de obscuro nos caminhos da libido, e pode-se imaginar com facilidade que Goethe se atreveria com essas mulheres a ser o diabo erótico que as fantasias masculinas lhe imporiam que fosse. Mas esta espécie de travestimento numa personagem de ficção de alguns pequenos segredos da vida íntima não diminuem Fausto. A obra de criação não tem um sentido dado, mas um percurso que recolhe dos percalços do tempo e das civilizações motivos que incorpora como se fossem seus de pleno direito. Por isso Fausto nos aparece hoje como um desses jovens cientistas geniais que vendem às grandes corporações todos os resultados futuros da sua alma exploradora. Em troca, querem em salário e tempo de antena aquilo que os aproxime dos ídolos de futebol, o que talvez seja desejar ainda menos que uma Margarida. Ou então, o que até é bem mais perturbador, Fausto fez um pacto diabólico com toda a possibilidade de conhecimento estritamente tecnológico, ao preço de uma ignorância deveras perigosa em todos os outros campos. A lenda amável do cientista distraído dos negócios do mundo, ou portando-se como uma criança inocente nos meandros do poder e do amor, reescreve-se na América imperial na vida de quadros altamente qualificados que militam em seitas fundamentalistas e carismáticas. Como Goethe bem compreendeu, não há pacto diabólico para a sabedoria, apenas para o poder, sob todas as suas formas. O seu Fausto era um ser isolado, Margarida uma rapariga inofensiva que merecia talvez um homem mais apropriado, e de toda a ilusão que ali se desenrola se pode extrair alguma moral proveitosa. Os Faustos de hoje são membros do corpo orgânico da ciência, Margarida não entra na história, e as seitas fundamentalistas e carismáticas pretendem que o poder seja tomado como detentor da única sabedoria. Enfim, os tempos estão mais perigosos.

esboço # 5 [mulher prática]

É verdade que tudo aquilo nascera por tédio e falta de imaginação. Ela escolhera-o ao acaso, por estar mais perto naquele momento, sem sequer apresentar à sua consciência a desculpa de querer alargar o seu campo de experiência. Era uma mulher prática e lúcida acerca das suas limitações. Por isso não se perdoou que dali tivesse nascido uma paixão e um desejo que parecia resistir a todos os cálculos da razoabilidade. Era demasiado obscuro para ser confiável. Não se surpreendeu que lhe fosse tão difícil terminar. Mas também nisso era uma mulher prática. Sabia que, uma vez tudo acabado, poderia cobrar à sua consciência um luto razoável e até permissivo em outras maldades mais inocentes.

esboço # 4 [D. Juan]

D. Juan era um narciso, como todos os que ousam alguma coisa, mas sem coragem de se olhar a um espelho vivo. Seduzia e partia, e essa fuga, que os modernos interpretaram como perseguição da morte, era um pretexto como outro qualquer para evitar medir a sua importância junto das mulheres. A qualidade de uma entrega erótica ou da conversação que a rodeia não se mede tanto por elas mesmas mas pelas coisas mais interessantes que se poderiam estar a fazer em vez disso. D. Juan nunca se permitiu saber desse veredicto nos olhos das mulheres que conquistava. Nunca soube se a mulher que tinha nos braços deixara por ele um romance a meio, interrompera uma receita imaginosa e irónica, ou se simplesmente viera por tédio e despeito de coisa vaga.

esboço # 3 [garotos]

Tinha um ar irado, como se o mundo fosse um desses garotos que não sabem portar-se à mesa e estragam todos os brinquedos em que tocam.

esboço # 2 [invariavelmente largas]

Era um desses homens tenso num corpo magro mas musculado, a quem as camisas pronto-a-vestir ficavam invariavelmente largas. Apanhava-as nas costas, dobrando-as como se faz nos manequins, e apertava-as sem folgas por dentro das calças. Andava sempre direito e liso, parecia um lord ainda não assaltado pelo tédio incurável da meia-idade ou, mais ao perto, um gestor que talvez não desdenhasse a frequência das passerelles. Porém, não era nenhuma dessas coisas.

O plot

Extraordinária imagem, a de Putin relatando a Medvedev as suas impressões da frente de guerra. Mais do que aquilo que é dito (a intervenção russa travou o genocídio étnico em curso na Ossédia do Sul), impressiona o cenário calculado para correr mundo. O despojamento tecnológico do face a face dos dois homens, reunindo em si um poder sem mediação e sem ressalvas; e a sóbria e antiga riqueza do salão onde tudo se desenrola, pronta a fazer da linhagem uma legitimação que se confunde com a própria natureza das coisas. A Rússia é um império antigo que está naturalmente de volta — eis o plot da peça que ali se desenrola. Não há quem não o perceba.

esboço # 1 [sucessivas revisões]

Tinha planeado atirar-se da janela e não voltar a tocar no assunto. Faltava apenas acertar um ou outro pormenor e decidir se levaria a fronha da camisa por fora ou por dentro das calças. Punha escrúpulo em todos os seus actos e isso atrasava-o no seu dever com justificações inatacáveis. Provavelmente, submeterá o seu plano a sucessivas revisões e não chegará nunca a executá-lo. A tanto chega a sua perfeição moral.

Foto-finish # 1 [reloaded]

Foto-finish # 10

Mudam mais as razões que as conclusões que elas permitem alcançar. Quando escrevia que estamos sempre a ponto de começar, era a mistura da força final da juventude com o estoicismo de um corpo já sitiado pelo exército do tempo. Hoje, que a cidadela já foi há muito tomada, repito a conclusão por mistura de outras causas, ou de outros paradoxos: saber que bem poucas coisas (quase nenhumas) chegam realmente a começar, e que talvez aquilo a que chamamos começar seja apenas equilibrar-se num passo que por descuido, alegria excessiva ou força mal medida, escorregou para outro caminho.

Foto-finish # 9

A insónia é uma piscina negra. Nadar não faz a luz, mas cansa. Não precisas da luz, precisas de perseguir o descanso.

Foto-finish # 8

O que sabes nunca chega para preencher o espaço que te separa do teu passado. Ou do teu futuro. E sabes tudo. Os segredos são pequenos acidentes, partículas de pó naquela inclinação da luz. Pouco importam. Sabes tudo, e não é suficiente. Nunca será. Mas percebe-se que também isso pouco importa à medida que.

Foto-finish # 7

As perguntas sem voz e sem olhar. As mais terríveis, porque são feitas da pele de todos os teus fantasmas. As mais simples, porque são aquelas a que ainda poderás responder. À medida que.

Foto-finish # 6

A esfinge é o passado escurecido. Não é o futuro que interrogamos. O que faz medo é a sombra do passado sobre o dia não nascido.

Foto-finish # 5

A mão esquerda.
Dizem que a aliança se coloca na mão esquerda porque cada um dá a guardar ao outro a sua parte maldita. É provável que um cristianismo que queria ocupar todo o território pagão entendesse nessa parte maldita o dionisíaco, levando assim a sexualidade para a esfera da ordem. É provável que um cristianismo já mais desembaraçado dos terrores do corpo entenda nessa parte maldita tudo o que em nós está destinado a falhar, propondo esse escândalo verdadeiro de acolher no amor o que mais lhe resiste — os defeitos do outro, as imperfeições que nos ferem porque também nos espelham cruamente.
Mas esta mão esquerda. Esta. A tua. À medida que a luz toma o teu corpo enlaças o teu passado escurecido. Enlaças, levas para dentro de ti. Definitivamente. Sempre à medida que.

Foto-finish # 4

À medida que a luz toma o teu corpo escurece o teu passado.
É o único mecanismo possível. Deves verificar a exactidão do movimento até à sua completude. Diz-se esquecer, apagar, remover o passado. Devia-se dizer outra coisa — mas que outra coisa? É o que há para dizer, e a impropriedade das coisas existe tão-só para que saibamos profundamente que não podemos nunca esquecer, apagar ou remover o facto de sermos humanos. Esse desamparo da luz e do negro que reparte a vida de forma desigual — a vida à medida que vai sendo vida.

Foto-finish # 3

Esquecer, apagar, remover o passado.
À medida que te despes, que a alça tomba mais, depois a outra, que os teus braços se afastam ligeiramente do corpo (apenas o suficiente para que o vestido caia), à medida que a luz toma a tua pele e escurece o mundo em volta — um processo lento, uma luz diferente (tão diferente a luz de cada olhar, tão diferente o sol pela janela ou os olhos de que te suspendes).
À medida que — tem o seu tempo próprio, medido por ti (o teu medo e angústia), pelo desconhecimento que a todos nos assiste, mas é exacto e inexorável no seu mecanismo.
À medida que.

Foto-finish # 2

Isto não é uma parábola. O mais interessante é quando nem a foto-finish consegue determinar o vencedor. Juízes de pista, atletas, representantes oficiais dos atletas ou dos países que os atletas representam, o mundo todo a olhar o negativo da realidade instantânea da chegada e abanando a cabeça em inconclusão. Isto é o mais interessante. O que nunca acontece, o que desde milénios está fora do acontecimento, é alguém perguntar-se se a ordem de chegada (ou de partida), se a ordenação (ou a estrutura), tem essa importância. Dir-se-á que uma inconclusão, ou várias que sejam, não invalida a ocorrência estatisticamente relevante de haver um vencedor. De facto, não invalida. Mas não era disso que falava. Uma inconclusão poderia levar-nos a levantar a pele da realidade. Mas também não estou bem certo de ser disso que estava a falar.

Foto-finish # 1

Epígrafe

A vantagem das histórias sobre o Acontecimento é que as histórias se podem repetir mil vezes, e mais mil vezes ainda — assim o tempo passa e a realidade se apaga docemente. O único problema das histórias é que elas não são o Acontecimento, e a cada mil vezes que se repetem impedem-no de acontecer. Mas o silêncio, que permite esperar e não impede o Acontecimento, tem como preço o vazio.

Reloaded # 4

- Sabes remover as vísceras?
- Não.
- Sabes por que se deve remover as vísceras?
- Não. Deve-se, mesmo?
- Sim.
- Se tu o dizes...

Reloaded # 3

- Nada nem ninguém.
- Eu sei. É essa a tua força.
- E a minha solidão.
- Mais do que isso. É a possibilidade do equívoco mais funesto. Quanta mais força fazemos, mais rejeitamos o que conhecemos e nos podia valer e mais ficamos à mercê do desconhecido que nos pode derrotar.
- Devo esperar alguma coisa ou alguém?
- Esperar predispõe igualmente para o equívoco, precipita a leitura dos sinais.
- Fico então com o nada nem ninguém, mas segundo um princípio de incerteza.
- Que não te preserva dos equívocos.
- Já tinha percebido.

Reloaded # 2

-Vês alguma coisa comum em todos os sítios onde estivemos?
- Comum?
- Sim, comum.
- Mas foram sempre sítios tão diferentes.
- Sítios de chegada. Para nós, foram sempre sítios de chegada. Becos sem saída. Nunca partimos dali para nenhum outro lado, nunca continuamos a partir dali.
- Não eram os sítios, éramos nós.
- Mas passou para os sítios. É mais fácil deixar os sítios.
- E então?
- Nada. É mais fácil deixar os sítios.

Siameses

Às vezes cruzamo-nos connosco próprios numa vida paralela. Reconheci-o pela camisa. Era a coqueluche há tantos anos atrás que já nem me lembra quantos. Estampados tropicais talvez da altura em que a classe média começou a alcançar destinos mais exóticos. Moda rápida, no verão seguinte já vestia os trabalhadores da construção civil. A barba descuidada, a calvície em progressão. Sem disfarçar ao que vinha, apenas carregar o caixão e deitar terra para o buraco. Entrou pela igreja como por um caminho para o trabalho. Sem olhar ninguém, uma mistura de tédio e ira no semblante. Depois da primeira pazada acendeu um cigarro sem qualquer hesitação. Não o vi sair. Mas revi o lance de dados que deve ter existido num qualquer momento do destino, quando nos separaram para nascermos.

A vida que se quer

É a crispação da vida que mais está presente num funeral. A forma como se resiste para além dos discursos de circunstância e da falta de discurso. A forma como se rompe a culpa de continuar vivo e se afirma um apego que não nos salvará de nada a não ser de implodir. O irrisório de cada um — e isso ser a vida. A vida que se quer.

Segunda parte do jogo de berlindes

Nada melhor que política de trazer por casa para nos distrair do essencial. Pelo que insisto, pelo menos mais um post. Diga-se desde já que não faço a mínima ideia do que está em causa no estatuto político-administrativo dos Açores, nem quais as oito inconstitucionalidades verificadas, nem ainda que outras coisas incomodam Cavaco na dita cuja lei. Mas já me espanta o dedo apontado à Assembleia da República por ter aprovado por unanimidade uma lei que mereceu oito "chumbos" do Tribunal Constitucional. Na minha inocência, eu pensava que a Assembleia da República legislava em termos políticos, sem ter de se preocupar aprofundadamente com a constitucionalidade do que aprovava, porque para isso existe o Tribunal Constitucional. Na minha inocência, eu até pensava, imaginem, que se por acaso se gera uma unanimidade política que se vem a saber que é inconstitucional, a conclusão política a tirar seriam duas: a) que há condições políticas para, sobre essa matéria, proceder à alteração da constituição; b) que enquanto tal se não fizer, é preciso alterar a lei no respeito da constituição vigente. Mas como se vai vendo pelo andamento de alguns comentários, a minha inocência é tal que só pode mesmo ser estupidez.

E aos costumes disse berlindes

Como qualquer miúdo que tenha derrotado ao berlinde os tubarões do lugar, Cavaco empertigou-se e decidiu contar a todo o país o seu grande feito — que o Tribunal Constitucional lhe deu razão oito vezes oito. Mas o jogo do berlinde é coisa por demais palaciana, mesmo quando ganho oito vezes oito, e assim, para não correr o risco de o povo ignaro não lhe ligar pevide, preferiu tratar o povo como incauto, prometendo-lhe nebulosamente uma comunicação importante. Oito vezes oito é importante, eis o que disse Cavaco. Ao que acrescentou: eu sou importante e velo por manter a minha importância. Enquanto Presidente da República, claro. E foi tudo.
Alguns senhores comentaristas, que não gostaram que outros senhores comentaristas tivessem dito que a montanha tinha parido um rato e outros mimos, vieram-nos dizer que se a causa da vitória oito vezes oito tivesse sido a Madeira e não os Açores, tinha havido um enorme rebuliço ainda antes da vitória ter sido proclamada. Eu acho que esses senhores comentaristas têm toda a razão. Se há gajo danado para o rebuliço, é o Alberto João. E acho também que esses senhores comentaristas têm razão em mais algumas coisas: uma região autónoma que já teve Mota Amaral e agora tem Carlos César, que tem dívida externa controlada e não recebe reprimendas do tribunal de contas, é uma região autónoma que corre sérios riscos de passar por democrática. Em suma, um desaforo.

O mundo de mundos

Nestes dias cheiro o ar, como os animais. Bichos da terra.
Era uma morte esperada na família. Depois de cinco anos de completa ausência da mente, a máquina parou por fim. Na última visita, tive de novo a certeza absoluta que jamais quererei sobreviver assim a mim mesmo. Como sei, sabíamos todos, que nunca o quis para si.
Agora há que cumprir todas as formalidades. Mesmo aquela parte de dor que, não sendo falsa, é também uma formalidade com que dizemos uns aos outros e a nós próprios o incompreensível que há em tudo isto. O incompreensível nada ou o escândalo não menos incompreensível da esperança. A ambos servem os rituais, que só na sua superfície se deixam definir de um modo ou outro.
O resto virá depois, em momentos imprevistos e sem palavras, ou com palavras de uma intimidade que o pudor apaga de ilegítimos destinatários.
Nestes dias cheiro o ar, como os animais. Bichos da terra.

O primeiro irrepetível ou o primeiro de cada vez?

Por fim, levantei-me, aproximei-me da cama em bicos de pés e, sem me despir, pousei devagarinho a cabeça na almofada, como se tivesse medo de perturbar com algum movimento brusco o que transbordava dentro de mim... [Ivan Turguénev, O primeiro amor, Tradução de Nina Guerra e Filipa Guerra, Relógio D’Água, p. 38]

O amor não é o acontecimento. No acontecimento, as coisas acontecem — é tudo. O amor é quando o acontecimento é interrompido e o sujeito fica a sós com os restos imensos do que quer que tenha acontecido. Por isso o amor é cosa mentale, ou tempestade emocional que não tem a possibilidade de uma passagem imediata até ao outro, ficando a rodar na mente. Os que, como Vladimir, querem guardar cuidadosamente toda essa tempestade, têm a esperança de que, em breve, o acontecimento será reatado. É esta esperança a marca do primeiro amor, do irrepetível primeiro amor? Talvez. Mas os que aprendem com a experiência encontram a inesgotável generosidade do acontecimento: o primeiro que se repete de cada vez. E como Vladimir, guardam cuidadosamente tudo o que se reatará no reatar do acontecimento. Dizem até já, dizendo sem dúvida até sempre.

Plágio na consciência

Sonhei que acordava de repente com a clara certeza de que a punch line não era minha. Mas o sonho não me disse de quem era. Filme? Verso? Não fales de mim, fala comigo? Bom, o melhor é não me tentar recordar, a ver se de súbito me lembro.

Companhia nocturna # 30


Durme, durme, hermosa donzella
Romance Sefardi

Durme, durme, hermosa donzella,
durme hermosa, sin ansia y dolor!
Heq tu esclavo, que tanto desea
ver tu sueno con grande amor.

El dia vo llorando,
la noche sin durmir
pasando y preguntando
fin hasta cuándo vo sufrir.

Antigamente

Não é da mudança do mundo que falamos, mesmo quando é evidente que o mundo mudou. É do pouco futuro que nos resta, por já termos tido todo esse passado. A melancolia com que dizemos “antigamente” vem só daí.

Hoje esteve um azul de antigamente

No farol tudo era sempre e só azul, brilhante se sol, espesso se chuva, pálido se nevoeiro, ténue se vento, denso se sombra, sempre e só azul, azul-mar, azul-rocha, azul-espuma, naquele sítio todas as coisas eram azuis.

Dulce Maria Cardoso, Até nós, Asa, 2008, p. 105

Os infortúnios da virtude # 6

Depois de horas, dias, meses, apresentei-lhe finalmente o livro envolto em amor: é sobre ti. Cansada de horas, dias, meses, atirou-mo à cabeça: não fales de mim, fala comigo.

Reloaded # 1

Ela diz que traz maltesers. Ele não sabe o que são maltesers. Ela abre o saco de maltesers. Ele diz que aquilo segue o mesmo princípio dos smarties. Ela não sabe o que são smarties. Ele come e confirma: com cores, podiam ser smarties. Ela come também e mostra-lhe o rótulo do saco: são maltesers. Ele diz que inventaram aquilo apenas para que ela e a sua geração se sentissem donos do presente. Ela diz que não há razões para ele se preocupar, a metafísica é a mesma e continua a resumir-se a comer chocolates.

Literalmente # 4

Havia histórias para narrar, era essa a questão. Nós temos histórias que vão desaparecendo de serem narradas. A greve dos acontecimentos, disse o Baudrillard. Que agora se prolonga como um indiferente e perpétuo estado de greve dos acontecimentos. A nossa condição inescapável.

Literalmente # 3

Via mail, Filipe Guerra diz-me que foi verificar no original as passagens que citei de Primeiro Amor — o literalmente está lá mesmo. Também me parecia que devia estar. Digamos que Turguénev tinha coisas mais altas com que se preocupar. Ou melhor, literalmente, tinha mesmo coisas mais altas com que se preocupar. Coisas que exigiam narrar a toda a velocidade. Tal como em Dostoievski. Mas já não como em Tchékhov — que por isso mesmo é outro cuidado estilístico. Esconder com graciosidade que nada há para contar exige um certo tipo de arte — em suma, nada literal. Porque a questão é que, onde há livro, tem de haver acontecimento, nem que seja sob a forma do seu simulacro ou do buraco negro da sua ausência — é o imperativo da res extensa. Nao há como fugir-lhe. Literalmente.

Literalmente # 2

Leonard Lynch e David Cohen, ou de como há mais pensamento na blogosfera do que os media podem alguma vez imaginar: "Quando cheguei a Algés, uma hora mais tarde do que previa, a primeira imagem que vi foram duas: a primeira aquelas pessoas todas no Central Park de geleiras e tal para assistirem ao concerto de Paul Simon and Art Garfunkel, quando abria aquele disco duplo costumava olhar muito para as pessoas que estavam lá; a segunda tem a ver com os cortinados que me levaram logo para Lynch. E foi como se fizesse todo o sentido. Ora, aqueles arranjos não são à casino são, isso sim, a club silencio, mas ao contrário."

O rei morreu, viva o rei! # 3

A peça de Tom Stoppard terminava com um vídeo do concerto que os Rolling Stones deram em Praga em 1990, o primeiro concerto rock na Checoslováquia pós-comunista. Por um milésimo de segundo, perguntei-me: foi afinal para isto?
Eu sei. Durante um milésimo de segundo, fui fascista.
Mas há toda uma série de perguntas a fazer depois desse milésimo de segundo que não são fascistas. Que talvez até sejam perguntas comunistas num mundo pós-comunista. Não por acaso, talvez, Mick Jagger cantava I can’t get no satisfaction.

O rei morreu, viva o rei! # 2



Na política dos grandes ideais comunistas também não é assim. Os grandes ideais comunistas não pertencem estritamente à ordem da política, nem são inteligíveis se reduzidos unicamente às regras desse quadro. É por isso que o luto dos grandes ideais comunistas é tão lento, complexo e diversificado. A questão fundamental do luto amoroso bem sucedido resume-se nisto: decidir qual o essencial a guardar, para melhor poder esquecer o resto e abrir espaço para a restante vida. No luto amoroso bem sucedido, o essencial que se guarda acaba sempre por ser a reconfortante certeza de que o amor, o movimento do amor, existiu, foi possível, é possível. Mil histórias para dizer isto, mil histórias multiplicadas por mil histórias para dizer ainda “amo-te”. Qual é o equivalente de “amo-te” nos grandes ideais comunistas? Parte da esperança política à esquerda reside em conseguir encontrar uma resposta mínima para esta questão. Não será por acaso que alguma esquerda europeia olha para Obama. Não é só pelo que diz, mas também como diz. Nessa outra ordem que não é estritamente política, sabemos que o amor diz o que o Outro é, como conteúdo, através da forma como o percepcionamos e intuímos. Em liguagem rock’on roll: I like the way she moves...

O rei morreu, viva o rei! # 1

No amor não é assim. Passados alguns meses — vi a peça em Abril —, o que me lembro com mais nitidez de Rock’on Roll, de Tom Stoppard, é uma pequena frase do velho Professor Comunista, “filosofando” sobre o fracasso da relação amorosa que tinha iniciado logo após a morte da sua mulher: “a dor não quer saber para nada se estás a ter grandes orgasmos e quão fantástica pode ser a tua nova vida; a dor dói-te e destrói-te, e tens de aguentar sozinho ir até ao fim dela.” Depois, haverá ou não a possibilidade de qualquer coisa. No fim da peça, esta relação reata-se — mas é já outra coisa. O velho Professor Comunista já tinha morrido o que tinha a morrer na morte da sua mulher.