Sala cheia, mas dos mares de gente nova de ontem quase nada. Toda a brigada do reumático marcou presença, pessoas que não via há muito tempo, porque a cidade é grande e as convergências poucas. Não sei se isto são boas notícias para o jazz, mas adiante.
Patricia Barber # 1 [antes e depois]
Epifanias # 34 [restos do sono, 2]
Disse o anjo: Reparaste nos músicos? Vi-os a todos no teu sonho. Homens. Excepto a violoncelista.
Epifanias # 33 [restos do sono, 1]
Disse o anjo: Estive a ver atentamente os teus sonhos. Foi como assistir ao concerto com comentários. Sabes que te lembraste muito do Quando tudo arde?
Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 4 [almodovar]
Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 3 [corpo & raccord]
Antony não é Lura. Mas é também e só corpo. Mais exactamente, mãos e braços. Como se Vera Mantero lhe tivesse desenhado os movimentos que descompassam a melodia que segue perfeita à superfície. Mas que leva no fundo o desequilíbrio da existência. E que dele extrai o que só verdadeiramente pode ter existência como música. Aquilo é a vida dele.
Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 2 [ao vivo]
Quase perfeito. A dimensão da imagem foi o menos conseguido. Mistura um pouco monótona de MTV e Canal Moda, explorando os rostos de cada um dos modelos que, canção após canção, subiam para um minúsculo palco giratório ao lado direito, e eram projectados em circuito vídeo no écran que fechava em fundo o palco. A vantagem dessa monotonia é que não se sobrepôs ao fluir natural da música. Mesmo assim, houve pontos altos na conjugação música & imagem. O mais extraordinário de todos terá sido o longo momento de suspensão em negro — falling in love for a dead boy —, e algumas passagens da cor para o preto e branco.
Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 1 [antes e depois]
Já se sabia que a sala estava esgotada, mas foi bom comprovar que era mesmo verdade. Algumas caras da minha geração. E mares de gente nova. Uma cidade um pouco mais viva. No fim, o passeio em frente ao Teatro Chirco foi estreito para as conversas e a vontade de estar. O projecto de prolongar o túnel, transformando toda a largura da avenida em área pedonal, faz sentido.
Epifanias # 31 [track 2: repeat mode]
Quando chego àquele ponto em que quero saber exactamente qual a letra transportada pela melodia, e a letra acerta sempre.
I’m a little lost / Without you / That could be an understatement / Now I hope that I have paid the cost / to let a day go on by and not / Call on you / ‘Cause I’m so busy, so busy / Thinking about kissing you / Now I want to do that / Without entertaining another thought.
I’m a little lost / Without you / That could be an understatement / Now I hope that I have paid the cost / to let a day go on by and not / Call on you / ‘Cause I’m so busy, so busy / Thinking about kissing you / Now I want to do that / Without entertaining another thought.
I’m a little lost / Without you / That could be an understatement / Now I hope that I have paid the cost / to let a day go on by and not / Call on you / ‘Cause I’m so busy, so busy / Thinking about kissing you / Now I want to do that / Without entertaining another thought.
Epifanias # 30 [concreta]
Três gatos à lua das sete da tarde. Agora sim, a hora mudou. Fora da empiria há salvação, mal de nós se não houvesse. Mas nada chega ao encontro do concreto do mundo. Ainda que nestes três gatos, o gato número dois, precisamente o gato número dois, aquele que está entre o gato número um e o gato número três, tenha sido o violoncelo do senhor arthur russel. Mas já se sabe: poucas coisas são tão criativas quanto o concreto do mundo.
Epifanias # 29 [da Leitora, raccord em violoncelo]
Epifanias # 28 [isto sim, é uma epifania]
Decididamente, I can’t get no satisfaction refere-se ao trabalho. Melhor. Ao trabalho que advém de uma profissão que tem muita mais proletarização e burocracia do que aquela que nos disseram à partida. Não fomos escolhidos por sabermos fazer isso, mas a partir de um dado momento parece que tudo se resume a fazer isso. Fui apanhado.
Epifanias # 27 [Hooper no terminal de mercadorias]
Epifanias # 26 [da Leitora]
Epifanias # 25 [que só a si o estudo se ilumine?..]
Há uma dose de autismo que é inevitável. Por exemplo, quando temos de arrancar a nós mesmos aquilo que não sabemos, porque estamos cegos e incapazes de o encontrar aí por fora. É um dos limites do cansaço, mas é também uma ponte para o descanso possível. Como em tudo, há autismos e autismos. Há Lobo Antunes. Há Rostropovich. E há esta coisa de tresler umas quantas páginas para delas extorquir uma ideia. Ou um esboço de ideia. Ou o seu rasto ténue. Ou ponho lá a ideia que depois hei-de encontrar. O que também é complicado. Sem deixar de ser uma questão de autoridade. Rostropovich tinha essa autoridade. É por isso que a gente ouve e estremece dos dois lados. Do lado do não é assim, e do lado do que se calhar melhor fora que tivesse sido assim.
ps: começou a chover. obrigado.
Epifanias # 24 [finalmente, alguém que me compreende…]
Era isso que devia estar a fazer, não a bloggar, nem a procurar papers num poço seco, nem às voltas com bolonha, nem a aturar-me a mim mesmo, nem… pronto, pronto, já me calei, realmente não há pachorra para tipos como eu.
Epifanias # 23 [se ao menos chovesse, achava que era menos desperdício ficar a trabalhar]
Hum… dieta metafísica rigorosa que implica grande contenção na escrita de textos curtos? Assim de repente não me parece um mau programa, se calhar também precisava. Temo é que a minha também pouca sanidade mental não aguente: faltam-me os três anos de endurance.
Epifanias # 22 [ressalva]
Epifanias # 21 [so what?]
Um pouco da inútil realidade, a epifania segue dentro de momentos # 3
Eu acho que o equivalente disso, dessa clareza e simplicidade, para o que ao ensino básico e secundário diz respeito, seria manter a terminologia clássica: para as funcionalidades que se desejam, chega e sobra. Mas a história das disciplinas é feita também da sua aproximação à área do poder e da visibilidade simbólica que adquirem, e tudo indica que tenha chegado a hora dos linguistas. Bem sei: não de todos os linguistas, nunca é de todos, mas precisamente daqueles que estão em condições de falar em nome de todos.
A questão, sobre ser científica, é pois também política. E é aqui que me parece que a intervenção de Vasco Graça Moura, tão elogiada, acaba por ser contraproducente para a causa anti-TLEBS. Vasco Graça Moura não argumenta cientificamente, remete para os argumentos de outros. Os argumentos não ficam invalidados por isso, é claro, mas o artigo de VGM coloca-se já na plataforma do xiste político, visando claramente o ministério. Ora, eu penso que VGM deve ter plena consciência de que o seu tom político raramente visa senão a erradicação pura e simples do adversário. Neste artigo, o tom até é relativamente comedido, mas a fama do articulista acrescenta-lhe o fel que de facto lhe falta. O que naturalmente será entendido pelos adversários como uma razão acrescida para o enquistar das suas posições. Se VGM quisesse de facto combater a TLEBS, ou visse nesse combate um imperativo maior do que esgrimir politicamente contra o ministério, saberia com quem falar ou a quem pedir que falasse sem correr riscos de má ou de sobre-interpretação política. Não é o ideal em termos democráticos? Seguramente que não. Mas há que saber viver com isso. Ou estarei enganado?
Um pouco da inútil realidade, a epifania segue dentro de momentos # 2
Sempre estranhei a persistência de algumas ideias que a prática desmentia a cada minuto. Por exemplo: a ideia de que saber gramática era indispensável para escrever bem. Tive um litígio com a minha professora do quarto ano (agora é o oitavo) a propósito disto. Cheguei a pegar nos exercícios da turma, para mostrar que os que tinham boas notas na “Redacção” tinham sempre notas mais baixas no grupo da gramática, às vezes até tinham notas negativas, como no meu caso. Mas a professora era ela.
Ou essa ideia ainda mais delirante, muito em voga na minha faculdade, de que saber latim era indispensável para se escrever bem.
A verdade é que tirando declinações verbais e alguns casos de formação de palavras ou de uso de proposições — tudo coisas que um simples prontuário ou a boa leitura elucidam facilmente —, nunca vi grande utilidade em saber o que é uma oração relativa e coisas assim. Claro que o estudo estilístico, de obras literárias ou não, é outra coisa.
Mas esta introdução à nova terminologia linguística para os ensinos básico e secundário, vulgo TLEBS, já está a ficar grande. E agora vai chegar o técnico do gás, para mudar todos os tubos e condutas, que esses têm prazos de validade e todos os cuidados são poucos. Se não houver acidentes, volto mais logo.
Um pouco da inútil realidade, a epifania segue dentro de momentos
Epifanias # 20 [Wispelwey, algum tempo depois]
Epifanias # 19 [lugares improváveis]
Lembro-me bem da infância que não tive. Estúpida como não nascermos ensinados, miserável pela pobreza que havia até nos que eram ricos, mentirosa porque nos ensinou que éramos desde sempre assim.
Lembro-me de já ter escrito isto e me sentir inútil nessas palavras. Não injusto, inútil. Porque mesmo a infância que tive (mas não foi assim tão diferente, nunca o é) não me livra da infância que não tive, mas que a maioria teve. Ou que como país tivemos. Esta coisa de termos nascido num tempo e num lugar, e não sermos nós o nosso tempo e o nosso lugar — mas também, se o pudéssemos ser, seríamos mais sós que a pior e mais atroz solidão.
Toda a existência é lugar improvável. Por mim, deixem apenas a árvore. Mas nem disso faço questão. E se a deixarem, não pensem que me deixam o passado. De qualquer modo, eu parto.
Epifanias # 18 [acabado o estudo]
A noite brilha sobre um vento abstracto.
Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 60
Epifanias # 17 [de janela aberta para a noite]
E ver. E ver. Quanto mais ver se alonga
mais o eclipse do que fora visto
entra por sua sombra,
ficando a descobrir-se o infinito.
Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 46
Epifanias # 16 [três dias para novembro e uma noite quase de verão]
Epifanias # 15 [pensava que isto já tinha sido feito]
Epifanias # 14 [coisas de um ateu pós-crítico]
Oração para antes do estudo
Dai-nos, Senhor, um coração humilde.
A inteligência de aceitar agora
que só a si o estudo se ilumine
e nele se esqueça o estudante. A cópia
do que estudarmos em nós viva, a fim de
que apenas o estudado seja porta.
E luz aberta por onde entrem livres
aqueles cuja alegria é obra
de compenetração que, sem limites,
se entrega. Fica com seu dentro fora.
Ilumina, Senhor, a inteligência de ir-se
esquecendo cada qual no que se mostra.
Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 7
E contudo. Como se um filho, num jogo muito seu, nos contasse a nós, de cor, a história que todas as noites lhe lemos. E na sua voz, nos seus gestos — nada inocentes, pelo contrário, sérios, carregados de mundo, de dor e de força —, ou entre a sua voz e os seus gestos houvesse alguma coisa do que somos e nos espera ainda. Uma porta aberta sem nada dentro, que dê para aquilo que está desde sempre com seu dentro fora. Isto. Isto.
Devagar
Psicopatologia da vida quotidiana (perdão, académica)
Epifanias # 13 [onírico]
Estás a confundir o violoncelo com o violino, meu caro...
Quem disse?
Digo eu, que apesar de anjo ainda sei alguma coisa. E não é o facto de isto ser um sonho que te desculpa...
Mas tu não pertencias a outra série?
Pertenço às tuas noites, de séries não sei nada.
Mas hoje tenho outros planos, fica sabendo. E não há confusão nenhuma, a fotografia bem pode ter no título o violino, o que me interessa aqui é que a mulher real tem a dimensão de um violoncelo.
A mulher real?
Destas coisas tu não sabes, seria melhor que te retirasses. A mulher já está com frio nas costas, o lençol de rendas já caiu, vai-te.
Mas eu não sou o demo, olha que confusão me estás a fazer. Nunca ouviste isso de os anjos assistirem e baterem palmas no fim?
Hum...
E esse rosnar quer dizer sim ou não?
Hum...
Como queiras. Não está na minha liberdade abandonar-te. Agora já sabes.
Hum...
Mas numa coisa dou-te razão: é mais do lado do violoncelo, nunca tinha pensado no assunto por esse prisma.
Hum...
Já não me estás a ouvir, pois não? E isso já não é rosnar, pois não? Boa, um anjo a falar sozinho...
Novas mitologias
Epifanias # 12 [monólogo]
Epifanias # 11 [pré-estação]
O sol é o mesmo. A diferença é estarmos
a receber, da inclinação do eixo,
a claridade ténue a que chamamos
entrarmos pelo inverno.
Ou, simplesmente, entrarmos
por uma frialdade a que acedemos,
levando dentro a lucidez dos anos
e a pacificação de os irmos vendo.
A claridade apura-se nos ramos.
Para trás fica a transparência. Termos
tão decididamente entrado
abriu-se . Recebeu-nos
com o amor intelectual do obstáculo
que se foi desdobrar na luz do inverno.
Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 185
Epifanias # 10
Multiplex 21
- O cartaz engana, o fotograma não. Quase nada do Almodovar passional e do “plot florido”, digamos assim, quase tudo de um Almodovar intimista, deixando as suas chicas serem mulheres de corpo inteiro.
- Um filme de mães e filhas, Leitora. O que me deixou nostálgico e com a sensação de o meu mundo ser incompleto.
- Se calhar devias fazer uma pausa, Luís...
- Não adianta. E o sentimento não é mau. Gostei do vento e da Mancha. E da capacidade de cuidar daquelas mulheres.
- Que aprenderam e desenvolvem. Não é a “essência feminina”.
- Pois não. Mas era bom que fosse mais a construção do humano. E raramente é.
- Talvez não. E contudo... Mas acho mesmo que devias fazer uma pausa.
- Mas o que é fazer uma pausa?
- Se não me perguntasses eu sabia, assim não sei...
Homenagem ao sociólogo desconhecido
Epifanias # 8 [repouso]
Respirar no rasto da música. Deixá-la extinguir-se. Ficar no silêncio da carne.
Epifanias # 7 [ouvindo]
Theatro Circo
Para já, no Theatro Circo abriram as bilheteiras. Profissionalismo e simpatia — um excelente começo.
Yunus
Epifanias # 3 [saraband]
Epifanias # 2 [com luz de outono]
E há o vagar. Não o de irmos.
O de fruir o vagar
com que amando vamos sítios
que dão para onde vai
o de um mais longe infinito
— que é o que se ama ainda mais.
Ou é o amor de irmos indo
que santifica o vagar.
O novo lugar abrindo-
-se a não haver mais lugar.
Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 208
NADA: três anos de uma revista diferente
Volume 8
As artes tecnológicas III:
Exercícios piedosos para o espectador
JORGE LEANDRO ROSA
Da Arquitectura Flutuante
à Produção do Extraterrestre
Entrevista a MARCOS NOVAK por João Urbano,
Tania López Winkler e Giorgio Alberti
A quarta Era da Ficção Interactiva
NICK MONTFORT
Meno e a Internet: entre a memória e o arquivo
HOWARD CAYGILL
Mundo em segunda mão, espaço público e ridículo
Entrevista a DANIEL INNERARITY
por João Urbano e Pedro Amaro Costa
Transe maquínico-ou: o que pode uma máquina?
PEDRO PEIXOTO FERREIRA
Blindspot
HERWIG TURK, PAULO PEREIRA E GÜNTER STÖGER
Espaço para uma arquitectura sem projecto
PEDRO BANDEIRA
O sentimento do épico em Blueberry
JAIME FREIRE
Superconsumidor, um romance pós-moderno
HUGO LIU
Farmoquílias
JOÃO URBANO
Carbono
JOÃO OLIVEIRA
Multiplex 20
No choice
Ainda é possível fazer uma obra-prima a dois pianos com standards? É. Necessário algum silêncio à volta para se perceber. E ter tempo, que esta não é música de pressas. No final, há uma boa notícia: o segundo volume está para breve.
Epifanias # 1 [um pouco antes de uma aula]
Inculca-se o vagar no pensamento.
Para que o ritmo lento do trabalho
vá adquirindo o pulso dessueto,
mas que resiste ao pânico dos anos. (...)
Porque o futuro é um presente ao largo
da resistência da tensão. De um prévio
vagar obscuro. E vindo do trabalho.
Fernando Echevarría, Epifanias, Afrontamento, 2006, pag. 49
Multiplex 19
- Hum...
- Mas é um documentário eficaz, uma peça meticulosa do renascimento Al Gore, e do ponto de vista científico incontroverso.
- Eu sei, não é por isso. E não digas nada a ninguém. Mas é por ser cientificamente incontroverso que estou melancólico. O perigo é real, mas não creio que vamos conseguir evitá-lo. Não vejo vontade suficiente para isso. Partiram-se os elos da solidariedade inter-geracional, ninguém quer pagar qualquer preço em atenção do futuro. Haverá uns milhões de deslocados, e como sabemos qualquer crise é boa ocasião de negócio.
- Que pessimista, Luís!
- Pois... não digas nada a ninguém. Lutarei como os mais optimistas, ou como os mais conscenciosos, mas... a história do capitalismo é demasiado elucidativa, por assim dizer...
- E a vontade? E as conquistas que já houve? E a consciência?
- Eu sei, eu sei... simplesmente não digas nada a ninguém... Há civilizações que desapareceram, não foi? O que são umas quantas cidades, alguns milhões de deslocados e um pouco mais de deserto? É como a história da rã e do escorpião. Detesto ouvir-me falar assim. Não digas nada a ninguém... Vamos lá passar o filme por tudo quanto é sítio.
Multiplex 18
- O insuportável não é homogéneo, nenhuma derrota é uma derrota inteira, há sempre espaço para se começar a falar disso a partir daquilo que no próprio acontecimento pode aparecer como a vitória sobre esse acontecimento.
- A operação de salvamento, Leitora?
- E não só, Luís. A espera bem-sucedida, exemplar de uma comunidade fraterna, multi-étnica. O que também serve como justificação do desejo de vingança final. Aquilo que encerra o acontecimento na lógica da guerra, e mostra a lógica da guerra como o do simples combate entre os maus e os bons.
- Portanto, ao lado da questão essencial.
- Em absoluto. Parece-me, aliás, que por enquanto a melhor maneira de falar do 11 de Setembro, pelo menos no cinema, tem sido a partir do “lado”. Aquela imagem das roupas e da cinza a cair, n’A guerra dos mundos, do Spielberg, e as longas metáforas dos dois Spike Lee, A última hora e O infiltrado.
- Principalmente aquele longo e impossível final de A última hora. Não a vingança, mas a regeneração. Como se a América ainda pudesse ser o território da prova e do renascimento.
- E pode, Luís. E é. Como qualquer outro lugar do mundo.
Os três caminhos
giungerà quando nol crede il cor
- Tu já viste as horas? Não é normal eu estar a dormir a estas horas. E porque demoraste tanto? És o meu anjo da guarda, devias ter vindo logo.
- Questão de fusos horários, Luís. Tirando situações absolutamente excepcionais, estas horas não te pertencem.
- Mas esta situação é excepcional. Por isso vieste, mas devias ter vindo mais cedo.
- Não, não é excepcional. E foi só isso que te vim dizer. Acorda e vai trabalhar. Faz como se tudo dependesse da tua vontade, mas espera como se nada dependesse de ti. O resto virá. Sem se fazer anunciar, imperceptível, totalmente gratuito. Mas tu saberás que é isso. Ou aprenderás a saber. Agora vai.
- Mas espera, espera um pouco. Haverá sinais? E se tiver de decidir, como saber se me estou a desviar do encontro que me estava marcado? E há um encontro marcado?
- Podes sempre fazer como o pensador, e sentares-te, de queixos na mão. Eu prefiro Nietzsche, pensava andando. Esse sabia o que era a dança. E a Graça.
- A Graça? Mas tu assististe Nietzsche?
- Sim, assisti muita gente. Mas não estou autorizado a falar disso. Apenas te falei do que é público nele: que pensava a andar. Giungerà. Agora vai. Eu, pelo menos, tenho de ir.
- Espera ainda.
- Giungerà, Luís. Giungerà. Ouve a Bartoli. E depois muda de disco, também convém. Giungerà, percebes? Giungerà...
Canuta brina, per mano ascosa
- Não sei se percebo.
- Percebes, Luís, percebes. Mas eu explico, em todo o caso. Sou um anjo que conversa contigo, e apenas contigo, não sou um anjo que apenas recolha o que os humanos não ouvem um dos outros. Sou um anjo que interfere na tua vida, porque tu me procuras e me encontras. Sou um anjo que habita os teus sonhos e inexiste na vida diurna.
- E os outros, os que andam por entre os humanos acordados, são outra espécie?
- São a espécie do estado adulto. Eu sou da espécie do estado infantil, do desamparo que dizes que nada pode consolar.
- E podes consolar?
- Perguntas se há consolo? Há, há consolo. Uma mão secreta, não é o que diz o poema? Não a minha, que não tenho corpo. Não a tua, que não te é secreta.
- Uma mão secreta que me trará a velhice? Mas há algum segredo nisso? E é isso consolo?
- Sou o teu anjo, não um filósofo. O teu anjo da guarda. Guardo-te das perguntas. Não para que não as faças, mas que para que também possas descansar delas. Agora dorme. Sem sonhos.
- Espera, espera um pouco. É mão de mulher? É o amor que me fará envelhecer ou consentir? É ao contrário?
- Tonto. Acaso uma mão de humano é apenas humana? E mesmo que metas lá o divino, acaso alguma coisa se explica mais por isso? Não vês que simplesmente cresce o mistério? Mas eu disse-te que não era filósofo. Não consegues dormir? Põe aí a Bartoli, então. Quero ouvir outra vez, como os humanos fazem. O que pode um corpo, meu deus, o que pode um corpo...
Tu vai cercando il tuo dolor
O anjo quis ouvir. E disse depois uma coisa teológica: a dor é boa, porque te faz ter necessidade do amor. Eu disse que sim, com certeza. Mas pedi-lhe que ouvisse outra vez, como muitas vezes os humanos fazem.
O anjo ouviu outra vez.
O anjo disse: deve ser bom ter um corpo e sabê-lo usar.
Lascia la spina
Lascia la spina cogli la rosa
tu vai cercando il tuo dolor.
Canuta brina per mano ascosa
giungerà quando nol crede il cor.
A Leitora, no seu infinito particular (XXVII)
- Agora sim, dei conta. O tempo está ligado à mudança, mas não pela sua duração, apenas pela sua intensidade. Um minuto pode ser suficiente, uma vida inteira pode ser mera repetição. É muito diferente quando o sabemos a partir de nós.
- E diferente de cada vez que o sabemos.
- Vês essa moldura de branco em torno do quadro? É a ambivalência do lençol, Luís. Foi este o tempo que precisei para o saber.
- O lençol do prazer, o lençol do sudário?
- Sim, mas sem amour à mort.
- Já não é da tua geração, de facto.
- De facto, não. Mas a aceitação é. Ou devia ser. Achas lamechas?
- Não quando dito com a tua voz.
- Precisamos de falar longamente.
- Então é melhor desligar isto.
finalmente, e tal, um pouco de tempo para ler a blogosfera # 2
A memória entregue aos seus artefactos tecnológicos.
Um sabor novo.
Uma imagem.
Um grau de civilização.
E sim, claro, uma frase genial.
finalmente, passada a fase de cão existencial, um pouco de tempo para ler a blogosfera # 1
Uma reacção política (Miguel Vale de Almeida):
Uma reacção político-metafísica (João Paulo Sousa):
Uma conclusão triste mas avisada (Luís M. Jorge):