Patricia Barber # 1 [antes e depois]

Sala cheia, mas dos mares de gente nova de ontem quase nada. Toda a brigada do reumático marcou presença, pessoas que não via há muito tempo, porque a cidade é grande e as convergências poucas. Não sei se isto são boas notícias para o jazz, mas adiante.

Epifanias # 34 [restos do sono, 2]

Disse o anjo: Reparaste nos músicos? Vi-os a todos no teu sonho. Homens. Excepto a violoncelista.

Epifanias # 33 [restos do sono, 1]

Disse o anjo: Estive a ver atentamente os teus sonhos. Foi como assistir ao concerto com comentários. Sabes que te lembraste muito do Quando tudo arde?

Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 4 [almodovar]

O encore. Com os modelos todos espalhados pelo palco, em repouso e convivência como numa grande casa de sororidade. Precisamente, Sisters. A grande e terna humanidade.

Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 3 [corpo & raccord]

Antony não é Lura. Mas é também e só corpo. Mais exactamente, mãos e braços. Como se Vera Mantero lhe tivesse desenhado os movimentos que descompassam a melodia que segue perfeita à superfície. Mas que leva no fundo o desequilíbrio da existência. E que dele extrai o que só verdadeiramente pode ter existência como música. Aquilo é a vida dele.

Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 2 [ao vivo]

Quase perfeito. A dimensão da imagem foi o menos conseguido. Mistura um pouco monótona de MTV e Canal Moda, explorando os rostos de cada um dos modelos que, canção após canção, subiam para um minúsculo palco giratório ao lado direito, e eram projectados em circuito vídeo no écran que fechava em fundo o palco. A vantagem dessa monotonia é que não se sobrepôs ao fluir natural da música. Mesmo assim, houve pontos altos na conjugação música & imagem. O mais extraordinário de todos terá sido o longo momento de suspensão em negro — falling in love for a dead boy —, e algumas passagens da cor para o preto e branco.

Antony and the Johnsons / Charles Atlas # 1 [antes e depois]

Já se sabia que a sala estava esgotada, mas foi bom comprovar que era mesmo verdade. Algumas caras da minha geração. E mares de gente nova. Uma cidade um pouco mais viva. No fim, o passeio em frente ao Teatro Chirco foi estreito para as conversas e a vontade de estar. O projecto de prolongar o túnel, transformando toda a largura da avenida em área pedonal, faz sentido.

Epifanias # 32 [modo de espera]

Antony Patricia Barber Keith Jarrett
sexta sábado domingo

Epifanias # 31 [track 2: repeat mode]

Quando chego àquele ponto em que quero saber exactamente qual a letra transportada pela melodia, e a letra acerta sempre.

I’m a little lost / Without you / That could be an understatement / Now I hope that I have paid the cost / to let a day go on by and not / Call on you / ‘Cause I’m so busy, so busy / Thinking about kissing you / Now I want to do that / Without entertaining another thought.

I’m a little lost / Without you / That could be an understatement / Now I hope that I have paid the cost / to let a day go on by and not / Call on you / ‘Cause I’m so busy, so busy / Thinking about kissing you / Now I want to do that / Without entertaining another thought.

I’m a little lost / Without you / That could be an understatement / Now I hope that I have paid the cost / to let a day go on by and not / Call on you / ‘Cause I’m so busy, so busy / Thinking about kissing you / Now I want to do that / Without entertaining another thought.

Epifanias # 30 [concreta]

Três gatos à lua das sete da tarde. Agora sim, a hora mudou. Fora da empiria há salvação, mal de nós se não houvesse. Mas nada chega ao encontro do concreto do mundo. Ainda que nestes três gatos, o gato número dois, precisamente o gato número dois, aquele que está entre o gato número um e o gato número três, tenha sido o violoncelo do senhor arthur russel. Mas já se sabe: poucas coisas são tão criativas quanto o concreto do mundo.

Epifanias # 29 [da Leitora, raccord em violoncelo]

Já me tem acontecido: chegar tarde a certos momentos da música, quando o que veio depois enterrou o que estava antes. Fora do jazz (e mesmo aí...) ou da clássica, acontece muito. A Arthur Russel, por enquanto, chega-se a tempo. Obrigado, Leitora. É bom saber que tu sabes.

Epifanias # 28 [isto sim, é uma epifania]

Decididamente, I can’t get no satisfaction refere-se ao trabalho. Melhor. Ao trabalho que advém de uma profissão que tem muita mais proletarização e burocracia do que aquela que nos disseram à partida. Não fomos escolhidos por sabermos fazer isso, mas a partir de um dado momento parece que tudo se resume a fazer isso. Fui apanhado.

Epifanias # 27 [Hooper no terminal de mercadorias]

O grande armazém branco, com o logótipo azul da Secil. Os sacos brancos de cimento ordenados cá fora. E também em cima dos wagons abertos. Os projectores fortes nos candeeiros altos, contra um céu azul escuro. Hooper está do lado de lá da linha férrea, no terminal de mercadorias. Do lado de cá está a laranjeira, o monte em frente, a relva aqui em baixo. Não é só uma questão de para onde se olha, mas também daquilo que a luz permite olhar. E daquilo para onde os projectores obrigam a olhar.

Epifanias # 26 [da Leitora]

Com isto, tudo o que tenho deixa de caber no carro. Nem sabes o medo que isso me faz. Nunca fui menina de brincar às casinhas, percebes?

Epifanias # 25 [que só a si o estudo se ilumine?..]

Há uma dose de autismo que é inevitável. Por exemplo, quando temos de arrancar a nós mesmos aquilo que não sabemos, porque estamos cegos e incapazes de o encontrar aí por fora. É um dos limites do cansaço, mas é também uma ponte para o descanso possível. Como em tudo, há autismos e autismos. Há Lobo Antunes. Há Rostropovich. E há esta coisa de tresler umas quantas páginas para delas extorquir uma ideia. Ou um esboço de ideia. Ou o seu rasto ténue. Ou ponho lá a ideia que depois hei-de encontrar. O que também é complicado. Sem deixar de ser uma questão de autoridade. Rostropovich tinha essa autoridade. É por isso que a gente ouve e estremece dos dois lados. Do lado do não é assim, e do lado do que se calhar melhor fora que tivesse sido assim.

ps: começou a chover. obrigado.

Epifanias # 24 [finalmente, alguém que me compreende…]

Era isso que devia estar a fazer, não a bloggar, nem a procurar papers num poço seco, nem às voltas com bolonha, nem a aturar-me a mim mesmo, nem… pronto, pronto, já me calei, realmente não há pachorra para tipos como eu.

Epifanias # 23 [se ao menos chovesse, achava que era menos desperdício ficar a trabalhar]

Hum… dieta metafísica rigorosa que implica grande contenção na escrita de textos curtos? Assim de repente não me parece um mau programa, se calhar também precisava. Temo é que a minha também pouca sanidade mental não aguente: faltam-me os três anos de endurance.

Epifanias # 22 [ressalva]

Certo, acreditei noutras coisas. Seria um assassino se não tivesse acreditado. Continuo a acreditar. Mesmo que tudo esteja já desfocado. Eu incluido.

Epifanias # 21 [so what?]

Desse ponto de vista, é um beco sem saída. Mas não me lembro de alguém me ter prometido alguma vez o contrário. Bom… até prometeram. Mas eu nunca acreditei.

Um pouco da inútil realidade, a epifania segue dentro de momentos # 3

Voltando à nova terminologia linguística para os ensinos básico e secundário, vulgo TLEBS. Vê-se a léguas que a coisa deriva desse complexo de cientificidade que em tempos não muitos recuados assaltou os estudos literários e foi responsável pelos delírios formalistas e semióticos. O que é engraçado é que quem quer que alguma vez tenha tido na mão um protocolo de experiência científica a ser conduzida em laboratório, dessas experiências em que um pouco mais disto ou daquilo, para além de deitar por terra todo um trabalho em sequência, pode de facto dar origem àquelas explosões que associamos aos cientistas loucos — pois quem quer que tenha visto um protocolo desses e não seja da área, só pode ter ficado surpreendido pela sua extrema clareza e simplicidade.
Eu acho que o equivalente disso, dessa clareza e simplicidade, para o que ao ensino básico e secundário diz respeito, seria manter a terminologia clássica: para as funcionalidades que se desejam, chega e sobra. Mas a história das disciplinas é feita também da sua aproximação à área do poder e da visibilidade simbólica que adquirem, e tudo indica que tenha chegado a hora dos linguistas. Bem sei: não de todos os linguistas, nunca é de todos, mas precisamente daqueles que estão em condições de falar em nome de todos.
A questão, sobre ser científica, é pois também política. E é aqui que me parece que a intervenção de Vasco Graça Moura, tão elogiada, acaba por ser contraproducente para a causa anti-TLEBS. Vasco Graça Moura não argumenta cientificamente, remete para os argumentos de outros. Os argumentos não ficam invalidados por isso, é claro, mas o artigo de VGM coloca-se já na plataforma do xiste político, visando claramente o ministério. Ora, eu penso que VGM deve ter plena consciência de que o seu tom político raramente visa senão a erradicação pura e simples do adversário. Neste artigo, o tom até é relativamente comedido, mas a fama do articulista acrescenta-lhe o fel que de facto lhe falta. O que naturalmente será entendido pelos adversários como uma razão acrescida para o enquistar das suas posições. Se VGM quisesse de facto combater a TLEBS, ou visse nesse combate um imperativo maior do que esgrimir politicamente contra o ministério, saberia com quem falar ou a quem pedir que falasse sem correr riscos de má ou de sobre-interpretação política. Não é o ideal em termos democráticos? Seguramente que não. Mas há que saber viver com isso. Ou estarei enganado?

Um pouco da inútil realidade, a epifania segue dentro de momentos # 2

Cá está outra coisa de que eu não percebo nada, já não tenho tempo para vir a perceber, nem verdadeiramente quero perceber: gramática.
Sempre estranhei a persistência de algumas ideias que a prática desmentia a cada minuto. Por exemplo: a ideia de que saber gramática era indispensável para escrever bem. Tive um litígio com a minha professora do quarto ano (agora é o oitavo) a propósito disto. Cheguei a pegar nos exercícios da turma, para mostrar que os que tinham boas notas na “Redacção” tinham sempre notas mais baixas no grupo da gramática, às vezes até tinham notas negativas, como no meu caso. Mas a professora era ela.
Ou essa ideia ainda mais delirante, muito em voga na minha faculdade, de que saber latim era indispensável para se escrever bem.
A verdade é que tirando declinações verbais e alguns casos de formação de palavras ou de uso de proposições — tudo coisas que um simples prontuário ou a boa leitura elucidam facilmente —, nunca vi grande utilidade em saber o que é uma oração relativa e coisas assim. Claro que o estudo estilístico, de obras literárias ou não, é outra coisa.
Mas esta introdução à nova terminologia linguística para os ensinos básico e secundário, vulgo TLEBS, já está a ficar grande. E agora vai chegar o técnico do gás, para mudar todos os tubos e condutas, que esses têm prazos de validade e todos os cuidados são poucos. Se não houver acidentes, volto mais logo.

Um pouco da inútil realidade, a epifania segue dentro de momentos

Cahora Bassa podia ter vindo para Portugal, juntamente com todos os teres e haveres dos que regressaram. Acho que até nos teria feito jeito, ali para os lados do Alqueva. Mas não veio. Ao que me dizem, que disto eu percebo pouco e também já não tenho tempo para perceber, teve de por lá ficar, tal como prédios, cidades, hotéis, estradas. Eu até pensava que, naturalmente, aquilo já fosse moçambicano. Mas como disse, eu percebo pouco disto. Aliás, já nem sei a que propósito é que vem esta conversa. Ah, já sei. Fui à procura do cão — gosto muito destes passeios com o cão — e ia caindo ali nuns buracos de ressentimento com alguns comentadores à volta. Mas estou bem, obrigado.

Epifanias # 20 [Wispelwey, algum tempo depois]

Gravar a mesma obra alguns anos depois não é análogo a reinterpretar o mesmo texto alguns anos depois. A música permite-nos a repetição e a diferença. Reinterpretar só nos pede a diferença, no resto manda-nos calar. Mas isto vem mais de trás. Pode ser um problema do meu pequeno círculo de convivência, mas não conheço ninguém, a começar por mim próprio, que re-leia tanto um texto quanto ouve repetidamente uma música.

Epifanias # 19 [lugares improváveis]

Lembro-me bem da infância que não tive. Esse esconderijo aí: o dos palavrões que não havia em casa e que treinávamos para a guerra de todos os dias; o dos cigarros mata-ratos; o que era forte apache, castelo de qualquer era remota, ou cidade bombardeada dos livros do major alvega; o dos cigarros sérios, que tínhamos que comprar a meias; o de um casal de namorados, numa aflição de roupas que nada deixava ver; o que foi vendido ao Esteves da Tabacaria — juro! —, que o comprou com o dinheiro das franças e deu a primeira casa emigrante do lugar.
Lembro-me bem da infância que não tive. Estúpida como não nascermos ensinados, miserável pela pobreza que havia até nos que eram ricos, mentirosa porque nos ensinou que éramos desde sempre assim.
Lembro-me de já ter escrito isto e me sentir inútil nessas palavras. Não injusto, inútil. Porque mesmo a infância que tive (mas não foi assim tão diferente, nunca o é) não me livra da infância que não tive, mas que a maioria teve. Ou que como país tivemos. Esta coisa de termos nascido num tempo e num lugar, e não sermos nós o nosso tempo e o nosso lugar — mas também, se o pudéssemos ser, seríamos mais sós que a pior e mais atroz solidão.
Toda a existência é lugar improvável. Por mim, deixem apenas a árvore. Mas nem disso faço questão. E se a deixarem, não pensem que me deixam o passado. De qualquer modo, eu parto.

Epifanias # 18 [acabado o estudo]

Michel Haas, Le violoncelle bleu, 1982

A noite brilha sobre um vento abstracto.

Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 60

Epifanias # 17 [de janela aberta para a noite]

Arman, Violoncelle brulee, 1969 (cello in plexiglass)


E ver. E ver. Quanto mais ver se alonga
mais o eclipse do que fora visto
entra por sua sombra,
ficando a descobrir-se o infinito.
Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 46

Versão rural do guarda-nocturno do mar? Não. Não sei o que seja ser guarda-nocturno destes campos casas árvores. Ou melhor, sei. Coisa pragmática, a vida nossa de cada dia. O mar é diferente. É guardar o que a ninguém pertence e é inapropriável — isso permite ver. Pena que o céu seja aqui tão recortado por tudo o que em baixo é humano. Mas às vezes, num ângulo seco, desce a sombra sobre o que existe. Começamos a ver.

Epifanias # 16 [três dias para novembro e uma noite quase de verão]

O mais terrível, quase insuportável, no irmos envelhecendo? A incapacidade de nos continuarmos a enganar a nós próprios. O que devia trazer paz e compaixão — e um dia trará, espero —, começa por ser o desabar de todas as pequeninas, minúsculas, quase invisíveis ficções com que nos defendemos do nada. Sem o véu da auto-comiseração, ou da misantropia, ou do cinismo, ou de uma qualquer teoria ou religião, o espectáculo do irrisório de nós não é agradável.

PS: Sim, claro, nesta perspectiva muita gente não envelhece, simplesmente apodrece — os cadáveres adiados que procriam, ou qualquer coisa do género. Mas isso não é propriamente novidade, pois não?

Epifanias # 15 [pensava que isto já tinha sido feito]

Uma galeria em Cardiff, no País de Gales (Grã-Bretanha) propõe, desde segunda-feira, uma exposição sobre... nada. O autor da ideia, Simon Pope, é professor de arte, tem 40 anos e teve honras de artigo em vários jornais, entre os quais o conceituado The Independent. A polémica ideia consiste em propiciar ao visitante a possibilidade de existir em dois espaços ao mesmo tempo: “o espaço vazio da galeria e o espaço da memória, onde cada um pode recordar as suas experiências noutras galerias”.
Expresso, "Actual", nº 1774, 28 de Outubro 2006, p. 41

E andava eu a dizer nas aulas que a pintura, ao contrário da literatura, já tinha dado a volta a tudo, desde a tela em branco só com a assinatura do autor até à exposição em que os quadros eram o seu lugar vazio na parede. Tss, tss, as coisas que eu invento por virtude de sobreinterpretação... Devo ter confundido a realidade com as ficções vergilianas sobre o destino da arte, sobretudo no Até ao fim e no Rápida, a sombra. Mas não importa. O fundamental é mesmo a notícia, quer dizer, o modo como a simples redacção jornalística incorpora sem sobressaltos a condição da arte no seu tempo pós-hegeliano: o autor de quem se fala é o autor da ideia, não da obra, porque precisamente já não é necessária obra para haver autor. E toda a epifania que a ideia abre pode processar-se a partir da simples notícia de um jornal, não há qualquer necessidade de ir à galeria em Cardiff. A ideia prescinde da materialidade da obra, tanto mais se for uma ideia contra a materialidade da obra. Só é pena que Simon Pope não tenha ousado mais um passo, que seria o de tentar evacuar o próprio espaço da memória. Mas essa é uma ideia que é capaz de não estar ao alcance de todos.

Epifanias # 14 [coisas de um ateu pós-crítico]

Oração para antes do estudo

Dai-nos, Senhor, um coração humilde.
A inteligência de aceitar agora
que só a si o estudo se ilumine
e nele se esqueça o estudante. A cópia
do que estudarmos em nós viva, a fim de
que apenas o estudado seja porta.
E luz aberta por onde entrem livres
aqueles cuja alegria é obra
de compenetração que, sem limites,
se entrega. Fica com seu dentro fora.
Ilumina, Senhor, a inteligência de ir-se
esquecendo cada qual no que se mostra.

Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 7


Sim, eu sei, o estudo não se ilumina a si mesmo, nem nele se esquece o estudante. Li Marx e Freud, e Nietzsche contra ambos e para além de ambos. Sei coisas de superestrutura económica, infraestrutura inconsciente e apego às metáforas de si mesmo como deus. Sei que pela porta aberta entram os nossos interesses — os reais, os desconhecidos, os contraditórios, os suicidas — e a nossa ignorância fecha a porta quando a julgamos escancarada. Sei que esquecermo-nos naquilo que se mostra é uma bênção esfarelada às mãos do “É assim” ou de outras objectividades mais laboratorialmente construídas.
E contudo. Como se um filho, num jogo muito seu, nos contasse a nós, de cor, a história que todas as noites lhe lemos. E na sua voz, nos seus gestos — nada inocentes, pelo contrário, sérios, carregados de mundo, de dor e de força —, ou entre a sua voz e os seus gestos houvesse alguma coisa do que somos e nos espera ainda. Uma porta aberta sem nada dentro, que dê para aquilo que está desde sempre com seu dentro fora. Isto. Isto.

Devagar

Sim, é verdade, a voz reabre ainda e sempre a memória de Nina Simone. E o Hammond Organ ajuda à sua maneira. Tudo está no lugar certo. Mais do que isso, tudo está no seu lugar. Não é uma beleza que nos surpreenda ou perturbe. Reequilibra. Calor no coração. E há um momento em que a lentidão, o açúcar na melodia, transfiguram: é quando Madeleine canta com K.D. Lang (quem se lembra dela com Tony Bennett?), transformando River, que em Janis Joplin tinha desespero contido, numa pequena polaroid de uma infância para sempre perdida. A melancolia também sabe. E tem a velocidade própria do seu saber: devagar.

Psicopatologia da vida quotidiana (perdão, académica)

É uma história simples. Num órgão académico só de professores doutores por extenso, uma certa e determinada pessoa votou contra uma medida que definiu que se fizesse A ou B ou C. Até aqui tudo bem, as pessoas têm o direito de votar contra. Dias mais tarde, quando o presidente desse órgão académico só de professores doutores por extenso quis pôr em execução a medida, a certa e determinada pessoa recusou-se a fazer B e C, alegando que o órgão só tinha determinado que se fizesse A. É que a certa e determinada pessoa, embora também não concordasse com A, achava que B e C eram pura e simplesmente inaceitáveis, e que o órgão académico só de professores doutores por extenso nunca por nunca o poderia ter determinado. O presidente do dito cujo órgão, cheio de paciência, disse que para que nenhum dúvida restasse sobre tal matéria, na próxima reunião perguntaria explicitamente, a quem tinha aprovado a medida, se todos tinham entendido que ela determinava que se fizesse A ou B ou C. O presidente do órgão académico só de professores doutores por extenso fez a pergunta, a certa e determinada pessoa voltou a intervir dizendo que A estava errado mas que ela cumpriria, mas que B ou C, além de estarem muito mais errados, nunca tinham sido aprovados. Os restantes membros do órgão académico só de professores doutores por extenso disseram claramente que tinham aprovado a medida em total conhecimento de que ela determinava que se fizesse A ou B ou C. Dias mais tarde, quando o presidente desse órgão académico só de professores doutores por extenso quis pôr em execução a medida, a certa e determinada pessoa recusou-se, escandalizada, a fazer B e C, alegando que o órgão só tinha determinado que se fizesse A, e que era isso que tinha ficado em acta. O presidente que fosse ver. O presidente do órgão académico só de professores doutores por extenso, embora exasperado, acha fascinante que lhe tenha calhado em sorte este exemplar supremo de autismo académico. Por extenso.

Epifanias # 13 [onírico]

Estás a confundir o violoncelo com o violino, meu caro...
Quem disse?
Digo eu, que apesar de anjo ainda sei alguma coisa. E não é o facto de isto ser um sonho que te desculpa...
Mas tu não pertencias a outra série?
Pertenço às tuas noites, de séries não sei nada.
Mas hoje tenho outros planos, fica sabendo. E não há confusão nenhuma, a fotografia bem pode ter no título o violino, o que me interessa aqui é que a mulher real tem a dimensão de um violoncelo.
A mulher real?
Destas coisas tu não sabes, seria melhor que te retirasses. A mulher já está com frio nas costas, o lençol de rendas já caiu, vai-te.
Mas eu não sou o demo, olha que confusão me estás a fazer. Nunca ouviste isso de os anjos assistirem e baterem palmas no fim?
Hum...
E esse rosnar quer dizer sim ou não?
Hum...
Como queiras. Não está na minha liberdade abandonar-te. Agora já sabes.
Hum...
Mas numa coisa dou-te razão: é mais do lado do violoncelo, nunca tinha pensado no assunto por esse prisma.
Hum...
Já não me estás a ouvir, pois não? E isso já não é rosnar, pois não? Boa, um anjo a falar sozinho...

Novas mitologias

É um salto imenso na discografia de Patricia Barber. Todas as composições (letra e música) são de sua autoria, e a partir do piano lidera com segurança um quarteto que arrisca passar descomplexadamente por vários campos: rock, fusão, pop refinada e jazz mainstream, mantendo-se sempre nas margens que são as suas. Aquilo que noutros me faria fugir, agarra-me aqui a cada audição: há uma lógica interna que se impõe, muito oficinal, é certo, mas que voa. Resta saber como funcionará em concerto, quer dizer, se este quarteto é já orgânico, ou se isto deve muito a ourivesaria de estúdio. Para o valor da música é indiferente, mas para o jazz que tem corpo é decisivo — e Patricia Barber é das poucas cantoras da actualidade que tem corpo de música e recusa o corpo de capa. E isto nada tem que ver com o físico desse corpo, mas com a fisicalidade com que a voz emana: amparado ao registo reconhecível em quase todas, emergindo de uma zona indecisa entre o dizeur e o encontrar a música intrínseca de cada sílaba em Patricia Barber. O que torna o risco de falhar mais alto, sobretudo ao vivo. Encontro marcado em Braga, a 11 de Novembro.

Epifanias # 12 [monólogo]

Compreendes que para trás fique a transparência? Que os anos passam e te acercas do poço de sombra que cresce em erva por entre tudo o que vês? Que a diferença é que o medo já não te recorta as coisas com a nitidez de julgares reconhecê-las? Que nessa progressiva ausência de medo as palavras se vão calando uma a uma porque desnecessárias?

Epifanias # 11 [pré-estação]

Yousuf Karsh, Pablo Casals


O sol é o mesmo. A diferença é estarmos
a receber, da inclinação do eixo,
a claridade ténue a que chamamos
entrarmos pelo inverno.
Ou, simplesmente, entrarmos
por uma frialdade a que acedemos,
levando dentro a lucidez dos anos
e a pacificação de os irmos vendo.
A claridade apura-se nos ramos.
Para trás fica a transparência. Termos
tão decididamente entrado
abriu-se . Recebeu-nos
com o amor intelectual do obstáculo
que se foi desdobrar na luz do inverno.

Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 185

Epifanias # 10

Chove torrencialmente lá fora. Cordas fortes, vento em arco. Disparos sucessivos contra a janela. Cá dentro, fogo demoníaco. Nem deus, nem a harmonia, nem a compaixão habitam este violoncelo. Arder intempestivo. Depois, um silêncio de nada. Como se morrêssemos de uma só vez. E também isso falhamos, sobrevivemos miseravelmente.

Epifanias # 9

Esse momento no dia em que a cortina de chuva desceu a rua e deixou o sol atrás de si.

Multiplex 21



- O cartaz engana, o fotograma não. Quase nada do Almodovar passional e do “plot florido”, digamos assim, quase tudo de um Almodovar intimista, deixando as suas chicas serem mulheres de corpo inteiro.
- Um filme de mães e filhas, Leitora. O que me deixou nostálgico e com a sensação de o meu mundo ser incompleto.
- Se calhar devias fazer uma pausa, Luís...
- Não adianta. E o sentimento não é mau. Gostei do vento e da Mancha. E da capacidade de cuidar daquelas mulheres.
- Que aprenderam e desenvolvem. Não é a “essência feminina”.
- Pois não. Mas era bom que fosse mais a construção do humano. E raramente é.
- Talvez não. E contudo... Mas acho mesmo que devias fazer uma pausa.
- Mas o que é fazer uma pausa?
- Se não me perguntasses eu sabia, assim não sei...

Homenagem ao sociólogo desconhecido

É a encosta in desta cidade de Braga, toda virada a poente, com as casas acavaladas umas nas outras, sem uma árvore pelo meio ou arruamento que ordene o que quer que seja, projectos faraónicos ou boas ideias que o contexto devora impiedosamente. O culminar de uma cultura do cimento. Alguém chamou a este Vale de Lamaçães, a favela dos ricos. Na mouche.

Epifanias # 8 [repouso]

Respirar no rasto da música. Deixá-la extinguir-se. Ficar no silêncio da carne.

Epifanias # 7 [ouvindo]

O tempo entre as cordas, o arco e os dedos. Sublinhado por cada músculo, fina articulação, estremecimento do corpo. É o tempo quem produz a eternidade de estar ouvindo, como é o corpo quem conduz para o limiar em que de si mesmo se desprende.

Epifanias # 6 [tacteando]

Esse sinal na tua pele. Este.

Epifanias # 5 [olhando]

O movimento de repouso das tuas mãos.

Epifanias # 4 [ouvindo]

A tua voz despe-me o cansaço.

Theatro Circo

A aposta começou pelo convite ao programador Paulo Brandão. O excelente trabalho na Casa das Artes de Famalicão nota-se nas escolhas até Dezembro. Diversificadas, procurando públicos. Que os há em Braga e não só. Veremos se Braga, Famalicão e Guimarães não se atropelam em guerras que não deveriam ser as da cultura. E se há um mínimo de planeamento que as considere como plataforma de um público que se sobrepõe em larga quantidade.
Para já, no Theatro Circo abriram as bilheteiras. Profissionalismo e simpatia — um excelente começo.

Yunus

Nunca desconsidero a semana dos anúncios do Nobel. É um prémio para nós mais do que para os premiados. Acrescenta-lhes reconhecimento, a conta bancária, mas o trabalho está feito. Para nós, é muito mais importante: faz permanecer a crença de que a humanidade é capaz de saber e fazer mais e melhor. Todos os anos, sem esmorecer. Claro que um prémio é também um item da indústria do espectáculo, mas sobre isso já tudo foi dito. E não retira, para mim, essa pequena parte que posso conceder aos bons sentimentos — assim mesmo, bons sentimentos.
Nada posso ajuizar da maioria dos prémios, apenas ouvir. Não sei se haveria coisas mais importantes na medicina ou na física para premiar, por exemplo, apenas sou capaz de reconhecer — enfim, acho que sou — que essas coisas me parecem premiáveis.
Quanto ao Nobel de literatura, não li uma linha de Pamuk. Amigos cuja opinião prezo, dividem-se drasticamente: um grande escritor, apenas um profissional competente. Mas convergem nisto: um cidadão íntegro, que não hesita em chamar a sua Turquia ao recalcado da sua história. Um Nobel de literatura, às vezes, é dado mais ao cidadão do que à literatura.
Mas o Nobel que este ano me encheu de contentamento foi para Muhammad Yunus. O microcrédito como instrumento da paz. Nada mais certo. E seja dito, nada mais ao arrepio do espírito capitalista, apesar dos discursos de que o desenvolvimento traz a paz. Que até traz. Só que os bancos apenas financiam aqueles que já têm dinheiro: o desenvolvimento é concedido aos que já são desenvolvidos.
Num único pormenor eu teria talvez feito diferente: por mim, Yunus teria sido prémio Nobel da economia. Uma forma de dizer que o espírito da coisa económica é político, sempre político, e que políticas há várias, que há escolhas. O microcrédito é uma escolha política. Uma excelente escolha política.

Epifanias # 3 [saraband]

Estar a estudar, janela fechada, luz acesa, serem quase sete da tarde, a luz declina no céu que hoje foi sendo cada vez mais cinzento. Esta palavra desequilibra a frase, mas o ensaísta não quer saber, responde-me de lá que o pensamento é mais rápido do que a palavra justa, ele continua à desfilada, levanto eu a cabeça a reconsiderar. O vento bate na laranjeira. Julgo ouvi-lo até perceber que é de cor, a janela está fechada, o vento não é forte, ouço distintamente o silêncio da casa. Apago a luz, abro a janela. O vento bate na laranjeira. Agora percebo. Não sei porque acontece, não quero sequer saber, mas percebo. Durante uns tempos, os que forem necessários, as variações golbberg serão substituídas pelas suites para violoncelo solo. O vento bate na laranjeira. É Outono. O vento. A laranjeira. O violoncelo.

Epifanias # 2 [com luz de outono]

E há o vagar. Não o de irmos.
O de fruir o vagar
com que amando vamos sítios
que dão para onde vai
o de um mais longe infinito
— que é o que se ama ainda mais.
Ou é o amor de irmos indo
que santifica o vagar.
O novo lugar abrindo-
-se a não haver mais lugar.

Fernando Echevarría, Epifanias, Assírio & Alvim, 2006, p. 208

NADA: três anos de uma revista diferente

Volume 8

As artes tecnológicas III:
Exercícios piedosos para o espectador
JORGE LEANDRO ROSA

Da Arquitectura Flutuante
à Produção do Extraterrestre
Entrevista a MARCOS NOVAK por João Urbano,
Tania López Winkler e Giorgio Alberti

A quarta Era da Ficção Interactiva
NICK MONTFORT

Meno e a Internet: entre a memória e o arquivo
HOWARD CAYGILL

Mundo em segunda mão, espaço público e ridículo
Entrevista a DANIEL INNERARITY
por João Urbano e Pedro Amaro Costa

Transe maquínico-ou: o que pode uma máquina?
PEDRO PEIXOTO FERREIRA

Blindspot
HERWIG TURK, PAULO PEREIRA E GÜNTER STÖGER

Espaço para uma arquitectura sem projecto
PEDRO BANDEIRA

O sentimento do épico em Blueberry
JAIME FREIRE

Superconsumidor, um romance pós-moderno
HUGO LIU

Farmoquílias
JOÃO URBANO

Carbono
JOÃO OLIVEIRA

Multiplex 20

Hany Abu-Assad, O paraíso, agora
Vai assim em uníssono, entre mim e a Leitora: especialmente recomendado para quem nunca teve notícias de árabes “moderados”, inteligentes, que têm dúvidas e perguntas. Também se recomenda a quem pensa que eles são todos iguais e fazem bicha para se fazerem explodir. Finalmente, aconselhável a quem pensa que, lá pela Palestina, só não são ricos e desenvolvidos porque passam todo o tempo a pensar em destruir Israel.

No choice

Marc Copland & Bill Carrothers, No choice

Ainda é possível fazer uma obra-prima a dois pianos com standards? É. Necessário algum silêncio à volta para se perceber. E ter tempo, que esta não é música de pressas. No final, há uma boa notícia: o segundo volume está para breve.

Epifanias # 1 [um pouco antes de uma aula]


Inculca-se o vagar no pensamento.
Para que o ritmo lento do trabalho
vá adquirindo o pulso dessueto,
mas que resiste ao pânico dos anos. (...)
Porque o futuro é um presente ao largo
da resistência da tensão. De um prévio
vagar obscuro. E vindo do trabalho.

Fernando Echevarría, Epifanias, Afrontamento, 2006, pag. 49

Multiplex 19

Davis Guggenheim, An inconvenient truth
- Melancólico, Luís?
- Hum...
- Mas é um documentário eficaz, uma peça meticulosa do renascimento Al Gore, e do ponto de vista científico incontroverso.
- Eu sei, não é por isso. E não digas nada a ninguém. Mas é por ser cientificamente incontroverso que estou melancólico. O perigo é real, mas não creio que vamos conseguir evitá-lo. Não vejo vontade suficiente para isso. Partiram-se os elos da solidariedade inter-geracional, ninguém quer pagar qualquer preço em atenção do futuro. Haverá uns milhões de deslocados, e como sabemos qualquer crise é boa ocasião de negócio.
- Que pessimista, Luís!
- Pois... não digas nada a ninguém. Lutarei como os mais optimistas, ou como os mais conscenciosos, mas... a história do capitalismo é demasiado elucidativa, por assim dizer...
- E a vontade? E as conquistas que já houve? E a consciência?
- Eu sei, eu sei... simplesmente não digas nada a ninguém... Há civilizações que desapareceram, não foi? O que são umas quantas cidades, alguns milhões de deslocados e um pouco mais de deserto? É como a história da rã e do escorpião. Detesto ouvir-me falar assim. Não digas nada a ninguém... Vamos lá passar o filme por tudo quanto é sítio.

Multiplex 18

- O insuportável não é homogéneo, nenhuma derrota é uma derrota inteira, há sempre espaço para se começar a falar disso a partir daquilo que no próprio acontecimento pode aparecer como a vitória sobre esse acontecimento.
- A operação de salvamento, Leitora?
- E não só, Luís. A espera bem-sucedida, exemplar de uma comunidade fraterna, multi-étnica. O que também serve como justificação do desejo de vingança final. Aquilo que encerra o acontecimento na lógica da guerra, e mostra a lógica da guerra como o do simples combate entre os maus e os bons.
- Portanto, ao lado da questão essencial.
- Em absoluto. Parece-me, aliás, que por enquanto a melhor maneira de falar do 11 de Setembro, pelo menos no cinema, tem sido a partir do “lado”. Aquela imagem das roupas e da cinza a cair, n’A guerra dos mundos, do Spielberg, e as longas metáforas dos dois Spike Lee, A última hora e O infiltrado.
- Principalmente aquele longo e impossível final de A última hora. Não a vingança, mas a regeneração. Como se a América ainda pudesse ser o território da prova e do renascimento.
- E pode, Luís. E é. Como qualquer outro lugar do mundo.

Os três caminhos

Isabel Cristina Rodrigues é uma vergiliana, e assim a conhecia e admirava (sim, professora doutora e isso tudo, mas olhem que a gente desta família restrita não se dá por essas coisas). Mas agora descobri a cronista notável e a escritora. Leia-se essa pequena saga cómica que é Continente on line, ou esse apontamento tão metafísico quanto empírico que é On road to nowhere, ou essa forma de pensar com ficção à mistura que é O silêncio da fotografia 1 (oxalá seja uma série). A Isabel mora n' Os três caminhos. Não há que enganar. Um beijo de boas-vindas, Isabel.

giungerà quando nol crede il cor

- Tu já viste as horas? Não é normal eu estar a dormir a estas horas. E porque demoraste tanto? És o meu anjo da guarda, devias ter vindo logo.
- Questão de fusos horários, Luís. Tirando situações absolutamente excepcionais, estas horas não te pertencem.
- Mas esta situação é excepcional. Por isso vieste, mas devias ter vindo mais cedo.
- Não, não é excepcional. E foi só isso que te vim dizer. Acorda e vai trabalhar. Faz como se tudo dependesse da tua vontade, mas espera como se nada dependesse de ti. O resto virá. Sem se fazer anunciar, imperceptível, totalmente gratuito. Mas tu saberás que é isso. Ou aprenderás a saber. Agora vai.
- Mas espera, espera um pouco. Haverá sinais? E se tiver de decidir, como saber se me estou a desviar do encontro que me estava marcado? E há um encontro marcado?
- Podes sempre fazer como o pensador, e sentares-te, de queixos na mão. Eu prefiro Nietzsche, pensava andando. Esse sabia o que era a dança. E a Graça.
- A Graça? Mas tu assististe Nietzsche?
- Sim, assisti muita gente. Mas não estou autorizado a falar disso. Apenas te falei do que é público nele: que pensava a andar. Giungerà. Agora vai. Eu, pelo menos, tenho de ir.
- Espera ainda.
- Giungerà, Luís. Giungerà. Ouve a Bartoli. E depois muda de disco, também convém. Giungerà, percebes? Giungerà...

Canuta brina, per mano ascosa

Rodin
- Sou um anjo pré Win Wenders. Acho que isto deve ficar claro entre nós.
- Não sei se percebo.
- Percebes, Luís, percebes. Mas eu explico, em todo o caso. Sou um anjo que conversa contigo, e apenas contigo, não sou um anjo que apenas recolha o que os humanos não ouvem um dos outros. Sou um anjo que interfere na tua vida, porque tu me procuras e me encontras. Sou um anjo que habita os teus sonhos e inexiste na vida diurna.
- E os outros, os que andam por entre os humanos acordados, são outra espécie?
- São a espécie do estado adulto. Eu sou da espécie do estado infantil, do desamparo que dizes que nada pode consolar.
- E podes consolar?
- Perguntas se há consolo? Há, há consolo. Uma mão secreta, não é o que diz o poema? Não a minha, que não tenho corpo. Não a tua, que não te é secreta.
- Uma mão secreta que me trará a velhice? Mas há algum segredo nisso? E é isso consolo?
- Sou o teu anjo, não um filósofo. O teu anjo da guarda. Guardo-te das perguntas. Não para que não as faças, mas que para que também possas descansar delas. Agora dorme. Sem sonhos.
- Espera, espera um pouco. É mão de mulher? É o amor que me fará envelhecer ou consentir? É ao contrário?
- Tonto. Acaso uma mão de humano é apenas humana? E mesmo que metas lá o divino, acaso alguma coisa se explica mais por isso? Não vês que simplesmente cresce o mistério? Mas eu disse-te que não era filósofo. Não consegues dormir? Põe aí a Bartoli, então. Quero ouvir outra vez, como os humanos fazem. O que pode um corpo, meu deus, o que pode um corpo...

Tu vai cercando il tuo dolor

Rodin

Eu disse ao anjo: nestas circunstâncias, conforme às minhas necessidades, a Bartoli. Sobretudo esse modo quente, terno, de dizer tu vai cercando il tuo dolor. Como duas mãos recolhendo a nossa face. Como desde sempre estarmos encostados a uma porta que finalmente se entreabre devagar.
O anjo quis ouvir. E disse depois uma coisa teológica: a dor é boa, porque te faz ter necessidade do amor. Eu disse que sim, com certeza. Mas pedi-lhe que ouvisse outra vez, como muitas vezes os humanos fazem.
O anjo ouviu outra vez.
O anjo disse: deve ser bom ter um corpo e sabê-lo usar.

Lascia la spina

Acredito no inconsciente como anjo-da-guarda. Ou como lugar onde se refaz a música que existe, vinda agora da longa travessia do sim e do não. Brincando devagar com os meus sonhos, compondo a sua gravidade, o anjo trouxe-me Lascia la spina. Ainda lhe perguntei: Bartoli ou Scholl? Ele disse que não conhecia nenhum desses castrati. Mas disse também que isso, quem canta, não tinha importância nenhuma para o caso, que a música se cantava a si mesma. Como o meu ouvido não é de anjo, pego nos dois para a viagem.

Lascia la spina cogli la rosa
tu vai cercando il tuo dolor.
Canuta brina per mano ascosa
giungerà quando nol crede il cor.

Handel, Il trionfo del Tempo e del Disinganno, versos de Bernadetto Pamphili

A Leitora, no seu infinito particular (XXVII)

Pedro Calapez

- Agora sim, dei conta. O tempo está ligado à mudança, mas não pela sua duração, apenas pela sua intensidade. Um minuto pode ser suficiente, uma vida inteira pode ser mera repetição. É muito diferente quando o sabemos a partir de nós.
- E diferente de cada vez que o sabemos.
- Vês essa moldura de branco em torno do quadro? É a ambivalência do lençol, Luís. Foi este o tempo que precisei para o saber.
- O lençol do prazer, o lençol do sudário?
- Sim, mas sem amour à mort.
- Já não é da tua geração, de facto.
- De facto, não. Mas a aceitação é. Ou devia ser. Achas lamechas?
- Não quando dito com a tua voz.
- Precisamos de falar longamente.
- Então é melhor desligar isto.


finalmente, e tal, um pouco de tempo para ler a blogosfera # 2

A memória entregue aos seus artefactos tecnológicos.
Um sabor novo.
Uma imagem.
Um grau de civilização.
E sim, claro, uma frase genial.

finalmente, passada a fase de cão existencial, um pouco de tempo para ler a blogosfera # 1

Para ler na íntegra, duas reacções à proposta de Saramago de um pacto de não agressão entre religiões e uma conclusão triste mas avisada quanto ao rescaldo do caso Idomeno.

Uma reacção política (Miguel Vale de Almeida):
"quando José Saramago propõe, do alto duma "autoridade" de intelectual público à século XX, um pacto de não agressão entre religiões (poderia ter dito "civilizações"), onde cabem no esquema dele as Koitas deste mundo? Em qual das "civilizações"? É evidente que o problema de Saramago é simétrico do problema de Huntington com o seu pueril "choque das civilizações". Ambos fazem um serviço aos Bush e bin Ladens deste mundo, verdadeiros arautos da ideia de "civilizações", suas fronteiras bem definidas e seu conflito até à vitória de uma das partes."

Uma reacção político-metafísica (João Paulo Sousa):
"defender que, sem religiões, «o mundo seria certamente mais pacífico», como Saramago fez recentemente, ou é ingenuidade ou outro tipo de fundamentalismo. O pretexto seria depressa substituído por outro, pois o que está em causa é a violência inerente ao ser humano, para a qual ele tem de encontrar uma justificação, uma aparência de sentido. E aí, como sabemos, também cabe o ateísmo."

Uma conclusão triste mas avisada (Luís M. Jorge):
"O caso fez-me recordar Maquiavel: não vale a pena evitarmos as guerras, porque elas chegam quer queiramos quer não."

gostar de Connecticut