Não estive na conferência da apresentação dos resultados do estudo da OCDE sobre o Ensino Superior Português. Mas falei com quem esteve. Deus entrou mudo e saiu calado. A OCDE apresentou. Houve perguntas e respostas elucidativas. O estudo recomenda um modelo laboral em que docentes e funcionários deixem de ser funcionários públicos e passem a ser funcionários das Universidades e Politécnicos. Modelo das fundações, dizem eles. Perguntou-se se isso era privatização. Disseram que não. Mas acrescentaram que isso tinha de ser resolvido dentro do contexto português. O estudo recomenda maior profissionalização da gestão das Universidades e Politécnicos. Perguntou-se se isso era apenas para as questões dos dinheiros, ou se esses gestores também decidiriam dos cursos e da organização científica. Disseram que isso tinha de ser resolvido dentro do contexto português. O estudo recomenda que os Politécnicos devem ser verdadeiramente politécnicos, formando rápido e em força para o mercado de trabalho. A bastonária da ordem dos enfermeiros perguntou se a enfermagem era universitária ou politécnica, até porque algumas Escolas de Enfermagem tinham sido integradas umas vezes no Politécnico, outras na Universidade, conforme a Instituição de Ensino Superior existente na zona. Responderam que esse e casos análogos teriam de ser resolvidos dentro do contexto português.
Deus entrou mudo e saiu calado. Mas dizem que estava contente. Nos pequenos círculos, Deus disse que as coisas estavam bem e ainda iam melhorar. E voltou a dizer que no próximo ano serão publicados todos os instrumentos necessários para a reorganização e remodelação do Ensino Superior. Haja saúde...
Sodoma e Gomorra, Cidades do Ensino Sperior: a conferência
Sodoma e Gomorra, cidades do Ensino Superior
Deus recebeu o relatório da OCDE. Sodoma e Gomorra eram iníquas. Quantos milhares sentados à manjedoura do vínculo definitivo ao funcionalismo público, produzindo nada, acrescentando a crise. Então Deus chamou os dois anjos da destruição e mandou-os aniquilar Sodoma e Gomorra. Um anjo perguntou: Senhor, e se houver dez justos em Sodoma e Gomorra, podemos poupar as cidades? Deus respondeu: Haverá até mais do que dez justos, mas esses nada terão a temer nas novas cidades que mandarei edificar em substituição destas. Interveio então o outro anjo: Mas, Senhor, se sabeis que há justos, porque não criais um sistema sério de avaliação para que se possa separar o trigo do joio? Para quê destruir as cidades que tanto vos custaram a edificar? E se houver novas cidades, a quem confiareis Vós o governo delas, para que não voltem a existir milhares sentados à manjedoura, já não do vínculo ao funcionalismo público, mas da obediência ao poder que vós determinardes? Ou quereis simplesmente afastar o cálice desta responsabilidade? Ou já não pensais que a Educação é um direito humano básico? Deus franziu o sobrolho, e não se sabia se era pensamento se contrariedade. Mas as manchetes dos jornais gritavam por sangue e os neo-liberais do costume também. Deus afastou-se e marcou uma conferência para o CCB. Ainda se O ouviu resmungar: Chatice, vou ter de fazer política. Os anjos seguiram-no à distância, esperando ordens.
Um Sábado fora do Centro Comercial
Mini-entrevista
Hoje estou nas mini-entrevistas do Miniscente. Assim a modos que é quase um serviço público — as entrevistas, claro...
Psicopatologia da vida quotidiana # 15
A dona da loja de lingerie mulher-homem: “Essa coisa dos ginásios é o chique de agora, doutor. Tenho clientes que me demoram a pagar eternidades, clientes que a bem dizer não têm onde cair mortas, mas chegam aqui e cada uma tem de mostrar que anda num ginásio melhor do que o da outra. E que têm treinador pessoal e um programa em não sei quantos passos para os músculos e os ossos e isso tudo. Ah, e muito importante: que o ginásio delas fornece a toalha e uma cabine privada para o duche. E não me pagam as contas. E estão cada vez mais stressadas. Com sua licença, doutor, só olham para os rabos e mamas umas das outras, a rivalizar. Olhe que tenho aí clientes homens que me dizem preto no branco que tanto se lhes dá que sejam grandes ou pequenos, o que lhes importa é que sejam boas companheiras e boas amigas. Mas elas não, olham umas para as outras como imaginam que os maridos delas também olham. Sabe, doutor? Os homens mudaram um bocado, mas a maioria das mulheres ainda não deu conta. E por isso estão a ficar piores.”
Epifanias # 55
Epifanias # 54
Psicopatologia da vida quotidiana # 14
— Mas de toda a discussão resultou esta grande vantagem: com um aperto de mão e dois beijinhos, posso cumprimentar o departamento inteiro. Não achas catita e supinamente académico?
— Um departamento com três pessoas?! E isso pode ser?!
— Mas quem falou em três pessoas? Nós cá no norte ainda cumprimentamos as senhoras com dois beijinhos, somos muito carentes.
Boa educação # 3
Abrir a porta para Sua Importância passar e resistir à tentação de ter uma súbita dor de pulso.
Dar a volta à coisa # 6
O coiro, eu dou-to. O cabelo, nem com restaurador Olex.
A Leitora, no seu infinito particular (XXXIII)
O André voltou, mas noutra casa.
O Rui Bebiano mudou de casa.
Fiquei a conhecer a casa do Lauro António.
E a casa do João Barrento.
E também esta residência à direita.
Agora é só o Luís arranjar uma maneira de meter isto nos links, mais os 5 dias e os três caminhos. Mas acho que não vai ser para já, que ele anda entre a epifania e o trabalho escravo. Parece.
A Leitora, no seu infinito particular (XXXII)
Magnífico Alain Badiou sobre o véu, num blog de referência. Mas digo magnífico e fico com um aperto na garganta. Porque não devia ser magnífico, devia ser simplesmente um pensamento decente, como dizia Wittgenstein, partilhado por uma esmagadora maioria de pessoas que procuram ser decentes. Mas não é. E por isso é magnífico. Magnífico quer dizer combate pela decência. Convém não esquecer estas coisas elementares para o século XXI.
A Leitora, no seu infinito particular (XXXI)
O que me fascina nesta fotografia não é o seu lado aparentemente cómico. Afinal, para quem desagua de repente em África ou na China, a primeira impressão é a de que muitos rostos são fotocópias uns dos outros, essa incomodidade de sabermos em sede teórica que eles são diferentes mas não termos ainda o olhar ajustado para percebermos essas diferenças dentro de uma matriz que não é a nossa. O que me fascina nesta fotografia é imaginar a cena doméstica das memórias de viagem: a fotografia mostrada aos familiares, e cada um reconhecer naturalmente a identidade das mulheres, como se o véu fosse o rosto. Não, digo mal. Não é como se o véu fosse o rosto, que obviamente não é, é a oclusão do rosto. É como se o rosto estivesse deslocado do seu lugar, como se o rosto fosse o corpo no seu conjunto: o seu movimento, o seu ar, a sua maneira de ser. Um rosto nu talvez concentre toda a significação do corpo; um rosto tapado talvez disperse essa significação por cada uma das partes do corpo. Mas a significação não se perde. E por isso é reconhecível, identificável.
Errata
Onde se lê: "A absoluta necessidade de vida depois de a desperdiçarmos na vidinha, ou enfim lendo", deve ler-se: "A absoluta necessidade de vida depois de termos sido obrigados a desperdiçá-la na vidinha, ou enfim lendo".
Psicopatologia da vida quotidiana # 13
Há a luta de classes. E há a compreensão das classes. Por exemplo, quando em vez de telefonarem, mandam um Kolmi.
A absoluta necessidade de vida depois de a desperdiçarmos na vidinha, ou enfim lendo
"Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Passos de parágrafos meus há que arrefecem de pavor, tão nitidamente gente eu os sinto, tão recortados de encontro aos muros do meu quarto, na noite, na sombra... Tenho escrito frases cujo som, lidas alto ou baixo — é impossível ocultar-lhes o som — é absolutamente o de uma coisa que ganhou exterioridade absoluta e alma inteiramente."
Epifanias # 53 [post scriptum a uma história simples]
Epifanias # 52 [post scriptum à história mais triste]
Ela não era aquilo. Não era só aquilo. Mas também era aquilo. Ele só viu o kitsch. Mesmo quando ela acabou de tocar, não foi capaz de vê-la. Não a reconheceu. Na verdade, não poderia reconhecê-la. Porque ele queria aquilo. Mas era demasiado inteligente, e sabia que aquilo só existe enquanto imagem. Mas nunca levantou a imagem para ver a carne que havia por baixo. E havia.
Epifanias # 51 [uma história simples]
Epifanias # 50 [a história mais triste]
Quando for grande quero ser um verdadeiro politécnico (e calma, que tão cedo não volto a tocar no assunto...)
É um simples exercício de faz-de-conta, claro. Mas o que Miguel Vale de Almeida faria ao Ensino Superior, se mandasse, contém alguns dos paradoxos com que esse mesmo ensino, entre nós, se tem deparado. Isso não me impede de concordar com 1, 2, 3, 5, 6 e 9. Os outros levantam-me dúvidas várias.
Por exemplo, o ponto 4: “Transformava os politécnicos em verdadeiros... politécnicos”. Óptimo. Assim dito, até parece que os politécnicos têm uma essência e que em Portugal se desviaram dela. Mas a gente olha para França e eles são uma coisa, espreita a Finlândia e são outra, e lembra-se da Inglaterra (onde há pouco deixaram de existir) e são outra ainda. Por cá, têm-se tentando estabelecer diferenças na legislação e é aquele nominalismo bacoco que se sabe. E na prática, anda tudo à mistura.
O que é mais curioso é que nem as universidades, nem os politécnicos, nem os ministros querem acabar com a distinção. Só que a entendem cada um à sua maneira, que aliás raramente explicam qual seja, mas percebe-se que têm de ser diferentes porque todos dizem — outra curiosidade... — que o politécnico deve ser transformado em verdadeiro politécnico, mas as consequências que daí extraem são diametralmente opostas.
As universidades clamam que os politécnicos se devem manter como verdadeiros politécnicos, e contudo não me lembro de ver qualquer documento do CRUP que diga quais são os cursos estritamente politécnicos, o que li é que todos os cursos podem ser dados pelas universidades, e alguns desses também pelos politécnicos. Mas os politécnicos fazem praticamente a mesma coisa, dizem que todos os cursos profissionalizantes deviam ser politécnicos, aí incluindo medicina e arquitectura, por exemplo, e que isso só não é aceite porque entre nós o politécnico nasceu como ensino de segunda, destinado a desenvolver o interior. O ministério e assembleia da república produzem legislação cheia de distingos subtis, mas preto-no-branco ninguém diz o que pode fazer um e fazer o outro. Parece que anda tudo preocupado com descobrir a essência da coisa, da uma e da outra, o que só pode ter como consequência uma discussão mais longa do que a do sexo dos anjos. Será demais pedir uma decisão política (e por isso performativa)? Qualquer coisa simples que diga: precisamos (ou não) dos dois sub-sistemas, porque queremos que um faça isto e outro aquilo. É assim tão complicado?
O paradoxo dos concursos docentes do Ensino Superior
A crítica aos concursos docentes do Ensino Superior é conhecida: endogamia. Os candidatos da casa ganham o concurso, o júri, maioritariamente da casa, não é isento porque os favorece, e esse favorecimento continua e perpetua linhas de poder em que todos estão ligados por uma "dívida infinita”. A mobilidade docente entre universidades é praticamente impossível, como é praticamente impossível alguém de fora do “sistema” entrar no “sistema” a não ser pela base.
Factualmente, é incontestável que é esta a situação. E também me parece incontestável que ela é responsável, mais no passado do que agora, por um certo espírito de clã, que teve tanto de promoção de alguma mediocridade quanto de delimitação de uma casta. O paradoxo, é que me parece que vai haver condições para concursos rigorosamente independentes num momento em que eles já não respondem às necessidades do Ensino Superior tal como parece que elas hoje se colocam.
Quando o professor universitário era considerado uma ilha, fazendo um trabalho de investigação muito individualizado, sem ligação com os seus colegas e muito menos com quaisquer desígnios de política científica da sua instituição, teria lógica a independência dos concursos: tratava-se simplesmente de escolher uma pessoa singular para acrescentar a uma instituição que vivia da soma de pessoas singulares.
Vivemos hoje numa situação de facto completamente diferente. A palavra de ordem é que a investigação se deve articular em equipas e constituir-se segundo grandes opções estratégicas da instituição, já que não se pode fazer tudo em todas as frentes. A palavra de ordem é que este investimento estratégico é fundamental para assegurar a competitividade em várias frentes: luta pelas verbas para a ciência, luta pela venda de serviços à comunidade, luta pela atracção de alunos e suas propinas. Se a universidade não se torna empresa do conhecimento tout court, para lá caminha.
Digam-me então qual é a empresa que forma os seus quadros, os põe a trabalhar em equipa, desenvolve projectos que dependem do seu know how mas também do seu relacionamento inter-pessoal, e quando quer promovê-los faz um concurso público?
É legítimo pedir a uma instituição que crie equipas, que obrigue os elementos dessas equipas a reunir condições para progredirem na carreira, e depois, regularmente, seja obrigada a colocar lugares-chave dessa equipa a concurso público, e deixando que essa decisão caiba a elementos estranhos à instituição (uma das ideias mais difundidas para assegurar a futura imparcialidade dos concursos é a de que o júri não deve ter nenhum elemento da instituição na qual é aberto concurso)?
Será que uma instituição tem de aceitar obrigatoriamente um docente exterior, com curriculum mais relevante em termos absolutos, mas sobre cuja capacidade de relacionamento com a equipa já constituída nada se sabe, quando existe um candidato interno que tem provas dadas em todos os itens, ainda que o seu curriculum, em termos absolutos, possa ser ligeiramente inferior? E se o candidato exterior até tiver um curriculum científico excepcional e for conhecido pelo seu não menos excepcional carácter difícil, autoritário, qualquer coisa assim que a instituição não esteja mesmo nada interessada em cultivar?
Dir-me-ão que o Ensino Superior é funcionalismo público, e que isso, em termos de concursos de docentes, exige imparcialidade, critérios objectivos, etc etc. De acordo. Mas então é melhor que se tente que sobre o Ensino Superior não impendam discursos de double bind. Que para umas coisas se lhe exija lógica empresarial e para outras lógica de serviço público. Que por um lado se lhe peça competitividade de todos contra todos e por outro se lhe retirem os instrumentos para organizar as estruturas com que se há-de apetrechar para essa competição. O que me parece estranho é que à esquerda se não tenha consciência deste double bind, e se reivindique ao mesmo tempo concursos independentes, maior autonomia das instituições para as suas escolhas, profissionalização da gestão das universidades e possibilidade até de escolherem os seus alunos. Tudo isto, excepto o último ponto, que não foi objecto de debate, ouvimos a Mariano Gago e a António Nóvoa, no último prós e contras. Tudo isto, e também o último ponto, podemos ler neste post de Miguel Vale de Almeida. Que a questão esteja neste estado só mostra, do meu ponto de vista, quão longe estamos de ter ideias claras e consequentes para o Ensino Superior — quaisquer que elas sejam, bem entendido.
Epifanias # 49 [adiar]
Não foi deliberado, não me lembro de ter tomado nenhuma decisão quanto a isso, mas aconteceu. Um dia deixei de ler António Ramos Rosa. Depois de intensamente o ter seguido. Um certo cansaço da sua “ontologia”. Um certo cansaço de mim na órbita dessa “ontologia”. Chega-me agora o livro multiplamente premiado. Sim, por mão amiga. Um dia destes irei abri-lo, ler aqui e ali. Primeiro, para saber de mim — mas neste momento não me apetece muito saber isso de mim. Depois — depois se verá.
Epifanias # 48 [segundo post-scriptum]
Epifanias # 47 [post scriptum]
Epifanias # 46 [longe daqui, mas com a mesma chuva]
Os trabalhos e os dias (17)
Acabar de ler. Preparar as perguntas. Em vez do violoncelo a chuva. Pesar as perguntas: fazem justiça ao esforço de pensamento do que li? Que pode ter sido pouco ou muito, não é isso que está em causa, mas apenas: fazem-lhe justiça? Acompanham até onde podem o caminho daquilo que o outro pensou? Dizer bem ou mal ou assim-assim numa arguição é no fundo fácil. E pode-se fazer dentro de uma certa impunidade: a gente diz alhos, o outro bugalhos. Ou vice-versa. No fim, somos nós quem dá a nota. Sem apelo. Mas houve pensamento? Encontro de pensamentos, lucidez do encontro ou da distância? Em vez do violoncelo a chuva. E por momentos as Goldberg soaram num recanto de mim. Mas era só a chuva.
Epifanias # 45 [ainda não é bem isto]
Psicopatologia da vida quotidiana # 12
O Natal está quase a chegar. O prazo de validade dos yogurtes que comprei já é 23 de Dezembro.
Psicopatologia da vida quotidiana # 11
- Queria marcar a revisão do carro.
- Matrícula?
- Não sei de cor, veja pelo nome, se faz favor.
- Mas a matrícula é para saber de cor... Se houver dois carros iguais, como é que faz para saber qual é o seu? Espreita lá para dentro?..
- Basta carregar no comando à distancia, o que abrir é o meu.
Boa educação # 2 [na loja dos produtos naturais]
- Tomou nota do pão integral com arroz?
- Tá aqui, 800g, não é?
- Isso mesmo. Olhe, já agora vamos introduzir uma inovação na parte das gulodices. Corte a tarte de cenoura, passa a vir o bolo inglês.
- A sua mulher sabe disto? É que ela é viciada em tarte de cenoura...
- Sabe, a tarte cansou... Pode ser que daqui a uns meses a gente troque outra vez.
- Se é assim...
- Mas estava a defender-me a mim da possível fúria da minha mulher ou estava a defender a minha mulher das minhas...
- [interrompendo] Estava a defender a harmonia do casal!
- Uau, você é rápida. Tão novinha e já tão sensata.
- Isto é mais boa educação.
- Conceito alto de boa educação, estou a ver...
- É, o meu namorado é bastante alto, mas quando se trata de boa educação, ou estamos todos à mesma altura ou só se pode descer.
Epifanias # 44
Agora ouve. E trabalha. Está tudo por fazer. Sempre tudo por fazer. Outros dirão que se está sempre a meio de qualquer coisa, ou até talvez já um pouco perto do fim. Às vezes tu próprio dizes isso. Sim, muitas vezes tu próprio dizes isso. E não deixa de ser verdade. Mas quando se ouve mais fundo, sabemos que está tudo por fazer.
Epifanias # 43 [prece pelos nossos legítimos inferiores]
Senhor, especialmente a eles, dá-lhes a inteligência de nos entenderem, para que nos possam atacar pelo que somos. E se não for pedir muito, dá-lhes também a inteligência de conseguirem dizer o que pretendem, ou de o conseguirem mascarar tão perfeitamente que se entenda que de facto parece que pretendem qualquer coisa.
Epifanias # 42 [prece geral]
Senhor, já que nos destes o litígio, dá-nos também a inteligência do litigante.
Dar a volta à coisa # 5
Espirra já os canivetes, preciso aqui deles.
Asfixia em pequenas notas
Eduardo Pitta responde longa e criteriosamente ao meu post. Algumas anotações em continuação de uma conversa que vale a pena.
1. Pergunta Eduardo Pitta: o desagrado geral perante Bolonha virá do desnorte legislativo que ilustra o nonsense burocrático? Penso que a causa próxima será essa. Agravada por uma sucessão de governos (da queda de Guterres até agora) que manteve interminavelmente a questão em agenda, não permitindo avançar nem resolver. E coincidindo com os anos mais gravosos do Ensino Superior pós 74, combinação explosiva de crise económica aguda e falta de alunos. Alguém se lembra de ouvir falar de desemprego no Ensino Superior a não ser nos últimos dois a três anos? Bolonha transformou-se no bode expiatório perfeito desta crise. Até porque finalmente se foi percebendo que Bolonha, podendo ser uma mudança de paradigma científico-pedagógico (oh, estas eloquências...), era antes de mais uma necessidade de acerto de política educativa dentro da União Europeia para fazer face a outros competidores (Estados Unidos à cabeça, claro). E para isso, que é decisivo, não era preciso tanta parafernália, nem que ela fosse servida com tanto desnorte legislativo.
2. Afirma Eduardo Pitta: “Quanto ao previsível abandono, por parte de muitos, logo no fim do 1º ciclo, julgo não ser diferente do que acontece já, em que muitíssimos abandonam no durante”. No seu valor facial, de acordo. Mas se me permite, isto vai introduzir uma falácia que iremos pagar caro, basta esperar alguns anos. É que os que abandonam agora não levam qualquer diploma, e tão importante quanto isso (crua verdade...) não levam qualquer auto-representação de si mesmos como pertencendo ao leque dos licenciados ou formados. Os que acabarem o 1º ciclo de estudos serão licenciados. Entre estes licenciados e os licenciados de hoje, a sobreposição do nome apagará toda a diferença. E nenhum discurso político se faz ouvir a dizer que a licenciatura, para a competitividade que aí vem (que já aí está...), não basta. Mas mesmo que esse discurso se fizesse ouvir, o nominalismo que se vai instalar teria uma larga margem de triunfo. Bacharel seria a designação certa para esse 1º ciclo, porque diminuiria sem subterfúgio esse propedêutico alargado. Pior que inculto, só um inculto que é levado a pensar que é culto.
3. Descrença na sociedade civil, porque não acredito que, mesmo por vaidade, todos os nomes que referiu sejam motiváveis para abrir os cordões à bolsa tendo como destinatários as universidades? Bem pode dizê-lo. Entre nós, há muito que a Universidade não é distintivo para ninguém. A gente diz o Senhor Reitor, e o povo pensa nos liceus de antigamente, todos presididos por Salazares com pingalim. A gente diz Ensino Superior, e encontra placas de freguesia que gritam que aqui há universidade ou politécnico. Vivemos todos numa América mental, é certo, mas nem todos os símbolos são transponíveis. Os nossos “forbes” é mais artes & música, e já não é mau. Generosos contribuintes líquidos para Ensino Superior só conheço algumas câmaras. E pequenas, está a ver?
4. Claro que lhe faço essa justiça. Já lhe fazia no post, dizendo expressamente que aquilo não era consigo. É daquelas generalidades que ultimamente atingem o funcionalismo público, e que depois alguns esmiúçam aplicadamente a cada corpo profissional em particular. Note que eu até não me importava de ser um desses gajos do superior que não fazem um caracol: o que eu queria ser mesmo quando fosse grande, era ser posto na prateleira, receber o meu ao fim do mês, e ler e escrever o que me apetecesse. Até daria umas aulas de graça, só pelo gozo de partilhar o pensamento e aprender pensando. Utopias, já se vê... Bom, agora vou dar uma aula. Das nocturnas, como o Ministro gosta. E eu também.
Ensino Superior, prós e contras
1. Resumo político: Mariano Gago “pediu” mais um ano para as mexidas necessárias no Ensino Superior quanto à definição da rede, lei da autonomia e estatuto da carreira docente. Agora que os estudos vão ficar prontos, será a fase de extrair as consequências políticas. Seja. Não se pode acusá-lo de incoerência nem de não aplicar às suas decisões os passos metodológicos que exige para todo o conhecimento científico. A ver.
2. À atenção dos nossos liberais: aquela cena dos gráficos do eurostat. Com o Ensino Superior, Portugal gasta umas centésimas mais do seu PIB do que a Espanha. Mas como o PIB português é o que se sabe, o resultado bruto é que a Espanha gasta, por cada aluno no Ensino Superior, o dobro do que gasta Portugal. Na hora da prestação de contas, alguém se devia lembrar disto: que se fazem omeletas com menos ovos, isso é verdade, mas não se pode exigir que saibam exactamente como as outras. E na hora de falar da captação das verbas, idem aspas: se o PIB é o que é, onde é que se vai captar o quê? Para já não falar que o PIB é uma média, e que portanto há instituições de ensino superior em regiões que estão muito abaixo da média, e que há cursos que, pela sua natureza, pouco têm a vender à comunidade.
3. O double-bind das palavras mágicas. Competitividade, empreendedorismo, captação de verbas. Quer dizer, universidades contra universidades, numa luta leal etc etc. Sobredimensionação da rede, necessidade de clusterização, especialização. Quer dizer, universidades a negociar com universidades quem fica com o quê, quem vai até onde, e quem nem fica nem vai. Ser jogador e árbitro ao mesmo tempo parece-me um bocado complicado. Até porque há um governo eleito, não há?
4. Representações simbólicas. Na terminologia “da Fátima”, os Senhores Reitores estavam todos na primeira fila. E o Senhor Presidente do CRUP e o Senhor Reitor Sampaio da Nóvoa, na mesa. E os estudantes, todos representantes das Universidades. Depois havia um representante do Ensino Superior Privado, alguns Reitores privados e ainda o Senhor Presidente do CCISP, que “a Fátima” introduziu como equivalente ao Senhor Presidente do CRUP — vê-se logo a equivalência, claro... Mariano Gago disse que uma das perguntas a que o relatório da OCDE devia responder era se estava claro o papel dos dois subsistemas. Socialmente, está mais que claro: o Politécnico é, e entre nós não se vê como alguma vez deixará de ser, um liceu avançado. Não era melhor acabar com isso e passar tudo para as universidades? Há alguma coisa que as Universidades não façam já ou não possam vir a fazer em rigorosa e lógica extensão daquilo que já fazem? O primeiro ciclo de formação não resolve agora aquilo para que os Politécnicos alegadamente foram criados?
Preparando os prós e contras sobre o ensino superior ou asfixiamos porque queremos, diz o Eduardo Pitta
Eduardo Pitta vê de fora, como muito bem diz, e isso, aos que estamos dentro, deve fazer-nos pensar. Porque Eduardo Pitta não é um qualquer, e se vê como vê, o mais certo é que olhos menos cultos ainda vejam pior.
Um: Eduardo Pitta fica perplexo pelo atrabile contra Bolonha. Culpa nossa, que não nos explicamos.
Primeiro, eu não conheço ninguém no ensino superior que seja contra o Processo de Bolonha. Não conheço toda a gente do superior, claro, mas conheço muita gente e acho que li quase tudo das posições e pareceres que a coisa suscitou. O que conheço é muita gente, entre os quais me incluo, que se insurgiu contra duas coisas:
1. [uma boa parte desta muita gente, mas não toda, verdade se diga, contra] Que Bolonha tenha sido aproveitado para reduzir drasticamente a já de si fraca presença das ciências sociais e humanas na formação geral do ensino superior, afastando com isso instrumentos de crítica social e grelhas de leitura problematizantes;
2. O modo como a “implementação” do processo de Bolonha (não) foi sendo feita. Um após outro, os estudos conducentes, em cada especialidade, à redefinição das regras, foram sendo atirados para o caixote do lixo. Novo ministro, nova ronda. Dois exemplos simples e comezinhos: A) o Decreto-Lei nº 74/2006, de 24 de Março, fixou o regime jurídico dos “Graus académicos e diplomas do ensino superior”, e as normas técnicas para a adequação de cursos ou criação de cursos novos foram fixadas em 31 de Março; o prazo para apresentação das propostas de novos cursos ou adequação de cursos conformes ao Decreto Lei e às suas norma técnicas que quisessem funcionar no ano lectivo 2006-2007 era... 31 de Março. B) O mesmo Decreto-Lei previa que até 15 de Novembro corrente terminassem os processos de adequação dos cursos a Bolonha. Mas como o Ministério da Educação se atrasou a apresentar os requisitos de habilitação para a docência, esse prazo, para os cursos de formação de professores, foi alargado para 31 de Janeiro de 2007. Resta saber quando é que o anteprojecto de Decreto-Lei, lançado para discussão pública no início de Novembro, se transforma efectivamente em Decreto-Lei, e quanto tempo restará então às instituições para fazerem o processo de adequação. Isto depois de duas comissões, uma antes da Ministra Maria da Graça [suponho que era este o nome, ele há figuras que a gente nem se dá ao trabalho de fixar...], outra durante o seu mandato, terem feito o trabalho “todo”. Obviamente, nada disto é muito sério.
Segundo, Eduardo Pitta pensa, e não está sozinho nisto, tem até a companhia de alguns que estão dentro do superior, que Bolonha reduz a duração das formações. Errado. Divide em ciclos, que é coisa diferente. Mas que tem consequências. Uma, é que em alguns casos o segundo ciclo de formação deixará de ser financiado pelo Estado. Outra, é que muitos abandonarão o superior terminado o 1º ciclo de formação. Eduardo Pitta, que continua a não estar sozinho nisto, acha que para caixa de supermercado ou funcionário de autarquia, isto chega. Quanto aos caixas de supermercado, o melhor é perguntarem ao Belmiro de Azevedo, se chega ou não. Quanto a funcionário de autarquia ou qualquer coisa pública similar, acho que temos para aí uns estudos que dizem que, entre outras coisas, uma das causas da ineficiência dos serviços públicos é a baixa formação dos seus funcionários.
Dois: o financiamento. Diz Eduardo Pitta que, ao que sabe, nenhuma universidade encosta as propinas ao tecto permitido. Eu também não sei, não andei a ver. Mas sei que a maioria dos politécnicos cobra o máximo que a lei permite, isso sei. E sei que isso não resolve o problema financeiro das instituições. Nem sequer discuto agora a bondade da lei, sei simplesmente que isso não resolve.
Mas o mais tipicamente liberal na posição de Eduardo Pitta, digamos assim, é mandar as universidades ver como se faz lá fora. Eu até vou dar de barato que o que se faz lá fora (e este lá fora é basicamente os Estados Unidos) é bom e acertado [que do meu ponto de vista não é, mas vou fazer de conta que sim]. Eu só queria que me dissessem onde é que cá dentro estão os milionários ou os quase-milionários ou as grandes empresas que podem ou fazer o mecenato ou comprar a quantidade de serviços às universidades que as possa sustentar. É arranjarem aí a lista que há muito Reitor que está farto de andar atrás disso como de agulha em palheiro.
De raspão, Eduardo Pitta diz que ouviu dizer que a Universidade do Minho é um bom exemplo de venda de serviços à comunidade. Pois... No longo reinado de Machado dos Santos, verdadeiramente o primeiro gestor das universidades públicas, venderam-se serviços, sem dúvida, angariaram-se projectos, sem dúvida, mas sobretudo proletarizou-se a docência [mais horas por menos docentes]. Financeiramente, os resultados foram bons: quando o Orçamento de Estado mal dá para os salários e se consegue poupar nos salários, há sempre uma folga. A investigação, coitada, é que lá se ressentiu um bocado. E a angariação de projectos lá começou a claudicar por causa disso. E a prestação de serviços começou a ter a concorrência de algumas unidades de Aveiro e do Porto, que se desenvolveram um pouco mais (a investigação sempre serve para alguma coisa, não é?..) e começaram a oferecer melhor produto ao mesmo preço. De modo que na campanha para o último mandato, já lá vão uns anitos, o gestor lá reconheceu que, “arrumada a casa”, era tempo de apostar mais decididamente na investigação e na excelência científica... Pescadinha de rabo na boca: a aposta custa dinheiro, mas só com essa aposta se pode ir buscar dinheiro, e nem sempre as coisas se equilibram.
Se me disserem que há instituições a mais, etc e tal, aí a conversa já é diferente. Pelo menos para mim. Redefinir a rede pública, eis a urgência. E a coisa política por excelência. Porque conheço muito pouca gente (e então a nível de reitores ou reitoráveis quase ninguém, e a nível de presidentes ou presidenciáveis do politécnico rigorosamente ninguém) que não ache a sua instituição absolutamente indispensável e a do vizinho nem tanto, para não dizer nada. Mas também, em boa verdade, não lhes cabe propriamente fazer esse trabalho. Se o Estado regula, que regule. Porque o problema da asfixia das universidades só em termos imediatos é das universidades. A não ser que se pense que essa conversa da sociedade do conhecimento é só conversa e que não há uma relação directa entre conhecimento e desenvolvimento [claro que isto já não é para o Eduardo Pitta mas para aqueles que se agarrarão ao seu post como taxistas: esses gajos do superior que não fazem um caracol etc etc e até se dão ao luxo de ter um blog etc etc].
A Leitora, no seu infinito particular (XXX)
É esse o curso da natureza, dizem. Um a um partirão. Os que estavam cá quando cheguei. Os que fizeram disto a casa que habitei. Um a um partirão, já partiram. Os que me chamaram até às fronteiras onde foram. Os que legaram tudo, e tudo deixaram ainda para ser descoberto. Como uma dádiva, uma tarefa, um encolher de ombros. É também esse o curso da natureza, dizem. Talvez. Por isso outros chegam — tão novos. Deveria ser a mesma coisa, mas não é. Visto de fora, será. E compreendo muito bem que seja. Só pode ser, está certo que seja, ainda bem que é. Mas não para mim, não para quem já chegou e começa a perceber um pouco melhor o lugar nenhum por onde partirá. Mas esse é também o curso da natureza, dizem ainda. E só podem estar certos, eu sei que só podem estar certos. Eu sei. Estão certos. Mas curioso como o desajuste nunca se acerta. Nunca. Tão curioso. Nunca. Quase nunca. Não importa.
A Leitora, no seu infinito particular (XXIX)
Depois de infinitamente rodar no carro e em casa e no jogging. Depois de já me ter esquecido dele, mas só um pouco, contudo o suficiente. Depois de muitos dias e muitas noites e outra vez dias. Ressurge de súbito no carro, exactamente no momento em que o relâmpago atingiu a árvore, o carro da frente guinou para a outra faixa e eu me encostei à berma, bem ao lado da cicatriz negra e fumegante, respirando fundo pelo milagre de ninguém vir em sentido contrário nem atrás de mim, ouvindo fundo o carro da frente que voltou à sua faixa quase sem abrandar, como se tudo tivesse sido normal, normal eu também e o carro lento seguindo viagem, apenas a cicatriz negra da árvore e a música, a música e aquele homem atravessando a estrada no retrovisor, nítido ampliado, o carro deslizando curva lenta à direita e o chapéu com a sua sombra sobre o rosto, retiro os olhos do retrovisor para que o homem passe, mas como? como?, não importa, olhar em frente, há-de vir um outro relâmpago, não te assustes, estás perto, o fim de tarde e a música, estás perto.
Cesariny # 6
“Olha, tenho saudades de voar! Ah isso tenho, porque eu, não sei desde quando, mas quase desde miúdo, até aí aos cinquenta anos, eu todas as noites já adormecia a sorrir de gozo, porque eu sonhava SEMPRE que voava, e era uma coisa tão boa, tão boa, tão boa, uuuiiiii! E depois não tinha... quer dizer, não havia... paisagem, era o espaço puro, não se via nada. Depois aos sessenta anos, nunca mais sonhei. (ri) Os freudianos acho que ligam isto também à coisa sexual. Mas eles dizem muita coisa...”
Mário Cesariny de Vasconcelos, Verso de autografia
Cesariny # 5
“E eu estou para aqui, mas eu sou um fantasma, sabes? Já sou um fantasma de mim mesmo, julgas que eu leio os meus poemas? Nunca! Li agora um ou dois. Passou! Passou... Quer dizer, está cá dentro! Não sei se é no fígado, não sei se é no baço, não sei se é... faz favor de perguntar outra coisa.”
“A morte: o Lima de Freitas um dia explicou-me como é. É assim: "Vossa Senhoria é um rio, você vai por ali abaixo todo contente. Depois vai dar ao mar. Está lá no mar, mas já não é um rio. Está lá.»
Então para que é que isto serve? Não sei, serve para foder que é muito agradável e dá muito gozo. Serve para amar... e serve para morrer. Pronto!”
Mário Cesariny de Vasconcelos, Verso de autografia
Cesariny # 4
Cesariny # 3
Todos por Um
A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza
Santos
Mártires
e Heróis
Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.
Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de
recorrer à vala comum
Cesariny # 2
A um rato morto encontrado num parque
Este findou aqui sua vasta carreira
de rato vivo e escuro ante as constelações
a sua pequena medida não humilha
senão aqueles que tudo querem imenso
e só sabem pensar em termos de homem ou árvore
pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)
o milagre das patas - tão junto ao focinho! -
que afinal estavam justas, servindo muito bem
para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar
atrás de repente, quando necessário
Está pois tudo certo, ó "Deus dos cemitérios pequenos"?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo - com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa - e aos médicos -
ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos - vítima e carrasco
Não tinha amigos? Enganava os pais?
Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido
e agora parado, aquoso, cheira mal.
Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?
Como acabar com um corpo corajoso e humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?
Durante muitos anos, quis fazer um raccord com Kafka a partir deste poema. Depois deixei-me disso. Acho que simplesmente percebi que o raccord era mesmo comigo. E dizem para aí (alguns…) que a poesia não ensina nada.
Cesariny # 1
Era no tempo em que os poetas não odiavam outros poetas, só alguns, que eram ódios de estimação, por assim dizer, e por isso não eram propriamente ódios. Tal como hoje, aliás, que nestas coisas tudo muda muito pouco.
Cesaryni fez a sua linhagem, como todos os autores (uns melhor, outros nem por isso — aliás como hoje, etc e tal).
Um momento da linhagem foi a exposição Três Poetas do Surrealismo, em homenagem a António Maria Lisboa, Pedro Oom e Mário Henrique Leiria. Ele tinha muitos originais, não sei se dá para entender a responsabilidade que isso traz. E Cesaryni foi muito responsável. E de certeza que me dava uma bofetada se eu dissesse isto ao pé dele. Mas eu nunca estive ao pé dele, e se estivesse lá levaria a bofetada e depois fazia de Derrida, quanto ao legado, e quanto à bofetada. Adiante. O original acima é do Pedro Oom. É muito actual, não é?.. E cá para mim ainda tem um grande potencial de actualidade para desenvolver.
Mário Cesariny de Vasconcelos, 1923-2006
O Poder das Narrativas / As Narrativas do Poder # 5
Para a conversa com Lídia Jorge e José Eduardo Agualusa, o anfiteatro quase encheu. Sobretudo estudantes. Não fizeram perguntas — quando me pareceu que estavam a ficar desinibidos, o tempo esgotou-se — mas ouviram atentos. Não houve saídas a meio nem bocejos incontroláveis. Claro que a presença em pessoa dos autores faz parte do star system, etc e tal. Mas é também uma terapia importante de dessacralização da literatura e dos autores. Ou melhor dito — porque isto de sacralizar tem muitas voltas, que vão do Saramago ao Figo —, é uma terapia importante de desclassicização da literatura (ok, o termo é complicado, depois penso noutro). Trazê-la do pedestal onde por vezes se imagina (e onde esteve no século XIX e princípios do século XX como arte dominante) para a companhia terrestre das outras artes, desde a música pop ao cinema. Quem escreve é de carne e osso. E mais vale que quem é de carne e osso se mostre, dando a ver a distância a que fica do papel. Em todas as artes, quem é bom, é só isso que faz quando vem a público como pessoa: mostrar a distância a que fica da arte que lhe calhou em sorte. O público agradece e predispõe-se a percorrer essa distância: se o autor sobreviveu, está bem e recomenda-se, porque não experimentar um pouco daquilo?
O Poder das Narrativas / As Narrativas do Poder # 4
“-Moderaste muito bem. Fizeste duas perguntas para arrancar e deixaste correr o marfim. Apagaste-te. É como se não estivesses ali. É uma grande arte, passar despercebido.
- Obrigado, mas eu sou mesmo assim. Inexisto.”
(conversa com congressista devidamente identificada)
O Poder das Narrativas / As Narrativas do Poder # 3
“Às vezes os livros tornam realidade a ficção que lá vem. Depois de O vendedor de passados, recebi realmente propostas de gente que queria que eu lhes escrevesse um passado. E eram propostas muito tentadoras, do ponto de vista financeiro.” (José Eduardo Agualusa)
“Eu só queria que se dissesse de mim que tinha conseguido criar uma figura. Criar uma figura que já existe na realidade é fácil. Criar uma figura que pudesse existir na realidade, mas que ainda não existe, isso é a glória de um romancista.” (Lídia Jorge)
O Poder das Narrativas / As Narrativas do Poder # 2
“Ao menos os académicos, os filósofos, deviam-se abster de considerar Paulo Coelho um pensador.” (Lídia Jorge)
“Paulo Coelho entrou na Academia Brasileira, mas a Academia Brasileira nunca foi uma Academia de Literatura, se é que alguma vez foi uma Academia do que quer que seja.” (José Eduardo Agualusa)
O Poder das Narrativas / As Narrativas do Poder # 1
“Há uma suspeita generalizada contra a metáfora. Há uma enorme impaciência contra aquilo que não é directo e imediatamente inteligível.” (Lídia Jorge)
“Hoje lê-se muito, muito mais do que há quarenta anos atrás. Incomparavelmente mais. É verdade que se lê muito mal, mas sempre se leu muito mal. Mas também há gente que lê muito bem. E esses são mais do que eram há quarenta anos atrás.” (José Eduardo Agualusa)
Reencaminhar de mail, até porque não era para mim (suponho...)
Hello!
I am Julia. I am very kind, modest cheerful, merry and sociable. I like
communicate with interesting and cheerful people. I am very romantic
person. I am optimist and I always can find good sides in any situation.
I like kind, sincere and reliable people. I value friendship, and when
my friends in need, I always come to help them.
I would like to know you. What is your life foundations?
I like dance and sing very much, I found of this for many years. I love
to spend time in open air and walking under the stars. I like nature and
animals so much. And I adore to have fun time with my friends, but
sometimes, I want to be alone. I like sport and moving so much and I
cant to be in one places for a long time. Do you like sport?
I have some questions for you if you want to get to know me closer:
1/ Are you interested in serious relations with Russian woman?
2/ Are you planning to visit Russia?
3/ Would you like to correspond or to talk by phone?
4/ Why are you interested in Russian lady?
5/ Have you ever been to Russia?
6/ What is important for you in relations and am I right for you?
I will be waiting for your reply to
admin@1BRIDE4UWEB.INFO
I would like to contact with you. Do you have a messenger?
My best wishes, Julia
Dar a volta à coisa # 2
Ou sim ou comes a sopa. Tens trinta segundos.
Boa educação # 1
Fazer passar por desvelo o que é dor de cotovelo.
Epifanias # 41
Aquele momento em que o sono e o cansaço baralham de tal modo as histórias que em cada esquina há uma porta para um romance novo. Mas justamente, o sono e o cansaço impedem-nos de entrar.
O Poder das Narrativas / As Narrativas do Poder
É o tema do VIII Colóquio de Outono, organizado pelo Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, a decorrer hoje (quinta) e amanhã.
Mais logo, pelas 17h, haverá uma mesa redonda com Lídia Jorge e José Eduardo Agualusa. Dadas as potencialidades bélicas da temática, actuarei disfarçado de moderador.
Saídas pela direita baixa
Credo, essas coisas nem sequer se discutem.
Saídas pela esquerda baixa
Mas quem me mandou a mim meter-me com esta gente.
Entradas em falso [versão alternativa]
Pois muito bem, disse ele. E fez pausa. Mas não chegou a continuar.
Entradas em falso
Ora bem, disse ele. Mas depois calou-se, não sabia mais que dizer.
Epistemologia da intimidade dos assentos nos carros de última geração (ufff...)
Então é isto: se te vais pôr em cima de mim (o que eu até acho muito bem...), ficas sabendo que sou possessivo e que gosto de coisas bem ajustadas, baby. Daí o cinto de segurança, you see? As long as te ponhas em cima de mim, pode ser só para uma rapidinha, por via do café ou dum drink ali na chafarrica da esquina ou noutro lugar pertinho. Pões-te em cima de mim e tem que estar tudo nos conformes, ok? Bem ajustadinho, bem encaixado, é como eu gosto. Se tiras ou não pões o cinto eu grito. E grito cada vez mais. Espero que distingas gritos de prazer de gritos de dor. Porque depois de gritar, se não te ajustas, eu paro. Stop. Completamente. Totally. Taxativamente. No way. Onde quer que seja, stop. Por questões de segurança, motherfucker. Para te proteger, baby. Ou tens problemas com estes compromissos? Stupid bitch. Só te quero enlaçado enquanto estás enterrado. No resto vais à tua vidinha, não tenho nada a ver com isso. Mas enquanto estás comigo, actually comigo, estás comigo, baby. Então é isto, love: não enlaças, não deslizas. Easy. Attention, safety belt. Ou eu grito. Grito! GRITO! GRITO!!! Stop.
Epifanias # 41 [sem raccord de violoncelo]
Psicopatologia da vida quotidiana
Prefiro os f.d.p. rasteirinhos, sacanas e hipócritas: sabem que são mesmo f.d.p., estão dispostos a negociar alguma razoabilidade, e percebem quando o outro diz que há coisas inegociáveis. Já os f.d.p. que se têm em alta consideração moral, que agem em nome dos sacrossantos princípios, cada um mais escorregadio e conforme ao rebuscado das conveniências, mas sempre com o cuidado de taparem todas as brechas por onde fosse possível que enchergassem o triste espectáculo deles próprios — esses assustam-me. Um pouco de poder, e ei-los salivando por mais poder. Mesmo que seja uma coisa de caca, ali nos confins da província, um reino de uns quantos metros quadrados e algumas cabeças obedientes. Mas não foi assim que começaram todos os grandes ditadores? Não, Hitler não foi uma excepção. A excepção foi o tempo e as circunstâncias. O que admira é não ter havido mais ao longo da história — mas se calhar eu sei é pouco de história. Se calhar é isso.
A Leitora, no seu infinito particular (XXVIII)
- Com que então, Calimero e Muttley, hem?
- É como vês.
- O Calimero ainda conhecia, agora o Muttley confesso que tive de ir fazer uma pesquisa.
- Tempos antigos, de facto. Almoçava a ver essas séries.
- E porquê o aviso? Véspera de grandes manobras?
- Não te preocupes, eles sabem porquê.
- Oh, eles, estou a ver...
- Em certos momentos é mesmo assim, eles e nós. Com esta diferença importante: antes, não existiam eles nem existíamos nós. Foi na resposta a uma questão que de repente nos achamos de dois lados. De um lado, vi-os a eles. Do outro, ficamos nós. Foi uma escolha, Leitora. Eles escolheram ficar daquele lado, nós escolhemos ficar deste. Tem consequências.
- Sim, estou certa que sim. Mas não vais transformar o blogue numa emissora de recados, pois não?
- Só se tu achares que aquele tipo em quem o Charlot enfia o candeeiro só pode ser o director da EDP ou coisa que o valha... Mesmo que o Charlot visasse de facto o director da EDP lá do sítio...
- Ok, então ficamos assim.
- Ficamos. Mas aparece mais vezes, sim?
- Não quis interromper as tuas epifanias.
- Não interrompias.
- Aquilo vai a algum lado?
- Mas que pergunta, Leitora!
- Ok, então ficamos mesmo assim.
- Espera. E a casa? Ou os tarecos que já não cabem no carro, como é que está isso?
- Pequenas manobras, eu depois explico. Melhor, depois convido-te. Não há nada como ver in loco.
- Ah, a empiria...
Mulheres belas, por assim dizer
Epifanias # 40 [claro...]
ps: senhoras e senhores professores doutores por extenso, depois não digam que eu não avisei...
Epifanias # 37 [da blogosfera como adido de imprensa]
Três ou quatro minutos de leitura nos blogues no costume e foi como se tivesse visto o Santana e o Cavaco e aquela coisa que ganhou as audiências.
Epifanias # 36 [vantagens do trabalho]
Não pude ver nem Santana nem Cavaco nem aquela coisa que ganhou as audiências.
Breve história da leitura em comboio seguida de um pedido aos Senhores da CP
Vieram depois os inter-cidades. Maior conforto, mais rapidez, ler era um regalo, e a mala ia um pouquinho mais aliviada. Até que, mesmo fora das horas-de-ponta, viajar em segunda se tornou um banho de multidão, com conversas altas, miúdos a berrar e outras coisas perniciosas à concentração da leitura.
Voltei à primeira classe e por lá me mantive, a bem da leitura, até ao advento dos telemóveis. Se o seu sucesso foi o que se sabe, nada como a experiência própria para poder assegurar que, antes da sua vertiginosa democratização, foram um gadget elitista. E como as pessoas não estavam habituadas, que para tudo é preciso aprendizagem, era ver como respeitáveis cavalheiros que no “tu cá tu lá” não passavam de um sussurro discreto, se erguiam a vozeirão de sargento falando em andamento para os seus clientes e escritórios. Ainda hoje guardo o trauma de ouvir distintamente o distinto Dias Loureiro — à altura ministro, nem mais —, com pelo menos dois telemóveis (um em cada mão eu vi, no resto não passei revista) e cem problemas urgentes para resolver logo ali, cada qual exigindo ordem mais alta e sonante.
Voltei brevemente à segunda classe, mas foi sol de pouca dura. Nunca um anúncio foi tão educativo como aquele do “tou xim!”: o povo aprendeu a atender, e de repente toda a carruagem era só pastores e eu deixei de poder pastar as minhas ervinhas pensantes em paz...
Por razões que não vêm ao caso, durante uns anos calhou não frequentar comboios. Agora que a eles voltei, pouco espaço há para a leitura: a classe turística é impossível, entre telemóveis e filmes em computador com som “ambiente”; a classe conforto impossível é, entre telemóveis e conferências em alta voz.
Senhores da CP: que tal uma carruagem, ou meia-carruagem, em que não fosse permitido atender telemóveis, ouvir música em auscultadores ou falar com o parceiro do lado? Obrigado.
Alfa Pendular, classe conforto # 6
O meu chefe quer-me mandar seis meses para Espanha. Tenho que agarrar isto, é uma promoção, mas acho que vou perder o Jorge. (...) Ele não é desses, estás a ver? (...) Não, ainda não lhe disse. (...) Ainda não está nesse ponto. Eu é que decido. Mas vou perdê-lo, estás a perceber. (...) Isso também não.
Alfa Pendular, classe conforto # 5
É, agora começou uma terapia ocupacional, está melhor, mas isto é muito pesado. (...) Quando as coisas chegam a este ponto, que é que se pode fazer? (...) Só quem vive estas coisas é que sabe. Todos os dias me apetece fugir e todos os dias vou lá. Não consigo deixar de ir lá.
Alfa Pendular, classe conforto # 4
Querido, o papá agora tem uma chamada para atender. Faz os deveres, sim? (...) Sim, podes comer um, mas só um, está bem? Vá, xau, um beijinho, filho, xau, um beijinho.
Alfa Pendular, classe conforto # 3
A versão oficial é que eu não sei. Esse anexo tem que ver com as frequências mensais, mas a versão oficial é que eu não sei. (...) Não, não vamos fazer isso. Vai por mim. Deixa-os pousar. Depois a gente entra a matar. (...) Mas claro que não lhe vais dizer nada, nem uma palavra. Muito menos a esse tipo. Nem uma palavra, ouviste? Agarra-te à versaõ oficial. Eu não sei de nada, percebes? Faz como te digo.
Alfa Pendular, classe conforto # 2
Ó Susana, não percebo aqui este documento. Os mil e duzentos quilos foram facturados a pronto ou a noventa dias? (...) Mas ó Susana, isso é um disparate, valha-me deus. Diga já ao Nelson para escrever isso tudo. E não se esqueça de marcar o almoço com o engenheiro, ouviu?
Alfa Pendular, classe conforto # 1
Estive um mês sozinha e tu ligaste-me uma única vez. Não me venhas agora falar da nossa relação porque não há relação nenhuma.
E por falar em trabalho
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Todas as proporções guardadas, este é o resultado de praticamente um dia de trabalho sobre a obra de Pedro Rosa Mendes. Um último save, uma encrenca qualquer, e de repente as oito páginas ficaram como a amostra de cima. Consultados os pronto-socorro do costume, o veredicto é simples: se houve save, nada a fazer. Pelo menos, nada tão rápido que permita o texto já para amanhã. Um pouco mais da noite para reconstituir o que me calhou pensar. E amanhã falar com uma rede muito esburacada. Enfim, se me estatelar, do chão para baixo não passo.
De volta à realidade, uma certa espécie de luta de classes
Trabalhar, trabalhar, trabalhar.
Se alguns de nós, em vez de produzirmos textos ou guiões para aulas e seminários e cursos, produzíssemos penicos (penicos?! mas nem vale a pena psicanalisar), acho que pela certa haveria um novo design revolucionário: o penico-vaso, o penico-candeeiro, o penico-fruteira, o penico-tacho...
Mesmo sabendo que alguns de nós não são a maioria de nós — oh! sei-o muito bem, então não sei? —, mesmo assim, acho que no índice de produtividade nacional os alguns de nós não devem ser contabilizados. Porque quando me perguntam quantos dias de aulas dou, e eu explico que não é por dias mas por horas, que são oito, e que o resto é para estudar em casa e para trabalho administrativo, o olhar que me devolvem só tem uma pergunta: mas onde raio estão os penicos que fazes?!
Epifanias # 35 [homeway from home]
Com o nevoeiro, falhei a saída da auto-estrada. O computador de bordo dizia que tinha gasolina para mais 547 km. Why not?
Keith, Gary, Jack
Keith Jarrett, Gary Peacock, Jack DeJohnette
O trio vive em estado de perfeição. Isso já se ouvia nos discos, mas não há como a actuação ao vivo para se perceber o quanto é verdade. O entendimento faz-se por dentro da música, e os pormenores chegam a valer tanto como o todo: esse momento que percebemos perfeitamente que está a acontecer ali com inesperada naturalidade. Por exemplo: um solo de Jack DeJohnette, com Jarrett e Peacock a dialogarem em fundo sobre o tema principal. Ou o modo como em alguns finais Jarrett parece querer recomeçar e os companheiros sintonizam de imediato, criando-lhe o espaço para essas pequenas derivas. Ou o modo imperceptível como o trio acelera e desacelera.
Tudo esteve perfeito. Mas seria injusto não dizer que Gary Peacock teve uma noite mais-que-perfeita.
Keith Jarrett
Havia alguma tensão no ar. Há 25 anos foi o que se sabe, e Jarrett tinha jurado que nunca mais viria a Portugal. Na semana passada, em Paris, houve tosse a mais. Daí o aviso da direcção no princípio: tussam o menos possível…
Por duas vezes, Jarrett abandonou momentaneamente o palco, uma delas interrompendo a introdução ao tema. Calafrio. Mas era apenas qualquer coisa nos óculos.
Em nenhum momento o público aplaudiu na passagem de Jarrett para Peacock – foi quase sempre essa a passagem -, provavelmente com medo de que ele se desconcentrasse. Mas Peacock foi aplaudido, e tinha um sorriso bondoso.
Jarrett esteve todo o tempo de costas: é essa a posição que decorre da organização do trio, mas faltou uma palavra ou um sorriso mais aberto.
No fim, o sorriso veio. Jarrett rendeu-se ao público do CCB. Estava bem disposto, e nos gestos para os companheiros disse que tinham de dar ainda um segundo encore. Foi When I fall in love, it will be forever. Já não havia tensão nenhuma, apenas encantamento. E sim, seria fácil ficar ali para sempre.
Patricia Barber # 3 [tomem lá o que querem]
De Mythologies, apenas um tema. No resto, standards: um programa muito defensivo, pensando num público conservador. Sobretudo no início. Depois a coisa foi-se soltando. E é espantoso que ainda se possam dizer coisas novas sobre Autumn leaves, por exemplo.
Uma surpresa (para mim, pelo menos): Patricia Barber é uma excelente pianista; duas confirmações: o quarteto é orgânico, e não vive apenas da mestria musical da sua lider; a postura solta de Patricia Barber assenta numa organização muito meticulosa do programa de cada composição, sobre o qual se vai fazendo o que o momento dita.
Patricia Barber # 2 [coisas que só num concerto]
Entrou e sentou-se ao piano. Descalçou as botas e tirou as meias. Esteve descalça até ao fim. Disse que a madeira do palco era muito confortável. Também levava uma máquina fotográfica. Quando a música estava entregue aos outros, tirava-lhes fotografias. No final, já de luzes acesas, fotografou o público e a sala. E o público fotografou-a a ela.