Driving Miss Laura # 1


Viagem em pausado cruise control, mas com duas horas de paragem forçada por despite de um pesado. Miss Laura aproveitou para se inteirar das últimas notícias sobre Chantal Sébire. Professora, 52 anos, mãe de três filhos, sofre há oito anos de neuroblastoma olfactivo, um tumor degenerativo raro (200 casos registados no mundo em 20 anos), incurável, que ocorre na cavidade nasal e vai deformando o seu rosto. Chantal Sébire já está cega, já perdeu o olfacto e o paladar, e sofre de dores atrozes. Através do seu advogado, entregou ao tribunal de Dijon um pedido de suicídio assistido e apelou ao presidente Nicolas Sarkozy. Chantal Sébire trava o seu último combate. O que parece mais estranho a algumas pessoas é que Chantal Sébire, ainda perfeitamente autónoma nos seus movimentos, não resolva as coisas por si mesma. Até a Ministra da Saúde francesa, depois de muito enfaticamente recusar qualquer alteração legislativa no sentido da eutanásia, diz como quem não quer a coisa que o suicídio é um acto individual que ela respeita. Miss Laura sorri melancolicamente e eu compreendo-a bem. Chantal Sébire não quer suicidar-se, Chantal Sébire está a morrer, o que é coisa bem diferente. Chantal Sébire quer ser tratada no seu sofrimento, tem esse direito. E reclama o direito a definir, segundo os seus termos e convicções, a fronteira a partir da qual o seu sofrimento não faz mais qualquer sentido para si mesma.

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Nisto, sou apenas o motorista # 2

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Companhia nocturna # 5

E depois, uma lire organizzate é quase um brinquedo, coisa tão artesanal, tão cândida, tão de um tempo com tempo para a noite e o devaneio. Os astros podem não estar de acordo, mas que importa? Não há cartas erradas nesta música. E nós pouca importância deveríamos ter para nós próprios.

Psicopatologia da vida quotidiana # 36

É de mim, ou o horóscopo devia elucidar-nos acerca do imprevisível? Tipo: você hoje sente-se bem, mas acautele-se, o céu vai desabar-lhe em cima da cabeça. Ou tipo, sei lá: você sente-se normal, mas vai sair-lhe o totoloto ou ser chamado para aquele emprego cuja entrevista nem chegou a acontecer. Qual a vantagem de o horóscopo nos dizer aquilo que já sabemos? A gente folheia o jornal enquanto toma o café da manhã e lá está: carta da derrota, o seu sistema nervoso anda fora dos gonzos, má onda em matéria amorosa, cautela com as finanças. E eu não sei? Hello!!

Companhia nocturna # 4

Ouves um pouco o vento, a impressão de chuva, os cães muito ao longe? Tudo é música. Suspiras, e não sabes se é uma angústia difusa que já há muito perdeu o nome ou apenas excesso de atenção ao duello. Respondem-te ambos, sem nada saberem de ti. Não há outra compaixão mais alta nem humanidade mais perto que essa música, pensas por momentos. O suficiente para caminhares para o sono, o vento um pouco mais longe, a vaga impressão de chuva, os cães quase inaudíveis. Mesmo o duello é já só um sussurro entremeado à tua respiração. E o suspiro aquele acorde em que ambos se extinguem para que do silêncio nasça outra música.

Multiplex # 40

Os falsificadores, de Stefan Ruzowitzky

Um dos poucos filmes sobre a temática do Holocausto, que me lembre, que mostra aquilo que Primo Levi disse sobre o carácter dos prisioneiros nos campos: que havia um pouco de tudo, tal como na vida em liberdade. A vantagem, aqui, é que esse pouco de tudo está logo no carácter da personagem central. A sua mágoa primordial, a sua cultura escondida, a sua vontade de sobreviver até contra si próprio, poderiam dar, noutro contexto, uma grande personagem. Mas não pode haver grandes personagens em cenário de Holocausto, ou qualquer coisa está mal. Fica, sempre, a vergonha de ser humano, que tudo contamina, e a dificuldade em continuar.

Nisto, sou apenas o motorista # 1

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Il duello amoroso

Chove lá fora. Não me apetece trabalhar. Chove lá fora. Sim, mas agora está sossegado. Deixa-os cantar. Ouve. Chove lá fora. Come come be at peace, and ask me no more for love. Ouve. Chove lá fora. Ouve. Chove lá fora. Ouve.

WC Lectures # 21 & 22


A partir de Frederico Lourenço — muito certeiro e pertinente, quase sempre —, fui a Teofrasto — que presumo igualmente muito certeiro e pertinente, quase sempre. Mas há três diferenças substanciais, pelo menos três, que separam os caracteres de Teofrasto dos caracteres de Frederico Lourenço: o dracma desapareceu, os penates também, e algumas almas mais optimistas garantem que os escravos são igualmente coisa do passado. De resto, é tudo reconhecível. A mim deu-me para rir, coisa que os tais optimistas da frase anterior garantem ser prova de siso. Quem sabe, talvez tenham razão.

Companhia nocturna # 3

Multiplex # 39

Caramel, de Nadine Labaki

A única referência à guerra, nas palavras da realizadora, são os momentos em que a luz vai abaixo no salão de cabeleira e é preciso ligar o gerador. No resto, aquela Beirute de mulheres parece o Portugal do fim do Estado Novo, até no tom de comédia agridoce.
Lateralmente: não sei se depilar com caramelo em vez de cera será diferença de civilização que justifique grandes tratados. Mas é diferença suficiente de cheiros e sabores para despertar a rêverie. Ok, fiquemos por aqui.

Companhia nocturna # 2

É por dentro da noite que esse momento chega. A solidão de um homem encostado a uma parede no escuro, sangrando devagar até morrer. Ao longe essa música tão de outra vida. Que ele ouve cada vez mais nítida, mais contígua à parede em que repousa. Próxima da harmonia de que tem uma memória vaga. Alegre e irónica de um modo tão desinteressado e alheio. Essa música, diria ele, se tivesse ainda palavras.

Daquele lugar


mais exacta a certeza
de ter partido irreconhecível
daquele lugar do meu futuro,
apenas para perceber
um destino que não se vence
e a vida como espectro
à qual se tem sempre de regressar

Como um lugar do meu passado

(.....)
mais exacto o sentimento
de ter regressado irreconhecível
a um lugar do meu passado,
apenas para adivinhar
uma distância que não se vence
e o espectro de outro castelo
ao qual não é possível regressar.

Rui Pires Cabral, “Outro castelo” in Novas memórias de Ansiães

Um lugar

Sei vagamente onde fica Ansiães. O nome era falado pelos meus pais, pertence aos domínios das suas origens. Sei que voltaram lá há pouco. Sozinhos. Essas viagens que são despedidas calmas desta terra. Quando é possível. Enquanto é possível.
Mas nada disto importa para este pequeno livro. Nem nele procurei o pathos que na verdade não me existe. É uma ideia simples de poesia. Uma viagem a quatro (provavelmente a cinco: os quatro poetas, e o desenhador Luís Manuel Gaspar), um poema de cada um na volta. Ecos dos diálogos, o irredutível de cada um, como o mundo é vário sem que alguém tenha de criar diversidade intencional. Tiraram-se trezentos e cinquenta exemplares, este tem o número dezasseis. Quase uma sociedade secreta.

Companhia nocturna

Fim dos procedimentos

Na distância subitamente impossível de percorrer.

Depois de Persepolis

Tão fantasmas de nós mesmos que somos. Sombras sobre sombras. Vem noite antiquíssima e idêntica... noite igual por dentro ao silêncio... vem vagamente, vem levemente...

Multiplex # 38

Afinal, eles não são diferentes. O Irão é como qualquer país de onde se fugia ou se foge em direcção à liberdade. Como outrora de Portugal, do Leste, do Chile. Têm a sua história, isso é tudo o que é preciso saber. Este filme ajuda.

Procedimentos XXI


É simples. Todo o amor começa in media res. Todo o amor acaba in media res.
Sim, eu sei, há outras histórias.

Procedimentos XX


Não houve nunca um espaço numas águas furtadas. Mas estou lá, pinto estas miniaturas, a vida por manchas. Essa cama existe agora noutro lado, com outros cheiros, outro dormir, outro acordar. Deveria também pintar essa pequena miniatura, uma rápida mancha da vida que passa. E olhar ainda a tua breve despedida, com restos de sono nos gestos, caindo noutro lado da vida. E é assim que a história interminavelmente se vai acabando.

Procedimentos XIX


Todo o caso amoroso constrói a sua cena de origem interminável, onde a história que une está a acontecer e a recomeçar por dentro de si mesma. Pode a história ter de facto ocorrido como pequeno episódio ou ser apenas a projecção de uma história a haver — pouco importa para a força da cena, a sua capacidade de fazer o real.
Haverá um espaço numas águas furtadas, ela dizia, e era assim que a história começava. Na inclinação da janela, mais céu que cidade. O cavalete onde pintas estas miniaturas, a vida por manchas. A cama de onde te vejo ao acordar. A distância doce entre nós. O teu lugar ainda quente. A manhã. Procuro o teu cheiro nos lençóis, é de onde te vejo melhor. Adormecerei ainda, ela dizia com restos de sono na voz, e era assim que a história terminava.

Procedimentos XVIII


É simples. Sempre insustentável. Cada um morre à sua maneira nessa derrota. O medo complica muito. Ou não bem o medo, a importância de nós. Um pouco também o medo. Mas é simples. Sempre insustentável. Não conheço quem tenha ganho. É simples. Ouço-te. Sim, diz. Ainda.

Procedimentos XVII



Sim, diz.

Procedimentos XVI



Ainda.

Procedimentos XV


Disposições transitórias: dormir; deixar-me encontrar pela manhã; deixar o sol sobre o corpo matinal; pôr os óculos escuros; fazer silêncio até os pássaros serem reais.

Procedimentos XIV


Disposições transitórias: fazer silêncio; olhar os olhos que me olham no espelho, o longo corredor escuro em que se afundam; não levar luz para a travessia; dormir.

Procedimentos XIII


Disposições transitórias: cortar o cabelo; comprar óculos escuros; deixar o sol sobre o corpo; fazer silêncio.

Maria Gabriela Llansol

Amigos/as,

Maria Gabriela Llansol empreendeu a Grande Viagem. Hoje ao romper do dia. Em serenidade. Talvez assim:
"__________ penso em fazer esta experiência:
levantar-me numa manhã de inverno, quando ainda fizer escuro (...), ver o dia levantar-se, clarear, eu sempre sentada na minha cadeira de balouço. Começar a mover-me, a dar passos em todos os pequenos percuros que me ligam à casa e, num dado momento, ter a consciência, envolta em cálice, de que o dia nasce..."
(Do caderno 5 do espólio, 1978)
Espaço LLansol

Procedimentos XII


E o cão. Falta aqui o cão. A história seria bem diferente se houvesse aqui um cão. Ou se se tivesse desviado a vida o suficiente para que fosse possível nesta história haver um cão. Mas visto de fora, o retrato está completo. Realista. Regular.

Procedimentos XI


A secura na garganta, o fecho da voz sobre o nome, o estrangulamento. Este silêncio amarrotado do lado de cá da janela. Visto de fora, é apenas um vulto repartido entre a espera e a contemplação.

Procedimentos X


O mundo, as causas, os acontecimentos, até as histórias de faca e alguidar: há um momento em que qualquer coisa serve para que qualquer coisa doa menos.

Contaminação

Antes de magnas questões como liberdade de expressão ou feedback das irreverências dos assalariados face à imagem do empregador, talvez conviesse saber se a coisa não se passa a um nível mais prosaico de simples, ainda que dissimulado, abuso de poder.
Daniel Luís é um assistente universitário, neste momento equiparado a bolseiro para realizar o seu doutoramento. O seu vínculo profissional é precário. Se não realizar o seu doutoramento vai para a rua. Se o realizar, terá um contrato provisório por cinco anos, findos os quais lhe será dada ou não a nomeação definitiva (se lhe for negada, irá também para a rua). No júri de doutoramento de Daniel Luís, a maioria dos membros será normalmente de pessoas do seu departamento. O parecer que determinará a sua nomeação definitiva será dado normalmente por pessoas do seu departamento. Se Daniel Luís fosse catedrático com nomeação definitiva deste departamento, e tivesse a sua actividade humorística na bloga, alguém imagina que o departamento se daria ao trabalho de reunir e exarar em acta conselhos de bom-comportamento a Daniel Luís? E mesmo que o departamento fizesse tal coisa (ele há sempre gente muito convicta do zelo académico), que impediria Daniel Luís de simplesmente afirmar que a sua visão de Academia e Universidade é diferente, ou de calmamente os mandar meterem-se na sua vida? Consequências dessa atitude de Daniel Luís caso fosse catedrático com nomeação definitiva? Em absoluto, nenhumas.
Mas Daniel Luís é um assistente. O elo mais fraco e dependente. Tão fraco e dependente que o departamento nem precisa de obrigar, aconselha paternalisticamente. Afirma a sua ideia de Academia e Universidade pretextando a transparência da sua posição, mas a verdade é que o departamento nem precisa de aceitar conviver com ideias diferentes ou vir discuti-las academicamente, caso Daniel Luís persistisse, porque tem sempre o doutoramento e a nomeação definitiva para o ajuste de contas. Todos sabem disto, e é precisamente isto que permite a “imaculada posição democrática” do departamento: aconselha, apenas.
Poder-se-á dizer que presumo intenções. Mas se as coisas não são assim, como é que a nenhum dos quinze (ou lá quantos são) doutorados do departamento ocorreu a simples ideia de que para dar um conselho amigo, e dirigido à inteira liberdade de alguém, não é preciso reunir um “tribunal”?
Infelizmente, tudo isto é muito antigo: o maior comanda o quase-maior, o quase-maior domina o menor, e o menor tiraniza o sem-poder. Com esta agravante tristemente irónica: um dos objectos de estudo deste departamento é precisamente esta escala demencial de exercício de poder, na sua vertente escolar e administrativa. Acho que foram contaminados.

Procedimentos IX



Hiato: quando as lacunas ou falhas interrompem o curso normal da vida, não é um hiato, é apenas a vida. Na qual o dito curso normal da vida não é tido nem achado.

Procedimentos VIII



Hiato: característica fundamental das conversas entre dois ex-amantes que ainda conversam. O que não dizem, deve-se à gentileza. O que pressupõem, a um entendimento que ainda subsiste. Em todo o caso, uma solução de continuidade.

Procedimentos VII



Hiato: (...) 2. Abertura ou fenda. 3. Interrupção, durante certo tempo, entre acções ou coisas com continuidade (...). 4. Lacuna; falha. 5. Espaço intermédio entre duas ou mais coisas. 6. Teatro: solução de continuidade entre as cenas de um espectáculo, factos, ocorrências... [Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Academia das Ciências de Lisboa]

Procedimentos VI



- E ias tu perguntar quanto tempo ainda... Irónico, hem? E agora que já aconteceu, nem a liberdade nem o desespero nem um mundo diferente. Estás no mesmo sítio, com os mesmos sentimentos de antes, só que todos reais. Definitivamente reais.

Procedimentos V



- E já agora, já que estamos a falar no assunto, quer dizer, já que pelo menos eu estou a falar no assunto, não seria melhor deixares-te também disto? Guardares tudo para ti próprio, esta treta do fim, esta treta ainda maior de perguntares pela treta do fim, tudo isto, tudinho sem tirar nem pôr. Tempos difíceis para a metafísica, rapaz. Ainda por cima na periferia. Ainda por cima essa coisa vaga, esta coisa vaga. Não há lá nada, pois não? Ou não sobrou nada, pois não? Diz-me, tu achas que há aqui alguma coisa? Achas que vai sobrar alguma coisa? Caramba, queria mesmo que te deixasses destas coisas, sabes?..

Procedimentos IV



- Não podes falar de outra coisa? Sempre o fim, depois do fim, para lá do fim... Cansativo. E falas de quê, afinal? Já pensaste em ir a algum médico? Ou... digamos... também era uma hipótese... guardar isso apenas para ti próprio?

Procedimentos III



Ser concreto. Não contar esta história, deixar partir esta história. Começar para lá do fim.

Procedimentos II



Deixar partir uma história no exacto momento em que ela está a acontecer. Deixar partir uma história no exacto momento em que ela se está a inventar.

Procedimentos I



Nunca contar uma história no exacto momento em que ela está a acontecer. Nunca inventar uma história no exacto momento em que ela se está a inventar.

Diablo Cody

Parece uma personagem de um filme de Woody Allen a ganhar vida. A sair de Poderosa Afrodite, por exemplo. É uma história que escreve outra história. Coisas como Pussy Ranch ou ex-stripper always naked for you têm outra ressonância quando vistas através de Juno. Mesmo sem o óscar, e mesmo sem o que nestes óscares pode haver de consentimento a esse mito americano da mobilidade social ascendente (que em todo o caso existe, é bom não esquecer). So far, so good.

Os Professores a exame # 5

Algumas notas de um outsider sobre um debate que só vi até ao final da segunda parte:
1. A Ministra explicou mal o porquê de só contarem os últimos sete anos para o concurso a Professor Titular. Falta para muita gente o registo biográfico de anos anteriores?! E isso quer dizer o quê, exactamente?
2. Num raro momento de verdade política, a Ministra disse que em todas as medidas há uma pequena percentagem de sacrificados. É verdade, chamo-lhe a roleta russa da mudança social, mas fica-se com a sensação de que não foi feito tudo o que estava ao alcance da tutela para minorar o alcance desses sacrifícios.
3. A Ministra é uma académica. E um verdadeiro académico não tem medo de algumas evidências incómodas: por exemplo, a de que não existe nenhum processo de avaliação perfeito. Essa afirmação clara cortou cerce algum argumentário dos opositores a este processo de avaliação.
4. Há coisas que já vi acontecer muitas vezes. É suposto um licenciado ter capacidade para enfrentar novos desafios, sobretudo aqueles que não são de todo estranhos à sua formação. Pede-se uma avaliação entre pares. Que fazem as pessoas? Pensam pela sua cabeça? Dialogam entre si para aferir critérios? Aceitam a maior dose de subjectividade inerente a alguns desses critérios e dispõem-se a assumir o risco de um parecer, a ser confrontado com os pareceres de outros avaliadores e a resposta dos avaliados? Não. Dizem que não têm formação para esta tarefa e que é preciso tempo, muito tempo, mesmo muito tempo para receberem essa formação.
5. A Ministra não tem habilidade política. Isto tem custos, mas não é de todo um defeito grave. A Ministra disse outrora, de facto, que poderia ter perdido os professores, mas tinha ganho a opinião pública. São coisas que não se devem dizer. Até porque raramente se dizem com inteiro a propósito. E ditas uma vez, o argumento não é reciclável. Mas ontem, a Ministra teve uma oportunidade de ouro que não usou. Mesmo sem conhecer as seis decisões do tribunal sobre o pagamento das substituições como trabalho extraordinário, poderia ter dito que o sindicato dá dos professores a imagem de mercenários. Sobretudo, depois do debate “científico” que a medida motivou no início.
6. Há quem deite fora o bebé com a água do banho. Tudo o que há para dizer sobre ensino profissional, programa novas oportunidades, etc, é que o que se lecciona está desadequado (o que é uma evidência) e que essas iniciativas só servem para melhorar as estatísticas de escolaridade? Como é que aquilo que é um imperativo social de uma sociedade democrática e uma medida urgente de qualificação não tem uma única palavra de reconhecimento? É isto de um professor (está bem, era uma professora do PSD e parece ter metido a social-democracia na gaveta, mas mesmo assim...)?
7. Até onde vi, parece-me que a Ministra se aguentou.
8. Última nota, lateral, e sob forma de triste constatação: justo ou injusto, dois terços do que a Ministra ouviu dos professores, quase ninguém numa universidade portuguesa abaixo de catedrático com nomeação definitiva se atreveria a dizer a um reitor.

Entre cinéfilos

De Daniel Day-Lewis a George Clooney, não me importava. Já de um dos republicanos a John McCain me importo bastante mais. Espero bem que se cumpra o ditado: um engano nunca vem só...

O manso apocalipse


Há dias. Não demasiado longos. Não demasiado cruéis. Não absolutamente nulos. Mas um cansaço tão real nos olhos e na nuca. Um frio tão objectivo de cutelo. Apagar a luz e demorar tanto a ser noite. Há dias.

Multiplex # 37 (dois)

De poucos filmes se poderá dizer que são em simultâneo filme de autor e filme de actor. Mas quer Paul Thomas Anderson, o autor, quer Daniel Day-Lewis, o actor, se submeteram até à despossessão aos imperativos de um cinema intencionalmente anacrónico. A efusividade pós-moderna acabou no 11 de Setembro. Agora é voltar a percorrer velhos caminhos, indo mais fundo no fim sombrio onde desembocam. É por isso que falar de Citizen Kane a propósito deste filme é só metade do caminho. O final ainda humanista de Citizen Kane colocava uma infância perdida como paraíso subsistente e paralelo a toda a ascensão ferozmente capitalista. No fundo, mostrava uma escapatória moral para a luta pelo poder: a hipótese de uma renúncia teria como prémio o regresso à inocência. Que a renúncia fosse empiricamente inviável em nada obstava ao facto de ela ocupar um lugar moral no imaginário de que se rodeava ainda a ascensão capitalista. O que é sintomático em There will be blood é que precisamente o núcleo familiar e infantil é desde o início estratégia económica e segue a lei inexorável do mercado: onde há mais do que um há competição, e onde há competição há sempre a possibilidade de o combate desembocar na pura e simples eliminação física do adversário. A esse título, o final de There will be blood é mais do que uma metáfora do devir louco do Império, é a simples e feroz desocultação do seu mecanismo lógico de sempre: o assassinato dos pares e aliados, e a afirmação clara de um ateísmo prático que se entende a si mesmo como vontade cega e auto-destrutiva. "Rosebud" dizia a possibilidade de uma outra história; aqui, a última fala após o assassinato é um sardónico "já acabei". Pano.

Multiplex # 37 (um)

Este é um tempo em que aqueles que outrora nomearam directamente a contemporaneidade mais extrema, olham de soslaio qualquer coisa que ainda não pode ser dito. Magnólia ou Pulp Fiction foram a máquina do cinema no coração do que somos. There will be blood ou Death proof reciclam, tentando fazer falar a partir de trás. O que quer que seja que venha a poder ser dito, já vinha sendo falado há muito. Mas não se sabia.
No seu mecanismo e na sua sintomatologia, There will be blood não é muito diferente de Death proof. Devoram linguagens e codificações diversas, é certo, e o patine de classicismo de There will be blood parece afastá-lo do aparente irrisório e vazio de Death proof. Mas a questão é a mesma: a auto-devoração provocada pelo exacerbamento da competição típica do capitalismo avançado. São ambos filmes claustrofóbicos, no reduzido núcleo das suas personagens e dos seus motivos traumáticos. O mundo está sempre noutro lado. Mas foi esse mundo que ruiu e que deixou às claras o ninho de víboras que sempre habitamos. Só que ainda não percebemos de todo o que aí se passa.

Os professores a exame # 4

João Paulo Sousa acusa a actual equipa do ministério da educação de surdez para o diálogo político. E condu-la até Nietzsche, o da Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882): «Um nunca tem razão, mas com dois começa a verdade. Um não se pode demonstrar, mas dois já não se podem refutar» (Lisboa, Relógio d’Água, 1998, p. 184).
O que me parece aqui interessante, de algum modo sintomático, é considerar a equipa do ministério, esta ou qualquer outra, como Um. Não é por ela ser equipa que não é Um. Não é por ser parte de um governo que não é Um. Não é sequer por representar democraticamente uma maioria que não é Um. É pelo simples facto de o que quer que esta ou qualquer outra equipa pense, nunca esse pensamento é o pensamento de Um, mas já sempre o resultado de um longo diálogo/combate social.
Ponhamos as coisas de outra maneira. Por razões profissionais, ao longo dos últimos doze anos, tive de reunir com ou opinar sobre documentos de tudo quanto foi ministro e secretário de estado da educação e do ensino superior (e neste “tudo” incluo equipas e documentos de equipas constituídas por iniciativa das várias tutelas). Em meu juízo, ouvi coisas desde o muito inteligente até ao quase ridículo; às vezes vindas da mesma personalidade, conforme as áreas sobre as quais se pronunciava. Mas nunca ouvi, nunca mesmo, uma única ideia ou opinião que não circulasse já nos corredores do “meio”, que não tivesse já os seus defensores e os seus opositores; e nos casos mais polémicos, nunca ouvi uma única ideia que não circulasse já no seio da opinião pública, com as suas distorções, os seus clichés demagógicos, mas também com o seu grão de justiça ou de desejo de justiça.
Pensar, por exemplo, que a questão da avaliação dos professores é uma questão entre o Ministério da Educação actual e a classe docente é, do meu ponto de vista, um erro estratégico. Nisto, o Ministério da Educação não é seguramente Um, mas um pulular social e de opinião pública que, independentemente de alguns erros parciais no processo, quer meios de distinguir o trigo do joio. Nestas situações, a resposta da classe docente, enquanto classe, é particularmente difícil, porque raramente encontra o meio de apontar com clareza os aspectos controversos sem pôr em causa o sentido de justiça que o todo da medida visa. Outras vezes também se percebe que os porta-vozes da classe não querem, deliberadamente, fazer essa distinção. Mas nada como uma greve para se vir a perceber que nem o Ministério está tão sozinho como o Um que o mecanismo do bode expiatório tende a criar, nem a classe docente é esse Um homogéneo que alguns dos seus porta-vozes fazem crer. Digo-o com aquela distância e nostalgia de quem já perdeu lutas nas mesmas circunstâncias e pelas mesmas razões.

E tu, quem achas tu que eu sou?

Foi uma pena o cristianismo ter desviado esta pergunta para as sendas do transcendente. Num certo sentido, é das poucas perguntas que importam entre humanos, e de todas elas, talvez a mais irrespondível. Mas talvez por isso mesmo o cristianismo a tenha desviado para as sendas do transcendente. Só haverá resposta do outro lado, e mesmo assim a eternidade deve ser pouca coisa para tudo o que haverá a dizer.