[depois do fim, 18]

Esqueces-te das estratégias, mas visto a uma certa distância tudo parece ter sido deliberado. Não se entende o tempo sem uma história, e todos somos ficcionistas previsíveis da nossa própria existência.

[depois do fim, 17]

Hesitas entre as estratégias para esquecer ainda mais e as estratégias para não esqueceres assim tanto.

[depois do fim, 16]

Tudo recomeça imperceptivelmente, as cicatrizes são a tua pele natural a um outro olhar.

[depois do fim, 15]

Quando te assustas com o som do teu riso e perguntas: como pude esquecer?

[depois do fim, 14]

Quando começas a sentir o tempo que te sobra como uma dádiva: a ausência esfuma-se e o presente deixa-se ver.

[depois do fim, 13]

Quando escreves mentalmente tudo o que tens de fazer para garantir a sobrevivência e te obrigas a cumprir o caderno de encargos.

[depois do fim, 12]

O momento em que deus se volta a aproximar e mudas de passeio delicadamente para que ele possa passar à vontade.

[depois do fim, 11]

O momento em que pensar o amor se torna inútil, e estás pronto para não haver mais nada.

[depois do fim, 10]

O momento em que se percebe que somos, todos, a doença do mundo.

[depois do fim, 9]

Quando o silêncio não é a tua pele nem a longa quieta noite, mas uma batalha recomeçada.

[depois do fim, 8]

Quando tenho de fazer os gestos inteiros, porque já não mos completas.

[depois do fim, 7]

Quando entre mim e o mundo já não há o teu corpo.

[depois do fim, 6]

O embaraço de se perceber que o que sabemos sobre aquela pessoa única nos educa acerca da próxima pessoa. Não por repetição, mas por pertença a um género.

[depois do fim, 5]

Uma carta depois do fim é ainda uma carta de amor? Sim, sempre. Absolutamente. Que outra razão haveria para uma carta depois do fim?

[depois do fim, 4]

Muitos anos depois, encontraram-se por acaso. Verificaram com minúcia que o destino nada tecera nas suas costas que desse qualquer sentido a esse encontro. Deixaram em silêncio as perguntas usuais, por não se aplicarem ao seu caso. Quiseram apenas saber do essencial: qual é a cor do mar quando não estou ao teu lado?

[depois do fim, 3]

Então vi-os chegar. Vi aquele bando de jovens montanheses. Caminhavam em direcção ao sítio da batalha com tal furor que não me admiraria se de repente levantassem os punhais. Vinham trajados rigorosamente, com aqueles mantos coloridos que também acharam fim com a derrota em Culloden. (...) caminhavam apoiados no mecanismo dos seus músculos, batendo fortemente no chão a cada passo. O ar cedia à sua volta, recolhia pedaços dos seus cheiros masculinos, do seu resfolegar, e recompunha-se, fechava-se de novo por trás deles, levemente alterado, porque nada, ninguém pode cruzar-se com tal raiva e querer ficar exactamente como era. (...)
Ainda que eu tivesse conseguido vencer a timidez e aproximar-me, nunca franquearia essa barreira, essa espécie de fosso incendiado dentro do qual eles se iam deslocando. Eram uns cinco ou seis mas, ao saírem para a claridade do meio-dia, faziam sombra como um temporal. Desembocavam sobre Culloden e, se em algum momento aqueles campos se recordaram da batalha, foi então.
Deixei que entre eles e eu se interpusesse uma distância de delicadeza e apressei-me depois no seu encalço. O vento e o sol bateram-me na cara e eu defendi-me. Nunca mais os vi, e no entanto era impossível que eles tivessem, naqueles segundos, alcançado o horizonte.
Hélia Correia, Lillias Fraser, Relógio D’Água, 2001, p. 17-18

Nota marginal 1: a arte da ficção não será a de fazer com que pareça um gesto nosso de distância de delicadeza aquilo que na verdade é a resistência do outro a ser analisado?
Nota marginal 2: qualquer paixão, depois do fim, é como o vasto campo de Culloden; revisitado por um ou outro, há sempre um fantasma que se desloca dentro de um fosso incendiado, a uma distância intransponível mas que queima ainda; queima para nada.

[depois do fim, 2]

Estive no campo de batalha de Culloden em 1999, a meio de Abril, um dia após as comemorações, quando ainda os ramos de narcisos, flores da morte, levemente crestados pela brisa, tremiam junto às pedras lapidares. Velhos americanos percorriam toda a extensão assinalada, procurando marcas do clã de onde pensavam descender. Estavam dispostos a fantasiar, a pagar qualquer preço por um pouco de História, que é aquilo que lhes falta.
(...) Eu bem os vi, no dia em que lá fui. Senti-me exausta por andar de pedra em pedra sem partilhar a alegria americana. Acho que o alarme que corria o campo era audível a gente como eu, puros visitantes que não iam à espera de o ouvir. Por muito fundas que tivessem as raízes, na formação das ervas não havia um átomo do sangue derramado. Passara muito tempo. E no entanto alguma coisa que rangia, um desespero, cortava o ar e cintilava à luz de Abril.
Hélia Correia, Lillias Fraser, Relógio D’Água, 2001, p. 14-17

Percebo. O tempo passou, e contudo alguma coisa persiste. Alguma coisa que não vem desse tempo que passou, mas do depois. Não é uma memória, mas o rumor contínuo do seu desaparecimento, já totalmente consumado mas ainda encarniçando-se em desaparecer de forma mais perfeita. Um puro visitante ouve isto, este rumor? Sim, provavelmente. Mas como pode esta narradora ser um puro visitante? A não ser que o puro visitante seja aquele que está avisado para as ilusões da reconstrução ficcional. E isso seja a possibilidade de ver no agora a simultaneidade do antes. Não a reconstrução, mas a repetição segundo a diferença do presente.

paisagem, areia 10 [depois do fim]

Aqueles que souberam
do que aqui se passou,
têm que dar lugar aos
que pouco sabem.
Até menos que pouco.
e finalmente tanto como nada.

Na relva onde nasceram
causas e efeitos,
terá de estender-se alguém
com um palito nos dentes
e olhar perdido nas nuvens.

Wislawa Szymborska, Paisagem com grão de areia

O contrário do romance

Claro, andarmos atolados na vidinha também tem as suas vantagens. Caso Mateus? Mas quem é esse? De qualquer modo, não quero saber, não leio. Obituário do Indy? Mas nunca fui desses lados. Ao menos uma reflexãozinha sobre uma certa direita e o seu jornalismo e aquela geração MEC que...? Sorry, não me apetece mesmo nada, não sou obrigado, tá-se bem, ok? Mas espera aí, afinal sempre quero dizer aqui uma coisita sobre o MEC. Como romancista, era uma das minhas apostas. Apanhei largo por causa disso, mas achava que o homem chegava lá. Afinal, não me tinha enganado sobre o Lobo Antunes. Havia lá negro, e quando o fogo de artifício se acabasse, o negro haveria de aparecer em todo o seu esplendor. Também vi negro no MEC. E isso continua lá, mas não aparece. Está defendido pelo estilo Indy. O fogo de artifício continua sempre, mesmo repetitivo, sensaborão. Certo, dar cabo do respeitinho (foi) é uma grande tarefa. Mas a pantomina que se perpetua e imita a si mesma torna-se fuga. Paradoxo fundamental: a fuga faz-se usando os meios de locomoção que permitiriam a aproximação. Lembram-se do MEC numa de Beckett? Qualquer coisa como: falhei em tudo, falhei na vida, no casamento, na filosofia, na escrita, nos amigos, em tudo. Lembram-se dessa auto-ironia com que parecia começar-se a desmontar aquela grande tenda do circo Indy? Pois foi como as grandes salas de cinema: sempre que se pôde, de uma enorme faziam-se três pequenas, e em vez de um filme de pipocas tínhamos três filmes de pipocas. Em todos aparece um tipo numa de Beckett: falhei em tudo, etc e tal. Mas nunca se diz com que saber e com que ignorância, como, de que modo, com que cegueira e com que evidência. Isso demora tempo, e o estilo Indy define-se pela rapidez. Isso implica a dúvida, e o estilo Indy define-se pela afirmação. Isso obriga ao impoder, e o estilo Indy é o assalto ao poder. Em suma: o estilo Indy é o contrário do romance, e quanto a isso, MEC ainda não largou o Independente.

Como é que se diz? Estado em que se encontra este blog?

Agora que oficialmente as férias terminaram, este cansaço não augura nada de bom. Ah, a vidinha... Percebo tão bem o que levava alguns a deixar tudo e a rumar para o deserto ou para as montanhas. Não é que eu, bem entendido, os tempos são outros, etc e tal. Se bem que... Mas como diz uma amiga: podia ser muito pior. Ou são fases, como costumo dizer a mim próprio. E já se sabe que para descanso bastará a morte. Claro que tudo isto é treta, mas mais vale tomar um post do que comprimidos para dormir. É passarem ao blog seguinte (como se fosse preciso dizê-lo...).