[depois do fim, 18]
Luís Mourão
5.9.06 |
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Esqueces-te das estratégias, mas visto a uma certa distância tudo parece ter sido deliberado. Não se entende o tempo sem uma história, e todos somos ficcionistas previsíveis da nossa própria existência.
[depois do fim, 17]
Luís Mourão
5.9.06 |
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Hesitas entre as estratégias para esquecer ainda mais e as estratégias para não esqueceres assim tanto.
[depois do fim, 16]
Luís Mourão
5.9.06 |
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Tudo recomeça imperceptivelmente, as cicatrizes são a tua pele natural a um outro olhar.
[depois do fim, 15]
Luís Mourão
4.9.06 |
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Quando te assustas com o som do teu riso e perguntas: como pude esquecer?
[depois do fim, 14]
Luís Mourão
4.9.06 |
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Quando começas a sentir o tempo que te sobra como uma dádiva: a ausência esfuma-se e o presente deixa-se ver.
[depois do fim, 13]
Luís Mourão
4.9.06 |
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Quando escreves mentalmente tudo o que tens de fazer para garantir a sobrevivência e te obrigas a cumprir o caderno de encargos.
[depois do fim, 12]
Luís Mourão
4.9.06 |
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O momento em que deus se volta a aproximar e mudas de passeio delicadamente para que ele possa passar à vontade.
[depois do fim, 11]
Luís Mourão
4.9.06 |
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O momento em que pensar o amor se torna inútil, e estás pronto para não haver mais nada.
[depois do fim, 10]
Luís Mourão
4.9.06 |
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O momento em que se percebe que somos, todos, a doença do mundo.
[depois do fim, 9]
Luís Mourão
4.9.06 |
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Quando o silêncio não é a tua pele nem a longa quieta noite, mas uma batalha recomeçada.
[depois do fim, 8]
Luís Mourão
4.9.06 |
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Quando tenho de fazer os gestos inteiros, porque já não mos completas.
[depois do fim, 7]
Luís Mourão
4.9.06 |
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Quando entre mim e o mundo já não há o teu corpo.
[depois do fim, 6]
Luís Mourão
4.9.06 |
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O embaraço de se perceber que o que sabemos sobre aquela pessoa única nos educa acerca da próxima pessoa. Não por repetição, mas por pertença a um género.
[depois do fim, 5]
Luís Mourão
4.9.06 |
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Uma carta depois do fim é ainda uma carta de amor? Sim, sempre. Absolutamente. Que outra razão haveria para uma carta depois do fim?
[depois do fim, 4]
Luís Mourão
4.9.06 |
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[depois do fim, 3]
Luís Mourão
3.9.06 |
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Ainda que eu tivesse conseguido vencer a timidez e aproximar-me, nunca franquearia essa barreira, essa espécie de fosso incendiado dentro do qual eles se iam deslocando. Eram uns cinco ou seis mas, ao saírem para a claridade do meio-dia, faziam sombra como um temporal. Desembocavam sobre Culloden e, se em algum momento aqueles campos se recordaram da batalha, foi então.
Deixei que entre eles e eu se interpusesse uma distância de delicadeza e apressei-me depois no seu encalço. O vento e o sol bateram-me na cara e eu defendi-me. Nunca mais os vi, e no entanto era impossível que eles tivessem, naqueles segundos, alcançado o horizonte.
Hélia Correia, Lillias Fraser, Relógio D’Água, 2001, p. 17-18
Nota marginal 1: a arte da ficção não será a de fazer com que pareça um gesto nosso de distância de delicadeza aquilo que na verdade é a resistência do outro a ser analisado?
Nota marginal 2: qualquer paixão, depois do fim, é como o vasto campo de Culloden; revisitado por um ou outro, há sempre um fantasma que se desloca dentro de um fosso incendiado, a uma distância intransponível mas que queima ainda; queima para nada.
Nota marginal 2: qualquer paixão, depois do fim, é como o vasto campo de Culloden; revisitado por um ou outro, há sempre um fantasma que se desloca dentro de um fosso incendiado, a uma distância intransponível mas que queima ainda; queima para nada.
[depois do fim, 2]
Luís Mourão
3.9.06 |
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(...) Eu bem os vi, no dia em que lá fui. Senti-me exausta por andar de pedra em pedra sem partilhar a alegria americana. Acho que o alarme que corria o campo era audível a gente como eu, puros visitantes que não iam à espera de o ouvir. Por muito fundas que tivessem as raízes, na formação das ervas não havia um átomo do sangue derramado. Passara muito tempo. E no entanto alguma coisa que rangia, um desespero, cortava o ar e cintilava à luz de Abril.
Hélia Correia, Lillias Fraser, Relógio D’Água, 2001, p. 14-17
Percebo. O tempo passou, e contudo alguma coisa persiste. Alguma coisa que não vem desse tempo que passou, mas do depois. Não é uma memória, mas o rumor contínuo do seu desaparecimento, já totalmente consumado mas ainda encarniçando-se em desaparecer de forma mais perfeita. Um puro visitante ouve isto, este rumor? Sim, provavelmente. Mas como pode esta narradora ser um puro visitante? A não ser que o puro visitante seja aquele que está avisado para as ilusões da reconstrução ficcional. E isso seja a possibilidade de ver no agora a simultaneidade do antes. Não a reconstrução, mas a repetição segundo a diferença do presente.
paisagem, areia 10 [depois do fim]
Luís Mourão
3.9.06 |
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O contrário do romance
Luís Mourão
2.9.06 |
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Como é que se diz? Estado em que se encontra este blog?
Luís Mourão
1.9.06 |
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