Como se

Enquanto andarmos por aqui, é sempre “como se”. Certo, há metáforas melhores do que outras. Ou que nos tocam em lugares do entendimento que nós nem sabíamos que tínhamos. Ou que nos desentendem e nos atiram para fora de qualquer coisa. Mas siga.

Lenz Buchmann: cirurgião, político, morto

Nas séries de Gonçalo M. Tavares, a tetralogia O Reino, dos livros negros, é a casa do romance. Aprender a rezar na era da técnica, o romance que encerra a série e chega às livrarias na próxima semana, é um exemplo superior de romance reflexivo, servido por uma escrita depurada, quase cruel na forma como torna legíveis certos dispositivos da vontade de domínio que piedosamente escondemos de nós próprios. Lenz Buchmann é o nosso tempo visto à contra-luz de uma época não tão desaparecida quanto isso.
Um grande romance de um definitivamente grande escritor.
Um excerto em pré-publicação:

(…)
A sua equipa médica nas operações mais complicadas nunca ultrapassara as sete pessoas, e agora ele via-se envolvido em reuniões em que as suas declarações eram escutadas por dezenas de colegas de Partido. Estes encontros políticos revelavam uma espécie de energia magnética que funcionava ou não dentro de um grupo, ligando os seus elementos constituintes de uma ponta à outra.
Este sentimento de comunidade era uma das invenções deste novo tempo em que Lenz entrara. Não tinham sido discutidos pressupostos, ou seja, homens vindos de sangues completamente distintos, de famílias que nunca se haviam cruzado na cama ou nos grandes pactos de rendição ou de declaração de vitória, estavam agora, lado a lado, parecendo, afinal, ter combatido durante séculos no mesmo exército.
Esta ilusão — que o era — não cegava Lenz. Mesmo nas reuniões em que a paisagem parecia ganhar uma fisionomia única e em que a necessidade de ligação entre os homens se aproxima do limite a partir do qual só o amor físico pode saciar, Lenz mantinha-se em dois pontos: estava ali, em baixo, a afinar as armas em coro com os outros e, simultaneamente, em cima, num posto de vigia, num posto secreto, escondido, e, por que não dizê-lo, num posto que revelava uma traição, pois nele tinha acesso visual, não ao campo do inimigo mas ao campo dos próprios elementos aliados.

214 # 5

É uma realidade muito clara. De certeza que numa outra vida foi uma alucinação.

214 # 4

Era um grunhido. Um gemido? Não, um grunhido. De metal. De metal? Sim, de metal. Meio carro e meio dor que já não nos pertence e circula a alta velocidade.

214 # 3

Como está o mundo lá fora? Continua a ser Outono. Mas como está o mundo lá fora? Não muito diferente daqui, apenas em maior.

214 # 2

Continuar para além das partes.

214 # 1

Recomeçar por qualquer parte.

Directiva Antecipada

Para os fins que se revelarem necessários, quero/queremos tornar pública a “Directiva Antecipada” abaixo transcrita. Sem mais quaisquer comentários, por agora.


DECLARAÇÃO / DIRECTIVA ANTECIPADA

Eu, LAURA FERREIRA DOS SANTOS, na plena posse das minhas faculdades mentais, elaboro esta Declaração como uma directiva/solicitação a ser seguida se me tornar definitivamente incapaz de participar em decisões que digam respeito à minha saúde do ponto de vista médico. Estas instruções reflectem a minha firme vontade de recusar tratamento médico nas circunstâncias abaixo assinaladas, embora, infelizmente, estas Directivas Antecipadas ainda não tenham valor jurídico em Portugal.

. Peço ao pessoal médico que me esteja a assistir (se isso for possível, peço-o directamente a quem tem vindo a ser ao longo dos anos o meu clínico geral, Dr. ........) que, caso eu esteja numa condição mental ou física incurável ou irreversível, sem expectativa razoável de recuperação para uma existência com qualidade de vida, não faça uso de meios ou tratamentos que apenas prolonguem desnecessariamente o meu morrer.

. Estas instruções aplicam-se caso eu esteja:
a) numa situação terminal;
b) em estado vegetativo persistente; ou
c) se o meu cérebro se encontrar irreversivelmente danificado e nunca mais puder recuperar a capacidade de tomar decisões e expressar os meus desejos.

Solicito que os cuidados de saúde a serem-me então prestados se limitem a manter-me confortável e a aliviar a dor, aqui incluindo qualquer dor que possa derivar de não se recorrer aos meios de “tratamento” que recusei, ou de se ter posto fim ao seu uso. De um modo especial, peço que, nas circunstâncias indicadas, não me deixem morrer com a sensação de sufocação e não me deixem entrar em delírio ou alucinações, evitando qualquer outra situação que provoque mal-estar ou dor.

. Se estiver nas condições acima indicadas, penso concretamente o seguinte acerca das formas de “tratamento” / esforço terapêutico abaixo especificadas:
. não quero “ressuscitação” cardíaca;
. não quero respiração mecânica (ser ligada a ventilador);
. não quero nutrição e hidratação artificiais (desde que retirar a hidratação não me aumente as dores ou dificulte a sua eliminação);
. não quero antibióticos.

De qualquer modo, reafirmo veementemente que, nessas circunstâncias, solicito o máximo alívio da dor, mesmo que apresse a minha morte.


Em caso de dúvida, sobretudo em relação ao que eu poderia entender por “expectativa razoável de recuperação” e “qualidade de vida”, constituo o meu marido, Luís Alberto Seixas Mourão, como meu representante, pela total confiança que tenho nele e pelo conhecimento que tem do meu pensar.
A não ser que eu tenha anulado estas directivas/solicitações numa nova Declaração, ou que claramente tenha indicado que mudei de pensar, o que aqui acabo de escrever deve ser entendido como expressando a minha vontade.
Para as redigir, tomei como referência a “New York Living Will”, tal como vem apresentada no livro de Timothy E. Quill, M. D., A Midwife through the Dying Process, Baltimore and London: The John Hopkins University Press, 1996, 237-8.

Braga, 26 de Agosto de 2003
Braga, 04 de Novembro de 2007 (reafirmação)

Que nada se sabe

Há momentos na vida em que tudo o que sabemos não serve de nada. A gente tenta agarrar-se a qualquer coisa e não há. Mas esses são também exactamente os momentos em que a inteligência mais conta. A inteligência mais nua e compassiva, disposta a recomeçar a história naquelas condições que não determinamos mas nos couberam na roleta russa.

Paris # 16

Quando se deixa uma cidade? Há a hora do avião, mas isso é só uma questão de transporte. E há aquele momento em que outra coisa vem ter connosco para nos dizer que é a hora de partir, mesmo que o bilhete de avião diga alguma coisa um pouco diferente.
Na loja, a estação de rádio saltou inadvertidamente. Percebeu-se a interferência e a súbita mudança de música. Bonnie “Prince” Billy soou com clareza: If you have no one, no one can hurt you. E eu ouvi com nitidez: If you have no life, nothing can kill you. Era o sinal para o combate.

Paris # 15

E o súbito encontro desta mulher deitada que sonha. Reconheci-a imediatamente, sem nunca antes a ter visto. Um corpo não é nada, o mundo que há nele é tudo.

Paris # 14



Giacometti no Centro Pompidou.
A súbita vontade de estudar e perceber profundamente como se vai das suas esculturas cubistas iniciais, cheias de uma volumetria que se agita num espaço delimitado, até a esse corpo fino que se desloca, tão frágil quanto decidido e indomesticável. Mas que de alguma maneira este foi o movimento do mundo que nos calhou — eis o que me parece evidente. Tão evidente, que não consigo ainda começar a explicá-lo.

Paris # 13

O colóquio? Torga vivo era suficientemente audível para induzir os termos com que a si mesmo se lia. Mas mesmo que o não fosse, a sua poesia e o seu diário são explícitos no modo como se auto-interpretam: o privilégio da identidade, do território, do “nativo”. É só agora que a leitura, liberta da tutela de um autor vigilante, encontra a pluralidade de Torga. Mesmo quando isso é feito contra o que Torga achava de Torga.

Paris # 12

Interessante o cotejo entre “A origem do mundo” e fotografias erótico-pornográficas da época que o quadro a seu modo reproduz. Parece-me que o lirismo terá consistido na ocultação da biologia mais pregnante (os grandes lábios) e na invenção de uma natureza púbica demasiadamente natural e livre (por contraste com o cuidado do aparo púbico de todas as fotos da época). Penso que será por isso que o quadro pode agora ser relido, perdido o seu impacto provocatório, como um exercício de sensualidade puramente pictórica: a pureza é quase sempre uma montagem sobre a rasura da biologia e a invenção de uma segunda natureza.

Paris # 11

Courbet no Grand Palais.
A fila do costume para os hapenning do costume. Mas não há ainda outro modo de fazer isto.
O quadro do cartaz promocional (imagem acima) não é um Coubert “típico”, mas é o Coubert que mais se aproxima daquele modernismo da arte com que a ideia de museu e de retrospectiva fez a sua aliança com o Grande Público. Para todos os efeitos, o Grande Público está ainda a acomodar-se ao modernismo da arte.
Pouco tempo e ambiente, de facto, para “sentir” as paisagens de Coubert. Não é que elas sejam da alma, que não são, cheias da sua empiria. Mas há nelas uma alma antiga a que não se chega imediatamente.

Paris # 10

O colóquio? Alguma coisa de profundamente estranho e bizarro em ler uma comunicação sobre Torga em francês. Sinto-me como aqueles cantores de ópera que aprendem a pronunciar as palavras de uma língua que não dominam. Aprendem de cor o sentido dicionarizado, calculando onde pôr as emoções segundo a semântica dessa outra língua, mas não têm a certeza em acto da coincidência do afecto com as sílabas exactas, o tom, o tempo. Esperam simplesmente que “funcione”.

Paris # 9

Também em Paris se pode dar a volta dos tristes em pleno coração da cidade. E há aquele desejo absurdo de sofrer que se desprende da noite, das sombras no côncavo alto dos prédios ou de candeeiros outrora vanguardistas e furiosos. Furiosos, eu disse furiosos? Isso foram dois loucos bem apessoados e de discurso torrencial. Com gestos eléctricos como um Sarkozy ainda mais acelerado.

O wc dos injectados

Um cintilograma ósseo, como muitos exames radiológicos, exige uma injecção de um produto de contraste. O Centro de Medicina Nuclear, pertencente ao Hospital de S. Francisco, no Porto, como é de lei, tem na sua recepção a planta das salas. Fica-se a saber que a sala A é uma sala de espera e o compartimento B um WC. Que a sala G é a “Sala de Espera dos Injectados” e o compartimento H o “WC dos Injectados”. São duas salas contíguas, com uma casa-de-banho a cada ponta. Indiferentes à arrumação meticulosa preconizada pelo mapa, injectados, não-injectados, familiares e acompanhantes, misturam-se com aquela inocência de nem saberem sequer que alguém os pensou em separado. Só mesmo um filósofo para fazer disto um post (ou para entreter a angústia com vagas elucubrações sobre panópticos “virtuais”).

Paris # 8

O colóquio? Como sempre, os três tipos de participantes. Os que não pensaram nada. Os que nos resumem o que já pensaram há muito tempo. Os que pensam diante de nós.

Paris # 7

Uma palavra bengala: donc... donc... donc...
Outra palavra bengala: voilá... voilá... voilá...
Ao fim de uns dias é como o arco do triunfo: a vida passa por baixo e aos costumes diz nada.