Santos da casa não fazem milagres

Na próxima quinta-feira, dia 17 de Janeiro, pelas 21.30h, estarei na Biblioteca Pública de Braga, no seu Salão Medieval, para falar de Torga: o legado como problema.
Não será servido um verde de honra e é proibido fumar. Do legado, cada um leva o todo que quiser, a abundância é infinita no que toca às letras. Quanto ao problema — bem, o problema, realmente, é que o conferencista é um chato.

Filmes série B

Millennium Bcp: show me the money!
Alcochete, Ota: follow the money!

Sigam o cherne

Tony Blair já fala francês. Com forte sotaque sarkozyano. Veremos agora quem se desembaraça melhor com o alemão.

I’m not in the mood for aforismos # 3

No amor — sim, ainda mais uma história de amor — não há o sono dos justos, apenas o dormir do consolo, do repouso ou do abandono.

I’m not in the mood for aforismos # 2

Há o fim, o depois do fim, a finalidade sem fim.

I’m not in the mood for aforismos # 1

A lingerie não é nada, o corpo que a transporta alguma coisa, a atitude que a despe tudo.

Crónica política do país e do mundo

Houve Nero e Calígula, houve Roma, e o século XX em nada lhes ficou atrás. Não há surpresas e tudo se compreende demasiado bem. Mas isso nunca foi razão para desistir.

Memórias de quem

Na periferia, 2007 dura ainda. E muito bem, com o piano solo de João Paulo. Uma espécie de autor bissexto (um pouco menos, mas ainda assim...). Mas de cada vez, a música dura os anos suficientes. O título é todo um programa, e o programa é transversal, eclético e profundamente pessoal.

Instalação # 5

Save all the changes.

Instalação # 4

O tempo passa. A promessa de haver nada a dizer.

Instalação # 3

Tens uma cãibra na perna esquerda. Uma dor agudíssima. A tua imobilidade justifica-se. Mas ela não sabe. Não compreende porque não corres no seu encalço. Afasta-se irritada. A irritação aumenta de tal modo que ela é obrigada a parar por falta de ar. Cada um está parado para dar oportunidade ao outro de se mexer.

Instalação # 2

Do lado escuro da cabeça vê-la que sobe na escada rolante. Desaparece. O lado escuro da cabeça continua escuro. Na escada rolante sobem agora outras pessoas. O lado escuro da cabeça continua escuro.

Instalação # 1

A cada deserto o seu oásis. É por isso que em alguns não há.

Do sintoma

Call girl vale enquanto sintoma. Mas não é tanto o retrato dessa corrupção que a todos vai envolvendo e que se refina na exacta medida em que lentamente o país se vai tornando, quer queira que não, mais profissional (aliás, não será por acaso que o filme que o diz tem sólidos valores de produção e larga audiência mainstream — as massas gostam de se ver ao espelho, há nisso o resto de consciência possível e aquela má-consciência da justiça por maledicência).
O sintoma está no cartaz. A dominadora que olha de soslaio não chega a ser fotograma do filme, e cena de dominação é apenas a cena inicial, rápido teatro sem consequências de maior porque de facto não estabelece o tipo de força que caracteriza a personagem da prostituta cara. Os homens, aqui, não são masoquistas, apenas aquilo que predominantemente têm sido enquanto género: os que compram as fêmeas que o seu dinheiro alcança.
De onde vem então este cartaz? É um ponto de chegada. Com os atrasos do costume, o país social chegou à democracia enquanto sistema burguês acabado: o tédio de haver ordem sem moral. Claro que, à superfície, o discurso da moral vende ainda: Cavaco “cita” Salazar, a Igreja Católica cita-se a si mesma, os comunistas citam as suas memórias. Mas os anacronismos são só isso mesmo — anacronismos —, e quando a salvação da alma deixa de importar porque finalmente se percebeu que nem uma nem outra de facto existiam, a democracia começa por ser assumidamente o jogo do gato e do rato entre o contrato da ordem e a esperteza de a tornear. Sem dúvida, é um jogo de muitos milhões. Mas quantos mais milhões estiverem em jogo mais o dinheiro é simples mediação de uma cena mais primitiva: o gozo narcísico da transgressão. A dominadora do cartaz é a encenação consumista e libidinal (e por esta ordem) de uma autoridade sem caução transcendente ou imperativo categórico transcendental. Neste teatro de marionetes, o cliente que pode paga o seu putativo prazer, criando o combate corpo a corpo com a ordem, essa mesma que a formalidade do sistema democrático impede que possa encarnar numa pessoa (é isso a divisão dos poderes). O cliente que não pode revê-se ambiguamente no filme. Em outras épocas, disse-se que a pornografia era o erotismo dos pobres. Hoje, e para Portugal, bem se pode dizer que Soraia Chaves, enquanto mulher fatal, é toda a transgressão a que os pobres podem aspirar.

Com chuva lá fora

e uma sóbria e dura melancolia cá dentro. Um dia, ainda hei-de conseguir explicar esta frase. Ou de como certa música — mas é sempre esta, é sempre esta — ma faz dizer como se a entendesse.

Aníbal Salazar Silva, O moral

“Atentai pois em não obrar escândalo pela desproporção dos vossos salários, pois tudo o que é público será objecto de juízo e comparança. Se houverdes em mente outros artifícios retributivos, que os há em abundância para todos os quesitos, tereis encontrado a justa forma de evitar o mui pernicioso falatar das gentes. Cousa sumamente de evitar é essa, não o esqueçais, pois sempre alguém poderá a partir daí perguntar-se de onde vos vem o lucro, se ele é conforme aos preceitos da justiça e da moral, e se o trânsito da riqueza não deveria ser tão grande quanto o do destino universal de todos os bens. De guiza a poupar-vos tais embaraços, ou sequer a lembrança remota dos perigos de tais perguntas, vos exorto mui encarecidamente às públicas virtudes e garanto perante vós o magistério de todas as coisas privadas. Obrai em conformidade, e sereis salvos.”

Ah, o inverno, finalmente

Tenho esta imagem de há muito. Dois homens parados debaixo de uma chuva torrencial, numa rua com passeio largo, conversando. Seria fácil recolherem-se a um café (há até vários cafés na rua que imagino). Compreendo que se deixem ficar debaixo de chuva, mas não vou explicar porquê. Mas até hoje ainda não percebi de que estão a falar.

Três

Isto não é uma lista de decisões para 2008. É estar de volta ao trabalho. Começa-se à noite, como os homens do lixo.

Dois

Não digas que vais falar menos, deixar que os mortos enterrem os seus mortos — fala menos, deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Ninguém notará a tua ausência nesses funerais.

Um

Não digas que estás farto disso ou que deixaste de acreditar — é um problema demasiado teu e ninguém tem que suportar as tuas opiniões. Diz apenas que há um tempo para tudo, que é tempo de fazeres outra coisa, e que não falta quem seja capaz de fazer o que estavas a fazer — está mais longe dos teus sentimentos mas muito mais próximo da verdade. O que te deveria ensinar outra vez a nunca extrair argumentos desses sentimentos.