A Leitora, no seu infinito particular (LVI)

João Queiroz, s/título

- A tua questão não é o sangue nas unhas, pois não?
- É e não é. Não tenho essa experiência, mas o importante na experiência literal do sangue nas unhas não é o sangue nas unhas, mas o que isso significa. A vergonha de existirmos, de alguma forma. O morrermos um pouco, e ser tentador querer morrer tudo. Ou querermos matar, que é a mesma coisa, ainda que se pense que não. Mas espera, é isto e também não é isto.
- Eu espero.
- Há um tempo em que tudo o que vivemos é visto a partir daquilo que poderemos construir com isso que estamos a viver. Fazer planos, ter um projecto de vida, como se dizia.
- E?
- As coisas falham. É a coisa mais natural do mundo, mas é sempre inesperado. Terrível. Insuportável, de alguma forma. Sempre insuportável. Por isso as coisas mudam. Não é que deixes de fazer planos. Há uma parte da tua vida em que há sempre planos a fazer. Mas há também uma parte da tua vida em que agora vais apenas viver cada coisa por si própria. Acendes a vela para ler o livro, e isso não é parte do plano nacional de leitura. Estás só a ler o livro. Nem sabes se acabarás. Nem isso importa. Cada minuto de leitura é teu. Nada nem ninguém te roubará jamais a felicidade desse minuto. Não a somas para o futuro, não a conjugas no passado.
- Estás-me a falar da nossa diferença de idades?
- Sim e não, Leitora.
- Preferia quando tu citavas Celan: não separes o sim e o não.

Escrever contra # 4 [de certa forma]

— Faulques, o ex-fotógrafo, o pintor de batalhas, confessa que depois de assistir a uma cena de horror o que lhe apetece é fumar um cigarro, beber um copo, fazer amor... É algo que o faz voltar à vida, regressar à normalidade? Algo que Pérez-Reverte também faria?
— São consolos. É como uma aspirina, um analgésico. (Hesita). Não se pode mudar a dor, e drogar-se para a evitar é perigoso, porque a droga tira a consciência. O analgésico não. O analgésico permite saber o que é a dor, suportá-la e seguir caminhando. Se estiver drogado piso a mina. O cigarro, o copo, o que seja... dou tanta importância às coisas que nos fazem suportar a dor: a cultura, o livro. Quando estava em Sarajevo, depois de dias duros com 20 ou 30 mortos no telejornal, com sangue nas unhas, chegava ao quarto, acendia uma vela e sentava-me a ler no chão para que os franco-atiradores não me vissem pela janela. Ficava num canto, abria um livro e lia Stendhal, A Cartuxa de Parma, A Montanha Mágica, de Thomas Mann, O Leoprado, de Lampedusa, e o sangue das unhas tornava-se suportável. A palavra é tornar essa realidade suportável, chegar ao final e continuar suportando. O mundo não resiste, não há lucidez e a falta de lucidez torna as coisas insuportáveis... Se é Deus que está a organizar isto quero apanhá-lo e dizer “adonde está Dios que me voy a cagar en su puta madre!”. Quero organizar o caos, entender a sua simetria. Essa é a questão. É muito difícil de suportar. Por isso faz falta o cigarro, o amigo, o amor, o sexo, a cultura, o quadro... Florença.

Entrevista de Artur Pérez-Reverte ao Diário de Notícias, 13 de Abril de 2007

Paisagens possíveis # 6

O culpado, disse ele, dando-lhe o cd que ela pôs a tocar no portátil. Sorriram ambos. Depois ele foi para a casa de banho, mas a música sobrepunha-se à agua do chuveiro. Ela ia passando as imagens da sua pequena máquina digital. Desde a saída do restaurante todos os passos estavam registados, como se tivessem entrado num outro tempo. O que sabiam um do outro era recontado a grande velocidade, no mais recôndito da decisão que tinham tomado. Tudo tinha agora um outro sentido, e estavam a ser guiados para ele, para esse desconhecido a que não opunham resistência. Não ficaram naquele motel, decidiram-no também em silêncio. Retomaram viagem e foi a canção quem decidiu. Quando ouviu “e por vezes num segundo se evolam tantos anos”, ela disse: estes somos nós, põe outra vez. Quando a canção acabou estavam em frente de um hotel. Olharam e decidiram em silêncio. Ele beijou-lhe o ombro no elevador. Foi o primeiro beijo. Não iriam esquecer. Mas isso não precisaram de o decidir.

Paisagens possíveis # 5

O verdadeiro culpado, disse ela, mostrando-lhe o visor da pequena máquina digital. Riram ambos. Depois ela veio fumar para a janela. Esticava o cabelo entre dois dedos, o fumo tomava o seu tempo a sair. Ele ia passando as imagens. Desde a saída do restaurante todos os passos estavam registados, como se tivessem entrado num filme. Como se aquela história fosse de outros, eles apenas os actores contratados. A culpa fora do anúncio. Estava por baixo do menu, um folheto de viagens para o Brasil, tinha um dístico de um motel do Rio de Janeiro: “Mais vale à tarde do que nunca”. Ele riu-se, “não há como os brasileiros”, deu-lho a ler. Ela fotografou, ampliando cuidadosamente. Ele já estava a olhar pela janela, sério. Do outro lado da rua havia um motel, da mesma cadeia do restaurante, mas nenhum deles o notara até aí. Ela seguiu-lhe o olhar. Decidiram sem palavras e sem olharem um para o outro. Ele agarrou-lhe a mão que segurava a câmara, ela libertou dois dedos para apertar um dele. Já tinham decidido.

Paisagens possíveis # 4

Dormiu mal. Acordou muitas vezes e encontrou-a sempre ali. Respirando. Às vezes acordada também, interrogando-o em silêncio, consentindo. Tocavam-se, beijavam-se ao de leve, adormeciam de novo. Mas via perfeitamente o táxi que vinha buscá-la, a mala breve numa mão, o gesto discreto da outra. Haveria de dormir com a sensação forte de uma presença e dizer peremptório ao seu sonho que não havia lá ninguém. Só a luz que vinha de fora, da cidade em volta, e ruídos dispersos. Ficaria quieto, enovelado. Acordaria cansado.

Paisagens possíveis # 3

Dormiu mal. Acordou muitas vezes e encontrou-o sempre ali. Respirando. Às vezes acordado também, sorrindo por dentro, olhando-a. Tocavam-se, beijavam-se ao de leve, adormeciam de novo. Mas via perfeitamente o quarto a recuar, ele a esvanecer-se. Haveria de acordar com a sensação forte de uma presença e não haver lá ninguém. Só a luz que vinha de fora, da cidade em volta, e ruídos dispersos. Esticaria o braço, tacteando nada. Adormeceria de cansaço.

Paisagens possíveis # 2

Ele chamava-lhe gestos definidores. A forma como ela fechou os olhos quando lhe tacteou o rosto. Não importava o que isso pudesse querer dizer: a intenção dela ou o que ele julgasse. Ela tinha desenhado uma coreografia, interrompido o olhar, iniciado a história do tacto.

Paisagens possíveis # 1

Ela chamava-lhe gestos definidores. A forma como ele rodou, os pés para a cabeceira, e deitou o rosto nas suas pernas, ficando a olhá-la lá de baixo. Não importava o que isso pudesse querer dizer: a intenção dele ou o que ela julgasse. Ele tinha desenhado uma coreografia, interrompido a normal proximidade dos corpos depois do amor, iniciado a continuação da história.

Escrever contra # 3

Simples coincidência. Net em baixo, afazeres da vidinha, excesso de cansaço — não abras o computador. Mesmo se haveria dois exemplos maiores de contra a falar: o cartaz do Gato Fedorento, e o concerto portentoso de Bonnie ‘Prince’ Billy no Theatro Circo, na última quarta-feira. Mas não abras o computador.

Escrever contra # 2

Fecha o computador. Ouve o verde. Vê o verde. Cheira o verde. Ouve contra o verde. Vê contra o verde. Cheira contra o verde. Não abras o computador. Não escrevas ainda.

Escrever contra # 1

“O que acontece quando a realidade se torna ficção?
Como se descreve a realidade? O que se passa na nossa cabeça? Será que estamos sempre dentro do cânone da ficção? O que é a ficção do ponto de vista da experiência? A violência ou a justiça farão parte da ficção? (...) Vamos ler, escrever e tentar compreender por que razão escrevemos contra. Vivemos contra. Somos contra.”

Escrever contra, workshop que Mafalda Ivo Cruz vai realizar na Casa d’Os Dias da Água, de 9 de Abril a 2 de Maio, às segundas e quartas, das 17h às 20h [via Público de 16 de Março de 2007, Ípsilon, p. 45].

Boa educação # 9

Atenção ao degrau. Cuidado... Ui, magoou-se muito? Ah, desculpe, não me fiz entender, referia-me ao degrau do seu argumento, você ia subir sem ponto de apoio lógico.

Epifanias # 63

Nota de honorários: pagarás com a vida.
E não digas que há nisso qualquer mistério, porque não há. Há só que pagar. E tu sabes. A conversa do dom são aquelas palavras de circunstância que trocamos com o senhor da tesouraria na altura da liquidação final: o que faríamos com aquilo se não tivéssemos de lho passar para as mãos.

Epifanias # 62

Seguir a sua vida? Que tolice. Não há nenhuma vida para seguir. A vida é que nos segue a nós. O que já é um eufemismo para dizer que nos empurra amavelmente para fora de palco. Às vezes até nada amavelmente. Mas quanto àquilo que o escritor ou o pintor precisa, que não haja enganos: basta-lhe seguir a sua derrota. Que naturalmente não tem motivos nenhuns, quando muito alguns pretextos.

Epifanias # 61

O escritor estúpido ou o pintor estúpido procura sempre motivos, mas do que ele precisa é só de si próprio, precisa só de seguir a sua vida.
Kurt Hofman, Em conversa com Thomas Bernhard, Assírio & Alvim, 2006, p. 32

Os trabalhos e os dias (20)


Todos estes dias. O verso que veio de tão longe. E por vezes, num segundo se evolam tantos anos. Num momento extático a gente compreende. Para logo a seguir saber de ciência certa que por mais longa a vida, sempre o sentido correrá à nossa frente, evolando-se nos anos que não sabemos bem para onde foram, mas que deixamos partir sem mágoa, sem arrependimentos, sem desejos de eternidade.

WC Lectures # 10

"Esta criaturinha é filha de gente humilde que vive aqui e nós compramos-lhe a roupinha, os brinquedinhos, tudo, porque a verdade é que lhe queremos como se fosse da nossa família."

Onde é que eu ainda agora ouvi isto? Onde foi, onde foi?.. Exactamente! Ainda bem que não fui o único a ouvir...

automatic sms love message # 17

ok

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dp falamos diso. daki a mt tp. daki a mt tp mesmo.

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n cmg

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---------

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roger and over

automatic sms love message # 12

fuk and fuk YOU

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n acredito nisto!

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xg :)

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ok

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sim...

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eskece (:

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n complikes!

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grrr...

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quando?

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onde?

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vens?

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onde tas?

Os trabalhos e os dias (19)

Quanto trabalho para conseguir limpar um pouco a secretária. Mas já vejo com alguma nitidez a fila de coisas que tenho para fazer daqui até Dezembro. Vai engrossar, é incontornável. A gente jura sempre que não, recusa mil e uma coisas, mas acaba comprometendo-se com mil e duas. E nem vale a pena perguntar porquê, que lá no fundo dos fundos a resposta incomoda o seu tanto.

A Leitora, no seu infinito particular (LV)

Jorge Molder

Não entres. Não saias. Não fiques. Não partas.

A Leitora, no seu infinito particular (LIV)

Jorge Molder

- Não sabes isso, pois não?
- Não. Ninguém sabe. E de qualquer maneira, saber não é a melhor palavra para isso.
- E como é que sabes que ninguém sabe?
- Porque ainda se pergunta.
- Mas podia-se ter desistido de perguntar precisamente porque ninguém sabe.
- E perder uma oportunidade de fazer uma pergunta sem resposta? Nunca. É contra-natura. Está nos genes. É mais antigo que...
- (interrompendo) Já percebi.
- Mas eu não.

A Leitora, no seu infinito particular (LIII)

Jorge Molder

- Na mesma?
- Sim.
- Não é bom.
- Arranja-se uma maneira.
- Alguma ideia?
- Não.
- Continua a não ser bom.
- Mas se houver ideia, já haverá uma maneira. Isso é bom. Sabe-se onde procurar.
- Tu sabes onde procurar?
- Não.
- Continua a não ser bom.
- Mas continua, isso é o importante.
- Continuar?
- Sim.
- Tens a certeza?
- Não.

A Leitora, no seu infinito particular (LII)

Jorge Molder

- E?
- Nada. Era só isso.
- Só isso?
- Não sei mais. Devia haver mais?
- Não. Mas só isso?

A Leitora, no seu infinito particular (LI)

Jorge Molder

- Se tu viesses...
- Estou cá.
- Quero dizer: se tu viesses.
- Dessa maneira não sei.
- Sabes.
- Não sei. Não te ia mentir sobre isso.
- Não me estás a mentir, mas sabes.

A Leitora, no seu infinito particular (L)

Jorge Molder

- Sabes isso, não sabes?
- Sei. Mas saber é capaz de não ser a melhor palavra para isso.
- Não é, de facto. E não sabes mesmo, pois não?
- Nunca se sabe.
- Hum.

WC Lectures # 9

Na verdade, os intelectuais não são seres assexuados. Têm é mais órgãos sexuais do que o comum dos mortais. Felizmente, algumas mulheres sabem disso.

WC Lectures # 8

Realmente, que [tempo] presente tão inapresentável.
Quino no lugar da Mafalda, eis a fórmula.

Baudrillard # 3: segue a existência

Ana Hatherly, Labirinto de letras

Lembro de cor um dos episódios descritos num dos volumes de Cool Memories. Há algures na América um parque de diversões. Um imenso labirinto, que se prolonga por hectares e hectares, e de onde é impossível sair. As pessoas andam por lá o tempo que quiserem. Quando desistem, chamam o helicóptero para as ir buscar e seguem a sua existência.
O episódio ficou-me também como uma excelente imagem do pensamento de Baudrillard. Alguém que nos sabota as evidências mais comezinhas instalando-nos num gigantesco labirinto de onde é impossível sair. Em cada esquina há um dado novo e surpreendente, mas que se recusa a fazer sistema com o que quer que seja. Não há saída. Quando se fica cansado de pensar, para-se de escrever ou fecha-se o livro. Segue a existência. É tudo.
E no entanto, não é tudo. Porque a existência que segue não é já a existência que seguia antes da experiência do labirinto. Uma diferença feita de melancolia seca, alegria implosiva e soberana indiferença a nós próprios.
Na minha biblioteca privada, Baudrillard é Bernardo Soares re-mix. Eu gosto.

Baudrillard # 2: vendo

É exactamente assim que o lembro: este o rosto, e o preto da indumentária. Terá sido no Instituo Franco-Português ou na Gulbenkian, anos oitenta, pouco importa. Não fui para o ouvir, raramente vou por isso, mas para vê-lo falar.
Ele estava-se absolutamente nas tintas para a pose e para o contentamento de si. E também para o pensamento a pensar-se a si mesmo. Tinha a ironia da fórmula e a secura da futilidade da fórmula. O conforto de não ser bonito nem elegante. E a inteligência de não jogar no charme nem na teatralidade.
Poder-se-ia conversar com aquele homem muito tempo sem trivialidades nem filosofias. E o silêncio depois disso seria natural como fumar um cigarro ao cair da tarde.

Baudrillard # 1: lendo

Cheguei a Baudrillard na altura de Simulacros e simulação. Fez-me bem. Apesar de tudo, havia demasiado realidade, demasiado sistema, demasiado confiança na filosofia que frequentava, mesmo que derridiana ou deleuziana. Ficou-me um tom, com o seu quê de francês, é certo — jogo conceptual, snobismo do diferente —, mas também com uma absoluta e salutar e feroz crítica do que poderíamos chamar de espírito de gravidade — naquele sentido em que Derrida ou Deleuze, sendo obviamente imensos, são também de uma gravidade incontornável.
O Baudrillard dos três volumes de Cool Memories pertence ao meu cânone privado — no duplo sentido do meu gosto pessoal e de que eu deveria ter escrito aquilo (riam lá à vontade a ver se eu me importo...).
O Baudrillard final levou-me a reler Húmus de uma outra maneira — mas como já está publicado, não preciso de explicar... Aliás, isto não é para explicar nada.
Depois não houve mais Baudrillard. Como se tivesse mudado de cidade e lhe tivesse perdido o rasto. Os pensamentos e autores não são diferentes dos amigos que temos: mais chegados uns, um pouco perdidos outros.

Cuidados Paliativos e Eutanásia

A emergência dos cuidados paliativos como especialidade médica e como direito básico de saúde fez-se, em grande medida, para travar a emergência desse outro direito humano básico que é o de poder determinar, querendo, a altura e os termos em que se deseja morrer.
Como é óbvio, as coisas não têm que ser colocadas nesses termos. Do lado dos defensores da eutanásia, isso é claro: reivindicam ambas as coisas, cuidados paliativos e possibilidade de eutanásia, e reivindicam sobretudo o direito de decidir quando é que, no seu entendimento, os cuidados paliativos já não lhes são suficientes para uma vida digna.
Do lado dos defensores dos cuidados paliativos, há muitos que não querem separar a introdução dos cuidados paliativos de uma cruzada anti-eutanásia. O perigo desta posição é poder resvalar para um certo fascismo do sentido. Isso ficou bem patente no discurso de Isabel Galriça Neto: depois de sublinhar que a intervenção ao nível dos cuidados paliativos é uma intervenção técnica, que a boa vontade, o amor e o carinho, por si sós, não bastam — o que me parece obviamente acertado —, teve esta formulação assustadora: a intervenção ao nível dos cuidados paliativos é também uma intervenção técnica ao nível do sentido existencial.
Para quem passou o debate todo a dizer que se as pessoas tivessem cuidados paliativos sérios nunca pediriam eutanásia, percebe-se o que significa esta intervenção técnica ao nível do sentido: doutrinação sobre o sentido do sofrimento. Para quem não se deixe convencer, o diagnóstico é rápido: depressão. Pela cabeça de Isabel Neto não passa a ideia de que alguém, no pleno uso das suas faculdades, peça para morrer. Isabel Neto só entende o Outro quando visto ao espelho das suas convicções — é isto o fascismo do sentido. O fascismo político é quando alguém como Isabel Neto pudesse determinar que nem há sequer que discutir a questão, porque o simples facto de colocá-la releva já da depressão social, da cultura de morte e outras coisas que tais.

Publicidade Institucional

Hoje, na RTP2, a partir das 14h, no programa Sociedade Civil, debate sobre Eutanásia com Laura Ferreira dos Santos, filósofa, Isabel Galriça Neto, médica de cuidados paliativos, e Carlos Pinto de Abreu, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados.

Epifanias # 60

Sol quente. Três máquinas de roupa a secar: miudezas, lençóis, toalhas. O gesto de dobrar e cheirar antes de guardar. Fechar os olhos para ser só o cheiro. O sol à mistura com o sabão natural no silêncio escuro do quarto. Os pequenos prazeres da vida material. Ou da vida animal que é nossa.

A Leitora, no seu infinito particular (XLIX)

...
then the sun came out of the clouds
and charged up the satellites
we all got our energy back and started talking again

it’s the blessed routine
for the good the bad and the queen
walking out of dreams with no physical wounds at all
...

casmurrice

não me conformo, não há direito, eu sei lá, assim não brinco, pronto
mas por outro lado não queria deixar de ser dos primeiros gajos na blogosfera (serei? hum, palpita-me que sim...) a entrar no guinesse das irrelevâncias por assinalar o passamento de um blog
feito isto, a verdade é que não me conformo, não há direito, eu sei lá, assim não brinco, pronto

Boa educação # 8

A minha inteligência teria grande prazer em encontrar-se com a sua inteligência. Diga-me onde a deixou que eu irei lá ter com ela, não me custa nada. A sério.

Psicopatologia da vida quotidiana # 24

Avaliação da condição física no ginásio. Depois de me pesarem, medirem e sondarem a uma espécie avançada de raio-X, ele & ela, técnicos, propõem-me: programa de queima de gorduras, por excesso de matéria adiposa; programa de cuidados metrossexuais, por excesso de matéria pilosa.

WC Lectures # 7 [raccord]

Chove e, furtivamente, com o som
de fundo dos concursos e doutras histórias
televisivas, abril volta a ser o
mais cruel dos meses e a alegria
parece reduzir-se a um cigarro que
se partilha em silêncio com os vizinhos.

Carlos Bessa, Dezanove maneiras de fazer a mesma pergunta, Teatro de Vila Real, 2007, p. 21

WC Lectures # 6

Lisboa, cidade-estado

Re-aparição de Carlos Leone: Lisboa, cidade-estado. Seria interessante um Partido Socialista com esse pensamento...
Mas temo que Lisboa seja menos a cidade e mais o Estado. Sócrates está bem, logo o Partido está bem. E que não fosse Sócrates nem este o Partido, a coisa seria a mesma — foi a mesma. Ou não foi?
Em todo o caso, sou um feroz adepto das causas perdidas.

WC Lectures # 5

Quino muito preocupado com monstruosidades alimentares. Por causa dos mesmos pobres de sempre: ou morrem à fome, ou morrem envenenados. Mas com esta particularidade irónico-suicida: no envenenamento, morrerão também os que lucram com o veneno. É o Manelinho num dos paradoxos finais do capitalismo... [finais? oh santa ingenuidade, coisa ruim não morre; ou só morre no fim dos tempos, como é sabido da teologia, e o fim dos tempos está muito para lá dos nossos tempos]

WC Lectures # 4

A Leitora, no seu infinito particular (XLVIII)

- Vais-lhe dizer da tua perplexidade?
- Claro. Se a coisa fosse só entre blogs e jornais, é como o outro...
- Queres tu dizer, nas tintas.
- Isso. Agora o cunnilingus...
- É demasiado importante para se meter entre aqueles dois.
- Uma desfeita, na verdade. E depois há a questão de princípio.
- De princípio?
- Não invocar o nome do cunnilingus em vão.

Os trabalhos e os dias (18)

“Bem, então já eu escrevia romances, bem longos, assim umas trezentas páginas, coisas realmente impossíveis, não é? Um chamava-se Peter vai à cidade, e já eu estava na página cem e ele ainda continuava na estação de caminho-de-ferro. Pois bem, nessa altura acabei, o plano estava errado. Ele ainda nem sequer tinha entrado no eléctrico e já lá iam cento e cinquenta páginas.” [Kurt Hofman, Em conversa com Thomas Bernhard, Assírio & Alvim, 2006, p. 51].

Recomeçar, a ver se consigo acabar. Esta parte. Eu sei, nunca se acaba. Nós acabamos, mas o que fazemos não. Começamos uma nova coisa, e é sempre a velha coisa em transformação. Mas esta parte. Acabar esta parte. Ao menos esta parte.

Multiplex 28

O Bom Pastor, Roberto de Niro

- Pensei que o filme fosse outra coisa. Esta é a mais lógica abordagem da CIA: uma agência de espionagem criada segundo um plot que alimenta sempre o segredo em todas as suas dimensões.
- Depois de Le Carré, é chover no molhado.
- Também me parece. Salvo aquele diálogo “étnico”. Os negros têm a sua música, os italianos têm a família, os irlandeses têm a sua pátria e os brancos americanos...
- ... têm os Estados Unidos da América. Todo os outros estão lá de passagem.
- Uma verdade inconveniente?
- Mais uma farpa...
- E quando veremos um filme mesmo filme, este ano?
- Isso agora...

Respirar

pista dois, segundo disco

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 5

Deixai os mortos enterrar os seus mortos.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 4

O poder corrompe. E o poder absoluto corrompe absolutamente. Nada de novo nisto. Já todos vimos o suficiente para confirmarmos a regra e admirarmos as excepções.
Num órgão colegial, o poder é da maioria dos votos. Lugar também para a corrupção das alianças de circunstância e as manobras tácticas. Nada de novo nisto.
Mas o mais antigo mesmo, talvez tão antigo quanto a humanidade ela própria e por isso o mais espantoso, é o poder que cada um toma da importância de si mesmo e das suas ideias. O poder de si corrompe moralmente. E o poder absoluto de si é o espectáculo da corrupção moral que envergonha todos os que são obrigados a presenciá-lo.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso #3

Os que determinaram que hoje seja aquele dia.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso #2

Os que sabem que hoje é aquele dia, mas têm outras prioridades.

PS: Depois não digam que eu não avisei.

Aquele órgão só de professores doutores por extenso #1

Os que pensam que hoje ainda não é aquele dia.

PS: Depois não digam que eu não avisei.

Oscares # 2 (não censurado)

Não sei como aconteceu. Mas o post que saiu não foi o que mandei para o blogger. Naturalmente, o blogger tem mais que fazer do que saber português e preocupar-se com manchas. Mas que aconteceu, aconteceu. Bruxedo, na certa. Reponha-se a literalidade da coisa.

Martin Scorsese, por Raging Bull, pelo De Niro e pelo Di Caprio.
Forrest Whitaker, por Gost Dog: the way of the samurai e, vá lá, por The last King of Scotland.
Helen Mirren, por Prime suspect e, um pouco mais ali abaixo, pelas nádegas postiças e o andar de pato de The queen.

A Leitora, no seu infinito particular (XLVII)


Estou a começar a gostar de Lisa Germano. In the maybe world. Hei-de falar disto devagar. Tão devagar que talvez não se chegue a ouvir. O que seria quase perfeito. Quase.

Epifanias # 59


Na minha respiração
fogo e neve, estou vivo.
Assim tu vens com o fogo,
assim vens tu
amanhã com a neve.

Johannes Bobrowski, Como um respirar
Trad João Barrento, Cotovia, 1990, p. 34-35

Oscares # 2

Martin Scorsese, por Raging Bull.
Forrest Whitaker, por Gost Dog: the way of the samurai e The last King of scotland.
Helen Mirren, por Prime suspect e The queen.

Oscares # 1

Continua tudo muito previsível. Só ganham os que foram nomeados. Não há surpresas. Isto não ajuda ao show bizz. Nem parece americano.

Multiplex 27

Blood diamond, Edward Zwick

- Uma coisa é ler sobre os meninos-soldados, outra coisa é ver no filme como se estivéssemos a ver na televisão uma reportagem em directo.
- O poder da imagem.
- No resto, pouco mais.
- Às vezes até de menos. A não ser o Di Caprio.
- Sim, o Di Caprio. Finalmente adulto. Quer dizer, estragado. No rosto e na alma. Uma maldade plausível, um cinismo plausível, uma réstia de pureza plausível.
- Lembras-te dele em Romeu + Julieta?
- Magnífico. Mas a questão era se seria capaz de deixar de ser esse adolescente.
- Agora já não é questão.

Estilos de vida

Há que reconhecê-lo: o Conselheiro Espada é consistente. O seu conservadorismo tem uma obstinação lógica impecável e uma estratégia clara: trata-se sempre de ajustar tudo a princípios morais, mas nunca enunciar claramente esses princípios como princípios, mas apenas segundo esse conceito de “sociedade aberta” que é nele o mot de passe para tudo o que tem a defender.
Por exemplo, a crónica deste sábado no Expresso. O Conselheiro Espada viu uns números britânicos que lhe dizem que o Estado apoia mais as famílias monoparentais do que as outras. O Conselheiro Espada viu também uns números britânicos que lhe dizem que entre os filhos das famílias monoparentais há mais percentagem de delinquência, droga e outras coisas más para a sociedade.
O Conselheiro Espada não nos diz onde estão esses números, para que a gente possa ver se há aqui algumas nuances que devessem ser consideradas. O Conselheiro Espada extrai conclusões. Conclui que os estilos de vida não têm todos o mesmo contributo para o bem social. O Conselheiro Espada não nos explica porque é que acha que uma família monoparental é um estilo de vida (a viuvez é um estilo de vida? ser divorciado é um estilo de vida que se possa colocar na mesma linha de escolha entre permanecer solteiro ou casar-se?), limita-se a afirmar que o estilo de vida monoparental é mais nocivo para a sociedade. Logo, conclui o Conselheiro Espada, o Estado não devia dar mais dinheiro às famílias monoparentais do que às outras.
O Conselheiro Espada não o diz para evitar o escândalo, mas deixa-o subentendido: a função do Estado não é acudir aos problemas, mas premiar os bons estilos de vida. E bons estilos de vida são aqueles que o catolicismo vigilante mas nunca claramente afirmado do Conselheiro Espada diz que são bons estilos de vida. A isto, o Conselheiro Espada chama sociedade aberta. E o Popper, coitado, bem morto e enterrado, não é para aqui tido nem achado.
Um destes dias veremos este singelo discurso arredondar-se ainda mais nas palavras sempre profissionalmente políticas do Presidente Cavaco. Ele há os pobres e desempregados, e para esses o Presidente Cavaco sempre é mais social-democrata do que o seu liberal Conselheiro. Mas depois há os estilos de vida, e aí são ambos fraternalmente católicos, apostólicos e romanos. Quer dizer, totalmente abertos às regras bem restritas desse clube.

O charme discreto dos filmes-mosaico,

poderia dizer-se a propósito de Babel.
Mas o que se diz, parecendo dizer-se isso, é um pouco diferente: “as pessoas gostam de Babel porque é um filme puzzle — ou melhor, porque apresenta problemas globais, sociais e políticos complicados como um puzzle que tem uma solução” (Jim Ridley, crítico do jornal Village Voice, no dossier do último Ípsilon, sexta-feira, 23).
Babel é um puzzle que tem uma solução?!
“A mensagem de Babel é que um mundo que parece temível na sua aleatoriedade até faz sentido, se se conseguir ver o desígnio maior” (o mesmo Ridley no mesmo local).
Vê-se um desígnio maior em Babel?! Curioso, só dei por ligações impulsionadas pelo acaso e uma espécie de cubo das sensações da dor.
Donde virá então o evidente charme dos filmes-mosaico? Arriscaria dizer que da forma como revêem a velha ideia trágica do fatum. Não é mais possível às sociedades hiper-racionalizadas, tecnologizadas e disciplinadas de hoje deixar de ver a irracionalidade e a arbitrariedade que (continua a) move(r) os destinos individuais. Terror e piedade voltam a ser necessários como forma de identificação com o humano, até porque o quadro explicativo e securitário de ordem religiosa se esboroou. Mas, por outro lado, o destino tem costas menos largas, ou lê-se melhor a desordem política que o faz ser certo e determinado destino. Assim, o fatum de hoje não precisa de deuses ex-machina, mas de seguir o aleatório que faz com que os gestos de uns interfiram na vida de outros. Gestos que estão para aquém da moral, mas que geram situações em que se impõem decisões morais — e também nisto o fatum de hoje se distingue. Édipo não é culpado, isso sabemo-lo hoje. Mas a sua situação não é menos problemática por isso, e há decisões a tomar.

Inquéritos & problemas dermatológicos

Nunca se acabará de escrever sobre o poder das palavras. Fiquei a saber que “aprenderam”, por exemplo, é palavra que pode gerar coceira. É certo que não há um sistema imunitário igual ao outro, mas lá que a coisa me parece um bocadinho idiossincrática, isso parece... É que o vírus, bactéria ou lá o que seja que provoca essa coceira é omnipresente na espécie ocidental. Se olharmos de “cima”, chama-se sociedade do conhecimento, sociedade de auto-reflexividade generalizada, etc; se olharmos de “baixo”, chama-se escolarização obrigatória, long life learning, etc. "Aprenderam" significa que há mediação e que temos consciência dela. E que num determinado período essa mediação se cristalizou em torno do livro e dos jornais (esses que Hegel disse serem a oração matinal dos tempos modernos). Tudo indica que esse período está a acabar. E como em todos os períodos que vão terminando, há já alguns que vivem segundo as regras que provavelmente presidirão ao período seguinte. Também tenho para aí umas teorias sobre isso, mas a farmácia deve ser usada com ponderação, de modo que para já ficamos assim: votos de rápidas melhoras.

Epifanias # 58

Os simples, os puros, os humanos. Os que nunca subiram ao pedestal. Os que nunca caíram na ignomínia. Os que afastaram a vergonha da existência. Os que nos deram a música que talvez não merecêssemos.

Multiplex 26

Cartas de Iwo Jima, Clint Eastwood

- Sim, melhor que A bandeira dos nossos pais. Mas com a sensação de que o problema de ambos os filmes é que Eastwood pegou num género que se tinha fechado de vez com aquele filme do Malick...
- The thin red line...
- Sim, esse, definitivamente esse. E contudo, Eastwood ficou a um passo de qualquer coisa que seria realmente genial.
- Oh, estes quase-factuais... Não sei se é bom caminho para a crítica.
- Também não interessa. Tudo o que se passa nas grutas, sobretudo os diálogos, é excelente. As cenas de guerra é que estão a mais.
- Ah, compreendo...
- Os tiros, aqui, deviam ser apenas os dos suicídios e da morte dos prisioneiros.
- No limite, querias um filme de guerra sem tiros, mas no campo de batalha.
- Por exemplo. Um filme de guerra depois de todos os filmes de guerra. Isso é que seria acrescentar qualquer coisa ao cinema.
- Assim, é apenas um excelente filme.
- Apenas, dizes bem.

Inquéritos # 2

- Mas quem é o Harpo?
- Ora, quem é o Harpo? Isso é pergunta que se faça?
- E se for waht’s in a name?
- Está melhor, mas para o caso é na mesma ocioso.
- Fico-me pelo já leste o Harpo, é isso?
- Era aí que já tínhamos ficado. É um lugar como qualquer outro, mas é um bom lugar.
- Subscrevo, mas sem o mas.
- Seja, sem o mas.

Inquéritos # 1

- Leste o Harpo, Luís?
- Li. E tu, Leitora?
- Também.
- Excelente. Se não me engano nas contas, isto faz com que neste blogue 200% tenham lido o Harpo.
- É uma percentagem impressionante.
- Sobretudo, é a percentagem a partir da qual se devem colocar outras questões.
- Ah, percebo. De que falamos quando falamos de leste o Harpo.
- Ciência do singular, minha querida amiga. Ciência do singular.

Perguntas (com alguma perplexidade)

Não há como os inquéritos para darem consistência àquilo que difusamente o dia-a-dia nos vai deixando entrever. Sobre a não-leitura de livros dos nossos estudantes universitários, com preponderância para os alunos de ciências, confirma-se a mudança de mentalidades de toda uma geração: um curso já não é uma tarefa de aprendizagem cultural e humana, ao mesmo tempo que uma preparação para a vida profissional que se deseja, um curso é um percurso técnico de aquisição de skills (o conceito continua a soar-me estranhíssimo), que corre paralelo à vida de cada um, e que serão relevantes ou não conforme o emprego que se arranjar.
A questão é: se os universitários não lêem, quem lê? É que me parece razoável dizer-se que hoje se lê mais, embora me pareça também razoável dizer-se que não se lê na mesma proporção em que se edita entre nós. Este "razoável" é enganador?
A outra questão é: se os jovens urbanos até aos trinta anos votam maioritariamente à esquerda e apoiam as causas ditas fracturantes, onde aprenderam eles isso? Haverá já questões de sociedade e cultura que prescindem dos livros e mesmo de um tratamento mais profundo dos jornais? Bastará o Prós e Contras e o eco disso na conversa do dia-a-dia?

Multiplex 25 – take three


- Fiquei a pensar do que se lembrarão eles na hora da morte.
- Sim, um calor no corpo, um vermelho, uma chama: o que eles eram, o que era o verão neles, esse tempo.
- Mas já ninguém lembra assim, Luís. Nunca esse tempo. Lembrarão o calor, o vermelho, a chama, mas sem tempo, como mistura de tempos, do que foi e do que não foi. Nunca esse tempo. Parece que paraste no Proust...
- Continua tu, Leitora. Continua tu...

Tolerância de ponto



Multiplex 25 – take two

- Claro que ela tinha que encomendar aquele fato de banho vermelho, Leitora. E claro que tinham que fazer amor num lugar quente. São requisitos de qualquer história assim, mas há lá mais do que isso.
- Desejo infantil de continuidade entre todas as coisas? Narcisismo primário, como força motriz de tudo aquilo que chamamos amor?
- Sim, desde que se entenda infantil como aquilo que temos de perder em troca de nada.
- Em troca de nada?
- Lamento, mas a maturidade e o estado adulto e tudo isso que é assaz louvável e civilizacional é nada perante a força desse desejo infantil.
- Mas eles renunciam de bom grado... Quer dizer, chocam de encontro à realidade e aprendem...
- Claro. O medo da morte é maior. É sempre maior. E vamos esquecendo, fazendo por esquecer para não ser insuportável lembrar. Mas de que se lembrarão eles à beira da morte?
- Não me vais dizer que se lembrarão um do outro, pois não?
- Não, não vou dizer isso. Mas lembrar-se-ão de um calor no corpo, de um vermelho, de uma chama: o que eles eram, o que era o verão neles, esse tempo.
- Bom, pelo menos seria assim que tu o escreverias...
- Sim, se soubesse dizê-lo, seria isso que diria.

Multiplex 25


- É a paz retrógrada, como muito bem disse o João Paulo Sousa.
- E o essencial fica dito com isso, também acho que sim. E contudo...
- Contudo?..
- Penso naquela sessão do clube de leitura ou lá que é aquilo, em que discutem Madame Bovary. Não será por acaso que o livro é Madame Bovary: a mulher sem saída, que procurou alguma coisa em vez de suportar sem mais uma infelicidade baça.
- Mas achas que para aqueles personagens há qualquer coisa de idêntico ao sem saída da Madame Bovary?
- Acho que para aqueles personagens não há nada que objectivamente seja sem saída, mas cada um deles tem de descobrir e traçar os seus limites. E onde há limites, e há-os sempre, há uma estrada que é sem saída.
- Isso é que é metafísica rodoviária, Luís! Tudo se resumo a escolher o beco sem saída em que queremos envelhecer e morrer, é isso?
- Se não for escolher, pelo menos aceitar o que nos calhou. Porque se pode sempre recusar. Em Madame Bovary há o óbvio empecilho do tédio pequeno-burguês e a dependência económica dela. Aqui não. Mas as coisas não melhoram substancialmente, pelo menos naquela parte em que se deseja uma coisa diferente.
- Estás a falar da outra vida? Do desejo ilusório de uma outra vida?
- Em parte. Lembras-te dele lhe dizer que a beleza é sobrevalorizada?
- E ela pensa que foi uma resposta estúpida, porque só uma pessoa que dá a beleza por adquirida pode dizer uma coisa dessas.
- Pois é o mesmo com a vidinha. E ninguém ali tem imaginação suficientemente realista para querer uma vida que possa ser a mesma vidinha noutro lado e com outras pessoas. A mesma vidinha, nada de diferente, só que noutro lado e com outras pessoas.
- São todos little children.
- O autor é que escusava de moralizar no fim. Mas isso também é próprio de little children. Se não moralizasse, seria, sei lá?..
- Carver?
- Por exemplo! Mas enfim: ele moraliza, a gente lê para cá disso.

Boa educação # 7

Por favor não deixem que o bom-senso vos leve a tomar decisões razoáveis e céleres. O País não está ainda preparado para essa eficácia. Obrigado.

Dar a volta à coisa # 7

Podes suar, mas cuidado com as estopinhas.

Como um tapete todo sujo # 5. Conhecimento


Um dia Ela escreveu: hoje vi esse filme pela quinta vez. Não é bem o filme que me interessa, mas o facto de que o poderia ter feito eu, sendo também a sua personagem. Tão estranho que aquilo que não parece ser a nossa vida seja a verdade mais simples da nossa vida. E que sejam outros a contá-la e a vivê-la.
Um dia Ele escreveu: sei que nada me poderá salvar de mim mesmo, e é bem provável que se por acaso isso me pudesse ser dado eu até recuasse de horror. Mas sei também que o que me move para o que quer que seja é apenas isso: a possibilidade remota, breve, imperceptível, de que alguém ou algo me desloque de mim próprio.
Nesses dias o mundo entre ambos foi mais estranho ao mundo de cada um. Dias descoincidentes. Como a vida, diriam depois, e já não precisavam de o dizer. Eles não se conheceram quando pela primeira vez se conheceram. É sempre assim, e contudo o conhecimento também não acontece depois. Só depois do fim.


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Psicopatologia da vida quotidiana # 23

Não admira que a igreja católica esteja a perder a sua influência. Dantes, um dos desabafos mais frequentes era o bem suspirado: meu deus... Hoje, é: mas eu não acredito nisto!

Dos mortos

Mudam de visual, reiniciam actividades, constroem laços – enfim, libertam-se. Um tipo até se põe para aqui a pensar que vantagens haverá em estar vivo...

O alarme das custas

O Telejornal das 13h, na Rtp1, pôs no devido lugar a patusca interpretação do juiz-conselheiro Fischer Sá Nogueira, no Prós e Contras de ontem, quanto às custas a pagar pelo facto de ter sido julgada improcedente a petição de habeas corpus. O Supremo Tribunal determinou as custas em 480 euros, o juiz-conselheiro, muito cheio de admoestação para estes peticionários que se metem com a justiça por dá cá aquela palha, puxou lá de uns artigos e disse que eram 480 euros a pagar por cada um dos 10000 subscritores da petição. A RTP1 ouviu um jurista explicar com mal contido gozo que isso era assim a modos que absurdo, porque o tribunal apreciara uma petição de habeas corpus, e não dez mil petições sobre diz mil sargentos diferentes. Percebeu-se que a peça foi para o ar pela ironia da coisa, porque a RTP1 nem precisava de ter ouvido o jurista, acabou com um esclarecimento do próprio Supremo Tribunal a confirmar o óbvio: que as custas tinham sido fixadas em 480 euros e não em 480 euros vezes cada subscritor. Que tal pedir uma indemnização ao juiz-conselheiro por uma noite de calafrios em algumas almas menos dadas a estas subtilezas da interpretação jurídica?..

Como um tapete todo sujo # 4. Cerco

As pessoas não se conhecem quando pela primeira vez se conhecem. É uma verdade tão trivial, que as histórias que todos os dias contamos podem mentir sobre isso com o mesmo grau de trivialidade. Conheceram-se num congresso, diziam. Factual, mas não verdadeiro. Trocaram endereços electrónicos e houve várias mensagens, coisas profissionais, uma ou outra nota mais pessoal mas não íntima. Factual, mas também não verdadeiro. Porque a intimidade estava já no ritmo regular das mensagens, no leve sobressalto de ela não ter ainda chegado, na forma quase desprendida como iam mudando de assunto, rondando de longe, caçadores experientes mas dir-se-ia que saciados, presas indiferentes ao seu destino. O mundo entre ambos era sonâmbulo, o mundo de cada um deles acordava a horas certas e tinha tarefas que não admitiam adiamento. O mundo entre ambos existia apenas entre ambos, como terra estrangeira de que iam sabendo notícias sem possibilidade de confirmação.

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