Ten

Começa como um Oscar Peterson que tivesse vivido e ouvido o que a idade mais recente de Jason Moran permitiu. E vai por aí fora, quase sempre em composições suas, aos costumes melancólicos dizendo nada. Faltava alguém para, no cimo dos cimos, equilibrar a veia mais lírica de Jarrett e Mehldau. Agora já não falta.

Fronteira

A partir de uma certa fronteira, a associação de ideias já não revela o inconsciente do sujeito mas o da sua cultura. O problema é que a cultura, neste sentido de coisa incrustada, não subjetivizada, é grandemente inculta. Pouco mais, afinal, que boçalidade vertida em linguagem de época. A cada tempo os seus slogans assassinos.

Tautologia & circunlóquio

O que há de pior numa tautologia é quando percebemos que podíamos verbalizar interminavelmente a definição sem nada ganharmos de substancial quanto à compreensão da coisa. Muitas das tautologias têm essa condição. E contudo, a tautologia não é tão frequente assim. Certamente porque apesar da nossa finitude, temos tempo a mais. O circunlóquio não é o contrário da tautologia, apenas um programa de ocupação de tempos livres.

Inconveniências

Somos literais, entendem-nos metaforicamente — eis uma bondade involuntária do nosso interlocutor, que assim nos dá aquele ponto de fuga por onde poderemos escapar à proximidade inconveniente do real.

trabalho de luto # 6

trabalho de luto # 5

trabalho de luto # 4

trabalho de luto # 3

trabalho de luto # 2

trabalho de luto # 1

Jasmine

Aos primeiros acordes irrompeste em lágrimas. Não era a música, apenas as circunstâncias, o curto-circuito com a realidade, com aquilo que na realidade te faltaria agora para sempre. A música fez-se ouvir depois, calando as lágrimas, sentando o teu corpo por dentro, abrindo-te no rosto uma luz breve de aceitação – nada de kitsch sentimental, apenas  a sobriedade poética de uma balada. Outro mundo, continuando na realidade este. Poucos o conseguem verdadeiramente. E menos vezes ainda temos a oportunidade de o saber com esta clareza involuntária, e por isso certa.

janeiro-agosto

não perguntes, não respondas

bloco-notas # 13

ENTEADA: Que repugnante; estas complicações intelectuais enojam-me, enoja-me toda esta filosofia que revela a besta em cada um de nós e que depois a quer salvar, desculpar... [Pirandello, Seis personagens à procura de um autor]

Pois, rapariga, mas o ponto é este: ou se faz o número de Vasco Pulido Valente e a caravana passa, ou se é para ir na viagem haverá curvas em que te vão sair os bofes pela boca. Mas sobrevive-se, ok?

This is all there is

O gesto só pode ser tão largo como o mundo, e apontar também o que nele para sempre desconheceremos. Contudo, o tom não podia ser mais exacto.

Aguentem só mais um bocadinho, há aqui outros prazos a que atender

 
Com a blogosfera a mexer mais do que o mercado de transacções futebolístico, o Manchas não podia ficar parado. Haverá alterações profundas até ao final do mês (já agora convém deixar assentar o bruáá que por aí vai). E antes disso ainda virei aqui por via de umas listinhas e de duas ou três coisas que urge pôr em dia.

Porque é Natal

Em todas estas datas, gosto da ideia de interrupção. Interromper a vidinha, olhar alguém nos olhos, por mais distância que haja. Nunca temos a coragem completa de uma vida verdadeira, e sabemo-lo. Inventamos estas datas para não sermos estúpidos até ao fim. Pervertemos as datas que inventamos, mas algo continua a resisitir nelas. Isso é o que conta.

ps: voltarei em janeiro; vocês ficam bem sem mim, mas desejo-vos que fiquem ainda melhor

Gripe B (irra, parece que tenho de ir à bruxa; ou isso, ou meter férias de vez)


Há depois a metafísica destas situações. O que fizemos porque tinha de ser, porque era razoável que assim fosse, e de que mais tarde nos arrependemos. Um arrependimento desrazoável, quase um luxo, a esquina perigosa da culpa voluptuosa. As coisas são tão mais irónicas na idade adulta.

Gripe B (restos, arrumações)


Aconteceu. Agora parte-se daqui. Não vale a pena ser Luís Pacheco, se se passa tanto tempo em esquemas de sobrevivência quanto os burgueses passam em assegurar a sua carreira. Uma obra, ou o que quer que se lhe assemelhe, é sempre apesar de.

bloco-notas # 12 (e ainda às voltas com a gripe b)

Boa noite. Vai realizar o seu primeiro teste de hap [história das artes do palco]. Gostaria de chamar a sua atenção para o facto de que este momento nunca mais se repetirá. O momento e o que nele pretende acontecer, nem mais nem menos do que o seu primeiro teste de hap. Protelo, como já percebeu. Bom, se já tinha percebido é porque estará, talvez — talvez... — em condições de realizar o seu primeiro teste de hap. Repare bem, o seu primeiro teste de hap. Fantástico, não é? Quase que apostaria que neste momento, neste exacto momento em que está prestes a realizar o seu primeiro teste de hap, quase que apostaria que está a ser muito mais fantástico do que alguma vez pensou que poderia ser, precisamente porque há alguém que lhe está a sublinhar isso mesmo. Bom, agora vem a pergunta, para haver o seu primeiro teste de hap tem de haver uma pergunta, e portanto agora segue-se a pergunta. Mas antes quero fazer notar que, atendendo ao facto de este ser o seu primeiro teste de hap, a pergunta é também fantástica, e sobre ser fantástica está ainda dotada de toda a cotação disponível para este primeiro teste, que é precisamente toda, ou seja, a totalidade da cotação, todinha mesmo. Bom, apresenta-se agora a pergunta fantástica que carrega em si toda a cotação disponível: isto que acaba de ler, isto que vai continuar a ler e que é uma continuação do que vem lendo, isto que ainda está a ler... Espere, vamos por outro lado: se isto fosse uma fala de teatro, assim é que é, se isto fosse um exemplo apenas para efeitos de pergunta, portanto: se isto fosse uma fala de teatro, seria de Sófocles ou de Shakespeare? E porquê? Responda argumentadamente bla bla bla. Boa noite e boa sorte.

Gripe B (regressando)