Comprar pela epígrafe

"Depois, os dias passaram, um após o outro, sem que as questões fundamentais da vida tivessem tido solução."
Friederike Mayröcker, convocado por Ingo Schulze para epígrafe de Telemóvel. 13 histórias à moda antiga.

Arigato

Regressa um homem à pátria e dá com isto: o Camões a conversar com o Pina ali para os lados da Foz, com muitos gatos e ainda mais livros à mistura. Claro que a felicidade existe, a dúvida irrestrita também, e o mundo fica um pouco mais em forma de assim. Ou algo da mesma substância.

A vida com árvores # 12

À varanda
dos teus ramos
o mar sólido
do céu.

Mal de oficina 4

ESTRAGON: Não acontece nada, ninguém vem, ninguém vai, é horrível!
VLADIMIR (para Pozzo): Diga-lhe para ele pensar.

Breaking news

Outro espaço, outra exigência.

Encontro kunderiano

Kundera tem a arte da fórmula justa para delimitar cada uma das suas incursões críticas. O reverso disso é que dificilmente a leitura pode ser delimitada por uma fórmula, por mais justa que seja. O que faz de Kundera um grande romancista é o combate das fórmulas justas dentro de um mesmo romance, isso que não deixa a um leitor um ponto de vista mas um problema. Como crítico, Kundera não tem outra ambição que a de se explicar como leitor particular, sendo que aqui a particularidade é a de alguém que lê na perspectiva do romancista: a questão da técnica, a questão dos temas, até a questão de autores e técnicas e temas como possibilidade de se tornarem personagens romanescos. 
Duas notas ressaltam nestas incursões: a recusa do kitsch, a reivindicação da prosa do mundo. São questões centrais do Kundera romancista e são complementares: denunciar o efeito que apenas remete para si mesmo, desconstruir a mentira romântica, lidar com o mundo e a sua insustentável leveza.

Patti Smith, Polar 2011

"Patti Smith é um Rimbaud com amplificadores Marshall."

Assim, de repente,

passou uma semana. e mais um dia. passou? passou. como quem diz, mal de oficina 2. acumula-se o não feito. acumula-se o lido mas ainda não falado. acumula-se o ouvido e também ainda não falado. acumula-se. pensando bem, mal de oficina 2 já foi, welcome to mal de oficina 3.

Mal de oficina

Tanto quanto não conseguir avançar, irrita-me que a mente não me tenha avisado antes da inutilidade do dia. Precisava muuuuiiiito de não fazer nada ou fazer outra coisa qualquer.

Alela

Viagem rápida. Chuva intensa, sol aquecendo. Gosto desta rapariga. A voz, o balanço. Fica bem com esta paisagem variada, embora o seu country seja outro. Um pouco mais de risco na escrita melódica e seria um caso sério. Mas penso isto apenas num intervalo qualquer de gajo que vem aqui escrever de ouvido. Gosto desta rapariga. Se ela quiser mudar, que mude. Não sou eu que lho vou dizer. A voz, o balanço.

Um medo salutar

Um conseguimento, esta curta mas densa novela. A infância como lugar cruel que revela processos atávicos da nossa sempre lenta humanização é um tema difícil. E no cânone estão, por exemplo, O deus das moscas, de Golding, ou O Jardim de cimento, de McEwan. Aliás, é só por causa destes dois que As mãos pequenas não me derrubou por knockout. Um medo salutar desliza destas páginas, e esse medo somos apenas nós antes de termos aprendido a defender-nos da nossa inocência perversa.

Propósitos de vida

Os propósitos de vida não se dividem em úteis ou inúteis, justos ou injustos, para isso há decálogos que cheguem. Não matarás não é um propósito de vida, é uma regra. Escrever pode ser um propósito de vida. Amar aquela pessoa pode ser um propósito de vida. Porque não se sabe onde vai dar nem o que nos trará pelo caminho. Mas sabe-se que uma vez começado jamais poderemos continuar como se nunca tivesse começado.

Alto para dentro

Vamos dizer assim: Marianne Faithfull há muito que não se parece com ninguém a não ser consigo própria. Mas aqui mais. Absolutamente inatual, mas sem rasto de revivalismo. Quem sabe é que é alto para dentro. E ouve-se distintamente no mundo, se também nós soubermos um pouco.

Momento, razão três

O momento é o mesmo que a zona: a vida como ela sempre foi, mas impercetivelmente diferente e melhor. O gesto que procura coincide com o livre fluir da coisa procurada. A bondade do objeto em não desiludir a lei que o sujeito pensa ter encontrado é uma boutade científica, sem dúvida, mas é também uma verdade artística e existencial. Com esta diferença: na zona não há sujeito nem objeto, apenas movimento e fim do movimento. Tal como na vida vista a partir da experiência.

Na zona

Depois da doença, a depuração. Quando há vida a mais, a música fica em menos. Quando o acessório e o fútil desaparecem, a vida só interessa enquanto música. Mas mesmo isso é um caminho longo. Das seis noites no Village, Hersch escolheu apenas o set da última noite — só nessa se sentiu na zona.

Momento, razão dois

O paraíso, a verdadeira vida, é tudo ser exatamente igual ao que é agora mas impercetivelmente diferente e melhor [Agamben de cor, por certo distorcido, foi o que me ficou]. O paraíso pode vir com a experiência: viver agora contente com pequenas coisas com que vivi outrora inquieto. O paraíso que está no princípio só pode ser perdido. O paraíso que acontece com o vir da nossa história só pode ser impercetível. Valor da atenção. Da atenção conduzida por nenhum desejo de grandeza (a queda é também uma forma de grandeza).

Entranhar sem estranhar


E sem pedir licença. Um tom perfeito para estes tempos. Que não são caóticos, mas de uma ordem terrível e que diz sem subterfúgios ao que vem.

Momento, razão um

Gosto de uma poesia que afirma a partir de uma experiência pessoal e que não procura mais do que essa parcialidade com que a vida em nós se cumpre. Isso que nos faz reconhecer onde não nos sabíamos, ou tão só ponderar brevemente — será assim como ele diz que é com ele? como é que é ao certo comigo? —, ou afastar sem remorso uma experiência que pouco ou nada nos tem a dizer por tão inconciliável com a nossa. Cada um desses gestos de resposta é também uma afirmação a partir de uma experiência pessoal. Sim, eu sei, depois, as coisas complicam-se e começa a leitura. Não anula a experiência pessoal, apenas não tem a licença poética de puramente afirmar.

Umberto Saba: Momento

 MOMENTO

As aves à janela, as persianas
entreabertas: um ar de infância e de Verão
que me consola. Tenho mesmo os anos
que sei ter? Ou apenas dez? Para que
me serviu afinal a experiência? Para viver
contente com pequenas coisas com que vivi
outrora inquieto.

Estar no tempo

Bolaño escreveu uma vez que nas Américas toda a moderna ficção provém de duas origens: As aventuras de Huckleberry Finn e Moby Dick. Os detectives selvagens, com as suas personagens boémias, é o romance de amizade e aventura de Bolaño. 2666 persegue a baleia branca. Para Bolaño, o romance de Melville detém a chave da escrita acerca “da terra do mal”; e tal como a saga de Melville, 2666 pode ser estonteante ou soporífero, dependendo do gosto da pessoa pelo “lume brando”.
[da introdução de Marcela Valdes a Roberto Bolaño: últimas entrevistas, Quetzal, p. 18]

Mais do que a genealogia da moderna ficção das Américas, o que aqui é dito com clareza e conhecimento de causa é a própria genealogia mítica de Bolaño. Mítica porque pouco importa que Bolaño tenha de facto aprendido em Huckleberry Finn e em Moby Dick, ou nos seus descendentes das Américas, as duas vertentes do seu estilo compósito. Provavelmente não aprendeu, calhou-lhe por feitio e escolha sobre esse feitio, com uma particular aceitação dele. Mas as escolhas em literatura só se tornam realmente definitivas quando encontram/constroem a genealogia que as legitima. Bolaño escolhe uma genealogia próxima, sem qualquer ansiedade clássica, sem querer escapar ao transitório e ao circunstancial do presente. Essa tarefa vã não lhe interessa, apenas lhe interessa o desprendimento da deriva boémia e o cálculo rigoroso da obsessão — modos de estar no tempo, neste ou em qualquer outro.

Ir e vir

   
Ela: sair de manhã, abrindo sempre. Ele: voltar à noite, progressivamente fechando. 
 
Do fogo à sombra rumorosa. 
 
Com antepassados que se percebem, com um presente que é já deles.

Breleur/Kundera, adenda 2

Um parágrafo é quanto basta para traçar o arco entre um trauma originário e a sua transformação em maravilhoso. O tempo como arco conseguido não é o tempo em que suportamos a existência. A dor ou o apaziguamento têm isso em comum: terem de ser suportados na existência. Durarem. Sempre para além do razoável, mas sempre a caminho de serem outra coisa que os degrada e no-los rouba como experiência fundamental. Um parágrafo é a nossa vida enquanto escultura acabada, limpa do lixo que gerou e da oficina em que se fez. Uma mentira breve, a única verdade do tempo que podemos compreender.

Breleur/Kundera, adenda 1

O arco entre um trauma originário e a sua transformação em maravilhoso. É um arco realista? É. Mas podia não ser, exemplos não faltam. Sem que se consiga perceber exatamente o que faltou a uns e não a outros. O mesmo trauma, a mesma capacidade de inteligência e criatividade, resultados diferentes. Talvez histórias de base diferentes — mas todas as histórias são diferentes, sendo contudo mais iguais do que parecem. Seguimos as histórias e a naturalidade que elas compõem a posteriori, mesmo que diferentes. As melhores histórias fazem a exata sobreposição entre mistério, destino e acaso.

Breleur segundo Kundera

Corpos sem cabeça, suspensos no espaço, são assim os últimos quadros de Breleur. Em seguida, olho para as datas: à medida que o trabalho sobre este ciclo avança, o tema do corpo abandonado no vazio perde o seu efeito traumático original; o corpo mutilado, lançado no vazio, sofre cada vez menos, assemelha-se, de quadro em quadro, a um anjo perdido no meio das estrelas, a um convite mágico vindo de longe, a uma tentação carnal, a uma acobracia lúdica. O tema original passa, por intermédio de inúmeras variantes, do domínio da crueldade ao domínio (para voltar a utilizar esta palavra-passe) do maravilhoso.
Milan Kundera, Um encontro, D. Quixote, p. 106-107

Conhecem este gajo?

Disseram-me: é bom, as usual. Errado. É muito bom. Quando retransmiti, corrigiram-me em upgrade: é excelente. Ouvimos outra vez: mas quem é este gajo, afinal? Concluímos que era ele, sim, mas em versão definitiva de caso sério. Um caso sério, pois então.

A poesia em dia

Não me lembro a primeira vez que ouvi a palavra poesia. Lembro-me do primeiro poema que me fez pensar que aquilo era poesia. Eu era novo, tinha de ser novo, e Cântico negro era o poema. Houve depois mais sobressaltos e descobertas, mas já não frequento ninguém desses tempos. Hoje, sobressalto-me ainda, descubro ainda. Mas sei que não terei tempo para o esquecimento deste presente, como sei que aquilo que espero da poesia encontrou o seu lugar em mim e não serei capaz de lhe inventar um outro nem consentir que ela o faça nas minhas costas. A cada um o trabalho árduo do seu paraíso e do seu inferno: o meu chama-se romance.

Escalas

Podes mais sobre a crise portuguesa do que sobre a tragédia japonesa ou líbia? Não podes. É essa a tua irrelevância e a tua liberdade. Mas sabes onde está o teu coração, sabes quando e porquê viras as costas e deixas de ouvir, sabes o que fazer e como o fazer.

Nels Cline, dirty baby


Como um pictures at an exhibition para jazz alargado a música "contemporânea".
Os dois booklets com as pinturas de Ed Ruscha permitem aferir melhor a vista/ouvido.

Nels Cline compõe e o ensemble heteróclito recompõe.

Vasta paisagem, diferentes mundos, arte maior.

Ed Ruscha, joshua tree

Ed Ruscha, you and your neighbors

Ed Ruscha, plenty big hotel (painting for the american indian)

Ed Ruscha, agree to our terms or prepare yourself for a blast furnace

Ed Ruscha: man, wife

Ed Ruscha, little snitches like you end up in dumpsters all across town

Ed Ruscha, in god we trust

75

Morada

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

[Margarida Ferra
Curso intensivo de jardinagem, p. 51]

74

O Senhor Eliot quer explicar alguns versos. Ou avaliar da sua racionalidade, corrigindo-os ou acrescentando-os para que fiquem conformes à semântica. Ou ensaiar aquele contexto mais alargado em que os versos fariam não só sentido, como dariam sentido a esse sentido. O sentido é sempre duas vezes, poderia dizer o Senhor Eliot, a primeira como coisa inteligível, a segunda como coisa que dá que pensar. Dar que pensar é mais sentido do que ser apenas inteligível. As conferências do Senhor Eliot dão que pensar, de formas tão diferentes como diferentes são os versos de que parte e os caminhos que suscitam. A vida no bairro recomenda-se. E já que se recomenda, voltaremos ao assunto em breve.

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A noite estava serena, a luz macia e suave, a terra parada, e eu, cá muito em baixo, era a única criatura em movimento. [Lydia Davis, Demolição, p. 90]

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A poesia, a inteligência, e a ironia de uma grande música (e dos títulos, já agora).

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O micro-conto chama-se “O homem que criou Deus num laboratório”. Uma alegoria de página e meia. Mas não é isso que agora importa, a alegoria, ainda que também importe. O que importa começa aqui: “Finalmente, a recompensa por anos e anos de trabalho árduo: dentro de um tubo de ensaio achava-se Deus. Assim, sem tirar nem pôr. Uma criaturinha triste, apática e indiferente como uma bolota. Nunca a ciência conhecera homem mais feliz.” Se retirarmos a frase “Uma criaturinha triste, apática e indiferente como uma bolota.”, o micro-conto não sofre nada com isso. O excedentário é sempre indício do sentido que transborda. Sintoma. Doutor Avalanche vai para a oficina a partir desta frase.

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video

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UmAvalanche from umaCena on Vimeo.

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Não, não precisas de dizer mais nada.

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Pelo seu grau de abstração (menos riso, menos absurdo, o valor facial de cada reflexão é quase sempre para levar a sério), porque não fazem sistema e porque tocam em muitos assuntos que só remotamente são geométricos, as investigações do Senhor Swedenborg estão aí disponíveis para serem lidas como indícios de auto-reflexividade autoral. Em alguns casos, a evidência parece por demais evidente. Verdade ou coincidência, pouco importa. As ligações da leitura é que comandam. Oficina com ele.

65

Alguns aspectos do seu comportamento parecem-lhe agora estranhos. Então acontece uma coisa que devia assustá-la, mas ela não se assusta.
Acontece assim: ao fim do dia, liga o noticiário e é imediatamente confrontada, olhos nos olhos, com uma intensidade quase insuportável, pelo jornalista que lê as notícias. Ele é a primeira pessoa que falou com ela no dia inteiro. Abalada por estes poucos minutos de conversa directa, vai à cozinha preparar uma omeleta. Mistura os ovos e deita-os na frigideira, onde a manteiga começou a derreter. Enquanto ganha forma, a omeleta borbulha e murmura, fazendo uma espécie de som violento, e ela de súbito pensa que a omeleta lhe vai falar. De um amarelo vivo, reluzente, com manchas de gordura, a omeleta palpita delicadamente na frigideira.
Ou antes, ela não espera que a omeleta fale, mas quando não articula nada ela fica surpreendida. Quando mais tarde pensa no que aconteceu, compreende que ela sofreu na verdade qualquer coisa equivalente a um ataque físico. A mudez da omeleta emanou da própria omeleta num grande balão que pressionou os seus tímpanos.
Lydia Davis, "Cinco sinais de perturbação" in Demolição, p. 199-200

64

Bom, se não avisassem ninguém dava por nada, mas a verdade é que a menina tem dezasseis aninhos, de repente parece que repetimos aquelas histórias das ginastas de leste ainda impúberes. A boa notícia é que o ciclo de crescimento e consolidação de uma voz chega para uma vida de adulto. A pergunta é: até onde irá este dom natural? Sendo que por enquanto vai muito bem e se ajusta perfeitamente a este reportório de orquestra e swing de outros tempos. Musicalidade natural. A pergunta também é: até onde irá esta inteligência de si? Entretanto, desfrutemos. E rezemos aos deuses para que não se perca pelo caminho.

63

Nos termos e para os efeitos do disposto no nº 2 do artigo 17 do Código de Conduta dos Semelhantes por Profissão, declaro:

1.    Já dei para esse peditório (e os tempos não vão de feição).
2.    Não há novos argumentos nem novas condições, apenas pessoas que mudam de opinião (e têm todo o direito a isso).
3.    Ajudava imenso marcar uma hora de início, uma hora de término, coffee break para negociações finais longe da ribalta (o inferno são os outros, já se sabe), e hora impreterível para a votação final (assim sempre podem ficar mais à vontade pela casa de banho e evitar aquele embaraço de abandonarem o plenário naquelas alturas).

Atentamente
LM, vosso semelhante

62

Uma voz para várias estações, que é como quem diz, para vários géneros. Alguma ousadia, como logo no tema de abertura, mas globalização oblige a refrear experimentalismo. A vida não está fácil, mas é uma pena.

61

Iphone e ratos, um pedaço de vida entre a cidade e a casa na periferia em época de crise do imobiliário. Um micro-conto para quem seja capaz, sem tempo para moralidades nem espaço para tréguas: fiz a chamada, a encomenda do grão já vem a caminho.

60

Praça Tahrir — a realidade pode ser sempre a grande surpresa.

59

Em 1969 eu não sabia sequer o que era um disco. Quando soube, adolescência alta, a minha música nunca passou por Amália, nem lá perto. Não estava à espera disto. O que há aqui de fado “corrido” (é assim que se diz?) não me interessa. Mas o resto, as canções — o resto é terrível, essa voz vem do início do mundo e vai para os fim dos tempos, é terrível. Mais que a perfeição, é terrível.

58

Claro que sou um otimista. Só com otimismo se aguenta a dose diária de cianeto e felicidade. Espera, otimismo? Não será antes estoicismo? Hum... Ah, já sei: epicurismo. Só um espírito epicurista dá o verdadeiro valor à dose diária de cianeto e felicidade.

57

Na oficina: memória e interpretação. Primo Levi em fundo, Isabela Figueiredo em jogo. Quando na memória do facto temos de incluir a interpretação para sabermos, afinal, que facto foi aquele. A veracidade não é o contrário da verdade, mas raramente coincide com ela.

56

Às escondidas (do trabalho, dos prazos, do sono).
Uma combustão a frio.

55

Pois, a sabedoria popular: quando deus fecha uma porta, abre sempre uma janela.
Cavaco por mais cinco anos, esquerda desagregada por mais anos que esses, o psd que se perfila não esconde ao que vem, e a crise, a !#%Merkel-Sarkozy%#! da crise, a !#%derivados&companhiaLda%#! da crise — para porta fechada não é preciso mais.
E a janela aberta, há uma janela aberta? Há. Não estava lá ninguém, o que até podia ser uma coisa de esquerda: deixar os mortos enterrar os seus mortos. Continua a não haver lá ninguém, mas alguma coisa se ouve. Para onde dá a janela, de onde vem o que se ouve? Não sei. Mas ouve-se. Que parva que sou.

54

Para irem anotando na agenda. E sim, eu prometo portar-me bem. Já quanto a avalanches não posso dizer nada, mais a mais quando mete doutores e tal.

53

Comprar pela capa (o nome de autor funcionou como aquelas classificações dos "derivados", triple AAA). 
Explicar pela capa: ritmos certos de animais diferentes mas da mesma condição, estrada ampla quase mainstream bem ancorada em paisagem de rotas secundárias, a melodia pequena luz dos dias.

52

Jon Stewart, acerca de mais uma daquelas cenas americanas de disparar ao acaso sobre a multidão: “Seria interessante que o discurso delirante de um psicopata não se parecesse tanto com coisas ditas em debates televisivos.” Pois.
Mas por outro lado — sim, por outro lado —, talvez isso não prove exatamente que o discurso político se tenha degradado, mas o inverso: o discurso psicopata tem-se apresentado cada vez mais lógico e inteligente. Na verdade, ele radicaliza essa lógica e essa inteligência. A linha de fronteira não é claramente visível, o inimigo é interno. Daí o medo.

51

Brilhante, como o anterior Israel Sketchbook, já em 2ª edição (este país existe, a criatividade neste país existe, o reconhecimento dela também vai existindo, etc e tal). Continuo a achar genial o rasto do desenho primitivo sob o posterior colorido, a sua presença fugidia, a sua manifestação de lugar. 
No blog do autor é possível ver algumas das páginas.

50

A queixa é recorrente: muita burocracia, muitos órgãos, muitas reuniões, não sobra nada para investigação. É quase verdade. Que fazem os queixosos quando são chamados a decidir? Eliminam um órgão, propõem métodos de trabalho mais informais, tentam ir directos ao assunto? Não. Acrescentam um órgão, se possível dois, formalizam ainda mais o processo de discussão e decisão, e querem estudos & pareceres externos & consultas internas antes de começar discussões intermináveis sobre se devem decidir ou não. Entretanto, queixam-se ainda mais. Estão satisfeitos: têm o perfeito álibi para continuarem a não fazer aquilo que em boa verdade não querem fazer (e a maior parte das vezes nem sabem realmente fazer).

49

Noventa por cento das citações de Agustina atiradas pelos congressistas fizeram sorrir a assembleia. Isto define um autor: a ironia. Culta, paradoxal, mas ironia. É também o que mais me prende a Agustina. E uma das coisas que me liga ao mundo.

48

"A tristeza nasce do facto de sermos interrompidos, sabem muito bem que é assim. Os comentários à obra dum grande artista não passam de vaidosas maneiras de o interromper." [Agustina, Dicionário imperfeito].
Nem sempre, nem sempre.

47

Audaces et défigurations. Colloque Agustina Bessa-Luís
Université Sorbonne Nouvelle Paris 3
20, 21 et 22 janvier 2011

46

Na oficina. Mala feita, ideias correndo, mil e uma coisas,  ainda mais três e um par de botas. Ou doutra maneira: "as pessoas são como o Buster Keaton: sérias e metidas em disparates com o ar mais natural do mundo" [Agustina, Dicionário imperfeito].

45

"O público não estima as informações demasiado francas; não vê nisso utilidade, porque fica a braços com a sua própria insignificância para corrigir as coisas; e não acha prazer em ser confrontado com a verdade, porque ela lhe não permite o suspense que, afinal, promove  a veneração devida a cada caso real" [Agustina Bessa-Luís, Dicionário imperfeito, p. 97]. Aplique-se isto às caixas de comentários do "caso" Carlos Castro / Renato Seabra, como aliás de qualquer "caso": a proporção dos comentários, e da sua demência, atinge o auge logo no início, quando nada se sabe e tudo se projecta. Vai diminuindo, e consentindo alguns lances de razoabilidade, à medida que alguma confessionalidade emerge e se ensaiam explicações "científicas". Quando vier a confissão e a verdade, com ou sem a ambiguidade irredutível que as pode acompanhar, ninguém comentará e ninguém assumirá que algum dia comentou. Mas ninguém estará orfão. Há sempre novos casos disponíveis, pelas mesmíssimas razões que todos os dias os jornais nos dão notícias de primeira página.

44

Tiras de 1926 a 1928.
1926?!
Sim, 1926 a 1928. Como quem diz 2011.
Trabalho impecável de restauro e publicação de Manuel Caldas.
Salvé, Cliff Sterrett.

43

Minimal, despojamento, musa parca – como quiserem. Dezassete brevíssimos poemas, entre o espírito do haiku e a notação ostensivamente banal em busca de amplificação significante. Que acontece porque é mais um livro de Adília Lopes, depois de muito silêncio. Por si mesmo, pouco saberíamos que fazer com ele — wait and see era o mais apropriado. Apanhar ar existe como suplemento a uma obra — e todo o suplemento é convite à re-leitura do todo.

42

Na oficina. Dicionário imperfeito. O chapéu das fita a voar. Agustina Bessa-Luís.
Os livros impróprios: o autobiográfico e a série como processo de re-leitura.
Não há post que aguente isto. Mas era bom que eu já o tivesse escrito.

41

ESTRAGON: Enquanto esperamos podemos tentar conversar calmamente, já que somos incapazes de ficar calados.
VLADIMIR: Tens razão, somos inesgotáveis.
ESTRAGON: É para não pensarmos.

Driving Miss Laura # 33

Já nas livrarias. A proposta de formulário pode ser descarregada aqui.



40

idem idem aspas aspas
*
Joanna Newsom, Have one on me
Bonnie Prince Billy & The Cairo Gang, The wonder show of the world 
Isobel Campbell & Mark Lanegan, Hawk
Robert Wyatt, For the ghosts within
Eels, Tomorrow morning
Eels, End times
Beach House, Teen Dream
*
Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti, Carlos do Carmo Bernardo Sassetti
António Zambujo, Guia
Márcia,
Lokua Kanza, Nkolo
Lula Pena, Trouvadour

39

Ouvidos em 2010 (alguns serão de 2009 ou até antes, mas não sou júri nem nada, certo?).

Martina Jankova, Haydn songs: recollection
Amy Dickson, Glass & Tavener & Nyman
Patrícia Petibon, Rosso: italian baroque árias
Carl Philipp Emanuel Bach, Concerti a flauto traverso obligato II, Alexis Kossenko
Bach, Goldberg, Catrin Finch
Blasco de Nebra, Piano sonatas, Javier Perianes
Bach, Sonatas 1027-1029, chorals & trios, Bruno Cocset

38

Jazz em 2010. Vandermark e William Parker poderiam estar aqui, mas ainda não me chegaram. Há tempo.

Keith Jarrett & Charlie Haden, Jasmine
Brad Mehldau & Anne Sofie Von Otter, Love songs
Jason Moran, Ten
Mário Laginha, Mongrel Chopin
Kurt Elling, Dedicated to you
Charles Lloyd, Mirror
Christopher O’Riley, Second grace: the music of Nick Drake
Bill Charlap & Renee Rosnes, Double portrait
Stefano Bollani, Stone in the water
Ralph Towner & Paolo Fresu, Chiaroscuro
Winton Marsalis, Vitoria suite

37

Os seis primeiros fariam parte de qualquer lista de um ano razoavelmente bom, os seguintes talvez não. O filme de Sam Mendes pareceu-me o mais subestimado pela crítica, o de Baumbach aquele que me pede uma segunda visão. Algumas coisas de 2010 estão agendadas para dvd, depois falamos (ou não).

O laço branco, Michael Haneke
Eu sou o amor, Luca Guadagnino
Dos homens e dos deuses, Xavier Beauvais
Um lugar para viver, Sam Mendes
Whatever works, Woody Allen
Um homem sério, Coen
Shuter Island, Martin Scorsese
Um homem simples, Tom Ford
Greenberg, Noah Baumbach
O escritor fantasma, Roman Polanski
O americano, Anton Curbjin

36

Entre a realidade e a lenda, quase sempre se publicou a lenda. Entre a realidade e o preconceito, quase sempre se publicou o preconceito. A realidade não dá boas histórias? Dá, mas são mais curtas que a lenda e que o preconceito. Mais curtas também nas nossas reações: um espanto mudo em vez do interminável choradinho dos vencedores ou das vítimas. Portanto, antes de mais, nada afirmes, pergunta apenas. E espera pela primeira resposta, pela segunda, pela terceira. Continua a perguntar. Quanto não te responderem mais, é altura de começares a pensar. Estarás sozinho e por tua conta. Contra ti estarão a lenda, o preconceito, mas também a realidade. Não fomos feitos para as perguntas, muito menos para as perguntas depois das respostas.

35

E deu. Chega para mim e para todos. Raro exemplo nosso de novo cantautor. Se os deuses estiverem pelos ajustes, há-de dar ainda mais.

34

É qualquer coisa como isto, o que queremos. A incerteza é uma conselheira sábia, pede discernimento e isso protege-nos da alucinação da nossa verdade. Qualquer coisa como isto: o lusco-fusco do nosso desejo em negociação com a realidade do mundo.

33

É qualquer coisa como isto, o que queremos.

 Rosa Maria Martelo, A porta de Duchamp, Averno, p. 20 (clique para ampliar)

Driving Miss Laura # 32

Pré-publicação de Testamento Vital, de Laura Ferreira dos Santos, no Público de hoje. Dia 13 nas livrarias.

32

A lista nº 3. Uma ausência preocupante de ensaios, mas aconteceu. Quanto à arrumação, os dois primeiros vão-me acompanhar durante muito tempo (e tempo é um dos bens mais preciosos que não tenho), o resto vai por géneros.
*
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia
Ferreira Gular, Em alguma parte alguma
*
Martin Amis, A viúva grávida
Ricardo Menéndez Salmón, Derrocada
Rosa Maria Martelo, A porta de Duchamp
Rui Manuel Amaral, Doutor Avalanche
Pedro Mexia, Nada de dois
José Ricardo Nunes, Alfabeto adiado
Rui Cardoso Martins, Deixem passar o homem invisível
*
Ferreira Gullar, Poema sujo
Carlito Azevedo, Monodrama
Paulo Henriques Britto, Macau
Luís Quintais, Riscava a palavra dor no quadro negro
Margarida Vale de Gato, Mulher ao mar
Armando Silva Carvalho, Anthero areia & água
Nuno Júdice, Guia de conceitos básicos
José Miguel Silva, Erros individuais
*
Pedro Eiras, Substâncias perigosas
Peter Zumthor, Atmosferas
Alexis de Tocqueville, Quinze dias no deserto americano

31

Aprender com os melhores. O segundo cd é dos encontros de Carlos Paredes com outros nomes ilustres. O último no alinhamento é com Charlie Haden. Longo encontro, um magnífico e superlativo desastre. Cada um a tentar sair do seu reduto, cada um a falhar para o seu lado. Paredes até roça a bossa nova, Haden roça aquela coisa esquisita e excitante a que lhe devia soar a guitarra portuguesa. Convém recordar Sartre: o jazz é para consumir no local, como as bananas. A imagem não é das melhores, mas a ideia percebe-se. Executou-se no local um gesto político corajoso. Hoje resta a música. Esta lição comovente de algumas fronteiras intransponíveis na figura dos seus maiores. Não há Paredes & Haden. Salvé grande Carlos Paredes. Ponto. Salvé grande Charlie Haden. Ponto. ( Sim, claro, é por isso: magnífico e superlativo desastre, a vida. What else?).

30

O pessimista não corre para a sua perdição, que todavia sabe que há-de chegar. Até lá, comporta-se como um humano sensato, e pode até dedicar-se àquelas artes que passam razoavelmente despercebidas no espaço público: a filosofia, a ficção, a poesia, digamos, o pensamento em geral.
O ressentido é o grande cronista social de todos os quadrantes políticos. Confundem-no sempre com o pessimista porque nos dá o fel nosso de cada dia, tarefa que desempenha com fidelidade admirável porque não tem dúvidas sobre si próprio nem ninguém lhe pede responsabilidades dos juízos errados do passado — a última coisa que o excelentíssimo público quer saber é que aqueles a quem aponta o dedo  não são afinal culpados mas apenas bodes expiatórios. Enquanto puderes apontar o dedo a alguém  com convicção está traçado o teu caminho para mais um dia, não há mais perguntas a fazer. O ressentido e o excelentíssimo público têm uma aliança indestrutível alimentada a convicção. Nada é tão auto-reprodutor quanto a convicção.

29

Um pessimista acha que apesar de algumas coisas correram bem, e apesar da manifesta boa vontade de algumas pessoas, a longo prazo tudo acabará mal.
Um ressentido acha que apesar de tudo correr mal, e apesar da manifesta vilania da quase totalidade das pessoas, tudo seria diferente se ele mandasse ou se pelo menos lhe dessem ouvidos.

Driving Miss Laura # 31

No Público de hoje, Laura Ferreira dos Santos comenta o parecer do Conselho Nacional de Ética sobre as propostas de Lei acerca do Testamento Vital: Fracturas, compromissos e "sabotagens" [pode-se ler aqui ou ampliando em baixo].