O mundo de mundos

Nestes dias cheiro o ar, como os animais. Bichos da terra.
Era uma morte esperada na família. Depois de cinco anos de completa ausência da mente, a máquina parou por fim. Na última visita, tive de novo a certeza absoluta que jamais quererei sobreviver assim a mim mesmo. Como sei, sabíamos todos, que nunca o quis para si.
Agora há que cumprir todas as formalidades. Mesmo aquela parte de dor que, não sendo falsa, é também uma formalidade com que dizemos uns aos outros e a nós próprios o incompreensível que há em tudo isto. O incompreensível nada ou o escândalo não menos incompreensível da esperança. A ambos servem os rituais, que só na sua superfície se deixam definir de um modo ou outro.
O resto virá depois, em momentos imprevistos e sem palavras, ou com palavras de uma intimidade que o pudor apaga de ilegítimos destinatários.
Nestes dias cheiro o ar, como os animais. Bichos da terra.

O primeiro irrepetível ou o primeiro de cada vez?

Por fim, levantei-me, aproximei-me da cama em bicos de pés e, sem me despir, pousei devagarinho a cabeça na almofada, como se tivesse medo de perturbar com algum movimento brusco o que transbordava dentro de mim... [Ivan Turguénev, O primeiro amor, Tradução de Nina Guerra e Filipa Guerra, Relógio D’Água, p. 38]

O amor não é o acontecimento. No acontecimento, as coisas acontecem — é tudo. O amor é quando o acontecimento é interrompido e o sujeito fica a sós com os restos imensos do que quer que tenha acontecido. Por isso o amor é cosa mentale, ou tempestade emocional que não tem a possibilidade de uma passagem imediata até ao outro, ficando a rodar na mente. Os que, como Vladimir, querem guardar cuidadosamente toda essa tempestade, têm a esperança de que, em breve, o acontecimento será reatado. É esta esperança a marca do primeiro amor, do irrepetível primeiro amor? Talvez. Mas os que aprendem com a experiência encontram a inesgotável generosidade do acontecimento: o primeiro que se repete de cada vez. E como Vladimir, guardam cuidadosamente tudo o que se reatará no reatar do acontecimento. Dizem até já, dizendo sem dúvida até sempre.

Plágio na consciência

Sonhei que acordava de repente com a clara certeza de que a punch line não era minha. Mas o sonho não me disse de quem era. Filme? Verso? Não fales de mim, fala comigo? Bom, o melhor é não me tentar recordar, a ver se de súbito me lembro.

Companhia nocturna # 30


Durme, durme, hermosa donzella
Romance Sefardi

Durme, durme, hermosa donzella,
durme hermosa, sin ansia y dolor!
Heq tu esclavo, que tanto desea
ver tu sueno con grande amor.

El dia vo llorando,
la noche sin durmir
pasando y preguntando
fin hasta cuándo vo sufrir.

Antigamente

Não é da mudança do mundo que falamos, mesmo quando é evidente que o mundo mudou. É do pouco futuro que nos resta, por já termos tido todo esse passado. A melancolia com que dizemos “antigamente” vem só daí.

Hoje esteve um azul de antigamente

No farol tudo era sempre e só azul, brilhante se sol, espesso se chuva, pálido se nevoeiro, ténue se vento, denso se sombra, sempre e só azul, azul-mar, azul-rocha, azul-espuma, naquele sítio todas as coisas eram azuis.

Dulce Maria Cardoso, Até nós, Asa, 2008, p. 105

Os infortúnios da virtude # 6

Depois de horas, dias, meses, apresentei-lhe finalmente o livro envolto em amor: é sobre ti. Cansada de horas, dias, meses, atirou-mo à cabeça: não fales de mim, fala comigo.

Reloaded # 1

Ela diz que traz maltesers. Ele não sabe o que são maltesers. Ela abre o saco de maltesers. Ele diz que aquilo segue o mesmo princípio dos smarties. Ela não sabe o que são smarties. Ele come e confirma: com cores, podiam ser smarties. Ela come também e mostra-lhe o rótulo do saco: são maltesers. Ele diz que inventaram aquilo apenas para que ela e a sua geração se sentissem donos do presente. Ela diz que não há razões para ele se preocupar, a metafísica é a mesma e continua a resumir-se a comer chocolates.

Literalmente # 4

Havia histórias para narrar, era essa a questão. Nós temos histórias que vão desaparecendo de serem narradas. A greve dos acontecimentos, disse o Baudrillard. Que agora se prolonga como um indiferente e perpétuo estado de greve dos acontecimentos. A nossa condição inescapável.

Literalmente # 3

Via mail, Filipe Guerra diz-me que foi verificar no original as passagens que citei de Primeiro Amor — o literalmente está lá mesmo. Também me parecia que devia estar. Digamos que Turguénev tinha coisas mais altas com que se preocupar. Ou melhor, literalmente, tinha mesmo coisas mais altas com que se preocupar. Coisas que exigiam narrar a toda a velocidade. Tal como em Dostoievski. Mas já não como em Tchékhov — que por isso mesmo é outro cuidado estilístico. Esconder com graciosidade que nada há para contar exige um certo tipo de arte — em suma, nada literal. Porque a questão é que, onde há livro, tem de haver acontecimento, nem que seja sob a forma do seu simulacro ou do buraco negro da sua ausência — é o imperativo da res extensa. Nao há como fugir-lhe. Literalmente.

Literalmente # 2

Leonard Lynch e David Cohen, ou de como há mais pensamento na blogosfera do que os media podem alguma vez imaginar: "Quando cheguei a Algés, uma hora mais tarde do que previa, a primeira imagem que vi foram duas: a primeira aquelas pessoas todas no Central Park de geleiras e tal para assistirem ao concerto de Paul Simon and Art Garfunkel, quando abria aquele disco duplo costumava olhar muito para as pessoas que estavam lá; a segunda tem a ver com os cortinados que me levaram logo para Lynch. E foi como se fizesse todo o sentido. Ora, aqueles arranjos não são à casino são, isso sim, a club silencio, mas ao contrário."

O rei morreu, viva o rei! # 3

A peça de Tom Stoppard terminava com um vídeo do concerto que os Rolling Stones deram em Praga em 1990, o primeiro concerto rock na Checoslováquia pós-comunista. Por um milésimo de segundo, perguntei-me: foi afinal para isto?
Eu sei. Durante um milésimo de segundo, fui fascista.
Mas há toda uma série de perguntas a fazer depois desse milésimo de segundo que não são fascistas. Que talvez até sejam perguntas comunistas num mundo pós-comunista. Não por acaso, talvez, Mick Jagger cantava I can’t get no satisfaction.

O rei morreu, viva o rei! # 2



Na política dos grandes ideais comunistas também não é assim. Os grandes ideais comunistas não pertencem estritamente à ordem da política, nem são inteligíveis se reduzidos unicamente às regras desse quadro. É por isso que o luto dos grandes ideais comunistas é tão lento, complexo e diversificado. A questão fundamental do luto amoroso bem sucedido resume-se nisto: decidir qual o essencial a guardar, para melhor poder esquecer o resto e abrir espaço para a restante vida. No luto amoroso bem sucedido, o essencial que se guarda acaba sempre por ser a reconfortante certeza de que o amor, o movimento do amor, existiu, foi possível, é possível. Mil histórias para dizer isto, mil histórias multiplicadas por mil histórias para dizer ainda “amo-te”. Qual é o equivalente de “amo-te” nos grandes ideais comunistas? Parte da esperança política à esquerda reside em conseguir encontrar uma resposta mínima para esta questão. Não será por acaso que alguma esquerda europeia olha para Obama. Não é só pelo que diz, mas também como diz. Nessa outra ordem que não é estritamente política, sabemos que o amor diz o que o Outro é, como conteúdo, através da forma como o percepcionamos e intuímos. Em liguagem rock’on roll: I like the way she moves...

O rei morreu, viva o rei! # 1

No amor não é assim. Passados alguns meses — vi a peça em Abril —, o que me lembro com mais nitidez de Rock’on Roll, de Tom Stoppard, é uma pequena frase do velho Professor Comunista, “filosofando” sobre o fracasso da relação amorosa que tinha iniciado logo após a morte da sua mulher: “a dor não quer saber para nada se estás a ter grandes orgasmos e quão fantástica pode ser a tua nova vida; a dor dói-te e destrói-te, e tens de aguentar sozinho ir até ao fim dela.” Depois, haverá ou não a possibilidade de qualquer coisa. No fim da peça, esta relação reata-se — mas é já outra coisa. O velho Professor Comunista já tinha morrido o que tinha a morrer na morte da sua mulher.

Companhia nocturna # 29



Num mundo ideal, António Pinho Vargas teria oferecido essa melodia fabulosa que é «Tom Waits» a Keith Jarrett — digamos, como se fosse um standard —, e Keith Jarrett ter-lha-ia devolvido em triplicado, múltipla como o mundo que há em tudo, única como só as melodias assim podem ser.
Mas este é um mundo real, como me dizem as borboletas do poema de baixo que ouvem esta canção há muito, muito tempo.

E comove, bem para lá de não me comover



BORBOLETAS

Noites sem sexo são perfeitas, também: janelas entreabertas,
sombras que passam na rua através das horas, relâmpagos
que não chegam a iluminar as paredes do quarto. Românticos
que se encontram depois de viver vidas paralelas, cansados

- mas enlaçados antes que chegue a hora de partir, sem saberem
se amanhã há outro sono igual, ou uma escolha para fazer.
Os dois sabem que são doidos, estendem os dedos na escuridão
entre as luas. Os dois sabem que mais adiante podem arder
de repente no meio do Verão, consumidos pelos segredos

e pela indiferença. Noites sem sexo são perfeitas, também;
e raras, e condenadas e incompletas. Borboletas no estômago,
batendo asas contra todas as paredes do corpo - não deixando
que ele adormeça, inquieto e insatisfeito, voltado para dentro

e para o passado. Românticos que se encontrarn quando nenhum
deles esperava outra oportunidade, outro caminho. Nunca estamos
preparados, diz um. Nunca estamos, repete o outro, quando
a primeira borboleta sossega depois de um beijo em dívida.


Francisco José Viegas, Se me comovesse o amor, Famalicão: Quasi, p. 36

Companhia nocturna # 28

Do jazzmen que já foi — que de algum modo não deixou de ser —, muito material transitou para aqui. Com mais arquitectura, com mais densidade. Uma longa suite com muitos recantos para descobrir. Nunca é a técnica nem o improviso repentista (o que não significa que, noutros, estas não sejam qualidades admiráveis). É sempre a composição, o rigor que solta a música com o peso apropriado a cada momento.

A vida com árvores # 4

Alguns tenros ramos vibrando verde.
Algumas doces folhas em aéreos esboços esverdeados.
(agora vê lá se cresces até poder ser eu menino à tua beira)

WC Lectures # 27

Não dou propriamente muito pela aventura de comer — idiossincrasias, claro — mas sou um fã desta arte sobre as desventuras de comer...

Era exactamente assim que a coisa aparecia no meu telemóvel

e por isso eu desisti (bem, realmente nunca usei a função, e pelo pouco que se via não me pareceu que valesse a pena rebobinar mentalmente o livrinho de instruções). Mas ainda bem que alguém foi de opinião diferente. No resto, parece-se bastante com o que eu disse, só que o coro está mais afinadinho e melódico...