62

Uma voz para várias estações, que é como quem diz, para vários géneros. Alguma ousadia, como logo no tema de abertura, mas globalização oblige a refrear experimentalismo. A vida não está fácil, mas é uma pena.

61

Iphone e ratos, um pedaço de vida entre a cidade e a casa na periferia em época de crise do imobiliário. Um micro-conto para quem seja capaz, sem tempo para moralidades nem espaço para tréguas: fiz a chamada, a encomenda do grão já vem a caminho.

60

Praça Tahrir — a realidade pode ser sempre a grande surpresa.

59

Em 1969 eu não sabia sequer o que era um disco. Quando soube, adolescência alta, a minha música nunca passou por Amália, nem lá perto. Não estava à espera disto. O que há aqui de fado “corrido” (é assim que se diz?) não me interessa. Mas o resto, as canções — o resto é terrível, essa voz vem do início do mundo e vai para os fim dos tempos, é terrível. Mais que a perfeição, é terrível.

58

Claro que sou um otimista. Só com otimismo se aguenta a dose diária de cianeto e felicidade. Espera, otimismo? Não será antes estoicismo? Hum... Ah, já sei: epicurismo. Só um espírito epicurista dá o verdadeiro valor à dose diária de cianeto e felicidade.

57

Na oficina: memória e interpretação. Primo Levi em fundo, Isabela Figueiredo em jogo. Quando na memória do facto temos de incluir a interpretação para sabermos, afinal, que facto foi aquele. A veracidade não é o contrário da verdade, mas raramente coincide com ela.

56

Às escondidas (do trabalho, dos prazos, do sono).
Uma combustão a frio.

55

Pois, a sabedoria popular: quando deus fecha uma porta, abre sempre uma janela.
Cavaco por mais cinco anos, esquerda desagregada por mais anos que esses, o psd que se perfila não esconde ao que vem, e a crise, a !#%Merkel-Sarkozy%#! da crise, a !#%derivados&companhiaLda%#! da crise — para porta fechada não é preciso mais.
E a janela aberta, há uma janela aberta? Há. Não estava lá ninguém, o que até podia ser uma coisa de esquerda: deixar os mortos enterrar os seus mortos. Continua a não haver lá ninguém, mas alguma coisa se ouve. Para onde dá a janela, de onde vem o que se ouve? Não sei. Mas ouve-se. Que parva que sou.

54

Para irem anotando na agenda. E sim, eu prometo portar-me bem. Já quanto a avalanches não posso dizer nada, mais a mais quando mete doutores e tal.

53

Comprar pela capa (o nome de autor funcionou como aquelas classificações dos "derivados", triple AAA). 
Explicar pela capa: ritmos certos de animais diferentes mas da mesma condição, estrada ampla quase mainstream bem ancorada em paisagem de rotas secundárias, a melodia pequena luz dos dias.

52

Jon Stewart, acerca de mais uma daquelas cenas americanas de disparar ao acaso sobre a multidão: “Seria interessante que o discurso delirante de um psicopata não se parecesse tanto com coisas ditas em debates televisivos.” Pois.
Mas por outro lado — sim, por outro lado —, talvez isso não prove exatamente que o discurso político se tenha degradado, mas o inverso: o discurso psicopata tem-se apresentado cada vez mais lógico e inteligente. Na verdade, ele radicaliza essa lógica e essa inteligência. A linha de fronteira não é claramente visível, o inimigo é interno. Daí o medo.

51

Brilhante, como o anterior Israel Sketchbook, já em 2ª edição (este país existe, a criatividade neste país existe, o reconhecimento dela também vai existindo, etc e tal). Continuo a achar genial o rasto do desenho primitivo sob o posterior colorido, a sua presença fugidia, a sua manifestação de lugar. 
No blog do autor é possível ver algumas das páginas.

50

A queixa é recorrente: muita burocracia, muitos órgãos, muitas reuniões, não sobra nada para investigação. É quase verdade. Que fazem os queixosos quando são chamados a decidir? Eliminam um órgão, propõem métodos de trabalho mais informais, tentam ir directos ao assunto? Não. Acrescentam um órgão, se possível dois, formalizam ainda mais o processo de discussão e decisão, e querem estudos & pareceres externos & consultas internas antes de começar discussões intermináveis sobre se devem decidir ou não. Entretanto, queixam-se ainda mais. Estão satisfeitos: têm o perfeito álibi para continuarem a não fazer aquilo que em boa verdade não querem fazer (e a maior parte das vezes nem sabem realmente fazer).

49

Noventa por cento das citações de Agustina atiradas pelos congressistas fizeram sorrir a assembleia. Isto define um autor: a ironia. Culta, paradoxal, mas ironia. É também o que mais me prende a Agustina. E uma das coisas que me liga ao mundo.

48

"A tristeza nasce do facto de sermos interrompidos, sabem muito bem que é assim. Os comentários à obra dum grande artista não passam de vaidosas maneiras de o interromper." [Agustina, Dicionário imperfeito].
Nem sempre, nem sempre.

47

Audaces et défigurations. Colloque Agustina Bessa-Luís
Université Sorbonne Nouvelle Paris 3
20, 21 et 22 janvier 2011

46

Na oficina. Mala feita, ideias correndo, mil e uma coisas,  ainda mais três e um par de botas. Ou doutra maneira: "as pessoas são como o Buster Keaton: sérias e metidas em disparates com o ar mais natural do mundo" [Agustina, Dicionário imperfeito].

45

"O público não estima as informações demasiado francas; não vê nisso utilidade, porque fica a braços com a sua própria insignificância para corrigir as coisas; e não acha prazer em ser confrontado com a verdade, porque ela lhe não permite o suspense que, afinal, promove  a veneração devida a cada caso real" [Agustina Bessa-Luís, Dicionário imperfeito, p. 97]. Aplique-se isto às caixas de comentários do "caso" Carlos Castro / Renato Seabra, como aliás de qualquer "caso": a proporção dos comentários, e da sua demência, atinge o auge logo no início, quando nada se sabe e tudo se projecta. Vai diminuindo, e consentindo alguns lances de razoabilidade, à medida que alguma confessionalidade emerge e se ensaiam explicações "científicas". Quando vier a confissão e a verdade, com ou sem a ambiguidade irredutível que as pode acompanhar, ninguém comentará e ninguém assumirá que algum dia comentou. Mas ninguém estará orfão. Há sempre novos casos disponíveis, pelas mesmíssimas razões que todos os dias os jornais nos dão notícias de primeira página.

44

Tiras de 1926 a 1928.
1926?!
Sim, 1926 a 1928. Como quem diz 2011.
Trabalho impecável de restauro e publicação de Manuel Caldas.
Salvé, Cliff Sterrett.

43

Minimal, despojamento, musa parca – como quiserem. Dezassete brevíssimos poemas, entre o espírito do haiku e a notação ostensivamente banal em busca de amplificação significante. Que acontece porque é mais um livro de Adília Lopes, depois de muito silêncio. Por si mesmo, pouco saberíamos que fazer com ele — wait and see era o mais apropriado. Apanhar ar existe como suplemento a uma obra — e todo o suplemento é convite à re-leitura do todo.

42

Na oficina. Dicionário imperfeito. O chapéu das fita a voar. Agustina Bessa-Luís.
Os livros impróprios: o autobiográfico e a série como processo de re-leitura.
Não há post que aguente isto. Mas era bom que eu já o tivesse escrito.

41

ESTRAGON: Enquanto esperamos podemos tentar conversar calmamente, já que somos incapazes de ficar calados.
VLADIMIR: Tens razão, somos inesgotáveis.
ESTRAGON: É para não pensarmos.

Driving Miss Laura # 33

Já nas livrarias. A proposta de formulário pode ser descarregada aqui.



40

idem idem aspas aspas
*
Joanna Newsom, Have one on me
Bonnie Prince Billy & The Cairo Gang, The wonder show of the world 
Isobel Campbell & Mark Lanegan, Hawk
Robert Wyatt, For the ghosts within
Eels, Tomorrow morning
Eels, End times
Beach House, Teen Dream
*
Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti, Carlos do Carmo Bernardo Sassetti
António Zambujo, Guia
Márcia, Dá
Lokua Kanza, Nkolo
Lula Pena, Trouvadour

39

Ouvidos em 2010 (alguns serão de 2009 ou até antes, mas não sou júri nem nada, certo?).

Martina Jankova, Haydn songs: recollection
Amy Dickson, Glass & Tavener & Nyman
Patrícia Petibon, Rosso: italian baroque árias
Carl Philipp Emanuel Bach, Concerti a flauto traverso obligato II, Alexis Kossenko
Bach, Goldberg, Catrin Finch
Blasco de Nebra, Piano sonatas, Javier Perianes
Bach, Sonatas 1027-1029, chorals & trios, Bruno Cocset

38

Jazz em 2010. Vandermark e William Parker poderiam estar aqui, mas ainda não me chegaram. Há tempo.

Keith Jarrett & Charlie Haden, Jasmine
Brad Mehldau & Anne Sofie Von Otter, Love songs
Jason Moran, Ten
Mário Laginha, Mongrel Chopin
Kurt Elling, Dedicated to you
Charles Lloyd, Mirror
Christopher O’Riley, Second grace: the music of Nick Drake
Bill Charlap & Renee Rosnes, Double portrait
Stefano Bollani, Stone in the water
Ralph Towner & Paolo Fresu, Chiaroscuro
Winton Marsalis, Vitoria suite

37

Os seis primeiros fariam parte de qualquer lista de um ano razoavelmente bom, os seguintes talvez não. O filme de Sam Mendes pareceu-me o mais subestimado pela crítica, o de Baumbach aquele que me pede uma segunda visão. Algumas coisas de 2010 estão agendadas para dvd, depois falamos (ou não).

O laço branco, Michael Haneke
Eu sou o amor, Luca Guadagnino
Dos homens e dos deuses, Xavier Beauvais
Um lugar para viver, Sam Mendes
Whatever works, Woody Allen
Um homem sério, Coen
Shuter Island, Martin Scorsese
Um homem simples, Tom Ford
Greenberg, Noah Baumbach
O escritor fantasma, Roman Polanski
O americano, Anton Curbjin

36

Entre a realidade e a lenda, quase sempre se publicou a lenda. Entre a realidade e o preconceito, quase sempre se publicou o preconceito. A realidade não dá boas histórias? Dá, mas são mais curtas que a lenda e que o preconceito. Mais curtas também nas nossas reações: um espanto mudo em vez do interminável choradinho dos vencedores ou das vítimas. Portanto, antes de mais, nada afirmes, pergunta apenas. E espera pela primeira resposta, pela segunda, pela terceira. Continua a perguntar. Quanto não te responderem mais, é altura de começares a pensar. Estarás sozinho e por tua conta. Contra ti estarão a lenda, o preconceito, mas também a realidade. Não fomos feitos para as perguntas, muito menos para as perguntas depois das respostas.

35

E deu. Chega para mim e para todos. Raro exemplo nosso de novo cantautor. Se os deuses estiverem pelos ajustes, há-de dar ainda mais.

34

É qualquer coisa como isto, o que queremos. A incerteza é uma conselheira sábia, pede discernimento e isso protege-nos da alucinação da nossa verdade. Qualquer coisa como isto: o lusco-fusco do nosso desejo em negociação com a realidade do mundo.

33

É qualquer coisa como isto, o que queremos.

 Rosa Maria Martelo, A porta de Duchamp, Averno, p. 20 (clique para ampliar)

Driving Miss Laura # 32

Pré-publicação de Testamento Vital, de Laura Ferreira dos Santos, no Público de hoje. Dia 13 nas livrarias.

32

A lista nº 3. Uma ausência preocupante de ensaios, mas aconteceu. Quanto à arrumação, os dois primeiros vão-me acompanhar durante muito tempo (e tempo é um dos bens mais preciosos que não tenho), o resto vai por géneros.
*
Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia
Ferreira Gular, Em alguma parte alguma
*
Martin Amis, A viúva grávida
Ricardo Menéndez Salmón, Derrocada
Rosa Maria Martelo, A porta de Duchamp
Rui Manuel Amaral, Doutor Avalanche
Pedro Mexia, Nada de dois
José Ricardo Nunes, Alfabeto adiado
Rui Cardoso Martins, Deixem passar o homem invisível
*
Ferreira Gullar, Poema sujo
Carlito Azevedo, Monodrama
Paulo Henriques Britto, Macau
Luís Quintais, Riscava a palavra dor no quadro negro
Margarida Vale de Gato, Mulher ao mar
Armando Silva Carvalho, Anthero areia & água
Nuno Júdice, Guia de conceitos básicos
José Miguel Silva, Erros individuais
*
Pedro Eiras, Substâncias perigosas
Peter Zumthor, Atmosferas
Alexis de Tocqueville, Quinze dias no deserto americano

31

Aprender com os melhores. O segundo cd é dos encontros de Carlos Paredes com outros nomes ilustres. O último no alinhamento é com Charlie Haden. Longo encontro, um magnífico e superlativo desastre. Cada um a tentar sair do seu reduto, cada um a falhar para o seu lado. Paredes até roça a bossa nova, Haden roça aquela coisa esquisita e excitante a que lhe devia soar a guitarra portuguesa. Convém recordar Sartre: o jazz é para consumir no local, como as bananas. A imagem não é das melhores, mas a ideia percebe-se. Executou-se no local um gesto político corajoso. Hoje resta a música. Esta lição comovente de algumas fronteiras intransponíveis na figura dos seus maiores. Não há Paredes & Haden. Salvé grande Carlos Paredes. Ponto. Salvé grande Charlie Haden. Ponto. ( Sim, claro, é por isso: magnífico e superlativo desastre, a vida. What else?).

30

O pessimista não corre para a sua perdição, que todavia sabe que há-de chegar. Até lá, comporta-se como um humano sensato, e pode até dedicar-se àquelas artes que passam razoavelmente despercebidas no espaço público: a filosofia, a ficção, a poesia, digamos, o pensamento em geral.
O ressentido é o grande cronista social de todos os quadrantes políticos. Confundem-no sempre com o pessimista porque nos dá o fel nosso de cada dia, tarefa que desempenha com fidelidade admirável porque não tem dúvidas sobre si próprio nem ninguém lhe pede responsabilidades dos juízos errados do passado — a última coisa que o excelentíssimo público quer saber é que aqueles a quem aponta o dedo  não são afinal culpados mas apenas bodes expiatórios. Enquanto puderes apontar o dedo a alguém  com convicção está traçado o teu caminho para mais um dia, não há mais perguntas a fazer. O ressentido e o excelentíssimo público têm uma aliança indestrutível alimentada a convicção. Nada é tão auto-reprodutor quanto a convicção.

29

Um pessimista acha que apesar de algumas coisas correram bem, e apesar da manifesta boa vontade de algumas pessoas, a longo prazo tudo acabará mal.
Um ressentido acha que apesar de tudo correr mal, e apesar da manifesta vilania da quase totalidade das pessoas, tudo seria diferente se ele mandasse ou se pelo menos lhe dessem ouvidos.

Driving Miss Laura # 31

No Público de hoje, Laura Ferreira dos Santos comenta o parecer do Conselho Nacional de Ética sobre as propostas de Lei acerca do Testamento Vital: Fracturas, compromissos e "sabotagens" [pode-se ler aqui ou ampliando em baixo].


28

Não, que ideia, nada de confusões. Isso aí em baixo é apenas um exercício de cesuras (e algum desbaste) a partir de uma impressão real de trabalho — ou de distração dele, para sermos precisos. O mundo continuou nos seus gonzos, aquilo diz afinal o contrário do que diz, e por isso aqui continuo às voltas com o trabalho inacabado.

27

Quase nocturno

A cabeça rápida nas coisas que há
para fazer. O nevoeiro lá fora é apenas
o nevoeiro lá fora. Desço
a persiana de volta ao que a cabeça manda.

26

a cabeça lúcida rápida nas coisas que há
para fazer o nevoeiro lá fora é apenas
o nevoeiro lá fora olhá-lo desacelera
vejo grandemente o nevoeiro desço
a persiana de volta ao que a cabeça manda

25

momento alberto caeiro (na esquina com álvaro de campos)

a minha cabeça está lúcida rápida nas coisas que há para fazer
o nevoeiro lá fora é apenas o nevoeiro lá fora
olhar o nevoeiro desacelera a cabeça
vejo grandemente o nevoeiro lá fora
desço a persiana e volto triste lúcido rápido ao que a cabeça manda

24

Ok, vamos lá então a isso. Leio muito menos do que queria (a culpa é do re-ler, do escrever e da vidinha em geral), e no que leio nem sempre estão os livros que desejava. Dito isto, as razões de queixa são quase nenhumas. Seguem duas listinhas, para já: 1) as obras que fui dando nas aulas, sem distinguir cursos nem matérias,  e 2) as obras sobre as quais ensaiei, sem distinguir artigos ou perspectivas. 1) e 2) são ritmos muito diferentes de leitura e de comentário, mas isso fica para outra vez.

1.
Rei Édipo, Sófocles;
Hamlet, Shakespeare;
À espera de Godot, Beckett;
Caderno de memórias coloniais, Isabela Figueiredo;
O chão dos pardais, Dulce Maria Rebelo;
O Senhor Breton, Gonçalo M. Tavares.

2.
Caderno afegão, Alexandra Lucas Coelho;
Nenhum olhar, José Luís Peixoto;
Aprender a rezar na era da técnica, Gonçalo M. Tavares;
o nosso reino, valter hugo mãe;
o remorso de baltazar serapião, valter hugo mãe;
o apocalipse dos trabalhadores, valter hugo mãe;
a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe;
Medeia, Eurípedes;
Desmesura. Exercício com Medeia, Hélia Correia;
Medeia, Mário Cláudio

23



Dear DR. LUIS MOURAO,

The run up to Christmas was even more hectic than usual this year - the not-so-nice side of the snowy landscape we enjoyed in England in December- and so the email I intended to write before Christmas did not materialise, but I didn't want to allow 2010 to end without sending you all an enormous THANK YOU for having supported us through the release of all the recordings we made of the Bach Cantata Pilgrimage, ten years after the tour and five years after the first release. It really meant so much to John Eliot, myself, and all the musicians who took part in this millennial adventure that so many bought into the idea and wanted to collect the CDs, and it is a good feeling to "turn the page" on the BCP and look to the future and many more Bach recordings still to come.

We haven't forgotten the promise to record the Ascension Cantatas - which we are struggling to schedule at the moment but will definitely come - and we are still in  discussions to acquire the cantatas released on Deutsche Grammophon (although probably most of you will already own them....), but for the time being I can announce that this spring we shall be releasing  a live recording of the St. John Passion recorded in the Königslutter Dom in 2003, with Mark Padmore as the Evangelist and many of the BCP main soloists as well as Bernarda Fink. We are also planning to record the Motets in the autumn, which will be released the following year.

An email from me would not be the same without some "boring" stuff, but I thought I would confirm that, although your subscription is now complete, as a BCP subscriber we will continue to offer you a discounted price and priority ordering on our future Bach recordings, and I shall email you before each release with more boring bits on how to go about it!

In the meantime I would like to send you our very best wishes for a wonderful New Year full of music and joy!

Isabella Gardiner
www.solideogloria.co.uk

22

Dos tempos vindouros: não ficar morto antes de morrer.

21

Feliz ignorância — aquela que de repente nos conduz a um autor que sempre lá esteve e não sabíamos. Vasto mundo. Esgotamento da arte coisa nenhuma, apenas cansaço nosso — da arte errada (pode acontecer) ou do errado de nós (acontece demais).

Driving Miss Laura # 30

Testamento Vital: um artigo e o próximo livro.

20

19

Agora eu sou a mãe e tu és o filho. A história na antecâmara do seu desenlace.

18

A paciência meticulosa da morte, a indiferença com que adia para tempos que lhe sejam mais convenientes.

17

E à quinta temporada descarrilou de vez. Alguns diálogos têm ainda o humor corrosivo dos melhores tempos, mas o absurdo já entrou em águas da normalidade do baixo-poder. Foi bom enquanto durou.

16

"Nós não somos do século d'inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século d'inventar outra vez as palavras que já foram inventadas." [Almada Negreiros] E assim sucessivamente. Até já ser sabido e dizermos: acabou-se a paciência para essa retórica. E contudo, ser ainda preciso, mais uma vez, inventar as palavras que já foram inventadas. E assim sucessivamente.

15

Pediram-lhe um argumento, apresentou autoridade. Riram-se. Ofendido, apresentou mais autoridade, riram-se mais ainda. Depois mudaram de assunto e deixaram-no sozinho com a sua autoridade.

14

tens uma esferográfica preta?
semi-borrona.
não, normal.
normal não tenho quase nada, por estes dias.

13

 
Há dias que se prendem à memória
como se fossem o nome de um morto.
É o primeiro poema, mas é sobretudo verdade para a segunda parte do livro, "Retratos de mulheres", onde todo o amor é matéria de memória e distância, sem ser elegíaco nem impossível.
"Em cidade estranha" tem traços de flaneur, olho pictórico e uma alma estóica (quer dizer, sensível, não crente, não desesperada).

12

Um encontro talhado no céu, é assim que se diz?
Do primeiro disco falaremos depois. Mehldau musicou sete poemas de amor para mezzo-soprano e piano, Otter está nos seus domínios, e é bem provável que Mehldau tenha triunfado por inteiro onde outros (Jarrett e em parte Hancock) falharam. Para ouvir devagar e com outra disponibilidade que agora não tenho.
O segundo disco é mais jazzístico, Mehldau enorme e Otter... — bem, quem não a conhecesse perguntaria: "mas de que fora do tempo tão dentro desta música veio esta voz?". Para já, assim a uma primeira audição, duas obras-primas nesta segunda parte jazzística: Marcie (Joni Mitchell) e Calling you (Bob Telson). Vá, e uma terceira, por causa do touch dele e do riso dela: Blackbird (Lennon e McCartney).

11

Seria injusto não referir a parte de cinema. Actores em absoluto estado de graça. Rostos como pensamento. Uma câmara que lê devagar.

10

tudo nasce, tudo morre e nada grita
mais alto do que o vento sobre as árvores
[Daniel Francoy, Em cidade estranha, Artefacto]

Ainda, e sempre, o vento lá fora.

9


Pegue no Chopin. Desmonte, retire, altere, acrescente, remonte — crie. No fim, deve soar como escrito de raiz. Melhor, improvisado na hora. Jazz puro. Um dos discos do ano, muito bem entre o Jarret-Haden jasmine e o ten Moran.

8

O que escolhe ou o que se escolhe em nós quando escolhemos é um belo mistério. Para aqueles que sabem que há um mistério nisso, claro. Esses que sabem não perguntam porquê, dispõem-se a ouvir uma história, talvez até a acompanhar-nos na nossa história. Não perguntam por razões, sabem que as razões não explicam o essencial. Os outros — bem, os outros ajuízam. O tribunal do senso comum, ou pior ainda, a estupidez do completo auto-desconhecimento de si mesmos.

7

Vergílio Ferreira dizia que os místicos nada tinham a ensinar-lhe. Não era sobranceria, era comunhão num mesmo pathos da interrogação deslumbrada da existência e da aceitação louca da felicidade paradoxal do mundo.
Não quero rasurar o religioso do filme. Humanos de credos diferentes que rezam juntos, um arrojado discurso sobre o sentido da encarnação — uma humanidade que existe enquanto diferença e singularidade —, uma ética que toma as suas decisões passo a passo e conquista com sobriedade o seu limite no lugar de resistência que escolheu. 
Mas o que sobretudo me importa no filme é esse lugar humano onde a vida pode ser coisa diferente disto. O valor do silêncio e da palavra necessária, do ritual e dos caminhos aleatórios, da extrema concentração e do riso leve, da decisão mais torturada e da paz de ter decidido. Uma vida que, para se cumprir, não necessita de dominar ou explorar outra vida. São monges, estes homens? Sem dúvida. Mas são também uma história de humanidade que poderia ser contada com outras crenças ou ausência delas, e com outros intervenientes. Da mesma forma que, infelizmente, estas mesmas supostas crenças ou ausência delas poderiam ser uma história de desumanidade. 

6

Devo ser (ou estar) entre o insociável e o inamigável. Perdoem-me, não frequento. Não percebi ainda a vantagem de tudo isso. Gosto muito de vocês mas vou continuar a declinar. Têm o meu telemóvel e o mail, acho que é suficiente. Ofereço-vos a privacidade, acho que é o bem maior.

5

"Não devia ser engraçado. Simplesmente, não devia. Mas de facto é." 
Tão portentosa imaginação para a morte não diz assim tão mal da vida, bem pelo contrário. Em todo o caso, o humor negro é um privilégio, só concede as suas graças a quem o mereça.

4

Aquele momento em que, apesar de todos os teus esforços e truques, não consegues não saber o que sabes — o fim da tua vida como esse todo a que chamam vida, o começo dos teus restantes dias como resto e dia-a-dia.

3

O conhecimento que importa devolve-nos ao mundo como estrangeiros.

2

Há apenas um erro neste cd, que são duas canções em francês e uma em espanhol. Percebo a patine e os gostos pessoais, mas a voz de Carlos do Carmo não evita a sensação de estarmos a ouvir estrangeiro. No resto, impecável. Temos cancioneiro, temos até standards, Sassetti é irrepreensível e luminoso na exploração, Carlos do Carmo é afinal um crooner de alto quilate. Repito: temos cancioneiro, temos até standards. Malta do jazz, trabalho não falta.

1

Este blogue não é um diário, não é um jornal, não pretende ter ideias sobre as coisas, não se sente sequer obrigado a expôr as ideias que lhe calha ter. A que propósito vem isto? Vocês sabem o que eu quero dizer, e a verdade é que estou demasiado cansado para dizê-lo. Adiante.

Companhia nocturna # 85

A menina não só dança como bluesa feita gente grande.

WC lectures # 38

Ainda

Era um perdedor, mas sem a culpabilidade e o complexo dos perdedores. Alguns achavam que tinha tido a sabedoria ou a manha de ajustar devidamente as suas expetativas, mas ele bem sabia que se limitara a deixar seguir o mundo após ter tentado, como toda a gente, acompanhar a sua velocidade. Deixou seguir o mundo e pouco depois, simplesmente, esqueceu-se disso. Era extraordinária a quantidade de vida que existia nesses vastos terrenos por onde o mundo passara de uma vez por todas. Vida perdida, mas vida. Não havia outra maneira de dizê-lo, a palavra certa ainda era essa.

Reprise # 25

"Acrescento: entre o último poema escrito
e o que se segue, todo o cuidado é pouco."

Teresa M. G. Jardim, Jogos radicais, Assírio & Alvim

Companhia nocturna # 84

O fado é apenas o cais de partida, o resto passa-se lá longe, onde só há música e modos de a viver. Um esmero na palavra e na sua sonoridade, um requinte inventivo na instrumentação, uma voz sem alardes, perfeita no seu retraimento, que obriga a ouvir.

WC lectures # 37

Companhia nocturna # 83

Parece que já é dia lá fora.

Reprise # 24

O mundo é persistente. Estúpida, bondosa e inocentemente persistente. Não temos que escolher entre as três, elas vêm ter connosco ao mesmo tempo.

Reprise # 23

Há duas etapas na tua vida: primeiro és um ser vivo, depois um sobrevivente.

Reprise # 22

Vamos aos cemitérios por dever de memória. Mas também para obrigar a nossa incredulidade e o nosso escândalo à evidência do mármore e da terra.

trabalho de luto # 11


Futebol inteiro

Todas as relações têm os seus arquétipos. O Ademar começou por ser o irmão mais velho, e único, da minha namorada, depois o cunhado. Mas isto não é ainda uma relação, apenas o terreno circunstancial onde uma relação se pode desenvolver.
Houve uma história que o Ademar contou, era o resumo talvez de um romance, talvez de um filme, em todo o caso era uma história de exemplo. Dois homens que se conheciam já bem depois das eternas amizades adolescentes, que se acompanhavam em longas e silenciosas caçadas. Uma amizade masculina sem confissões, sem construção de memórias, sem consolo para o futuro. 

Foi esse o arquétipo. Contudo, nenhuma das razões que subjazem a esta amizade tão perfeitamente romanesca foram as nossas razões. Não éramos avessos à confissão, à importância crucial e por vezes cruel da memória, à necessidade de consolo — apenas tínhamos outros interlocutores para essa parte da vida. Cada família tem os seus equilíbrios, e por acordo tácito o lugar da nossa amizade foi fundado nessa espécie de silêncio com que se percorrem alguns espaços do mundo. Tanto faz que sejam os grandes espaços em que se procura a caça, como na história de exemplo, ou o pequeno campo e a eira em que jogávamos futebol, como de facto aconteceu connosco. Breve que fosse o jogo, era sempre esse longo olhar que pousamos sobre o mundo, e onde tudo repetidamente acontece pela primeira vez: a força e o cansaço, a paragem e a corrida, o instinto e a inteligência. E sempre, o princípio e o fim.
Futebol inteiro, era assim que dizíamos.

trabalho de luto # 10

trabalho de luto # 9

trabalho de luto # 8

trabalho de luto # 7

muito trabalho, muitas idas e vindas, muita música # 2

Não é só a voz de Robert Wyatt, é também o clarinete de Gilad Atzmon e o violino e viola de Ros Stephen. Alguns standards como nunca os ouvimos, tão frágeis, tão perto do essencial, tão para lá deste mundinho.

muito trabalho, muitas idas e vindas, muita música # 1

Tem Charles Lloyd, já há muito sem nada a provar a ninguém, entre composições suas, algum Monk e arranjos de tradicionais, soando tão jovem quanto o Chet Baker jovem, mas mais bluesy. E tem um trio superlativo: Jason Moran, Eric Harland e Reuben Rogers.

bloco-notas # 17

Um dia terei feito as contas à vida. Mas julgo que muito se passou atrás das costas. Fui onde não sei nem estive. Culpado e herói em pequenas proporções desconhecidas, irrelevante sempre para as contas maiores do mundo. Que de resto não sabemos quais sejam. Há muito que fugi pelas escadas que há sempre nas traseiras do rigor. Saí noutra rua tão principal quanto a da frente, com outros carros do mesmo trânsito, outras pessoas da mesma humanidade. Não há uma ciência para o mundo e as suas tarefas, menos ainda para o que se passa atrás das costas ou nas traseiras da vida. Vamos dentro do que não sabemos como dentro do nosso próprio corpo. Até que tudo pára, outros continuando.

bloco-notas # 16

Um dia terei feito as contas à vida.
Mas julgo que muito se passou atrás das costas.

*

Há muito que fugi pelas escadas curvas
Que há sempre nas traseiras do rigor.

*

Não há uma ciência para o mundo e as suas tarefas

*

Miguel Cardoso, Que se diga que vi como a  faca corta

Driving Miss Laura # 29

Hoje, o Testamento Vital no Prós e Contras (22h, rtp 1): Laura Santos, Galriça Neto, Daniel Serrão, Maria de Belém e Rui Nunes.

Mundo vivo


De Wynton Marsalis, as mais das vezes nem quente nem frio, antes pelo contrário. Mas houve Citi Movement, esse pináculo, e quem fez uma coisa assim pode sempre regressar das coisas irrepreensíveis de bom gosto mas nada excitantes. Vitoria Suite é quase sempre excitante. A ancoragem é clássica — a massa de som, as passagens, a ironia é Ellington by the book —, mas por sobre isso a enorme liberdade e frescura da coisa spanish (e dos spanish eles próprios: Paco de Lucia, Chano Dominguez, Tomasito, El Pirana). Uma mistura que é um mundo vivo.

Uma avalanche de narrativas

Ora bem, disse o manchas, enquanto esfregava as mãos de contente. Ora muito bem, repetiu, para o caso de não se ter ouvido logo à primeira. Lá ia ele começar mais uma nota crítica. Mas antes ainda disse mais uma vez: ora muito bem mesmo.

Partir

É uma música para partir, não para chegar. Não sei porque digo isto, mas sei que me está absolutamente certo. O resto não interessa (ou era tempo tirado à viagem).

bloco-notas # 15

Sim, talvez isso muitas vezes exija um esforço sobre-humano, uma auto-vigilância extenuante — não deixar que a nossa dor, individual, intransmissível e sumamente verdadeira, crie os seus pequenos bodes expiatórios. Somos tão miseráveis assim, quase tão involuntariamente miseráveis? Somos.

A vida com árvores # 11

A árvore acumula
Tempo
Mas sem nostalgia

[Alberto de Lacerda, O pajem formidável dos indícios]

bloco-notas # 14

O subentendido, a um tempo impróprio, mesmo falso, mas também radicalmente desafiador, de que compreender é aceitar.

Uma viagem à Índia # 1

Sim, a questão é agora o tédio, ou nos termos do sub-título: melancolia contemporânea (um itinerário). Mas o tom de dissecação imperturbável mantém-se, mesmo quando alargado ao humor negro. É por isso que ler é afastarmo-nos de Bloom. Bloom fica no seu definitivo tédio, o mundo prossegue. Ler é o prosseguir do mundo. Narrar é o prosseguir do mundo. Bloom não lê nem narra. Prosseguir é cruel. Não há aqui sequer a desculpa ainda heróica do sim nietzscheano, da inocência do mundo que se aceita como destino. Prosseguir é só prosseguir. Isso é cruel, porque sem desculpas, sem razões, e sem afastar a morte. Não se esperava consolo da dissecação do mal. Porque se haveria de esperá-lo da dissecação da melancolia?

Lloyd Cole goes la la la

man, o cd até se ouve bem, o peso da idade não é tão pesado assim, as líricas continuam em alta, as melodias desceram à planície mas não sou eu que me vou queixar em demasia, mas essa coisa do la la la é que não havia mesmo necessidade, e aqui para nós que ninguém nos ouve, esse departamento já está esgotado pelos la la la manhosos que a gente tolera no Cohen e nas angélicas vozinhas das meninas dele, é dose antiga, tás a ver o esquema?

Cadernos de Gonçalo M. Tavares | 27

Vamos ter que atravessar o óbvio: um livro de livros e da literatura toda que os livros fazem e imaginam para além deles. 
Vamos ter que nos lembrar do que literariamente já esquecemos, mesmo que até nunca o tenhamos sabido.
Vamos ter ainda que saber sair pela porta dos fundos desta síntese maior que as partes  tão diversas da obra de Gonçalo M. Tavares. 

 Depois, poderemos finalmente começar a ler, isto é, a separar-nos de Bloom — porque o mundo prossegue, mas nada que aconteça poderá impedir o definitivo tédio de Bloom, o nosso herói.


É nestas alturas que um gajo gostava de ter uma reputação qualquer que pudesse apostar: este é um dos tais

Hora de fecho

Persiana a descer no seu andamento elétrico. Borboleta entre a persiana e a janela. Persiana a subir no seu andamento elétrico. Borboleta de encontro à janela. Apagar a luz. Pausa. Acender a luz. Persiana a descer no seu andamento elétrico. Vazio entre a persiana e a janela. Apagar a luz.

Reprise # 21

No limite de cada um há um absoluto que vale para o todo, porque o preço que cada um paga é de facto absoluto e irreversível.

Kurt Elling # 2

esta terra não está feita para nós (Ruy Belo) — esta música sim

Kurt Elling

Coltrane e Hartman são colossos intimidantes, e o dueto acidental que os uniu em 1963 é uma referência absoluta para todo o amante de jazz. Só que Kurt Elling não é um qualquer. Não há hoje voz masculina no jazz que se lhe compare, nem desafio que o diminua. E os arranjos são perfeitos. A coisa arranha, como só Coltrane sabia; a coisa aveluda por dentro do arranhar, como só Hartman era capaz. A coisa sabe a Kurt Elling em assombrosa perfeição.

PS: é impressão minha, ou ninguém por cá falou disto?