
Pó
Nenhuma pergunta, nenhuma resposta,
nada podemos esperar,
junto às cancelas fechadas pelos guardas do
terror.
Pouco haverá a fazer,
sussurrou o anjo sobre a curva do meu ombro,
porque já não és nada,
porque ao pó hás-de voltar,
ainda que na linha dos teus lábios se detenham
duas gotas de mel.
José Agostinho Baptista, Filho pródigo, Assírio & Alvim, 2008, p. 94
Pó
48# 9
“Eu começo depois da escrita, toda a escrita começa depois
da escrita”
(Luís Quintais, Mais espesso que a água, p. 48).
Forma radical de dizer a idade.
Há um começo depois do fim em que nada começa ou recomeça porque o essencial já está sabido e devidamente perdido. Serás julgado pela forma como aprendeste e esquecido pela forma como perdeste. Nada disso terá muita importância, mas ficará escrito como tudo de alguma forma fica escrito.
Depois começa outra história, sem história que importe porque tudo está já para além disso. Alguns sabem-no — essa é a derradeira divisão.
Quase o verão
Voltando atrás #8
Só com isto, Pessoa não seria Pessoa, como só com As Farpas, Eça não seria Eça. Mesmo assim, há aqui mais inteligência e humor do que em toda a verve política a que agora temos direito. Isto não é uma queixa sobre a decadência da nação ou da pátria ou do raio a quatro, que esses nunca foram pobres que eu esmolasse. É um simples cumprimento de cabeça enquanto continuo caminho. Como dizia o outro: passar bem!
WC Lectures # 33
48 # 8
Não mudaste nada, dizem-me alguns, e querem apenas dizer que me reconhecem. Mas não há um medidor instantâneo do tempo que passa, e uma conversa de circunstância é apenas uma conversa de circunstância.
48# 7
Equilíbrio instável: o tempo afunila e obriga a escolher, e há nisso também alívio; mas antes a incerteza da escolha. E a questão nem é não ficarmos muitas vezes com o que escolhemos mas com o que nos calha. A questão é que o que nos calha quase sempre diz mais verdade sobre nós do que o que escolheríamos.
Um post para as minhas aulas ou Não era mau saber um pouco de história ou Olhe que se está a dirigir às pessoas erradas ou por fim Haja esperança
Este é um post para as minhas aulas, um post sobre reivindicação de direitos que deve ser atendido. Se bem percebo, Vasco Lobo Xavier (VLX) casou pela igreja, logo também pelo civil, mas perante a alta degradação do casamento civil — que agora mete divórcio por dá cá aquela palha, não defende nada nem ninguém, e previsivelmente vai abranger casamento de pessoas do mesmo sexo — quer descivilar-se (notem bem que eu não digo descivilizar-se, ok?) e re-casar-se, ou pelo menos re-afirmar o seu casamento apenas como sacramento à luz da sua fé e religião. Absolutamente de acordo. Compreendo que VLX não queira misturas indesejáveis, está no seu pleno direito de separar o que é da religião e o que é da sociedade civil, pode contar comigo para qualquer batalha civil nesse sentido.
Mas qualquer batalha tem que estabelecer claramente o seu inimigo, e aqui o inimigo não é o Estado. Não foi o Estado quem obrigou que todo o casamento religioso católico fosse automaticamente reconhecido como casamento civil, foi a Igreja quem o reivindicou e o quis na Concordata. Como primeiro passo, VLX terá de se dirigir à Santa Sé e solicitar-lhe uma revisão da Concordata que separe claramente o sacramento do contrato civil, de modo a que VLX possa ter o sacramento sem ter o contrato. Eu acho que a Santa Sé não irá nessa conversa, até porque o sacramento, ainda antes de existir o casamento civil, era entendido como tendo uma face contratual pela qual, no fundo, o Estado reconhecia o modo civilizacional que o Cristianismo tinha emprestado à organização das sociedades (claro que tais formas eram anteriores ao próprio Cristianismo, mas para efeitos de prática ideológica a memória social não costuma recuar tão longe...). Mas que sei eu? Estou de fora do clube, tudo o que posso garantir a VLX é o meu apoio moral à sua reivindicação e hospitalidade infinita caso o seu clube o expulse por achar que a sua posição atenta gravemente contra [o poder] a presença e influência civilizacional da Igreja no seio das sociedades.
Obtida a anuência da Santa Sé, VLX pode contar comigo na primeira fila do combate para que o Estado reveja a Concordata nesses termos. Sendo preciso, estou convencido que as outras religiões também darão uma mãozinha, segundo aquele tão velho princípio de que ou há moralidade, ou comem todos.
Haja esperança, portanto.
Prova
Este livro é a prova acabada de que os blogs não são livros nem andam lá perto. O que há de consistente na sucessão destes textos, os seus re-envios, a sua reflexão no osso, a sua mordacidade e salutar cinismo, a forma displicente e contudo minuciosa como faz um sistema de pensamento não-sistemático — tudo isto apenas o livro o deixa claro, porque reúne, porque o suporte papel criou certos dispositivos de leitura “naturalmente” atentos ao conjunto e que retiram da ideia de conjunto uma aproximação mais informada ao fragmento, porque lemos em confronto com o todo do livro e não na roda livre da dispersão dos posts.
Claro que podemos sempre dizer que a qualidade básica estava lá, nos posts originais — é um postulado correcto mas inútil. O pensamento não vive da pressa, mas do espaço à volta para ressoar, remoer, re-pensar — e num blog não há espaço à volta. É por isso que o texto da pequena política, da espuma dos dias, fica bem num blog — passa rápido como a conversa de café ou o desabafo entre duas tarefas, essas mesmas tarefas entre as quais se faz a pausa para ler o blog. Mesmo quando a pequena política tem a nobreza de dizer respeito ao único presente que temos para viver.
Companhia nocturna # 43
que chega a improvisar que é [melodia
a melodia deveras existente
48 # 6
Um blog tem isto de parecido com a idade: a operação de despojamento é não só difícil como sobretudo inútil. Como se despoja um blog? Cortando posts já publicados? Ninguém nota. Escrevendo menos? Ninguém falará em despojamento mas em mil e uma outras razões (e todas plausíveis, convenhamos). Morrendo de vez? Dirão que é a lei natural das coisas (e não serei eu a desmenti-los). Resta o lance difícil: deixar de querer que alguém perceba o que quer que seja das nossas decisões. É possível querer viver deste modo? Sim. É possível viver efectivamente deste modo? Não — onde o silêncio abunda, o equívoco super-abunda. É essa a prova a contrario que retiro da vida mística: o silêncio deles é apenas a disponibilidade inteira para falar com o único interlocutor que julgam realmente válido.
48 # 5
Às vezes basta isto: abrir a persiana pela manhã, o sol encher o quarto ainda ensonado. Um mecanismo felino anima todos os gestos, tempo limpo, presente, corpo vivo. Às vezes basta isto, e é inútil perguntar porquê.
48 # 4
Quando vejo a palavra
realidade a correr a meu lado, nada
faço para detê-la.
Os dias que se somam,
o vento do Norte,
o tempo que falta para a piscina,
as prestações,
o teu sorriso a exigir resposta, vão ainda
mais adiantados.
José Ricardo Nunes, Apócrifo, Porto: Deriva, 2007, p.28
Companhia nocturna # 42
Menos gripe, mais trabalho, um pouco de sol
Companhia nocturna # 41
A gripe, o trabalho, a gripe, a humidadechuvavento, a gripe, o trabalho, a cabeça que faz que anda mas não anda, a gripe, o trabalho, o concerto desequilibra o programa, o piano solo é suficiente, bach e transcrições de bach, pareceu-me muito solar, melhor meteorologia lá que aqui, a gripe, o trabalho — mas acho que já tinha dito isto, a gripe, o trabalho.
Companhia nocturna # 40
Ainda me lembro do choque de Mozart acorrentado ao passado nas mãos de Glenn Gould. Um Mozart espectro de Bach, sugado de toda a sua melancolia finamente joyeuse, uma coisa dolorosa de ouvir mas que me fez o seu ponto conceptual, no fundo tão simples: talvez Mozart não começasse com Mozart mas um pouco lá mais atrás...
Gulda olha para esse passado e põe Mozart a caminhar através dele em direcção a nós. O cd abre com a K. 331, o que tem a enorme vantagem de nos fazer saltar o dilema do ame-o ou deixe-o — adora-se e não se quer largar.
48 # 5
Natureza
Humanos?
Qual a diferença,
a ínfima dobra,
que faz a diferença?
Na resposta definitiva que não há, que outra dobra para além do próprio ponto de interrogação?
Voltando atrás # 6
Parece e é lógico: para cada história/texto, o seu traço e tom de cor. Mas não é fácil consegui-lo, muito menos sem deixar um rasto de família que vá anulando bastante as diferenças.
Relendo, são quadros falados que se movem segundo o rigor de uma série. De cada uma se pode dizer que nasce e morre dentro da sua própria vida. Custa-nos voltar as páginas, porque toda a vida é demasiado breve; custa-nos não estar já na próxima vida, porque este é um mundo sem repetição, apenas diferença feérica.
O homem que confundiu o blog com um chapéu
48 # 3
“Os esconderijos são inúmeros, a salvação é só uma, mas as possibilidades de salvação, por sua vez, são tantas quantos os esconderijos.” [Kafka, Aforismos, Assírio e Alvim, trad. de Álvaro Gonçalves, p. 50]
A salvação é não nos cortarem das nossas possibilidades. E as nossas possibilidades são o nosso panteísmo individual, intransmissível e portátil — onde quer que te escondas, para onde quer que vás, o que podes acompanha-te como uma sombra. Aí hiberna a tua angústia, aí habita a tua alegria. Também certeira morte em tempo incerto.
48 # 2
A raiz limpa, mas a gengiva escura de inflamação. O túnel está aberto, a operação de drenagem decorre imperceptivelmente. Devia haver uma metáfora qualquer nisto, até na precaução do antibiótico perante o lugar de passagem — a porta aberta para a expulsão do inimigo é o convite involuntário à entrada de outro (e pior) inimigo. Mas tudo o que há é uma nova consulta marcada e o plano banal de fechar uma via de comunicação imprópria. A metáfora é aí mais fácil: um dia a morte bater-te-á à porta, e não será para pedir licença para entrar. Mas os factos da vida não são metáforas da vida.
48 # 1
40
A selva escura, vejo-a agora nítida aos 40.
Numa antecipação do caminho que não meço
e que se abre de tão denso à minha frente,
numa escuridão que é apenas ignorância,
despropósito, aventura —
certeira morte em incerto tempo.
Luís Quintais, Mais espesso que a água, Cotovia, 2008, p. 91
Voltando atrás # 5
Sim, a voz e todas as suas nuances num reportório por demais clássico, e por isso mesmo desafiante. Mas este não é o meu mundo, e seria um espectador absolutamente exterior se não fosse o desvio jazzístico, sobretudo a cargo de um piano de gosto impecável e inteligência compositiva apurada. Na procura dos créditos, encontro afinal dois pianistas: o conhecido e excelente Gonzalo Rubalcaba, e o para mim completamente desconhecido Jaime Calabuch Junitus. Difícil dizer quem voa mais alto. Como o google foi de nula ajuda, fica aqui a pergunta: alguém sabe quem é (ou vem sendo) Jaime Calabuch Junitus?
Arrumando cd’s (alguns ficam sempre fora do lugar)
Tempo
Numa esquina que não reconhecerás,
Miles esperará por Bill, Bill esperará por Miles.
Luís Quintais, Mais espesso que a água, Cotovia, 2008, p. 35
Sol de dias frios
Um aforismo pode ir a todo o lado. Os aforismos de Kafka, na sua esmagadora maioria, vão apenas ao paraíso inicial e por lá se mantêm, pensando a expulsão, a permanência do éden, o trato com o mal. Em todo o caso são aforismos, não fragmentos de um tratado que não se chegou a completar ou que tenha sobrevivido truncado. Não pressupõem sistema, apenas deambulação. Não são órfãos de uma teologia já impossível, antes pesquisadores num mundo realmente tão estranho quanto parece sê-lo. O seu movimento é sobretudo afirmativo, sem aquela retracção que faz o tom de negatividade dos seus romances. Se há escrita solar em Kafka, é aqui que a encontramos. Sol de dias frios, mas sol.
Poesia & música
MENTE
Uma coisa-movimento,
assim, ao abrir a porta, e dentro
a música de a lembrar.
Luís Quintais, Mais espesso que a água, Cotovia, p. 15
Quando tudo está feito, o remédio é fazer tudo de novo como se fosse a primeira vez
Pois
O fim é um lugar seguro, eu sei. Pouco importa se hoje é ou não a véspera desse dia.
O estado deste blogue (como se isso interessasse a alguém)
Uma mancha dentro do nevoeiro é apenas parte do enevoado. A prudência aconselha que circule devagar ou que encoste em lugar seguro.
Voltando atrás # 4
Comecei a ver com desconfiança e pensando que talvez o fast-forward fosse funcionar muito. Mas a primeira cena mostrou-me que havia filme. A raiva com que ela agride verbalmente o namorado que decide acabar a relação por achar que não está à altura das suas expectativas, é um achado: vemos essa raiva em camaralenta, as palavras não se ouvem mas alguns insultos percebem-se na articulação dos lábios, e em off há a narração dele, tão impassível quanto auto-destrutiva. É um desses filmes escritos, essa mistura sempre perigosa de um texto que vamos ouvindo com imagens que não se limitam a ilustrar a história.
A galeria das personagens secundárias é óptima, com a sua bizarria cómica, por vezes terna. A história acaba bem, e não há particular mal nisso. E o núcleo fantasmático do filme deixa-nos com um leve sorriso sonhador: ele, que pinta e desenha, tem a capacidade de congelar o tempo, imobilizar as mulheres que escolheu para modelo nas suas tarefas quotidianas, despi-las um pouco na sua beleza recatada, retomar depois o mundo com esse acrescento secreto e imperceptível de uns quantos traços de uma paixão benigna.
Fantasia masculina com desculpabilização artística? Talvez. Mas não será por acaso que uma das personagens femininas diz que gostaria de ser amada por um pintor: eles estão atentos à beleza que mais ninguém vê.
Cookin / Relaxin / Workin / Steamin
Começa na pop requintada, acaba no jazz entranhado — uma dupla de fazedores como não há muitas, a verdade é essa (mas a realidade é outra: um país semi-periférico, musicalmente, é nada — mais que terceiro mundo para entrar na world music, menos que país central para entrar na vanguarda ou no mainstream que realmente vende).
PS: por contágio semântico de títulos (que não por programa musical), Chocolate reenviou-me às míticas sessões do Quinteto de Miles Davis de 56. Chocolate, o álbum, deixa-se bem descrever pelos títulos de cada uma dessas sessões; chocolate, a coisa comestível, também.
Voltando atrás # 3
Então será assim: o fio condutor da unidade curricular (tosse bolonhesa) teoria da literatura já está entregue ao Senhor Breton, e constitui um muito engraçado pertinente conciso novelo de dez perguntas dez. Toda a demais bibliografia propriamente teórica deverá ser considerada como o casario restante deste outro bairro. As reuniões gerais terão o Senhor Breton como anfitrião. Bem entendido, em havendo tão alta inteligência que tanto consiga, sempre se poderão socorrer do bom do Senhor Breton para conseguirem, como ele, não-responder às suas (extremamente decisivas) dez perguntas. Considerem este o primeiro e último aviso.
Voltando atrás # 2
A neve como pretexto
"Melancolia, aquilo que nos fica entre os dedos quando o esplendor das coisas reais e visíveis se escoa ou confunde com o diáfano Tempo, sósia do Nada."
A neve está a passar por aqui
Voltando atrás # 1
O processo de luto é um corte. Algo nos foi arrancado, partiu, desapareceu — esse é o facto. O luto é deixar partir, deixar desaparecer, deixar arrancar. É cortarmo-nos daquilo que já nos foi cortado — e continuar a haver vida. É por isso que o processo de luto pode ser hoje, involuntariamente, uma crítica radical do capitalismo planetário. Quando tudo se baseia em mais qualquer coisa, acrescento novo, acumulação sofisticada de capital — eis que alguém trabalha dolorosamente para perder, como única forma de ganhar a restante vida.
Um banco de jardim, um desses bancos onde se sentam os sem abrigo, os párias, os namorados perdulários, os contemplativos — é lá que se senta esse homem que tem de aprender a perder. Não admira que esse banco de jardim, esse homem agora no banco de jardim, se torne involuntariamente o atractor de uma complexa teia que envolve uma fusão de grandes empresas. O sistema corre para a perdição dos que o habitam, essa é a regra profunda do seu funcionamento — quem triunfa, triunfa sobre inúmeros derrotados. Eis que aprender a perder se apresenta como uma chave possível para o êxito — mas o que será um êxito assim?
O filme não responde nem teria que responder — até porque o não sabemos ainda. Sabemos dos excluídos, dos que se auto-marginalizam, dos que triunfam segundo as regras aparentes de sempre — do resto, não sabemos ainda. Mas nesse interregno do luto alguma coisa de diferente se traça. Que depois parece perder-se, é certo. A essa diferença o filme chama caos calmo. Depois do interregno, o caos da angústia, também conhecido pela designação simples de normalidade.
Jerusalém múltipla
Soa como um requiem pelo que deveria e poderia ter sido. Mas é um canto pela possibilidade que sempre há de a vida se parecer um pouco com a verdadeira vida. Haverá ainda tempo?
A faca não corta o fogo (outro comunicado interno)
Foi por causa destas seis razões — uma, duas, três, quatro, cinco, seis — percebes? Outra faca, outro fogo — e largas limitações minhas. Dois mundos antagónicos — e largas limitações minhas. Quem compreende, compreende. Eu compreendo — sobretudo a parte das largas limitações minhas. Mas as limitações só o são quando postas perante o que as delimita — a faca, o fogo. É por isso que faço como tu: passo a outro blog.
Sonhos
Comunicado interno: acabei aquilo (agora, exactamente agora). A última tarefa foi localizar na nova edição aquela frase que de repente me (re)saltou: cálculos, tentativas. Localizei, e percebi que me lembrava mal. A frase é: cálculos, sonhos, tentativas. A minha memória está a amadurecer comigo (wishful thinking?).
Breves # 2: um prémio merecido
Resumindo uma semana de interregno
Agradeço-lhe ter usado argumentos tão pobres, a tarefa de refutá-los está assim simplificada. Contudo, e espero que concorde comigo, sinto-me obrigado a ter também em atenção os argumentos mais sofisticados que poderia ter invocado, e que só não fez, estou certo, por cortesia e deferência para comigo.
António Alçada Baptista
António Alçada Baptista tornou-se-me visível com Os nós e os laços. Suponho que para muitos da minha geração terá sido assim. O que nos interessava naquele romance era a serenidade com que se dava o possível de relações afectivas que conseguiam passar ao lado do vulgar ciúme ou do já mais complexo desejo de posse, e que faziam da sexualidade uma alínea mais do diálogo humano. Depois da revolução dos costumes, depois da revolução sexual, afinal estava tudo ainda por fazer.
A figura do escritor era gentil, melancólica, afectiva — e isso também conquistava. A sua utopia “feminina” era uma bela história ética com personagens não muito credíveis — aceitávamos o princípio do cuidado, dos afectos, de olhar o mundo do lado de lá do poder, mas não nos parecia que as mulheres tivessem isso inscrito na sua natureza ou na sua sociabilidade histórica. Lembro-me de num colóquio em que ambos éramos intervenientes lhe ter dito, em provocação, que a sua “teoria” desconhecia, por exemplo, as personagens femininas da Agustina Bessa-Luís. Sorriu: considero a Agustina Bessa-Luís um grande escritor. E repetiu: um grande escritor. Sorri eu também, porque nesse um estávamos de acordo (e no grande também, claro).
Metáfora involuntária e melancólica: por três vezes orientei teses de mestrado sobre a sua ficção e o seu “ensaio”, por três vezes a vida deu voltas inesperadas e as pessoas tiveram de desistir. O riso de Deus é por vezes sardónico até dizer basta.
A última coisa que soube de António Alçada Baptista (sim, a minha ignorância é grande) é que lhe devia a Moraes — e foi bom sabê-lo. Só isso já seria suficiente para lhe dizer obrigado.
Oráculo, ou A mesma história de sempre # 4
Vivi pela espada, é justo que morra pela espada. Só nesta frase o conheci verdadeiramente e todos os equívocos se desfizeram. Soube enfim da sua lucidez e o modo como isso lhe permitia passar despercebido junto de todos. Conhecê-lo era começar a conhecer-me. Havia uma espada nas minhas mãos, ele o dizia. A sua morte à minha força e à minha vontade, sem que eu soubesse porquê. Mas não havia engano nas suas palavras. Eram palavras que não lhe pertenciam. O mundo falava das suas histórias de sempre, envolvia-nos nas suas histórias de sempre, ele limitara-se a descrever o que lhe calhara em sorte. Eu estava incluído na sua sorte. Eram palavras tão exactas e tão impessoais que soube que iriam ser também minhas. Daqui a alguns anos, daqui a muitos anos, naquele certo e determinado momento, iria dizê-lo a alguém, que tal como eu agora não faria ideia de que pertencia àquela história. Que tal como eu agora olharia minuciosamente a sua vida, procurando a espada, a fúria, a frieza, a determinação. Que tal como eu agora descobriria que desde muito cedo começara a viver pela espada, que nunca ousara sabê-lo embora o suspeitasse largamente, que havia um preço que alguém cobraria e que isso era o modo de o mundo continuar na sua trajectória.
Oráculo
Vivi pela espada, é justo que morra pela espada. Disse-mo a mim — eu, que não sabia que empunhava a espada, e muito menos que o matava.
A mesma história de sempre # 3
Tornar-se adulto, envelhecer (meros exemplos) — isto não pertence ao programa do devir do mundo. São narrativas das nossas ilusões mais genuinamente verdadeiras e complexas. O devir do mundo acontece quando “tornar-se adulto” e “envelhecer” não conseguem explicar tudo o que acontece dentro da narrativa de “tornar-se adulto” e “envelhecer”. Pode ser uma pequena percentagem, quase sempre não é mais do que uma pequena percentagem — mas é essa percentagem que é o devir do mundo. As coisas acontecerem sem nós, essa pequena percentagem de liberdade sobre a liberdade a que chamamos nossa.
A mesma história de sempre # 2
Um dos problemas em distinguir as histórias é a capacidade que cada história tem para apresentar-se como uma história diferente. Ou efectivamente ser uma história diferente. Há duas variáveis nesta questão: as nossas ilusões e o devir do mundo. Das nossas ilusões nunca acabaremos de saber; do devir do mundo, raramente começamos a dar conta.
A mesma história de sempre # 1
O mais difícil de perder é o hábito de criar coisas a que temos de ceder. Dizemos que cedemos a uma tentação como se nos submetêssemos a alguma coisa em vez de dizermos que criamos qualquer coisa para a ela nos submetermos. (...) Temos de nos lembrar continuamente de que os nossos vícios são invenções nossas, tanto quanto as nossas virtudes; de que nunca perdemos o controle, por vezes apenas infringimos as regras, e nunca somos inteiramente infiéis, apenas somos fieis a outra coisa.
Estamos mais interessados na regra que infringimos do que na regra a que obedecemos para a infringir. Enquanto estivermos viciados na culpabilização e na punição e não nas alternativas, nunca perceberemos a história toda. Apenas a mesma história de sempre.
Aquele órgão só de professores doutores por extenso # 11
“[na montagem] É quando os problemas de roteiro ou interpretação são percebidos e contornados, onde um personagem pode ser modificado ou um canastrão pode virar um ator razoável. (...) Há um milhão de maneiras de melhorar uma atuação na montagem. Nos momentos mais vergonhosos pode-se cortar para a cara do outro ator evitando o vexame, uma fala mal falada pode ser regravada e usada com a imagem do ator de costas e daí para afrente. Confesso que tenho um certo prazer quando consigo fazer isso sem deixar marcas da trapaça.”
Por mim, confesso que até não me importava que houvesse marcas da trapaça, desde que efectivamente pudesse haver um editing instantâneo das intervenções que tornasse a coisa só um bocadinho menos vexante de assistir, ou mais estética, ou até — eu sei que é pedir muito, eu sei — quase inteligente.
E à despedida apenas disse a frase de sempre, nada serve
É verdade que à distância as coisas se vêem melhor. Alguém imagina que um livro se possa hoje intitular Todo o alfabeto dessa alegria? Mas naquele tempo fazia mais que sentido. Naquele tempo de 1985, ainda fazia sentido todo o alfabeto e essa alegria. Entrados nos 90, José Amaro Dionísio reuniu todos os seus livros num só livro: O nome do mundo (1996). Era já um livro em contra-ciclo: o nome deixara de importar, apenas as marcas se ouviam; o mundo não era chamamento nem apelo, apenas mercadoria omnipresente.
Depois o autor desapareceu dos livros. Não de todo da escrita: este livro reúne precisamente pequenos textos (seis) de 94, 98, 2002, 2007 e 2008. O título Nada serve aparece em 2002. Acrescentemos-lhe uma parte do “Post-scriptum” que o encerra, e nada mais é necessário:
“Era só o que queria dizer. Depois da morte hei-de talvez acrescentar que cheguei a amar a perda do que amei, mas será tarde demais, o tempo é afinal uma possibilidade tão inútil como resto.”
*O título do post vem da dedicatória do livro: “para o Rui Athayde Ferreira, que me convidou para jantar na última noite, e à despedida apenas disse a frase de sempre, nada serve”
Quem sabe? Talvez o Génio apareça...
Dia 28 de Novembro (sexta-feira), às 21.30h, na Biblioteca Florbela Espanca, em Matosinhos, apresentarei o livro de Pedro Eiras, Os Três Desejos de Octávio C..
O génio sentou-se num tapete que apareceu naquele instante e explicou, com um bocejo:
— Obviamente, Octávio, tu não és o primeiro. Já pertenci a muitos donos desde que a sábia Sulamite me forjou. Já fui de imperadores e de escravos; os escravos quiseram ser poderosos e os imperadores quiseram ser eremitas. [da contracapa]
Podemos começar por aqui, por esta falsa simetria, por esta falsa reversibilidade. Porque ser imperador não é necessariamente o mesmo que ser poderoso, e ser escravo não é efectivamente o mesmo que ser eremita. Podemos começar por aqui, quer dizer, pela falsa simetria e pela falsa reversibilidade de todo o desejo. Mas pensando melhor, talvez não seja bom começar por aqui.





























